O Menino Que Descobriu o Vento / The Boy Who Harnessed the Wind

Nota: ★★★☆

O Menino Que Descobriu o Vento conta, de forma clara, límpida, competente, uma história fantástica, incrível, admirável. Que se torna ainda mais fantástica, incrível, admirável pelo fato de ser verdadeira.

É uma história de proporções épicas, como definiu o ótimo ator Chiwetel Ejiofor, que estreou na direção com este filme. Em entrevistas, como em uma que deu quando o filme foi apresentado no Sundance, o Festival de Cannes do cinema independente, Ejiofor contou ter ficado impressionado com as proporções épicas da história ao ler o livro The Boy Who Harnessed the Wind. O livro é a autobiografia do menino do título, William Kamkwamba, que escreveu com a ajuda Bryan Mealer, provavelmente um jornalista. Foi lançado em 2013, e logo depois que o leu Chiwetel Ejiofor comprou os direitos de filmagem.

O próprio ator escreveu o roteiro do filme, e, além de dirigir, interpretou o segundo personagem mais importante da história, Trywell Kamkwamba, o pai do menino William.

O verbo “descobrir”, que está no título brasileiro, não é o mais correto. Evidentemente, Michael Kamkwamba não descobriu o vento. Como mostra o título original, ele harnessed the wind. To harness significa aproveitar, tirar proveito de, dominar, explorar.

Nascido e criado no interiorzão miserável de Maláui, no Sudeste da África, entre a Tanzânia, Moçambique e Zâmbia, numa região assolada primeiro por inundações e depois por violenta seca, tendo tido apenas educação básica, Michael Kamkwamba se debruçou sobre os poucos livros disponíveis na biblioteca da escola do povoado de Wimbe e construiu uma turbina para, com a força do vento nas pás, acionar um dínamo e assim puxar água de um poço artesiano na fazenda da família.

Para montar a turbina de vento, usou pedaços da bicicleta do pai – o bem mais precioso da família –, o dínamo da bicicleta de outra pessoa, o professor de Ciências da escola do lugar, Mike Kachigunda (Lemogang Tsipa), troncos de árvores e materiais coletados no lixão de seu povoado.

Tinha 19 anos quando a torre com o moinho e a turbina fez sair água do poço artesiano.

A invenção de Michael acabou com o período de mais de ano em que sua família literalmente passou fome, muita fome – e mudou a vida das pessoas de sua aldeia, de sua região.

É muita miséria, uma miséria infinita

Sim, Chiwetel Ejiofor tem toda razão: a história de Michael Kamkwamba é épica. Tem a grandeza, a imensidão das histórias dos grandes épicos do cinema, de Ben-Hur a El Cid.

É uma ode ao que o ser humano tem de melhor: a inventividade, a criatividade, a capacidade de empreender, de lutar contra as mais terríveis adversidades, a capacidade de mudar a história, de fazer História. Ao fazer a elegia da criatividade de que as pessoas são capazes, o filme faz também, é claro, a elegia do estudo, do aprimoramento, das escolas, das bibliotecas, dos professores.

É como na canção de Pete Seeger, uma das mais belas que ele criou, “Bring Them Home”, que diz que os soldados americanos levaram para o Vietnã as armas erradas: “eles não têm as armas corretas; o mundo precisa é de professores, livros e escolas, e aprender algumas poucas regras universais”. Ou como dizia um professor de Filosofia que tive no Colégio de Aplicação: só o estudo faz uma pessoa melhorar de vida.

Sim, sim, é um filme que, no fim, nos enche de alegria, de esperança. A história de Michael Kamkwamba é uma história de sucesso, de superação – mas a alegria, a esperança só aparecem no fim. O filme é barra pesada, pesadíssima: Chiwetel Ejiofor conta a história de Michael e sua família a partir de 2001, e vai até 2006, quando o primeiro moinho, a primeira turbina de vento conseguiu puxar água do poço artesiano para irrigar a terra absolutamente seca do interior de Malaui. A conquista, a vitória, o triunfo, a alegria só vêm no fim – e aí não tem jeito de não revelar isso nesta anotação, por mais spoiler que seja.

O que eu quis realçar, ressaltar, é que quase todos os 113 minutos do filme mostram uma miséria sem fim, uma tristeza infinita.

É uma coisa que nós, de classe média, não conhecemos. Não conseguimos sequer imaginar. Creio que nem mesmo nos lugares mais miseráveis das grandes cidades, os Jardim Ângela, as Cidade de Deus, para dar um exemplo de São Paulo e um do Rio de Janeiro, as pessoas conhecem aquele nível de miséria.

Me ocorreu agora, ao escrever aqui, que a miséria de que o filme mostra no interiorzão de Maláui só tem paralelo com aquela que há em filmes sobre o Nordeste brasileiro nos anos 60, como Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, ou Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra.

O filme vai fundo na exposição da miséria

Não sei como será no livro autobiográfico que Michael escreveu com Bryan Mealer, mas o roteiro que Chiwetel Ejiofor criou a partir dele não tenta, de forma alguma, atenuar, suavizar, amenizar o quadro de dor e miséria. Bem ao contrário: ele vai fundo na exibição daquele fundo de fundo de fundo de poço que é a privação de tudo – até mesmo, e sobretudo, de comida.

A escola, a única escola do povoado de Wimbe, o mais próximo das terras da família Kamkwamba, não é pública, gratuita. É paga. Trywell (o papel do próprio diretor Ejiofor, como já foi dito) tem dinheiro para pagar a primeira parcela, e então William (Maxwell Simba) se matricula no que, creio, corresponderia aos anos finais do nosso ensino básico, o antigo ginásio. Mas, com a seca que chega, a família não tem mais de onde tirar dinheiro, e o diretor expulsa William e mais alguns garotos cujos pais não conseguiam pagar a escola.

As cenas que mostram o sofrimento do garoto por não poder continuar estudando são de fazer chorar.

E depois vem o período de fome mesmo. Trywell e sua mulher Agnes (Aïssa Maïga) são obrigados a fazer uma única refeição por dia, para dividir o pouquíssimo milho que resta com William e sua irmã Annie (Lily Banda), uma bela moça mais velha que ele, aí com uns 18, 20 anos de idade, e mais o irmãozinho rapa do tacho, temporão.

A sequência que mostra que Trywell não encosta na comida, para deixar o pouco que ha para a mulher e os filhos, é também de fazer chorar, de deixar o espectador em choque.

Há uma sequência que mostra a brutalidade absurda da polícia do presidente de Maláui, durante uma visita ao povoado de Wimbe – e várias sequências que demonstram como o esquema ditatorial, apesar da aparência de que se vive numa democracia, faz piorar ainda mais as condições de vida daquele povo sofrido demais.

Chiwetel Ejiofor foi corajoso, ousado, em sua estréia

Assim, eu repito, insisto: no fim, The Boy Who Harnessed the Wind é uma história de sucesso, de superação, uma elegia ao que a humanidade tem de melhor. Mas alegria, esperança, essas só aparecem no fim. Ao longo de, digamos, uns 105 dos seus 113 minutos, o filme é barra pesada, pesadíssima, uma tristeza infinita.

E, ao insistir nisso, quero chamar a atenção para o fato de que Chiwetel Ejiofor foi corajoso, ousado, em sua estréia na direção.

Demonstrou competência, acima de tudo: fez um bom filme, um filme de qualidade. Não cedeu a modismos, à vontade, comum entre os principiantes, iniciantes, de mostrar que é original, inteligente, diferente do normal. Nada disso: fez um filme de narrativa escorreita, direta, sem frescuras, invencionices, criativóis.

Mas, além disso, demonstrou coragem, ousadia. É óbvio que, para estrear com sucesso como diretor, seria muito mais fácil ter optado por um tema menos árido, duro, pesado. Entre fazer um filme feito para o sucesso de bilheteria e fazer um filme sério, necessário, embora seguramente voltado apenas para platéias maduras, e portanto necessariamente menores, Ejiofor escolheu o caminho mais difícil. Merece aplauso, respeito.

O diretor aprendeu a falar chichewa       

Chiwetel Ejiofor é um ator que se sai bem tanto em dramas sérios (o extraordinário Coisas Belas e Sujas, 2002, Cinturão Vermelho, 2008, o mais recente e incensado 12 Anos de Escravidão, 2013), quanto em filmes de ação, voltados basicamente para o público adolescente de todas as idades (2002, de 2009, Salt, de 2010). Dá-se bem até nas comédias (Simplesmente Amor, 2003, Melinda e Melinda, 2004).

Vejo no IMDb que, incansável, o cara trabalha também para a televisão e faz questão de manter uma carreira no teatro. Só para citar um exemplo, interpretou o papel título em uma montagem do Othello de Shakespeare ao lado de Ewan McGregor que lhe rendeu elogios copiosos e os prêmios Laurence Olivier e Evening Standard Theatre de 2008.

Ejiofor nasceu em Londres em 1977, filho de um farmacêutico e uma médica de origem nigeriana. Para dirigir esse filme em locação, em Maláui, e interpretar Trywell Kamkwamba, aprendeu a falar chichewa, a língua usada na região da família Kamkwamba.

O filme é todo falado em inglês e em chichewa; a língua oficial de Maláui é o inglês, que é falado ao mesmo tempo que as línguas das antigas tribos da região. Os personagens alternam inglês – na escola, no trabalho, em festas, cerimônias – e chichewa – quando estão em casa, entre os familiares, entre amigos.

Deve ter sido um processo interessantíssimo o de escolha dos atores para os principais papéis. Há pessoas das mais diferentes naturalidades reunidas no elenco. Aïssa Maïga, que faz a mulher de Trywell, mãe de William e Annie, nasceu no Senegal, filha de mãe senegalesa e pai nascido em Maláui mesmo, mas é, já há muito, uma francesa: vive na França desde que os pais se mudaram para lá quando ela estava com apenas 4 anos. Tem uma carreira sólida na França, com uma filmografia de quase 70 títulos que inclui Bonecas Russas (2005), Caché (2005) e Paris, Te Amo (2006).

Noma Dumezweni, que interpreta Edith Sikelo, a bibliotecária da escola, nasceu na Suazilândia e está radicada na Inglaterra. Trabalhou ao lado de Chiwetel Ejiofor em Coisas Belas e Sujas de Stephen Frears e recentemente esteve em O Retorno de Mary Poppins (2018). Não consegui informações sobre o país natal do garoto Maxwell Simba, que faz William, o protagonista da história, nem o de Lily Banda, a jovem que faz a irmã dele, Annie.

A história de William dá esperança

Quando apresentou seu filme no Sundance Festival, em janeiro de 2019, Chiwetel Ejiofor estava acompanhado pela bela atriz Aïssa Maïga, pelo garoto Maxwell Simba e pelo próprio protagonista da história, William Kamkwamba (na foto abaixo). O garoto que dominou o vento ainda é um jovem: nascido em 1987, está com apenas 32 anos no ano do lançamento do filme que retrata sua vida. Quer dizer: que retrata uma parte de sua vida, de sua juventude. Como já foi dito, o filme mostra eventos de 2001 até 2006, quando ele conseguiu fazer funcionar sua primeira turbina movida a vento.

A vida de William Kamkwamba a partir de 2006, a partir do ponto em que o filme termina, seguramente daria um belo filme – e não seria um filme triste, barra pesada, cono é este The Boy Who Harnessed the Wind.

O feito de William – a construção da primeira turbina – foi noticiado pelo jornal The Daily Times, da cidade de Blantyre, ainda em 2006. Em 2007, ele foi convidado para falar numa das TED, conferências sobre tecnologia, entretenimento e design, na Tanzânia – e saiu de lá com o apoio de vários empresários dispostos a pagar por sua educação. Em 2013, foi lançado seu livro autobiográfico, e a revista Time o incluiu na relação das “30 pessoas com menos de 30 que estão mudando o mundo”. Em 2014 se graduou no Darthmouth College em Hanover, New Hampshire.

A história de William Kamkwamba de fato dá alguma esperança. Quem sabe, no final das contas e ao contrário de tantos indícios, a humanidade não é uma invenção que não deu certo? Quem sabe será até mesmo possível que ela não termine de destruir o planeta, e consiga sobreviver, e avançar, e criar uma civilização que mereça esse nome?

Anotação em abril de 2019

O Menino Que Descobriu o Vento/The Boy Who Harnessed the Wind

De Chiwetel Ejiofor, Inglaterra-Maláui, 2019

Com Chiwetel Ejiofor (Trywell Kamkwamba, o pai), Maxwell Simba (William Kamkwamba, o menino)

e Lily Banda (Annie, a irmã), Aïssa Maïga (Agnes Kamkwamba, a mãe), Noma Dumezweni (Edith Sikelo, a bibliotecária), Lemogang Tsipa (Mike Kachigunda, o professor), Joseph Marcell (Wembe, o chefe da aldeia), Philbert Falakeza (Gilbert Wimbe, o filho do chefe), Felix Lemburo (John Kamkwamba, o irmão de Trywell), Robert Agengo (Jeremiah Kamkwamba, o filho de John), Fiskan Makawa (o padre), Fredrick Lukhere (Mkubwi), Hestingzi Phiri (Shabani Mkubwi), Rophium Banda (Mister Bamusi), Samson Kambalu (Joe Godsten), Raymond Ofula (Mister Ofesi),

Roteiro Chiwetel Ejiofor

Baseado no livro homônimo de William Kamkwamba e Bryan Mealer

Fotografia Dick Pope

Música Antonio Pinto

Montagem Valerio Bonelli

Casting Alexa L. Fogel

Direção de arte João Bueno

Figurinos Bia Salgado

Produção BBC Films, BFI Film Fund, Blue Sky Films,

Head Gear Films.

Cor, 113 min (1h53)

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