O Caminho das Tormentas / Khozhdenie po mukam

Nota: ★★★☆

O Caminho das Tormentas, minissérie russa de 2017, é a terceira adaptação da trilogia escrita por Aleksei Nikolaievich Tolstói e publicada entre 1921 e 1940. Concentra-se no primeiro período retratado na trilogia – uma das épocas mais turbulentas da História da humanidade, entre 1916 e aí por volta de 1920, os anos da Revolução Russa que derrubou o czarismo e instaurou o regime comunista. 

Conta, basicamente, a trajetória de duas irmãs ao longo daqueles anos de guerras, mudanças abruptas, miséria, tristeza, mortes, horror atrás de horror. Narra a história de personagens fictícias ao mesmo tempo em que faz uma descrição cuidadosa de todo o pano de fundo da Grande História que se desenrola.

Um gigantesco afresco.

E uma produção extremamente bem cuidada, com ótima fotografia, magnífica reconstituição de época. Não achei cifras, mas deve ter tido um orçamento bem grande. Há uma profusão de cenas de multidões, há dezenas e dezenas de locais, e foram usadas centenas de extras. Um luxo.

A série está na Netflix – e só o fato de ela estar disponível aos espectadores brasileiros já é algo para ser celebrado por todas as pessoas que gostam de cinema e/ou de História, o que mais ou menos engloba todas as pessoas inteligentes e que tiveram a oportunidade de ter alguma educação.

Não é apenas um precioso documento sobre um dos períodos mais importantes, mais impactantes, mais atribulados, mais dolorosos da civilização. É um belo trabalho, uma obra de qualidade, bom cinema.

Ao ver a minissérie de 12 episódios de cerca de 50 minutos cada, o espectador não precisa saber – Mary e eu não sabíamos de coisa alguma sobre a trilogia –, mas os três romances deram ao autor o Prêmio Stálin de 1943. Dá para imaginar uma coisa dessas? O retrato feito por Aleksei Tolstói (1983-1945) do período de transição do czarismo ao Estado Soviético mereceu as honras da ditadura stalinista em plena Segunda Guerra Mundial! É, portanto, uma narrativa que teve toda a aprovação do regime comunista.

A trilogia de Aleksei Tostói foi levada às telas duas vezes, antes desta aqui: no período Nikita Kruschev, foram feitos três filmes, lançados entre 1957 e 1959, e, na era Brezhnev, foi produzida uma minissérie de 13 episódios lançada na TV soviética em 1977.

Milhões e milhões de russos, ucranianos, georgianos, poloneses, checoslovacos, húngaros, alemães orientais devem ter visto a minissérie de 1977, que seguramente exaltava a bravura dos bolcheviques, dos soldados do Exército Vermelho. Christiane Kerner, a personagem feminina principal de Adeus, Lênin! (2003), a mãe do jovem Alex Kerner, fervorosa comunista, deve seguramente ter se emocionado com a minissérie. Bem, Christiane Kerner era tão fervorosamente comunista que deve também ter visto os três filmes feitos entre 1957 e 1959.

Comparar aquelas versões soviéticas com esta versão russa de agora seria, provavelmente, tema para anos e anos de cursos de cinema – e de sociologia, ciências políticas, todas as ciências relacionadas às humanidades.

Ver a minissérie russa de 2017, apenas ela, já é um imenso prazer – e um banquete para quem se interessa por História e política.

Uma história fictícia e a Grande História por trás

É bom registrar o quanto antes: Aleksei Tolstói tem, sim, algum parentesco com o Tolstói gigante, o conde Liev Nikolayevitch Tolstói (1828-1910), o autor de Guerra e Paz e Anna Kariênina – mas é um parentesco bem distante. Bem distante. Não consta que tenham sequer se conhecido. Mas Aleksei, assim como Liev, era nobre, era conde, nos tempos do czar. Como se aproximou dos bolcheviques, ganhou o apelido de Camarada Conde. (Não vem ao caso, mas os bolcheviques iniciais e o regime comunista como um todo sempre trataram bem o conde Liev Tolstói. Não tratavam tão bem Fiódor Dostoiéviski, mas respeitavam Liev Tolstói.)

Feito esse registro, de que Aleksei era apenas parente bem distante de Liev, é preciso dizer que, pelo que mostra esta minissérie Khozhdenie po mukam, seus romances seguiam à risca essa fórmula tão absolutamente russa, tão escancaradamente russa, de tramas longas, que atravessam décadas e décadas, que se passam nos mais diferentes lugares da Mãe Rússia, aquele país que não tem fim, e, sobretudo, se caracterizam por ter quase tantos personagens quanto um catálogo telefônico.

Pelo que mostra esta minissérie The Road to Calvary, como foi chamada nos países de língua inglesa, Le Chemin des Tourments, como foi chamada na França, os romances de Aleksei Tolstói têm muitas das características de Guerra e Paz, de Anna Kariênina, de Os Irmãos Karamázovi, de Doutor Jivago.

Guerra e Paz retrata a vida de um grupo de personagens em São Petersburgo e Moscou nos primeiros anos do século XIX, pouco antes da invasão da Rússia pelos exércitos de Napoleão; acompanha a guerra no front, o avanço dos franceses, a tomada de Moscou, e depois a retirada dos invasores, seguidos de perto pelo exército comandado pelo general Kutuzov. O microcosmo e o macrocosmo – a história de personagens fictícios com a Grande História por trás.

A minissérie baseada na trilogia de Aleksei Tolstói retrata a vida de um grupo de personagens em São Petersburgo e Moscou e Samara e Rostov a partir de 1916, através do czarismo, as lutas nos fronts de batalha na Primeira Guerra Mundial contra a Alemanha e o Império Áustro-Húngaro, o crescente e crescente e crescente descontentamento do povo e dos soldados russos com a guerra que não dizia respeito a eles, as revoltas e a revolução bolchevique de outubro de 1917 – e vai além, para a guerra civil entre os exércitos vermelho, o dos bolcheviques, e branco, o dos que se opunham       à nova ordem. O microcosmo e o macrocosmo – a história de personagens fictícios com a Grande História por trás.

É exatamente a mesma época, a mesma realidade que Boris Pasternak descreveu no fabuloso romance Doutor Jivago.

As protagonistas são as irmãs Kátia e Dasha

Quase tudo o que estou escrevendo aqui, aprendi depois que vi a série. Foi dando uma pesquisadinha que soube que a trilogia O Caminho do Calvário (tradução literal do título em inglês) é formada pelos livros Irmãs (publicado em 1921-1922), O Décimo-Oitavo Ano (1927-1928) e Manhã Sombria (1940-1941).

Dá para ver que esta minissérie russa de 2017 foi inteiramente baseada no primeiro livro da trilogia: a ação não vai além de 1921, 1922, com o governo bolchevique vencendo a guerra civil, se assentando.

As irmãs do título do primeiro livro, as protagonistas da história, são filhas de um médico de província, da cidade de Samara, o dr. Dmitri Bulavin (Sergey Koltakov). O dr. Bulavin só vai aparecer um pouco mais tarde: a ação começa quando a filha mais jovem, Dasha, chega de Samara à casa da irmã Kátia em São Petersburgo – e as duas se abraçam apaixonadamente.

Os nomes russos podem deixar um tanto confuso o espectador desacostumado a eles. Para cada nome, há ao menos uns cinco diminutivos carinhosos – e todos são usados pelos personagens, de acordo com o nível de intimidade de uns com os outros. O nome da irmã mais velha é Ekaterina Dmitrievna Bulavina, o que demonstra que é filha de Dmitri Bulavin; entre os diversos diminutivos de seu nome, o mais comum é Kátia, Katya na transcrição para o nosso alfabeto via inglês. Kátia é interpretada por Yuliya Snigir, uma atriz belíssima, nascida em 1983, 27 títulos na filmografia até 2018 (à direita na foto acima).

A irmã mais nova é Dária Dmitrievna Bulavina – mas Dária Dmitrievna só é usado por pessoas não muito íntimas. Para a irmã Kátia e para os íntimos, Dária é Dasha, ou Dashenka. Ela é interpretada por Anna Chipovskaya, atriz igualmente bela, uma moscovita de 1987, 30 títulos na filmografia até 2018.

Há uns 20, 25 personagens na trama

Kátia, a mais velha, é casada com um nobre, Nikolai Smokovnikov (Aleksei Kolgan), um advogado – e ela não é feliz no casamento. Acha o marido – um sujeito emproado, que fala demais – um chato de galocha. Tem fascinação por um poeta que impressiona toda a sociedade de São Petersburgo, um tal Aleksei Bessonov (Anton Shagin, um ator impressionante, na foto acima). Na verdade, Kátia vai ser tentada a uma noite com Bessonov – e essa única noite de infidelidade terá profundas repercussões. Ela confessa a traição ao marido, o casamento entra em crise feia; com o tempo, o marido dará a ela os meios para passar uns tempos na França, para que tudo passe, tudo seja esquecido.

Na França, Kátia conquistará – mesmo sem querer – a paixão fervorosa de outro russo, Arkadi Zhadov (Andrey Merzlikin). Esse Arkadi fará tudo para que Kátia fique com ele – mas ela não quer saber dele, e voltará para São Petersburgo para tentar reatar os laços com o marido.

Dasha, a irmã mais nova, tem uma paixonite pelo mesmo poeta Bessonov – mas aí Bessonov faz questão de ser um homem honrado: ele diz a Dasha que não poderia fazer mal a duas irmãs.

Dasha estuda Direito numa classe que tem também uma jovem revolucionária, numa época em que milhares e milhares de jovens queriam ser revolucionários, chamada Liza Rastorgueva (Svetlana Khodchenkova, mais uma atriz muito interessante).

Tanto Liza qunto Arkadi serão personagens muito importantes ao longo de todos os episódios da minissérie.

Mas, além das irmãs Dasha e Kátia, os personagens mais importantes dos cerca de 20, 25 da trama, serão Ivan Ilich Telegin (Leonid Bichevin) e Vadim Pavelevich Roschin (Pavel Trubiner). Ivan Ilich vai se apaixonar por Dasha – e vice-versa. E Kátia vai se apaixonar por Vadim Pavlevich – e vice-versa.

Quando cai o czar, quando o regime muda, quando começa a guerra civil, Ivan Ilich e Vadim Pavlevich se verão em posições opostas.

Um personagem fictício, com um revólver, diante de Lênin

A maior parte do que relatei aqui acontece bem no início da minissérie. A rigor, no primeiro ou no máximo no segundo episódio. Creio que não é o caso de avançar muito mais no relato da trama. Só acho absolutamente necessário registrar que, lá pelas tantas, um dos personagens tem diante de si ninguém menos do que Vladimir Ilyich Ulyanov. O personagem fictício está diante de Lênin, tem uma arma – e está ali para matar o líder maior da Revolução Russa.

Naturalmente, é impossível não lembrar que Piotr Bezukov, o protagonista de Guerra e Paz, também esteve diante de outra figura mastondôntica, pronto para atirar, matar, e assim reverter todo o curso da História.

Piotr Bezukov não atirou, Napoleão não morreu ali, em Moscou – e a História continuou tal qual a conhecemos. O imperador genocida só viria mesmo a morrer na ilha de Santa Helena em 1821. A personagem criada por Aleksei Tolstói não atirou, Lênin não morreu ali, e a História continuou tal qual a conhecemos. O líder que criou as bases da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas só viria mesmo a morrer em 1924, de morte morrida. Seria sucedido – contra sua vontade, ao que tudo indica – por Josef Stálin, que viria a se revelar um dos maiores genocidas da História.

E a trilogia escrita por Aleksei Tolstói, o Camarada Conde, seria laureada com o prêmio Stálin!

Na série, as pessoas são mais importantes que a ideologia

É absolutamente fascinante ver como esta minissérie russa, feita 27 anos depois que o Império Soviético desmoronou como um castelo de cartas, se baseia em livros que foram aprovados e premiados pelo comunismo – e, no entanto, não é, de forma alguma, uma defesa do regime, da União Soviética.

Ficamos com a impressão, Mary e eu, de que os realizadores da série, a roteirista Elena Rayskaya, o diretor Konstantin Khudyakov, pretenderam contar a história dos personagens criados por Tolstói, a Grande História como pano de fundo o tempo todo – mas sem tomar partido de um lado ou de outro. Quiseram fazer um relato tão neutro, tão objetivo quanto possível.

Quando, depois da Revolução de Outubro, começa a guerra civil, o Exército Vermelho contra os brancos, a guerra contra a Alemanha ainda acontecendo, a série acompanha os dois lados. Mostra que os dois lados cometeram crimes, e apresenta os argumentos dos dois lados, sem bancar nenhum deles.

A impressão que ficou foi de que um velho comunista inteligente, bem informado, não fanático, não acharia a série “reacionária”, “burguesa”. E um anticomunista nas mesmas condições não diria que a série é pró-bolcheviques, pró-comunismo.

A rigor, a série defende aquela maravilhosa posição de que as pessoas são muito mais importantes que as ideologias.

No penúltimo dos 12 episódios, há um diálogo absolutamente extraordinário que mostra isso. Acontece entre Dasha, a irmã mais nova, e o pai, o dr. Bulavin. O dr. Bulavin – a essa altura o espectador já sabe perfeitamente – é um crápula, e um vira-casaca. Um sujeito que apóia quem está no poder e pode proporcionar a ele algum ganho, alguma vantagem. Naquele momento, na cidade dele, mandam os anti-bolcheviques, e então ele se diz anti-bolchevique desde criancinha. E denuncia para as autoridades locais que está na casa dele um alto oficial do Exército Vermelho – Ivan Ilich Telegin, o marido de Dasha.

Ela diz: – “Pai, olhe para mim. Eu sou a sua filha. E você é meu pai. Isso é mais importante do que o governo e a opinião política do meu marido.”

E o pai, o rosto retorcido pelo ódio, pela cegueira: – “Não, mil vezes não. Vivemos em uma época em que relações de sangue não são nada perto dos vínculos ideológicos. Essas relações de sangue acabarão com a Rússia. Os vínculos ideológicos a salvarão.”

Os fanatismos – sejam religiosos, sejam ideológicos – são o caminho mais rápido para a infelicidade ampla, geral e irrestrita.

Anotação em março de 2019  

O Caminho das Tormentas/Khozhdenie po mukam

De Konstantin Khudyakov, Rússia, 2017

Com Yuliya Snigir (Kátia, Ekaterina Dmitrievna Bulavina), Anna Chipovskaya (Dasha, Dária Dmitrievna Bulavina), Leonid Bichevin (Ivan Ilich Telegin), Pavel Trubiner (Vadim Pavelevich Roschin), Svetlana Khodchenkova (Liza Rastorgueva), Andrey Merzlikin (Arkadi Zhadov)

e Sergey Koltakov (Dr. Dmitri Bulavin, o pai de Katya e Dasha), Anton Shagin (Aleksey Bessonov, o poeta), Aleksandr Yatsenko (Aleksei Krasilnikov), Evgeniy Stychkin (Nestor Makhno, o chefe de bando), Dmitriy Dyuzhev (Mamont Dalsky, o cantor e ladrão), Roman Madyanov (Olovyannikov), Aleksey Kolgan (Nikolai Smokovnikov, o primeiro marido de Katya), Evgeniy Tkachuk (Sergey Sapozhkov, o comandante vermelho), Lyubov Aksyonova (Ganna), Sergey Puskepalis (general Romanovsky), Andrey Chernyshov (Ivan Sorokin), Roman Kurtsyn (Mishka Solomin), Polina Dudkina (Marfusha, a empregada de Katya), Maxim Kerin (Sergey Konstantinovich), Nikita Kukushkin (Antosha Arnoldov), Aleksandr Galibin (Boris Savenkov)

Roteiro Elena Rayskaya

Baseado nos romances da trilogia A Estrada para o Calvário, de Aleksei Nikolayevich Tolstói

Figurinos Irina Ivanova

Produção Yuriy Sapronov, Timur Vaynshteyn, Aleksey Zemskiy, Vsemirnye Russkie Studii.

Cor, cerca de 600 min (10h)

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Título em inglês: The Road to Calvary. Na França: Le Chemin des Tourments.

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