Justiça Injusta / The Sound of Fury / Try and Get Me

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Nota: ★★★★

Este é um filme hoje bem pouco conhecido. Produção inteiramente independente em uma época – 1950 – em que isso raridade, não tem grandes astros; foi o último filme americano do diretor Cy Endfield antes que ele se mudasse para a Inglaterra, para fugir da caça às bruxas do macartismo.

No lançamento, foi um fracasso de bilheteria tão grande que os distribuidores, a United Artists, resolveram tentar um novo título, substituindo o original The Sound of Fury, o som da fúria, pelo mais apelativo Try and Get Me, tente me pegar. Os exibidores brasileiros inventaram um título absurdo, grotesco, que não tem absolutamente nada a ver com a trama, com o tema: Justiça Injusta.

E é um filmaço.

É forte, poderoso, impressionante. Sério, pesado, denso. E faz um discurso de lucidez impressionante sobre como o jornalismo sensacionalista incita as pessoas a reações emocionais, sem lógica, brutais, violentas – e sobre como, quando age como parte de uma turba, o ser humano perde completamente a razão.

Para designar The Sound of Fury e outros filmes noir com forte preocupação com questões sociais, com um viés “de esquerda”, o crítico Thom Andersen criou um nome: film gris, da palavra francesa para cinza, cinzento.

Não sabia de nada disso quando me sentei para ver o filme. Jamais tinha ouvido falar no filme, o nome Cy Endfield não me dizia absolutamente nada. E desconhecia completamente que alguém houvesse rotulado esse subgênero de film gris.

The Sound of Fury foi me surpreendendo a cada minuto.

É um filme marcante – e importante.

E impressiona muito, impressiona demais como os conceitos que o filme apresenta sobre a reação das pessoas diante da violência, da criminalidade, fazem falta neste Brasil de 2019.

(O cartaz abaixo mostra claramente como os distribuidores não apenas procuraram um título mais apelativo do que o original: fizeram sensacionalismo barato – e tentaram vender gato por lebre. A loura da foto, a atriz Adele Jergens, que faz a namorada do bandido da história, aparece muito rapidamente  – e não nessa pose sexy!)

O filme demora um pouco a mostrar a que veio

Há filmes que começam em tom maior, com algo surpreendente, forte, impressionante. The Sound of Fury é o contrário: abre com sequências sem impacto, com cenas cotidianas. Na verdade, o roteiro criado por Jo Pagano, com base em seu próprio romance The Condemned, usa os primeiros 10, 12 minutos do filme sem indicar para o espectador absolutamente nada do que está por vir.

E é interessante, porque o filme não é longo, bem ao contrário: são 92 minutos, segundo a caixa de DVD Filme Noir Vol. 7, lançado pela Versátil Home Video, e também segundo o IMDb, ou 85 minutos, segundo o guia de Leonard Maltin.

O filme usa 10, 12 minutos dos seus no máximo 92 para mostrar para o espectador quem é o protagonista da história, Howard Tyler, o papel de Frank Lovejoy, um ator que tem todo, absolutamente todo o jeito de um homem comum, médio, mediano, corriqueiro, indistinto, “normal” – se é que existe alguém normal, neste mundo de Deus e o diabo.

Na primeira sequência, um homem tenta falar de Deus para os seus semelhantes. Um pregador, um pregador que tem a ajuda de um grupo de pessoas, mas não consegue obter atenção de muitos semelhantes, numa rua central de uma cidade qualquer. As pessoas passam apressadas pela calçada e não param para ouvir as palavras do pregador:

– “Vocês devem olhar em seus corações e se perguntar se podem responder uma coisa: quanto cada um de vocês é culpado por todo o mal que existe no mundo? Por que fazem o que fazem? Por quê?”

Um cidadão mais apressado tromba no pregador e segue em frente, enquanto o homem que tenta chamar a atenção dos passantes para a palavra de Deus cai no chão – e aí começam os créditos iniciais.

É um daqueles filmes que fogem do esquema que era então o normal – na sua imensa maioria, os filmes começavam com os créditos iniciais, e só então vinha o início da ação. Aqui, não: não apenas há uma sequência antes dos créditos, como os créditos vão rolando enquanto já há ação na tela. Algo extremamente comum mais tarde, mas bastante raro na época.

Num posto de gasolina, à noite, um homem – veremos em seguida que é Howard Tyler, o protagonista – pede carona a um caminhoneiro: – “O senhor vai para Santa Sierra?”

A princípio, o caminhoneiro diz que não dá carona. Mas logo em seguida manda o homem subir.

A viagem é longa, mas o carona – Howard – não tenta puxar conversa. Fica quieto, em silêncio. Com o tempo, será o motorista que tentará puxar conversa. Oferece um charuto, Howard recusa. Oferece um palito para manter na boca, Howard recusa.

Diante de perguntas do caminhoneiro, Howard conta que mora em Santa Sierra. Que estava procurando emprego – soubera que estavam contratando na indústria química, e então tinha feito a viagem até aquela outra cidade, mas, quando chegou lá, viu que não havia vagas. O motorista sugere que ele talvez devesse tentar a sorte mais ao Norte, no Oregon, mas Howard diz que seria difícil, que está instalado em Santa Sierra, tem mulher e filho, e mais um a caminho.

Um pai de família bom, honesto – mas sem emprego

Sim, mulher e filho. Tommy (Donald Smelick) está aí com uns 9, 10 anos. E Judy (Kathleen Ryan, nas fotos acima e abaixo) está grávida de poucos meses, a barriga nem aparece ainda.

Judy recebe o marido com imensa ansiedade e uma pergunta: conseguiu emprego?

Ao saber que não, que o marido não conseguiu emprego, Judy não consegue disfarçar a frustração, a tristeza.

Tommy diz que os colegas de escola vão a um jogo, e ele precisaria de 50 cents. Depois que Howard dá 50 cents para o filho, Judy reclama: afinal, eles estão devendo dinheiro na venda do bairro, e ela não tinha 50 cents para comprar carne para fazer um almoço.

Com 8 minutos de filme, o diretor Cy Endfield e o roteirista Jo Pagano já nos desenharam o quadro. Já sabemos que Howard e Judy são boas pessoas, de bom caráter, e se amam – mas estão à beira do desespero porque Howard não acha emprego. São da Costa Leste, de Boston, e tinham vindo para a Califórnia porque dizia-se que a Califórnia era o novo Eldorado – só não sabiam, como uma hora lá Howard comenta, que um milhão de outras pessoas tinham feito a mesma coisa, e não havia empregos para um milhão de recém-chegados na Califórnia.

O filme já conseguiu que o espectador olhasse Howard e Judy com imensa simpatia.

E então, por acaso, ou por força do destino, por qualquer motivo que seja, Howard fica conhecendo Jerry (o papel de Lloyd Bridges). Jerry o seduz com histórias de um homem que ganha muito dinheiro, e poderia dar um emprego de motorista para Howard, se ele quisesse.

Quando o filme está com exatos 15 minutos, Howard – e o espectador – ficam sabendo que o tal homem que ganha muito dinheiro é o próprio Jerry. E que Jerry ganha muito dinheiro porque é um assaltante.

Judy está grávida, precisa de atendimento médico, logo precisará de hospital. Não há emprego. Howard aceita trabalhar com Jerry.

Aceita como quem dá-se ao carrasco, para usar a expressão tão cruel quanto poderosa criada por Chico Buarque. Aceita porque não vê outra saída – e o espectador sofre com ele.

Atenção: a partir daqui há spoilers

Justiça Injusta/The Sound of Fury, apesar de ser um filme pouco conhecido atualmente, está disponível em DVD, foi lançado no Brasil pela Versátil Home Video na caixa Filme Noir Vol 7, como já foi dito. E seguramente dá para achar o filme na internet.

Digo isso agora porque, a partir daqui, vou avançar sobre fatos que o filme só apresenta quando chega a 30 minutos, e, portanto, a rigor virão spoilers.

O eventual leitor que não tiver visto o filme não deveria ler a partir daqui. Seria muito melhor se ele visse o filme.

O filme se inspira em um caso real

Quando o filme está com 30 minutos, e Howard já participou, como motorista, de uma meia dúzia de assaltos, Jerry parte para o sequestro do filho de um homem riquíssimo da região.

É muito fácil o jeito com que Jerry, com a ajuda de Howard, pega Donald Miller (Carl Kent).

Surpreendentemente, Jerry bem depressa mata a sua presa, bem antes de enviar para o pai dela o bilhete exigindo resgate.

A sequência é brutal, e feita com maestria. Enquanto Howard fecha os olhos, apavorado, Jerry executa o crime, a sangue frio, como se matar um homem fosse algo normal como almoçar, beber uma cerveja.

E aqui é a hora de registrar que o romance The Condemned, de Jo Pagano, e portanto também o roteiro que ele mesmo escreveu para o filme, se inspiram numa história real. Em 1933, em San Jose, na Califórnia, dois homens foram presos pelo sequestro e assassinato do filho de um comerciante. O noticiário sobre o crime bárbaro provocou imensa comoção entre os moradores da cidade, que partiram, em fúria, como uma turba, como estouro de boiada, para fazer justiça com as próprias patas, perdão, mãos.

O sequestro e assassinato de Brooke Hart em San Jose em 1933 já havia inspirado outro filme, antes deste The Sound of Fury – e foi um filmaço, uma obra-prima que, bem diferentemente deste filme aqui de 1950, teve imenso, unânime reconhecimento da crítica. Fúria/Fury foi dirigido em 1936 – três anos apenas após os acontecimentos reais que o inspiraram – pelo respeitadíssimo Fritz Lang, um dos tantos e tantos e tantos grandes realizadores europeus que haviam se radicado nos Estados Unidos para fugir do nazismo.

Com Spencer Tracy e Sylvia Sidney no elenco, Fúria foi o primeiro e provavelmente o melhor de todos os filmes americanos do grande realizador alemão. Dele diz o Guide des Films de Jean Tulard: “Permanece um vigoroso libelo contra o linchamento e já traz o tema da vingança, que voltará a aparecer em diversos filmes americanos de Lang”.

É possível que o fato de que Fritz Lang já havia abordado o tema ainda em 1936 tenha concorrido para que este The Sound of Fury não tivesse tido amplo reconhecimento da crítica da época, e não tenha virado um cult. Não posso afirmar isso, não tenho elementos para isso. É apenas uma possibilidade.

Belos diálogos sobre jornalismo e crime

Um dos pontos mais fortes, mais impressionantes, mais incisivos, mais brilhantes deste filme surpreendente é como ele realça o papel da imprensa sensacionalista na formação de um caldo de cultura de cegueira, de ódio brutal, irracional, diante da violência, da criminalidade.

Para tratar dessas questões de fundo, dessas questões maiores, temas importantes para estudos nas várias áreas das ciências humanas – sociologia, antropologia, comunicações –, o autor e roteirista Jo Pagano criou dois personagens, que são amigos mas ao mesmo tempo representam visões opostas de mundo.

Um é o jornalista Gil Stanton (Richard Carlson), um sujeito emproado, que se acha genial, como tantos jornalistas que se encantam com o fato de seu nome passar a ser conhecido como se fosse um ator de TV. Gil é o grande nome do jornal de Santa Sierra, e o dono do jornal, Hal Clendenning (Art Smith), o convence a usar seu talento fazendo reportagens mais emocionais, emocionantes, sobre a criminalidade que anda crescendo ali na região – estava havendo uma onda de assaltos a postos de gasolina, lanchonetes.

Afinal, é preciso vender jornais – e sensacionalismo faz vender jornais. Grandes manchetes sobre crimes atraem as atenções das pessoas, as pessoas compram mais jornais. É um círculo vicioso. Qualquer pessoa que some 1 mais 1 sabe disso. Essa é a razão do sucesso dos jornais sensacionalistas, “populares”, é a explicação para o sucesso dos Datenas da vida, essa praga que dá no mundo inteiro.

O outro personagem é um cientista italiano, respeitadíssimo, amigo de Gil Stanton, a quem o jornalista preza muito. Chama-se Vito Simone (Renzo Cesana), e é um homem de absoluto bom senso, que defende aquela coisa básica, fundamental: as pessoas devem raciocinar com a mente, com a razão, e não com as emoções.

Depois que Howard é preso, e a polícia ainda busca Jerry, Vito Simone diz para Gil Stanton:

– “Você está condenando esses dois homens sem julgamento, sem investigação. Tudo isso é um apelo direto à emotividade dos seus leitores.”

E o jornalista: – “Mas essa era a idéia, Vito”.

O cientista: – “Mas isso é errado. Pode ter sérias consequências. Como jornalista, você tem grandes responsabilidades.”

E o jornalista: – “E eu tenho que arcar com elas”. Em seguida, interrompe a conversa, porque precisa ir para o tribunal, onde começaria o julgamento de Howard.

O diálogo entre o jornalista que escreve histórias sensacionalistas e o amigo dele que é contrário a tudo isso continua mais tarde. O professor Vito leva para a casa de Gil Stanton a mulher do homem que o jornalista vem definindo como um monstro – e Judy lê para ele uma carta que recebeu de Howard. Uma bela carta, em que Howard admite sua culpa e pede que Judy o esqueça, e toque a vida para frente.

É impressionante como a atriz Kathleen Ryan está muito mais bela nessa sequência do que em todas as outras em que ela aparece. A honradez deixa as pessoas mais belas.

Depois que Judy vai embora, o diálogo entre os dois, o jornalista e o cientista, continua.

Diz o cientista: – “Foi por isso que te implorei, pela manhã, que não trate esse trágico crime com sentimentalismo leviano.”

Gil Stanton está chocado com o encontro com Judy, com a carta de Howard, que mostra que ele não é um monstro. Mostra na expressão que está perplexo, que está raciocinando, que está ponderando. – “Mas Howard Tyler é culpado”, ele diz, tentando defender o que vinha fazendo.

– “Sim, Howard Tyler é culpado, mas o ódio não é a solução. É errado tratar Tyler e seu cúmplice como se não fossem seres humanos. Os homens não vivem no vácuo. Eles vivem uns com os outros. E se um homem se torna criminoso, às vezes é porque o meio em que ele vive é defeituoso. (…) Por isso decidi fazer palestras; do meu modo humilde, tento apontar que a violência é uma doença causada por um colapso moral e social. Esse é o problema real, tanto em relação às pessoas quanto às nações. E isso deve ser solucionado com a razão, não com a emoção. Com compreensão, e não com ódio. Só assim poderemos recuperar o centro moral do nosso universo.”

Os seguidores da Lei do Talião estão no poder 

O autor e roteirista Jo Pagano foi muito feliz ao criar os personagens de Howard e Jerry, um tão diferente do outro. Howard é basicamente um bom homem; numa situação terrível, de não ter como manter a família, comete o imenso erro de se associar a um criminoso. Hora nenhuma ele toma iniciativas violentas – muito ao contrário, se recusa a participar das ações violentas.

Jerry é completamente diferente. Jerry é de fato um psicopata, um criminoso, um sujeito que mata a sangue frio.

O xerife da cidade, Demig (Cliff Clark), um homem honrado, fala diversas vezes sobre a necessidade de que Howard e Jerry tenham um julgamento justo. A fair trial.

Em um julgamento justo, seguramente seria possível se estabelecer que a culpa de um tem um peso completamente diferente da culpa de outro.

Mas não há Justiça para os dois criminosos. Ao contrário do que diz o título brasileiro, Justiça Injusta. Não chega a haver Justiça para Howard e Jerry – o que há é justiçamento.

Os seres humanos se dividem em diversas categorias. Há, por exemplo, os racistas e os não-racistas; os que seguem as leis e os foras-da-lei. Mas uma das distinções mais claras, creio, é entre os que defendem cegamente a Lei do Talião, o olho-por-olho-dente-por-dente, e os que são contra.

A turba fictícia cidade de Santa Sierra, assim como a turba verdadeira da muito real Santa Fé em 1933, incitada pelos textos sensacionalistas do jornal, partiu para executar a Lei do Talião com suas próprias mãos. Não interessa se um planejou e executou os crimes e o outro foi apenas um acessório. Fazer distinção exigiria razão, e os que defendem cegamente a Lei do Talião não pensam – agem seguindo o que mandam seus instintos, suas tripas.

É de chorar, é apavorante ver que no Brasil dos últimos tempos a seita dos seguidores da Lei do Talião assumiu o poder.

Anotação em março de 2019

Justiça Injusta/The Sound of Fury/Try and Get Me

De Cy Endfield, EUA, 1950

Com Frank Lovejoy (Howard Tyler), Kathleen Ryan (Judy Tyler), Richard Carlson (Gil Stanton, o jornalista), Lloyd Bridges (Jerry Slocum, o bandido), Katherine Locke (Hazel, a manicure), Adele Jergens (Velma, a namorada de Jerry), Art Smith (Hal Clendenning, o dono do jornal), Renzo Cesana (Dr. Vito Simone, o cientista), Irene Vernon (Helen Stanton, a mulher do jornalista), Cliff Clark (xerife Demig), Carl Kent (Donald Miller, a vítima), Donald Smelick (Tommy Tyler, o filho de Howard e Judy), Dabbs Greer (Mike), Mack Williams (Prof. Martin), Jane Easton (Barbara Colson), John Pelletti        (Herb Colson), Mary Lawrence (Kathy), Lynn Gray (Vi Clendenning, a mulher de Hal)

Roteiro Jo Pagano

Basesdo na novela The Condemned, de sua autoria

Fotografia Guy Roe

Montagem George Amy

Música Hugo Friedhofer

Direção de arte Perry Ferguson

Produção Robert Stillman Productions, distribuição United Artist.

P&B, 85 min. Ou 92 min, segundo algumas fontes.  

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