Guerra e Paz / Voyna i Mir

Nota: ★★★★

O Guerra e Paz de Sergei Bondarchuk é um espetáculo, uma maravilha, uma preciosidade, uma pérola rara, inteiramente fora de série. É um monumental conjunto de exageros, de recordes, de marcas impressionantes.

É seguramente a melhor de todas as muitas adaptações para as telas da obra de Liev Tolstói – ela mesma muito provavelmente o melhor romance jamais escrito na História. É de uma beleza visual extraordinária, extravagante, fortíssima. As longas, detalhadas cenas de batalha estão entre as mais sensacionais jamais filmadas – na altura das de Glória Feita de Sangue (1957) e Spartacus (1960), do perfeccionista Stanley Kubrick, ou a antológica abertura de O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg. E as longas, cuidadosas, estilisticamente refinadas sequências de bailes são igualmente de deixar o espectador de queixo caído – na altura do que melhor fizeram Luchino Visconti em O Leopardo (1963) e Martin Scorsese em A Época da Inocência (1993).

Tem 7 horas e 11 minutos de duração, divididas em 4 partes. Levou seis anos para ser produzido, entre 1961 e 1967, e foi lançado ao longo de dois anos, em 1966 e 1967.

Foi o filme mais caro de toda a História do cinema soviético. Custou na época 8,2 milhões de rublos, ou cerca de US$ 9,2 milhões – o que, convertido pela inflação até 2011, dava cerca de US$ 67 milhões.

É um produto da Guerra Fria: o Ministério da Cultura do governo Nikita Kruschev se empenhou para que a indústria cinematográfica da União Soviética fizesse uma versão de Guerra e Paz que fosse em tudo por tudo superior à co-produção ítalo-americana dirigida por King Vidor nos estúdios da Cinecittà, em Roma, com Henry Fonda, Audrey Hepburn e Mel Ferrer nos três papéis centrais. A superprodução dos grandes Carlo Ponti e Dino de Laurentiis de 1956 (um filme muito bom, pelo que me lembro) havia sido lançada na União Soviética em agosto de 1959, e tinha feito grande sucesso, com 31 milhões de espectadores.

A camarada Yekaterina Furtseva, a ministra da Cultura, começou a planejar a produção de um Guerra e Paz soviético que arrasasse com a versão americana. A máquina estatal foi posta à disposição dos estúdios Mosfilm. O Ministério da Defesa colocou milhares de soldados para atuarem como extras – o Guerra e Paz de Bondarchuk tem mais extras que Os Dez Mandamentos de Cecil B. deMille. Entidades estatais providenciaram cavalos.

Nada menos que 40 museus “contribuíram com artefatos históricos, como candelabros, móveis e talheres, para criar uma representação realista da Rússia do século XIX”, como informa o bom verbete sobre o filme na Wikipedia. “Milhares de figurinos foram costurados, a maioria uniformes de diferentes tipos usados durante as Guerras Napoleônicas, incluindo 11 mil shakos. Sessenta canhões obsoletos foram adquiridos e 120 vagões e carros foram construídos especialmente para a produção.”

Um produto da Guerra Fria, uma obra feita conforme os cânones do Estado totalitário que faz absolutamente tudo – inclusive uma comissão para aprovar o roteiro.

E eis a maravilha: apesar de tudo isso, Sergei Bondarchuk conseguiu fazer uma superprodução cara, cuidadosa, oficial, oficialista, mas que é também uma bela, sensível, emocionante obra de arte. O diretor (nascido já pós-Revolução Comunista, em 1920, na Ucrânia, e que morreria em 1994, aos 74 anos) foi também o autor do roteiro, ao lado do dramaturgo Vasily Solovyov. E interpretou, ele mesmo, um dos três personagens centrais, Piotr Bezukhov. Sua mulher à época, Irina Skobtseva, ganhou o papel da princesa Helena, que se casa com Bezukhov.

É fantástico e emocionante: em muitos, muitos momentos, ao longo das 7 horas e pouco de bom cinema, Guerra e Paz passa bem longe dos cânones rígidos do realismo socialista. Mortos falam. A narrativa adquire tons oníricos, viajandões. E dá até mesmo para sentir – por mais estranho que possa parecer – que Bondarchuk, nesses momentos, fez um filme pessoal.

Foi um tremendo sucesso na União Soviética, com 135 milhões de espectadores. E obteve amplo reconhecimento no Ocidente: levou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Esse sucesso fez com que Bondarchuk dirigisse, em 1970, uma superprodução Itália-União Soviética, Waterloo, com um elenco de grandes nomes ocidentais – Rod Steiger, Christopher Plummer, Orson Welles. Foi uma das primeiras co-produções unindo URSS e um país da Europa Ocidental – se não a primeira de todas. Um marco.

O filme foi dividido em quatro partes

O conde Liev Tolstói escreveu Guerra e Paz cerca de 50 anos após os eventos históricos que ele descreve, mesclando com personagens inteiramente fictícios: o gigantesco romance foi publicado originalmente entre 1865 e 1869. A ação começa em 1805, quando o então jovem czar Alexandre I (o papel, aqui, de Viktor Murganov) era um admirador de Napoleão Bonaparte, que se autoproclamara imperador da França um ano antes, em 1804. Naquele mesmo ano de 1805, no entanto, Napoleão pôs seus exércitos para atacar os países a Leste, e, na batalha de Austerlitz, derrotou as tropas russas e austriacas.

É a primeira das batalhas reconstituídas no livro e também no filme. A ação do romance (e do filme) alcança seu ápice em 1812, o ano em que o exército de Napoleão invadiu a Rússia, chegando até Moscou, que foi abandonada por seus habitantes e em seguida parcialmente incendiada.

Com o meio século de distância, Liev Tolstói pôde contar, na reconstituição de eventos históricos, com diversas fontes – relatos, diários, livros de historiadores que são base de pesquisa até hoje, é claro. Só para se ter uma idéia: algumas frases que são ditas no filme pelas grandes figuras históricas são reproduzidas ipsis litteris no recente livro Os Románov, 1613-1918, do historiador inglês Simon Sebag Montegiore.

Bondarchuk e seu co-roteirista Vasili Solovyov deram o nome de um dos três personagens centrais criados por Liev Tolstói a cada uma das partes do filme, chamando de 1812 a restante. As quatro partes são, portanto, as seguintes:

* Andrei Bolkonski (140 minutos);

* Natasha Rostova (93 min);

* O Ano de 1812 (77 min); e

* Pierre Bezukhov (92 min).

Naturalmente, é uma divisão algo arbitrária: todos os três personagens centrais estão igualmente presentes em cada uma das partes do filme, é claro.

São, os três, personagens interessantes, atraentes, fascinantes. O príncipe Andrei Bolkonski (o papel de Vyacheslav Tikhonov), de família muito, muito nobre, é um homem rígido, de caráter forte, que exige de si mesmo uma perfeita disciplina, um comportamento correto, inatacável. Tem profundo desprezo pela vida na sociedade aristocrática de São Petersburgo, pelas festas, pelas fofocas. Admira e respeita o velho pai, o príncipe Nikolai Bolkonski (Anatoli Ktorov), sujeito ainda mais rígido, duro, que o filho. Gosta imensamente da irmã, a princesa Maria (Antonina Shuranova), uma moça que vai ficando solitária, solteirona.

Casou-se com Lisa (Anastasiya Vertinskaya), uma bonequinha linda, que, quando começa a ação, está grávida do primeiro filho do casal. Mas Andrei não demonstra nem grande respeito nem grande afeto pela bela e jovem mulher.

Militar de boa formação, Andrei é chamado para ser um dos ajudantes de ordens do comandante em chefe do exército do Império Russo, Mikhail Kutuzov (Boris Zakhava). O marechal Kutuzov é uma figura à parte, um personagem fundamental da História. Será preciso falar dele, nem que seja rapidamente, mais adiante.

Pierre Bezukhov não consegue juntar intenção e gesto

Muito diferentemente do príncipe Andrei, herdeiro direto de família muito nobre e que procura distância do mundo fútil, vazio, dos salões de São Petersburgo, é seu amigo Pierre Bezukhov (o papel que coube ao próprio diretor Sergei Bondarchuk). Pierre é filho ilegítimo do velho conde Bezukhov, fruto de uma aventura extraconjugal dele, e por isso não é muito respeitado em alguns setores da nobreza. E, embora não se sinta muito à vontade, embora tivesse vontade de fazer algo digno na vida, Pierre acaba convivendo sempre com os mais farristas, mais irresponsáveis homens da Corte, como o príncipe Vasili Kuragin (Boris Smirnov).

Ainda no início da ação, Pierre, Kuragin e uma turma de pândegos bêbados participam de uma rocambolesca aventura que inclui um passeio com um urso até o bairro das dançarinas – algo que vira motivo de fofoca em todas as reuniões da sociedade em São Petersburgo.

Na verdade, Pierre é um bom homem, uma pessoa de coração imenso e enorme vontade de tentar fazer o bem na vida. Mas, ao contrário do amigo Andrei Bolkonski, tem o espírito fraco, a determinação de juntar intenção e gesto pequena, débil.

É daquelas pessoas que são incapazes de fazer sua própria história, que vão sendo levadas pela vida, pela roda viva, pelos fatos.

Dois acontecimentos importantíssimos caem sobre seus ombros quando a ação de Guerra e Paz ainda está se iniciando. O pai, o velho conde, morre deixando toda a grande riqueza para o filho bastardo – oficializando nele o título de nobreza, deixando de lado a ilegitimidade. Tornado rico, vira um excelente partido para a bela princesa Helena, irmã daquele Kuragin devasso. Pierre não quer, não é isso que quer – mas cede aos avanços da moça e da família, e casa-se com ela. A mulher é o horror dos horrores, e a vida conjugal do pobre homem será um inferno.

A jovem Natasha é a própria alegria de viver

Casamentos infelizes, miseráveis, casamentos, ao contrário, satisfatórios, felizes. Há os dois tipos, como Liev Tolstói sintetizaria na abertura de seu grande romance posterior a Guerra e Paz, Anna Kariênina (1873-1877): “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

Os Rostov são uma família feliz – um oásis de felicidade naquele mundo de guerra e de paz. O velho conde Ilya Rostov (Viktor Stanitsyn) e sua mulher Natalya (Kira Golovko) são daquelas pessoas de bem com a vida: os dois se gostam demais, e adoram a penca de filhos – Natasha (Ludmila Savelyeva), Nikolai (Oleg Tabakov), Sonya (Irina Gubanova) e o garoto Petya (Sergei Yermilov). São todos alegres, festeiros, festivos – e, apesar do título de nobreza e da fortuna, são pessoas simples, que sabem curtir a vida em família, a presença dos outros. E, como moram em Moscou, estão bem longe das frescuras, da vaidade e da vanidade da corte e da sociedade de São Petersburgo.

Quando a ação começa, Natasha ainda não passa de uma adolescente. É algo que distancia bastante este Guerra e Paz de várias outras adaptações do romance para as telas.

Pierre Bezukhov é um bom amigo dos Rostov, é bem recebido na casa deles. Trata a garotinha Natasha com a atenção e o cuidado de um tio bondoso.

A moça é a alegria em pessoa, a joie de vivre, o entusiasmo por estar viva e ter o mundo pela frente. É impossível não gostar dela, não se encantar por ela – e eventualmente o príncipe Andrei, do alto de toda sua sisudez e apesar da diferença de idade, irá se apaixonar por ela.

Muito, muio mais tarde, depois que Napoleão chega a Moscou, que os russos abandonam a cidade, que a cidade é quase inteiramente destruída, aí então… Ah, mas não vem ao caso falar do final, certo?

Não é o czar, não são os generais: herói é o povo

Há, é claro, muita glorificação à Mãe Rússia – é bem típico das obras russas essa paixão desenfreada pela Pátria. E igualmente há muita glorificação ao povo russo – algo que é tão típico do romance original, dos textos de Liev Tolstói de uma maneira geral, quanto do cinema que se fez na União Soviética, desde as primeiras obras-primas de Sergei Mikhailovich Eisenstein e Vsevolod Pudovkin.

No romance, Liev Tolstói insiste sempre nesta tecla, e o filme vai no mesmo sentido: o grande herói é o povo russo. Não é o czar, não são os generais, não são os nobres. O marechal Kutuzov teve grande importância: enquanto era criticado como fraco, soube seguir uma estratégia firme de, na medida do possível, não medir forças cara a cara com um inimigo muito mais numeroso e poderoso; recuar em vez de perder dezenas de milhares de vidas; recuar, recuar mais – e fazer os exércitos inimigos irem penetrando na Rússia, onde em seguida enfrentariam o General Inverno. A princípio desacreditado, Kutuzov afinal venceu Napoleão, que teve que bater em retirada quando seus exércitos ficaram reduzidos a uma multidão de homens morrendo de frio e fome.

Mas herói mesmo é o povo russo. O grande vencedor, o herói, esse é o povo russo.

O filme mostra isso de diversas maneiras, com alguma insistência. Com os espetaculares travellings que acompanham os milhares e milhares de soldados se deslocando pelo solo russo sem fim. Com maravilhosos close-up de rostos de gente do povo.

É um show, um espetáculo.

“Versão mamute”, “acadêmica”, “deslumbrante”

Diz do filme o livro The Oscar Movies from A-Z:

“Versão mamute russa de mais de 6 horas de duração do romance clássico de Tolstói, através de 1805 até 1812, e seguindo os destinos de várias famílias aristocráticas durante a agitação da guerra contra a França e o ataque de Napoleão a Moscou e sua fuga. Ludmila Savelyeva é a jovem adolescente Natasha que cresce para uma trágica época de maturidade. Vyacheslav Tikhonov estrela como o príncipe Andrei e Sergei Bondarchuk, que também dirigiu, faz o desajeitado idealista Pierre.”

O Guide des Films de Jean Tulard diz: “O romance de Tolstói filmado como uma fidelidade que vira fetichismo. Com enormes meios, mas uma realização acadêmica no sentido ruim do termo.”

Nem sempre, é claro, concordo com o mestre Tulard – e eis aí uma das vezes em que discordo bastante.

Já o americano Leonard Maltin tem uma visão bem mais próxima da minha. Ele dá 4 estrelas, a cotação máxima, e faz esta avaliação:

“Mesmo nas salas de cinema, a dublagem ruim para o inglês prejudica essa versão definitiva do romance de Tolstói para o cinema. Mesmo assim, ele deveria ser visto simplesmente pelos valores da produção: um filme deslumbrante. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Originalmente exibido nos Estados Unidos em duas partes; lançado na URSS em 1966-67, em quatro partes, totalizando 507 minutos.”

Maltin escolheu o adjetivo correto: deslumbrante. Um filme deslumbrante.

E foi lançado aqui em uma bela caixa de DVDs sem o problema que o crítico americano apontou: o filme está na versão original, falado em russo.

Uma curiosidade: está no YouTube uma versão de “Dance me to the end of love”, de Leonard Cohen, usando trechos das sequências de baile do filme. É uma boa amostra da suntuosidade do filme de Sergei Bondarchuk.

Anotação em junho de 2019

Guerra e Paz/Voyna i Mir

De Sergei Bondarchuk, URSS, 1966 e 1967

Com Sergei Bondarchuk (Pierre Bezukhov), Vyacheslav Tikhonov (príncipe Andrei Nikolayevich Bolkonsky), Ludmila Savelyeva (Natasha Rostova),

e Oleg Tabakov (Nikolai Rostov, o imão de Natasha), Irina Skobtseva (princesa Hélène Kuragin), Anatoli Ktorov (príncipe Nikolai Bolkonsky, o pai de Andrei), Sergei Yermilov (Petya Rostov, o irmão de Natasha), Vasily Lanovoy (Anatol Vasilyevich Kuragin), Anastasiya Vertinskaya (Lisa Bolkonskaya, a jovem mulher de Andrei), Viktor Stanitsyn (conde Ilya Rostov, o pai de Natasha), Oleg Yefremov (Fedor Dolokhov), Antonina Shuranova (princesa Maria Bolkonskaya, a irmã de Andrei), Kira Golovko (Natalya Rostova, a mãe de Natasha), Boris Smirnov (Vasili Kuragin), Boris Zakhava (general comandante Mikhail Kutuzov), Irina Gubanova (Sonya Rostova, a irmã de Natasha), Nikolai Tolkachev (Kyril Bezukhov), Edvard Martsevich (Boris Drubetskoy). Dzhemma Firsova (Katishe Mamontova), Giuli Chokhonelidze (general Pyotr Bagration), Aleksandr Borisov (Tio Rostov), Mikhail Khrabrov (Platon Karataev), Viktor Murganov (czar Alexandre I da Rússia), Vladislav Strzhelchik (Napoleão Bonaparte), Vadim Safronov (Francisco I da Áustria), Nikolai Rybnikov (Vasily Denisov), Nikolai Trofimov (Tushin), Yelena Tyapkina (Akhrosimova), Herberts Zommers (Levin August), Larisa Borisenko (Bourienne),

Roteiro Sergei Bondarchuk & Vasili Solovyov

Baseado no romance de Liev Tolstói

Fotografia Alexander Shelenkov, Yu-Lan Chen e Anatoli Petritsky

Música Vyacheslav Ovchinnikov

Montagem Tatiana Likhacheva

Direção de arte Mikhail Bogdanov, Aleksandr Dikhtyar, Said Menyalshchikov, Gennadi Myasnikov

Figurinos Vladimir Burmeister, Nadezhda Buzina, Mikhail Chikovani, V. Vavra

Produção Viktor Tsirgiladze, Nikolai Ivanov, G. Meerovich, V. Krivonoschenko, Mosfilm. DVD Obras Primas – M.D.V.R.

Cor, 431 min (7h11)

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