Desobediência / Disobedience

Nota: ★★★★

Desobediência, co-produção Inglaterra-Irlanda-EUA de 2017, é uma beleza, uma maravilha, um filmaço. É um drama denso, pesado, sério, sobre a rigidez dos costumes de comunidades extremamente religiosas, em que a desobediência é pecado terrível, crime hediondo.

Uma beleza de filme a respeito da opressão exercida por uma sociedade tradicionalista, religiosa, sobre as pessoas.

É muito impressionante como todo o tom do filme é austero, severo, circunspecto, sóbrio. O diretor Sebastián Lelio, autor também do roteiro, juntamente com Rebecca Lenkiewicz, foge como o diabo da cruz de todo e qualquer toque gritante, ruidoso, de espalhafato. Outros diretores poderiam seguramente ser tentados a abordar os mesmos temas de forma mais sensacional, mais apelativa.

Desobediência passa a milhões de anos-luz do escandaloso. É admirável.

E é impossível evitar a constatação: que prova absoluta de maturidade desse jovem realizador chileno, que foi capaz de fazer de forma tão absolutamente sóbria esse mergulho nos costumes da comunidade de judeus ortodoxos da Inglaterra.

Seguramente teve grande ajuda da sua co-roteirista Rebecca Lenkiewicz, bem mais próxima, pelo que o próprio nome indica, dos costumes judaicos. E, claro, o material em que o roteiro se baseia é de quem conhece muito bem aquele universo: a escritora Naomi Alderman, autora do romance homônimo, publicado em 2006, nasceu – em 1974 – na comunidade de judeus ortodoxos de Londres. Seu pai, Geoffrey Alderman, é um historiado especializado na comunidade judaica na Inglaterra nos séculos XIX e XX.

“O homem é um ser com o poder de desobedecer”

O filme começa numa sinagoga, uma belíssima, ampla sinagoga – veremos que é em Londres, nos dias de hoje. Um rabino idoso, bem idoso, e evidentemente respeitadíssimo pela comunidade, está se dirigindo a seus fiéis. Chama-se Rav Krushka (Anton Lesser). Como é muito velho, frágil, doente, é apoiado por um rabino bem jovem – que, veremos depois, se chama Dovid Kuperman (o papel de Alessandro Nivola), e é o mais querido dos discípilos do veterano Krushka.

O rabino Krushka refere-se a Deus com um nome que eu, gói que não entende coisa alguma de judaísmo, jamais tinha ouvido – Hashem. Aprendi depois que Hashem é a palavra iídiche para designar O Nome, e é usada para se referir a Deus de forma temerosa, respeitosa.

– “No princípio, Hashem fez três tipos de criaturas – os anjos, as bestas e os seres humanos”, diz o rabino, com voz poderosa mas já pouco firme. Os anjos Ele os fez com Sua pura palavra. Os anjos não têm desejo algum de fazer o mal. Eles não podem se desviar um instante sequer do Seu propósito. As bestas têm apenas os instintos a guiá-las. Elas também seguem as ordens de seu criador.”

E prossegue, citando o livro santo do judaísmo:

– “O Torá diz que Hashem passou quase seis dias inteiros da criação moldando essas criaturas. Então, antes do pôr-do-sol, ele pegou uma pequena quantidade de terra e dela Ele moldou o homem e a mulher. Uma decisão a posteriori? Ou sua mais majestosa criação? O que vem a ser isso – homem, mulher? É um ser com o poder de desobedecer. Entre todas as criaturas, somos as únicas que têm o livre arbítrio. Nós ficamos suspensos entre a claridade dos anjos e os desejos das bestas. Hashem nos deu a escolha, que é ao mesmo tempo um privilégio e um fardo. Temos então que escolher o emaranhado da vida que vivemos.”

Assim que pronuncia essas últimas palavras, o rabino Krushka cai no chão. É cercado por várias pessoas.

Surge na tela a palavra “Disobedience”, corta, e na sequência seguinte estamos em um estúdio fotográfico em Nova York.

Que maravilhosas palavras diz o rabino!

Uau!

Quem está numa sala de cinema – o melhor lugar para se ver um filme – não pode, mas quem está em casa pode usar essa maravilha, essa invenção quase divina que é a tecla de rewind, de volta atrás, e ouvir novamente as palavras do rabino Krushka.

Que palavras!

Não é preciso seguir a religião do judaísmo, ou mesmo seguir religião alguma para mergulhar na beleza dessa descrição de que é que é, diacho, o ser humano.

Entre todas as criaturas, somos as únicas que têm o livre arbítrio. Ficamos suspensos entre a claridade dos anjos e os desejos das bestas. Com o privilégio e o fardo de poder escolher – e até mesmo desobedecer.

Que maravilha.

Ninguém, no velório, esperava ver a moça

Corta, e estamos em um estúdio fotográfico em Nova York. Roni, a fotógrafa, mulher no auge da beleza dos seus 40 e tantos anos (o papel de Rachel Weisz, lindérrima), está em plena ação, fazendo retratos, portraits – à la Annie Leibovitz, à la Richard Avedon – de um senhorzinho careca, barbudérrimo, sem camisa, o peito e os braços completamente ocupados por tatuagens. Roni trabalha devagar, com a segurança de quem é artista reconhecido no trato da máquina que reproduz a verdade, enquanto conversa com o retratado, faz perguntas sobre uma ou outra parte do emaranhado de tatuagens.

Uma assistente a chama para atender ao telefone. Ela responde um “Agora não” firme, mas a assistente não desiste.

Corta, e teremos, depois dessa segunda sequência dentro do estúdio –

calma, suave, até longa – diversas sequências em tomadas rápidas. Roni andando nas ruas. Corta rápido, e Roni está num bar. Corta rápido, e Roni está trepando de pé, provavelmente num banheiro, com uma pessoa de quem nem vemos o rosto. Corta rápido – e vamos vendo Roni esquiando numa pista de gelo, Roni sozinha num vestiário, Roni num avião, Roni no aeroporto, Roni num táxi, Roni puxando uma mala com rodinhas numa rua de bairro residencial de Londres.

Quando o filme está com 7 minutos, ela está pedindo a uma moça que atende à porta para ver Dovid.

O rabino Krushka está sendo velado naquela casa, que está repleta de gente da comunidade, seus fiéis, seu rebanho – e a chegada de Ronit Krushka, sua filha única, é absolutamente inesperada. O espectador percebe isso perfeitamente. A reação das pessoas é de total espanto, incredulidade. A situação é horrorosa, esquisita, torta, pavorosa – daquelas situações em que você gostaria de desaparecer dali por encanto, por mágica.

Ronit enfrenta a barra estoicamente.

O jovem rabino Dovid, o preferido do rabino Krushka, fica um tempo a sós com a filha pródiga do mestre.

Dá para o espectador perceber claramente que os dois haviam sido muito próximos – cheguei a pensar que eram irmãos. E que Ronit havia abandonado a comunidade fazia muito tempo, se estabelecido do outro lado do oceano, e ficara sem contato com o mundo que deixara para trás. Tinha virado uma outra pessoa, Roni – e parecia mais uma gói que uma judia legítima.

A sensação de que ninguém contava com a presença dela para os funerais do próprio pai é evidente, claríssima.

Uma outra mulher entra no cômodo em que estão Dovid e Ronit. Chama-se Esti, e é o papel da outra Rachel do elenco, Rachel McAdams.

Ronit leva um minuto, talvez um minuto e meio, para perceber que Dovid e Esti estão casados.

Ela demonstra uma surpresa imensa ao saber disso. É uma surpresa tão grande quanto a daquelas pessoas todas diante da presença dela ali.

Estamos, neste momento, com 15 minutos do filme que tem 114 de duração.

É bom ver o filme sem saber nada sobre a trama

Há filmes que fazem questão de deixar bem claro, desde o início, de que ele vai tratar, quais são os pontos fundamentais da história que virá a seguir. Desobediência é bem o oposto: é um daqueles filmes que vão apresentando bem devagar, bem aos poucos, os elementos da trama – e fazendo questão de que o espectador demore um pouco a perceber para onde os acontecimentos vão levá-lo. A rigor, o ideal seria que o espectador não soubesse nada, ou quase nada, da história, ao sentar-se diante da tela. Quanto menos souber, melhor será o prazer de ir descobrindo pouco a pouco as informações sobre o passado dos personagens, à medida em que elas vão sendo lentamente apresentadas – as informações que explicam o comportamento daquelas pessoas no momento presente.

É um daqueles filmes que mereceriam sinopses muito cuidadosas, para não revelar logo informações que só virão quando a narrativa já está bem avançada.

Assim, a rigor, a rigor, o eventual leitor que não tiver visto ainda o filme, e pretenda vê-lo, deveria parar por aqui.

Basta saber que é um belíssimo filme, com um elenco impecável e intepretações soberbas dos três atores que fazem os protagonistas da história, Rachel Weisz, Rachel MacAdam e Alessandro Nivola.

Na minha opinião, os cartazes do filme são um terrível spoiler – e por isso não usei a reprodução do cartaz no início deste texto. Preferi colocar a capa de uma das edições do romance.

O roteiro é construído de tal forma que o espectador demora muito a ficar sabendo o que, afinal de contas, houve no passado daquelas pessoas – o rabino Krushka, sua única filha e os dois maiores amigos dela na juventude, Dovid e Esti. Por que motivo Ronit se afastou tão completamente do pai, dos dois amigos, de toda a comunidade. Por que não apenas preferiu viver do outro lado do oceano, alterar o nome, abandonar os costumes judaicos, como também deixou de ter qualquer tipo de contato com o mundo que ficou para trás.

Só quando o filme está com 45 minutos as questões básicas começam a ser respondidas.

Não é contra a religião – é contra o mau uso dela      

Desobediência não é, de forma, um filme contra a religião judaica, contra as religiões. É, sim, contra o que as pessoas, os grupos, as comunidades fazem com a religião, com a fé. Contra essa coisa – presente em todas as religiões – de a comunidade usar a religião como desculpa, justificativa, para criar proibições, para cercear as ações das pessoas.

Para, como realça com perfeição aquele discurso inicial do velho rabino Krushka, impedir que as pessoas exerçam o que Deus – Jeová, Hashem, Alá, o nome não importa – lhes deu: o poder de decidir, de optar. De, se quiser, desobedecer.

Desobediência segue, assim, uma bela linhagem de filmes que discutem a opressão sofrida pelos judeus, em especial os ortodoxos, em sua própria comunidade. Enquanto via o filme, me lembrei do também extraordinário O Julgamento de Viviane Amsalem, co-produção Israel-França-Alemanha, de 2014. Nele, os diretores, os irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz (que coincidência, o nome Ronit…), mostram a sociedade israelense de hoje como profundamente, nojentamente machista, moralista, hipócrita, e governada por leis religiosas. Todo o tom de O Julgamento de Viviane Amsalem – forte, vigoroso, virulento – é diferente do deste Desobediência, um filme que é o tempo todo suave. Mesmo nos momentos de maior tensão, tristeza – e também de tesão –, o diretor Sebastián Lelio opta pelo tom menor.

Desobediência é um filme que trata até as chagas, os problemas, os desacertos, com uma certa ternura, e com imensa sensibilidade.

Imensa sensibilidade é o tom de outro filme do qual este Desobediência faz lembrar, Menashe (2017), um filme americano que ousa ser praticamente todo falado em iídiche. É também um drama familiar, sobre um homem bom, que luta para ter a guarda do filho, mas é impedido pelos costumes religiosos porque é viúvo e não se casou de novo.

Gostaria de citar mais um filme com essa temática: Segredos Íntimos/Ha-Sodot, produção israelense de 2007, dirigida por Avi Nesher, sobre a vida das mulheres na comunidade judia ortodoxa em Israel hoje.

Um filme sóbrio, sério, denso, adulto. Uma beleza

Achei interessante a coincidência de o prenome da diretora de O Julgamento de Viviane Amsalem ser o mesmo da personagem interpretada por Rachel Weisz. Coincidências são sempre fascinantes – neste filme aqui são duas Rachel, as duas nascidas em cidades chamadas London. Rachel MacAdams é canadense de London, Ontario. Rachel Weisz é da London, England, em que se passa a história. São, as duas, belas atrizes, nos dois sentidos do adjetivo, ambas da geração da minha filha – Rachel Weisz é de 1970, Rachel MacAdams, de 1978.

A mesma geração também de Naomi Alderman, a autora do livro, nascida, como já foi dito, em 1974.

O romance Disobedience rendeu a Naomi Alderman o Prêmio Orange Para Novos Escritores, o Prêmio de Jovem Escritor do Ano do Sunday Times, e a inclusão na lista de 25 Escritores para o Futuro feita pela Waterstones – além de muita controvérsia. A polêmica toda acabou fazendo que a jovem abandonasse a religião judaica. “Comecei o romance religiosa, e quando terminei não era mais. Eu me escrevi para fora da religião”, ela disse em uma entrevista ao Guardian.

Sebastián Lelio – ah, as coincidências… – nasceu exatamente no mesmo ano que a autora Naomi Alderman, 1974. Nasceu do outro lado do mundo, e também sob uma ditadura, não uma religiosa, mas a sangrenta, assassina, dos militares chilenos chefiados pelo General Pinochet.

Viria a se tornar um dos grandes nomes do novo cinema chileno surgido após o fim da ditadura, ao lado de Pablo Larraín, Andrés Wood e outros.

Não sei se está prosa, mas o fato é que Sebastián Lelio está com tudo. Seu Uma Mulher Fantástica (2017), sobre uma transgênero que trabalha como garçonete de dia e cantora à noite, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Neste ano de 2018, ele está refilmando, nos Estados Unidos, seu Gloria, de 2013, um sensível filme, um retrato realista, cru, despojado de qualquer glamour, da vida de uma mulher madura e solitária numa grande metrópole. O papel que no original foi da ótima chilena Paulina García cabe, nessa refilmagem, à também ótima Julianne Moore.

É um diretor a ser seguido, esse Sebastián Lelio. Em sua primeira experiência de filmar na língua inglesa, fez um filme sóbrio sobre um tema que poderia ser abordado de forma escandalosa. Desobediência é sóbrio, sério, denso, adulto. Uma beleza de filme.

Anotação em outubro de 2018

Desobediência/Disobedience

De Sebastián Lelio, Inglaterra-Irlanda-EUA, 2017

Com Rachel Weisz (Ronit Krushka), Rachel McAdams (Esti Kuperman), Alessandro Nivola (rabino Dovid Kuperman)

e Anton Lesser (Rav Krushka), Cara Horgan (Miss Scheinberg), Alan Corduner (Moshe Hartog, o tio de Ronit), Bernice Stegers (Fruma Hartog, a tia de Ronit), Nicholas Woodeson (rabino Goldfarb), David Fleeshman (Yosef Kirschbaum), Steve Furst (Dr. Gideon Rigler), Trevor Allan Davies (o homem tatuado), Alexis Zegerman (Rivka)

Roteiro Sebastián Lelio & Rebecca Lenkiewicz

Baseado no romance homônimo de Naomi Alderman

Fotografia Danny Cohen

Música Matthew Herbert

Montagem Nathan Nugent

Casting Nina Gold

Produção Braven Films, Element Pictures, Film 4, Scope Pictures, Stage 6 Films.

Cor, 114 min (1h54)

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