Crônicas de San Francisco / Tales of the City

Nota: ★★★☆

Tales of the City, no Brasil Crônicas de San Francisco, edição 2019, conta as histórias de um grupo de pessoas um tanto excêntricas, um tanto distantes dos padrões tidos como “normais”, que vivem em uma espécie de comunidade – um conjunto de apartamentos numa área central e nobre da maravilhosa cidade.

Nos 10 episódios, cada um com cerca de uma hora, há mais personagens homossexuais e transexuais do que héteros. Toda a série é uma homenagem a San Francisco, e San Francisco é – além da cidade mais bela do mundo, o Rio de Janeiro e Paris que me perdõem – o berço dos beatniks, do flower power, da contracultura, dos hippies, a metrópole mais européia dos Estados Unidos. E também a que, mais que todas as outras, apoiou os gays, abriu espaço para os gays, foi pioneira na luta dos gays pela defesa de seus direitos.

É uma boa série, por vários motivos. Exatamente por ser uma homenagem a San Francisco. Por falar da vida de pessoas comuns, gente como a gente, e não de serial killers, bandidos, foras-da-lei. E porque é inteligente, sensível, bem intencionada, bem humorada – e danada de bem realizada, em todos os quesitos.

Uma produção 2019, em que tudo é muito atual

Essa edição 2019 é assustadoramente atual: foi lançada em abril deste ano no San Francisco International Film Festival, e em junho no mundo inteiro, nessa coisa maluca que é o streaming, por essa outra coisa maluca que é a Neflix.

É tudo tão atual que lá pelas tantas um personagem cita Corra!/Get Out, o filme de Jordan Peele de 2017 que mistura racismo, loucura e terror. Cita um filme de 2017 como se ele já fosse amplamente conhecido mundo afora, como se fosse um clássico, um Casablanca, um Cidadão Kane. (Há citações também a vários outros filmes e pessoas do cinema, de Angela Lansbury a Idris Elba, passando por Jennifer Beals, o que é uma delícia para quem gosta de filmes.)

É tudo tão atual que pode deixar as pessoas com mais de, digamos, 30 anos se sentindo meio perdidas, sem entender muito bem as coisas.

Por exemplo:

Duas garotas lésbicas, uma de ascendência asiática, a outra hispânica, iam muito bem, se amavam, eram felizes. Uma delas, no entanto, tinha vontade de fazer a passagem do corpo feminino para o corpo masculino, e então vira fisicamente um homem, Jake (o papel de Garcia, que se assina só assim, prenome apenas). Continuam juntos, Jake agora com corpo de homem e Margot (o papel de May Hong). Mas Jake passa a ter vontade de ter relações com homens, o que deixa Margot infeliz, querendo abandonar o casamento.

Uma moça lésbica vira rapaz, que logo tem desejos homo, e trai a amante com um homem.

Parece um tanto complicado, em especial para as pessoas mais velhas, do tempo em que havia apenas homens, mulheres e homossexuais –  queers, veados, bichas, sapatonas, sandalhinhas.

A expressão queer é bastante usada, desde bem o começo do primeiro dos dez episódios da série. E é interessante, porque queer é uma daquelas expressões que foram banidas ao longo das últimas décadas pelo politicamente correto, por ser considerada ofensiva aos homossexuais – exatamente como veado, bicha, sapatona, sandalhinha. Está no meu Dictionary of English Language and Culture da Longman: “old-fash infml derog” – old-fashioned informal derogatory, gíria antiga e depreciativa.

No oitavo episódio, Shawna, uma das protagonistas da série, o papel da extraordinária Ellen Page, ela mesma uma gay assumida na vida real, usa a palavra queer, numa conversa com um casal hétero, gente boa, de comportamento padrão mas de forma alguma preconceituosa, ao contrário. E ambos, marido e mulher, demonstram achar estranho que a garota jovem, anticonvencional, vinda de San Francisco, use a palavra atualmente banida.

E aí Shawna explica: – “Ah, nós a ressignificamos. E, sim, eu sou queer.”

A comunidade focalizada na história pertence ao grupo moderno que “ressignificou” a expressão queer. Deu novo significado a ela. Passou a usá-la com orgulho – até porque, afinal, queer, originalmente, basicamente, significa estranho, esquisito, e portanto diferente do padrão, da maioria. Shawna e toda a comunidade que mora nos apartamentos de Barbary Lane se orgulham por ser estranhos, diferentes – e aqueles que são homo ou trans se orgulham por ser estranhos, diferentes e homo ou trans.

A quarta parte de uma longa saga

Uma série atualíssima, moderna a não mais poder, que mostra realidades que parecem complicadas aos mais velhos, mesmo os não caretas – e, no entanto, é uma série que tem história, passado, quilometragem. Esta edição 2019 é a quarta de um conjunto de séries iniciado em 1993.

Não se trata de refilmagem. Não, não, nada disso, de forma alguma. Trata-se de continuações – como os filmes da trilogia The Godfather de Francis Ford Coppola. Como Claude Lelouch fez ao reunir o casal de Um Homem, Uma Mulher, de 1966, em Um Homem, Uma Mulher Vinte Anos Depois, de 1986, e mais uma vez agora há pouco, em Les Plus Belles Années d’une Vie, de 2019. Como Star Wars.

Assim, em Crônicas de San Francisco/Tales of the City, a primeira série, de 1993, com 6 episódios de 1 hora cada, Mary Ann Singleton (o papel de uma Laura Linney aos 29 anos de idade) era uma jovenzinha de Cleveland, Ohio, que viajava de férias para San Francisco, apaixonava-se pela cidade e resolvia ficar por lá. Por um golpe de sorte, acabava indo morar em um dos apartamentos da comunidade de Barbary Lane, de propriedade de Anna Madrigal (interpretada por Olympia Dukakis, nas duas fotos acima), uma senhora anticonvencional, com jeitão de hippie, de ativista das lutas pelos direitos civis nos anos 60.

Os mesmos personagens centrais, alguns interpretados pelos mesmos atores, voltaram a aparecer cinco anos depois, em 1998, em Mais Crônicas de San Francisco/More Tales of the City – uma minissérie também de 6 episódios, como a primeira.

E em 2001 foi lançada Outras Crônicas de San Francisco/Further Tales of the City, sempre com os mesmos personagens centrais e alguns dos mesmos atores das duas séries anteriores. Essa terceira foi mais curtinha, com apenas 4 episódios.

E agora veio a edição 2019, a quarta série, a quarta parte do relato da vida de Anna Madrigal, Mary Ann Singleton e os outros moradores da comunidade de Barbary Lane.

Mary e eu não sabíamos de nada disso quando sugeri ver esta edição 2019 da saga. Não tínhamos a menor idéia de que era uma longa saga, de que esta minissérie aqui de 10 episódios fosse a quarta parte dela. Quis assistir simplesmente porque, passando pelas atrações da Netflix, vi que existia esta série chamada Crônicas de San Francisco, com Laura Linney, Ellen Page e Olympia Dukakis. Se era sobre San Francisco, e com essas atrizes aí que admiro, então deveria valer a pena.

Vale a pena, sem dúvida.

Agora, é claro que vou querer ir atrás das três séries anteriores, e vou vê-las na ordem cronológica correta. (Encontrá-las é fácil: estão todas na Netflix.)

Mas é fundamental deixar claro que, para ver esta edição 2019, não é imprescindível ter visto as anteriores. Os dez episódios de Tales of the City de 2019 têm vida própria – e entender a trama e gostar dela independente das três partes anteriores.

Sim, naturalmente, obviamente, deve ser mais gostoso ver esta quarta parte se você já viu as anteriores. Mas não é obrigatório, repito. A edição 2019 tem vida própria, independente.

Começa na festa de 90 anos de Anna Madrigal

Tales of the City 2019 começa com o aniversário de 90 anos de Anna Madrigal-Olympia Dukakis.

Anna Madrigal é uma senhorinha absolutamente adorável – e adorada por todos os que gravitam em torno dela, pessoas de gerações diferentes, na comunidade que ela criou muito tempo atrás. Chega aos 90 anos lépida e fagueira, absolutamente lúcida, com ótima saúde – apesar dos vários baseados que fuma por dia. (“Apesar”? Ou seria “até por causa dos vários baseados”?)

Não escreveu livros, não compôs, não é uma artista – é uma pessoa que viveu muito, viveu bem, gosta da vida e das pessoas, é sábia, sabe ouvir, sabe aconselhar, sabe ser amiga de cada um e de todos. É assim uma líder natural para as pessoas que a conhecem, é o centro, o Sol daquela comunidade.

Mora no apartamento que fica no térreo do pequeno prédio que tem uns quatro ou cinco andares. O pequeno prédio, por sua vez, tem diante dele um belo espaço, um jardim, amplo, gostoso, aconchegante. O terreno ocupado pelo jardim e pelo prédio, por sua vez, fica muito acima do nível da rua, a Barbary Lane, e essa Barbary Lane, no Russian Hill, é uma daquelas ladeiras íngremes de San Francisco, que conseguem ser ainda mais íngremes que as de Perdizes, o bairro em que moro desde 1977, 16 anos antes do lançamento do primeiro Tales of San Francisco.

A questão do nível do terreno em relação à rua é importante. Para chegar até o platô em que ficam o jardim e o primeiro andar do pequeno prédio pertencente a Anna Madrigal, é necessário subir uma escada bem íngrime e de muitos degraus. A dificuldade de acesso, e também o fato de que tudo estava abandonado fazia anos, ajudam a explicar por que a propriedade não era muitíssimo valorizada em 1966, quando Anna a comprou. Porque a localização de Barbary Lane é um absurdo de sensacional: a propriedade está próxima da Coit Tower, no Telegraph Hill. Do alto do último andar, há uma vista deslumbrante para a Baía de San Francisco. É o luxo do luxo do luxo.

Em várias tomadas gerais que mostram o prédio de Anna na Barbary Lane, vemos a Coit Tower ao fundo, no alto de outras das diversas colinas em cima das quais foi construída a cidade maravilhosa.

(É óbvio que o prédio que pertence a Anna Madrigal é fictício – e não existe no Russian Hill uma rua com o nome de Barbary Lane. Mas, diabo, a série mostra direitinho a localização dela, e, na ficção, ela é bem real…)

Uma dupla de jovens simpáticos, outra de jovens chatos

Nos dias em que se passa a ação, quando Anna está completando os 90 anos, apenas um dos moradores originais – além da proprietária – permanece em um dos apartamentos de Barbary Lane. É Michael Tolliver (o papel de Murray Bartlett, na foto acima), um sujeito extremamente bom caráter, gente fina, que está aí na faixa dos 50 anos, e é uma espécie de filho espiritual de Anna, um herdeiro dos valores da contracultura dos anos 60 e 70. Durante toda a sua vida adulta morou ali – e, em vez de perseguir o sucesso profissional, a competição, a ascensão salarial e social, a procura desvairada por ficar rico, optou pela qualidade de vida. É um sujeito feliz. Faz seis meses que tem um namorado firme, Ben Marshall, um garotão bonitão e bem mais novo que ele, de 28 anos, que trabalha com informática e ganha muito mais que o próprio Michael. Esse Ben (o papel de Charlie Barnett) é também uma boa figura, uma boa pessoa. Tales of the City tem essa vantagem: praticamente todos os personagens são boas pessoas.

Haverá muitas cenas de carinhos e de sexo de Michael e Ben. É um dos pontos chatos da série, na opinião do hétero aqui.

Outro dos apartamentos do pequeno prédio é ocupado pelo jovem casal Jake e Margot, interpretado por Garcia e May Hong e já citado mais acima. O casal que era formado por duas lésbicas, até que Jake fez a operação e virou homem, e as coisas se complicaram porque, com corpo de homem, ele passou a gostar de homem.

Jake está se formando em enfermagem. Margot trabalha no Body Politic, corpo político, que não é um escritório de partido político, mas um bar-boate mantido de forma cooperativa por drag queens, trans, gays de todas aquelas letras do alfabeto, GLTNBYH e quetais. (O nome não é à toa, de graça: The Body Politic é o nome de uma revista gay do Canadá, publicada entre 1971 e 1987.)

São personagens ricos, interessantísimos, os dois – e os dois jovens atores que os interpretam estão muito bem.

Um apartamento é ocupado por outra dupla de jovens, que, bem diferentemente de Jake e Margot, não é nada simpática, nada interessante. Bem ao contrário: são personagens chatos de galocha. São irmãos gêmeos, de origem asiática. Ela é Ani Winter (Ashley Park), ele é Jonathan Raven Winter (Christopher Larkin), e os dois são, ou pretendem ser, essa coisa de influencers das redes sociais.

Mary achou que os criadores da série quiseram usar essa Ani e esse Jonathan para gozar esse tipo de gente fútil, vazia, de hoje em dia, que acha que pode brilhar porque consegue atrair uns cliques, uns likes nas redes sociais. Queriam gozar e rir dessas manias todas de influencers e coisa parecida. Deve ser isso mesmo – mas o fato é que os dois são uns chatos.

No térreo vive Anna, a dona do lugar. Temos então Anna, Michael, o casal Jake e Margot, os irmãos Ani e Jonathan. O quinto apartamento é o de Shawna – o papel de Ellen Page, que já foi citada lá atrás. (Na foto abaixo, Shawna-Ellen Page e Brian-Paul Gross).

Três mulheres de três gerações diferentes

Shawna é um dos personagens centrais desta minissérie, ao lado de Mary Ann e Anna Madrigal. Michael, o casal Jake e Margot e mais Brian (Paul Gross) são também importantes, estão presentes em boa parte das sequências ao longo dos dez episódios – mas creio que as três mulheres, Anna, Mary Ann e Shawna, são as bases deste Tales of the City 2019.

Três mulheres, três diferentes gerações. Anna, uma senhorinha que está fazendo 90 anos. Uma pessoa nascida ali no começo dos anos 30 (Olympia Dukakis é de 1931), que era jovem nos miseráveis anos 50, os anos da caretice infinda, e estava no auge da mocidade madura nos formidáveis anos 60, os anos que mudaram tudo, ou quase tudo.

Mary Ann é uma mulher agora na meia-idade, na faixa dos 50, indo para os 60. (Laura Linney, que há décadas incorpora Mary Ann, é de 1964.) Uma mulher que foi jovem nos anos 70 e virou adulta nos 80, e de quase hippie virou quase yuppie – mas não encaretou absolutamente, continuou tendo uma chama de inconformismo prestes a ser acendida, se houvesse oportunidade.

E Shawna é uma garota que nos dias da ação está com 24, 25 anos. Nascida, portanto, nos anos 90 – e que se formou como o oposto do yuppismo então reinante, da caretice, do conservadorismo. Aos 24, 25, Shawna não pensa em uma carreira de sucesso, que a leve a ter uma boa posição, um bom emprego, muitos bens materiais. É homo, gay, mas prefere se definir como queer, o conceito agora com nova significação, deixando para trás a tolice do politicamente correto, porque o politicamente correto, afinal de contas, é uma coisa terrivelmente careta, boba, de gente certinha, normal, padrão, que quer parecer avançada, pra frente.

Shawna é cheia de problemas, é uma jovem tensa, preocupada, solitária, difícil – mas é uma pessoa boa. Faz tudo para o bem dos outros, o tempo todo. Em uma sociedade, em um mundo, em uma época cada vez mais ferozmente individualista, Shawna cuida dos outros antes mesmo de cuidar de si.

Mary Ann chega sem avisar, após 20 anos

No primeiro episódio desta fase 2019 da história de Anna Madrigal e seus seguidores, o espectador é apresentado a essa grande quantidade de personagens – além da própria Anna, esse povo todo de que falei nos parágrafos acima, Mary Ann, Shawna, Brian, Michael, Ben, Jake, Margo, Ani, Jonathan. É um tanto confuso. Na verdade, é bastante confuso. É preciso ter um pouco de paciência para que o espectador entenda exatamente quem é quem, quais são as relações entre aquelas pessoas todas.

Quem já tiver visto as três séries anteriores da história saberá quem é Anna, Mary Ann, Brian, Michael – mas desconhecerá todos os personagens mais jovens, que estão sendo introduzidos aqui. Portanto, não terá grande vantagem sobre quem – como Mary e eu – começamos por esta série que é a quarta.

Sejam veteranos conhecedores dos personagens ou recém-chegados a esse universo de Barbary Lane, todos os espectadores verão, no primeiro episódio, que Mary Ann vem de longe para o aniversário de 90 anos de Anna. De longe geográfica e temporalmente: fazia mais de 20 anos que ela não visitava Barbary Lane. Fazia cerca de 20 anos que havia se mudado para o outro extremo do país, para a Costa Leste, para trabalhar em Nova York. Morava em Connecticut, o Estado ao Norte da metrópole e unido a ela por ótimo sistema ferroviário. Havia virado uma mulher de classe média alta. Estava casada com um homem rico, formal, certinho, provavelmente um advogado dono de grande firma em Manhattan, Robert (Michael Park).

Ela não avisara a ninguém que chegaria para a festa dos 90 anos de Anna.

Michael, o grande e velho amigo gay, a recebe com imenso prazer, alegria. Brian, o ex-marido, a recebe de maneira fria, gelada, dizendo que ela não deveria ter vindo. (Na foto abaixo, Mary Ann-Laura Linney e Brian-Paul Gross.)

Uma relação mãe-filha complicadíssima

O encontro da jovem Shawna com Mary Ann será bastante complicado.

É compreensível que o espectador demore um pouquinho para compreender todas as relações daquele monte de personagens. Até ali pelo segundo episódio, entenderá que Shawna é filha de Mary Ann e Brian. Que Mary Ann cascou fora, foi embora, desapareceu, quando Shawna tinha apenas 2 anos de idade, e nunca mais deu qualquer sinal – até reaparecer de repente para os 90 anos de Anna. Brian criou sozinho a filha.

Mas a coisa é ainda mais complicada.

Shawna não é filha biológica de Mary Ann e Brian. É filha de uma grande amiga de Mary Ann, que morreu no parto, ao dar à luz Shawna. Mary Ann e Brian se sentiram na obrigação de registrar o bebê como filha deles.

Quando a garotinha estava com 2 anos de idade, Mary Ann decidiu ir para Nova York, investir na carreira de apresentadora de TV. (Em um diálogo, ela dirá que achava que iria virar uma Oprah… ) Brian assumiu sozinho a criação da filha – mas não teve coragem de dizer a ela que, além de tudo, além de ter sido abandonada pela mãe, ela não era a filha biológica do casal.

A discussão que Tales of the City traz para o espectador a respeito dessa coisa tremendamente complexa que é a questão dos filhos biológicos/filhos de criação é uma das melhores coisas desta bela série.

Claro: o certo, o melhor, é contar a verdade para o filho adotado. O certo é sempre falar a verdade.

Mas cada caso é um caso. E quando Mary Ann diz para Brian que acha um absurdo que ele jamais tenha falado a verdade para Shawna, ele argumenta: tá legal, o certo é falar a verdade. Mas você acha que eu deveria ter dito para a nossa filha, aí quando ela estava com uns 6 ou 7 anos, a verdade? Olha, a mãe que abandonou você, veja só, não é a sua mãe biológica, então não precisa ficar tão triste…

Numa das falas mais belas desta série cheia de bons diálogos, Anna Madrigal, com seus 90 anos, diz o seguinte:

– “Uma coisa que aprendi é que a verdade é um fardo que você tem que carregar sozinho.”

Uma duríssima discussão entre gays

No quarto dos dez episódios, há uma sequência fascinante, brilhante – e bastante assustadora – em que se discutem temas importantes, fundamentais, sobre as diferenças entre gerações, as cobranças que os mais jovens fazem dos mais velhos que enfrentaram barras incrivelmente pesadas. O tema específico é a homossexualidade – a terrível luta que os mais velhos travaram para que a sociedade respeitasse os direitos dos homossexuais. Mas poderia perfeitamente se estar discutindo sobre a luta contra uma ditadura, a luta contra o preconceito racial. A luta contra qualquer opressão, contra qualquer tipo de preconceito.

O casal Michael e Ben vai à casa de Harrison (Matthew Risch), que no passado foi um namorado firme de Michael; Harrison é um sujeito que está muito bem de vida, ficou rico com a recuperação de imóveis antigos. Na sua bela, ampla casa, está recebendo um grande grupo de amigos – todos homens gays, e brancos, homens da mesma faixa etária dele e de Michael, aí entre os 50 e os 60 anos.

Ben, que não tem nem 30, e é mulato, está duplamente sozinho, isolado, no meio daquele monte de tias velhas e brancas.

No meio do jantar regado a muito vinho, falam sobre o Peru, a trilha inca, Machu Pichu, a beleza dos guias. Um dos convidados fala de uma reunião de travecos – tranny, em inglês. Termos, é claro, tanto em inglês quanto em português, politicamente incorretos.

Pela primeira frase em todo o jantar Ben diz alguma coisa: – “Não se usa mais essa palavra”.

Instaura-se um absoluto mal estar na mesa. Michael tenta sinalizar para que ele não insista no assunto. Ben não percebe. – “É um termo ofensivo. Usar esse termo para insultar é muito ofensivo.”

Harrison, o anfitrião, tenta mudar o assunto, pergunta quem quer mais vinho. Não adianta. Um dos convidados parte para o ataque contra Ben.

– “Me responda uma coisa. Por que sua geração é obcecada por rótulos?”

Ben:  – “Porque a forma com que se chama alguém é importante. Trata-se de dignidade, de visibilidade. Acho que devemos isso às pessoas. Especialmente vindo de pessoas privilegiadas.”

Sim, porque aquelas pessoas ali na mesa são privilegiadas: são ricos, e são brancos. Mas o ataque a Ben só está começando. O sujeito que tinha usado o termo “traveco” diz: – “Então você olha para mim e o que você vê? Um branco rico? É isso que você quer dizer? Vou te dizer algo a respeito de dignidade e visibilidade. Quantos anos você tem?”

Ben responde que tem 28. O gay branco e rico continua: – “Qualquer assim chamado privilégio de que por acaso agora desfrutamos foi conquistado. Com unhas e dentes. De uma sociedade que não se importava com nossas vidas, e não se importou quando nossos amigos começaram a morrer. Quando eu tinha 28 anos, não ia a jantares como este. Ia a enterros. Três ou quatro por semana. Todos nós íamos.”

Ben tenta dizer que entende a situação que os mais velhos enfrentaram. O gay branco e rico ataca com mais força ainda: – “É mesmo? Por que você assistiu Angels in America? Foda-se. Foda-se. Você não faz a menor idéia. Este mundo onde você pode viver, com seus lugares seguros, cada um para um grupo, casamento gay, transar sem camisinha, tudo isso..… Esses direitos que você tem agora à dignidade e visibilidade como uma pessoa gay… Sabe de onde veio? Sabe quem construiu esse mundo? Sabe o quanto custou todo esse progresso? Não, claro que não. Sua geração jamais conseguiria compreender. Se um bando de bichas velhas querem dizer ‘traveco’ à mesa… Não vou aceitar bronca de alguém que não estava lá, porra!”

Ben se levanta e sai da sala, sai da casa. Michael demora um tempo para ir atrás; alcança-o no jardim. Ben solta então sua raiva: – “Não fale nada comigo! Você ouviu toda aquela merda e não falou nada. Racismo, transfobia.” E repete o que tinha ouvido: – “’Uma sociedade que não se importa com nossas vidas!’ Sério? Vocês vão dizer isso pra mim? Um negro? Como se eu não soubesse o que é isso…”

Sem graça, sem jeito, Michael diz que não sabia o que fazer.

E é aí que Ben cita o filme Corra!:

– “Que tal me defender? Que tal não me deixar totalmente sozinho, depois de me convidar para essa versão gay de Corra!?

Uma canção perfeita – e uma versão estranha

Duas observações sobre canções que aparecem na série.

No episódio 4, Mary Ann Singleton vai ao bar-boate Body Politic, conversa com Shawna, depois com a administradora do lugar, uma fantástica drag queen chamada, se não estou inteiramente enganado, Ida Best (o papel de Caldwell Tidicue), depois com uma moça que havia se apresentado no palco. Discute com elas se aquilo ali – subir ao palco e tirar a roupa – é um ato feminista. E acaba subindo ela mesma ao palco para cantar uma música.

É um dos grandes momentos da série. Laura Linney, ótima atriz, dá um show. É uma maravilha.

Devo confessar que não reconheci a canção, embora conheça o disco original em que ela foi gravada. É “Come to my window”, a terceira faixa do álbum Yes, I Am, de Melissa Etheridge – uma das primeiras grandes artistas americanas a assumir publicamente sua homossexualidade. O disco é, por coincidência ou não, de 1993, o ano da primeira das quatro séries com esses personagens. O texto sobre ele no AllMusic começa assim: “Melissa Etheridge ainda não havia saído do armário quando lançou Yes, I Am em 1993, mas é difícil não prestar atenção à aclamação desafiadora no título do álbum. Esse sentido praticamente não escondido de identidade sexual exala das letras, e está também na música, que está talvez mais confinte do que jamais esteve.”

A escolha da canção para Mary Ann-Laura Linney cantar é um belo gol dos realizadores da série.

No entanto, não consegui entender uma outra escolha de canção para acompanhar uma bela sequência já perto do finalzinho da série. É quando todo artistas e frequentadores do Body Politic, um bando de drag queens e queers de todos os tipos, todos coloridíssimos, avançam por uma ladeira de San Francisco rumo a Barbary Lane.

Avançam naquela voação danada de purpurina e veadagem e cores ao som de… Uai! Não ao som de “These boots are made for walking”, a canção icônica gravada por Nancy Sinatra em 1966, que Stanley Kubrick usou em Nascido para Matar/Full Metal Jacket, de 1987… Mas sim de uma versão em francês, “Ces bottes sont faites pour marcher”, com uma moça chamada Eileen, americana que se radicou na França e fez versões de diversos sucessos pop americanos para o francês.

Diacho! Por que não a fantástica versão original com Nancy Sinatra?

As séries se baseiam nos livros de Armistead Maupin

Todas essas quatro séries, de 1993, 1998, 2001 e agora 2019, se baseiam em uma série de nove livros escritos por Armistead Maupin e lançados entre 1978 e 2014.

Armistead Maupin nasceu em Washington, D.C., em 1944 – estava portanto com 75 anos quando Tales of San Francisco edição 2019 foi lançada. Ele é um dos vários produtores executivos, ao lado de Laura Linney e da mulher que foi a responsável pela série, Lauren Morelli.

Maupin foi jornalista de TV e de jornal, serviu na Marinha, lutou na guerra do Vietnã e, em 1971, assim como sua personagem Mary Ann Singleton, mudou-se para San Francisco. Assim como Michael Tolliver, tem uma longa e estável relação com um homem bem mais novo, Christopher Turner, um fotógrafo e produtor de sites; casaram-se no Canadá em 2007.

Segundo ele diz em entrevistas, todos os personagens que cria têm um pouco dele.

Deve ser uma figura interessantíssima, porque seus personagens são gente fascinante.

Ainda no primeiro episódio desta quarta minissérie (ou seria no segundo? Tenho dúvida…), o espectador fica sabendo que Anna Madrigal é transexual, assim como Jake Rodriguez, só que ao inverso. Mas vai ser apenas no episódio número 8 que saberemos mais informações sobre o passado de Anna. Todo o oitavo episódio se passa nos anos 60, quando Anna (então interpretada por Jen Richards, na foto abaixo) chega a San Francisco. Era homem, tinha tido uma filha, mas abandonara a família e se mudara para a metrópole da Costa Oeste, usando roupas e peruca de mulher. Esperava juntar dinheiro para fazer a operação de troca de sexo. Em San Francisco, fica amiga de diversos homens como ela – travestis ou já trans.

Eu obviamente não reparei, mas li em algum lugar de Anna Madrigal é um anagrama de “a man and girl”.

Ainda no terceiro episódio, Anna recebe uma carta ameaçadora – anônima, é claro – de alguém que diz saber os segredos do seu passado. O chantagista passará em seguida a exigir que Anna transfira para ele a propriedade de Barbary Lane.

Esse elemento novo, de um chantagista ameaçando Anna, seguramente foi criado para manter o espectador ligado, para que o espectador fique curioso e continue vendo os episódios seguintes. ´

Na minha opinião, não seria necessária essa parte assim policial, de criar suspense. Também não achei muito bem bolada a escolha do personagem para ser o chantagista – para mim, a revelação, feita no décimo e último episódio, é frouxa, um tanto forçada.

Não era preciso nada disso. A série já é muito boa pelos personagens, pelas situações, os dramas do dia a dia, as conversas, as revelações. É uma bela história sobre relações humanas, relações de afeto. Uma trama policial enfiada ali me pareceu de fato desnecessária.

Não que estrague este Tales of the City. Não chega a tanto. É uma boa série. Vou agora atrás das anteriores, as de 1993, 1998 e 2001…

Anotação em agosto de 2019

Crônicas de San Francisco/Tales of the City

De Lauren Morelli, criadora, produtora executiva, EUA, 2019

Diretores Alan Poul, Silas Howard, Stacie Passon, Kyle Patrick Alvarez,

Patricia Cardoso, Sydney Freeland

Com Laura Linney (Mary Ann Singleton), Ellen Page (Shawna Hawkins), Paul Gross (Brian Hawkins), Murray Bartlett (Michael Tolliver), Charlie Barnett (Ben Marshall), Olympia Dukakis (Anna Madrigal), Garcia (Jake Rodriguez), May Hong (Margot Park), Ashley Park  (Ani Winter), Christopher Larkin (Jonathan Raven Winter), Victor Garber (Samuel Garland, o inglês), Barbara Garrick (DeDe Halcyon Day, a milionária), Zosia Mamet (Claire Duncan, a documentarista), Caldwell Tidicue (Ida Best, a chefe do Body Politic), Michelle Buteau (Wrenita Butler, a vizinha de Brian), Michael Park (Robert, o marido de Mary Ann), Dickie Hearts (Mateo, o mordomo de DeDe), Matthew Risch (Harrison, o ex de Michael), Samantha Soule (Inka Gisladottior, a do menage à trois), Benjamin Thys (Eli Heller, o do menage à trois), Alan Mingo Jr. (The Queen), Daphne Rubin-Vega (Mrs. Rodriguez, a mãe de Jake), Juan Castano (Flaco Ramirez), Molly Ringwald (a mãe de Claire), Jen Richards (Anna Madrigal jovem nos anos 60), Luke Kirby (Tommy, o namorado de Anna nos anos 60), Daniela Veja (Ysela, travesti nos anos 60), Eve Lindley (Lily, travesti nos anos 60)

Roteiro Hansol Jung, Armistead Maupin, Thomas Page McBee, Lauren Morelli, Jen Silverman, Andy Parker, Michael Cunningham, Marcus Gardley, Patricia Resnick

Baseado nos livros de Armistead Maupin

Fotografia Federico Cesca

Música Jay Wadley

Montagem Andy Keir e Allyson C. Johnson

Casting Adam Caldwelle e Bernard Telsey

Produção Netflix.

Cor, cerca de 720 min (12 horas)

***

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