Como Fera Encurralada / Classe Tous Risques

Nota: ★★★☆

Claude Sautet foi um realizador de poucos filmes. Foram 16, no total, ao longo de 44 anos, entre 1951 e 1995 – e mesmo assim contando com um curta-metragem, Nous n’irons plus au bois (1950), e um em que seu nome não aparece como diretor, A Fera Está Solta/Le Fauve est Lâché (1959). Ele era o assistente do diretor, Maurice Labro, que morreu durante as filmagens, e concluiu o trabalho.

Sautet considerava este Classe Tous Risques, literalmente todo tipo de risco, no Brasil Como Fera Encurralada, de 1960, o seu primeiro filme de fato. Em um pequeno especial que acompanha Como Fera Encurralada no DVD lançado pela Versátil, um repórter pergunta a ele se aquele é seu primeiro filme, e ele responde que sim. A rigor, não era: além daquele curta-metragem, ele já havia assinado a direção de um outro longa, Bonjour Sourire! (1956), uma comédia com Henri Salvador – sem contar com a colaboração na direção de A Fera Está Solta.

Como Fera Encurralada/Classe Tous Risques é um policial, um noir – mas, a rigor, a rigor, é um drama sobre amizade, solidariedade, como viriam a ser os outros filmes desse realizador de grande talento e sensibilidade.

Conta sobre o outono da vida de Abel Davos, um fora-da-lei que, no passado, havia sido grande, poderoso, uma espécie assim de herói maior, respeitado por todos no mundo dos assaltantes, dos bandidos. No auge de sua trajetória, havia ajudado muitos amigos, havia propiciado a eles meios de se estabelecerem em negócios legais, legítimos. Graças a Abel Davos, alguns de seus amigos tinham virado prósperos, ricos, bem estabelecidos.

Por algum motivo, ou mais certamente por uma série de motivos que o filme não tem interesse em especificar, detalhar, explicitar, o grande Abel Davos já não era mais o mesmo na época em que se passa a ação. Havia se estabelecido na Itália, com a mulher, Thérèse (Simone France) e os dois filhos, Pierrot e Daniel, um de uns 10 anos, outro de uns 7 (interpretados por Robert Desnoux e Thierry Lavoye).

Mas havia se exposto, e agora era perseguido duramente pela polícia italiana. Resolve então, em companhia de seu grande amigo Raymond Naldi (Stan Krol, na segunda foto abaixo), empreender a viagem de volta para a França.

Abel fica sozinho com os dois filhos pequenos

O filme começa quando Abel Davos, em Milão, está se preparando para voltar à França – enfrentando as dificuldades das barreiras da fronteira, dos postos policiais.

Abel Davos é o papel de Lino Ventura – e muito provavelmente foi por causa de Lino Ventura que os produtores deram a Claude Sautet a oportunidade de dirigir este filme. Naquele ano de 1960, Sautet (1924-2000) havia tido uma boa carreira como assistente de direção de Georges Franju, Yves Robert, Édouard Molinaro e Maurice Labro, entre outros, e até havia dirigido um curta e um longa, mas não tinha ainda nem um pouco da fama e do prestígio de Lino Ventura (1919-1987), àquela época um ator absolutamente consagrado, uma figura forte, grande, ombros imensos, quase assim um segundo Jean Gabin (ao lado de quem, aliás, já havia trabalhado em Grisbi, Ouro Maldito, de 1954, e voltaria a trabalhar em Os Sicilianos, de 1969).

Lino Ventura era o astro de A Fera Está Solta, e deu toda a força a Sautet para que ele assumisse a direção do novo projeto. Seguramente não se arrependeu.

Abel, a mulher, os filhos e o amigo Raymond empreendem trechos da fuga da Itália para a França em dois grupos – Thérèse com os dois filhos, de trem, e Abel e Raymond em carros roubados. Reencontram-se em Sanremo, na costa mais ocidental da Itália, e, com a ajuda da rede de amigos, embarcam num pequeno barco a vapor para Menton, a primeira cidade do litoral francês no Mediterrâneo após a fronteira italiana.

Na chegada ao solo francês, o grupo é avistado por policiais. Há um tiroteio, e Raymond e Thérèse são mortos. Abel consegue escapar – com a dor imensa da perda da mulher e do grande amigo, a responsabilidade de cuidar dos dois filhos pequenos e a polícia na sua captura.

É um filme sobre amizade, solidariedade

Refugia-se num hotelzinho fuleiro em Nice, pertencente a um homem da teia de amizades construída ao longo da vida. De lá, liga para amigos de Paris, pedindo ajuda – dois dos homens a quem havia dado toda ajuda, e agora viviam bem, Riton Vintran (Michel Ardan) e Raoul Fargier (Claude Cerval). Vintran, hoje dono de um restaurante; Fargier, de um hotel. Os dois casados com madames que dariam tudo na vida para não ver seus maridos envolvidos com aquele criminoso procurado pela polícia – o homem que havia pavimentado o caminho dos maridos rumo à prosperidade do lado certo da lei.

O relacionamento de Abel Davos com Vintran e Fargier, e depois também com um outro antigo amigo, o receptador Arthur Gibelin (Marcel Dalio), é o tema central do filme.

O relacionamento de Abel com esses velhos amigos e também com um sujeito que ele não conhecia, um tal Eric Stark, um ladrão esperto, safo, que é enviado a Nice para transportá-lo e aos dois meninos até Paris.

O relacionamento entre Abel e os velhos amigos que agora não se mostram mais tão amigos assim – e entre Abel e esse jovem desconhecido, que se mostra uma pessoa absolutamente calorosa, solícita, disposta a ajudar.

Amizade, solidariedade – exatamente o tema central da obra de Claude Sautet.

Para o papel desse Eric Stark, foi escolhido um jovem iniciante feio feito a fome, narigudo, magrelo, mas charmoso a não mais poder. Naquele mesmo ano de 1960, teria a sorte grande de ganhar o papel principal no primeiro filme do jovem crítico Jean-Luc Godard, com base em um roteiro de François Truffaut, Acossado/À Bout de Souffle.

É fascinante ver Jean-Paul Belmondo jovenzinho de tudo no papel do ladrão de coração imenso. Nascido em 1933, estava com 27 anos, e parecia ter 21.

Sandra Milo, a primeira das belas atrizes de Sautet

Há um mandamento sagrado nas leis de Hollywood: todo filme tem que ter um female interest. Um personagem feminino – uma mulher, de preferência bonita, sedutora, interessante.

O mandamento é hollywoodiano, mas a rigor vale no cinema do mundo inteiro – e este Classe Tous Risque tem Sandra Milo. Sandra Milo pode não ser muito conhecida pelas audiências de hoje, mas, no final dos anos 1950 e ao longo dos anos 1960, foi uma atriz que embelezou muitos filmes dos maiores diretores, de Roberto Rossellini a Federico Fellini, com seus lábios carnudos e sua boca imensa. Embora não tenha brilhado tanto quanto sua conterrânea Claudia Cardinale (as duas nasceram em Túnis), é uma presença forte na tela.

Aqui, faz o papel de Liliane, uma atriz de teatro em início de carreira, que o sempre solícito Erik Stark vai socorrer ao vê-la sendo agredida por um sujeito à beira da estrada, quando o jovem ladrão está conduzindo Abel Davos e os filhos numa ambulância, nas estradas entre Nice e Paris. Revela-se uma mulher fascinante essa jovem Liliane.

Sandra Milo foi a primeira das maravilhosas atrizes que Claude Sautet filmaria – e a relação tem Nicole Garcia (Garçom!, 1973), Sandrine Bonnaire (Quelques Jours Avec Moi, 1988), Émanuelle Béart (Um Coração no Inverno, 1992, e Minha Secretária. 1995). Mas, sobretudo, tem Romy Schneider, que emprestou sua beleza acachapante, sem jeito, a nada menos que cinco dos filmes que Sautet dirigiu: As Coisas da Vida (1970), Sublime Renúncia (1971), César e Rosalie (1972), Mado, Um Amor Impossível (1976), Uma História Simples (1978).

Um dos criadores do “romance de bandidos à francesa”

Sautet disse em entrevistas que acabou filmando este policial não por ele ser um policial, mas porque a história tratava muito bem de temas que interessavam a ele: as relações humanas, a afeição entre as pessoas, a amizade.

Ele havia ficado fascinado com o livro Classe Tous Risques, escrito por José Giovanni, o pseudônimo de Joseph Damiani (1923-2004). José Giovanni foi, ao lado de Auguste Le Breton e Albert Simonin, um dos criadores do “romance de bandidos à francesa”, um subgênero literário que teve imensa importância a partir dos anos 1950 – e rendeu muitos (e grandes) filmes.

Os livros desses autores retratavam o mundo dos bandidos, seus costumes, seu código de honra, seu culto à amizade, à solidariedade de uma maneira extremamente realista. Usavam o linguajar do meio – e fizeram incorporar ao idioma francês uma série de gírias. Albert Simonion escreveu um dicionário de gírias, publicado em 1957. Um dos livros de Auguste Le Breton, Du Rififi Chez les Hommes, filmado por Jules Dassin em 1955, popularizou para o mundo inteiro o termo rififi, por exemplo.

Esse Joseph Damiani, que passou à História como José Giovanni, parece ter sido uma figura em tudo fascinante. Em 1948, acusado de extorsão e cumplicidade em um assassinado, foi condenado à morte. (A pena de morte na França só seria banida em 1981; em 1969, Claude Lelouch fez um filme que é um belo libelo contra a pena capital, A Vida, o Amor, a Morte.) A pena foi comutada, e, após 11 anos preso, foi libertado – e passou a se dedicar à escrita. Publicou 21 romances, vários dos quais se tornaram clássicos da literatura policial. Nos livros, pôs muito do que viu e ouviu na prisão, onde conheceu bandidos de todos os tipos. Um deles tinha o nome de Abel Danos – que serviu de inspiração para o do protagonista do livro Classe Tous Risques.

Vários de seus livros foram filmados, alguns por cineastas de grande prestígio, como Jacques Becker e Jean-Pierre Melville. Ele passou a escrever roteiros e diálogos para o cinema – e também atuou como diretor. É dele, por exemplo, a direção, o roteiro e os diálogos de Dois Homens Contra uma Cidade/Deux Hommes dans la Ville (1973), com Jean Gabin e Alain Delon, um filmaço, uma maravilha.

“Em seus filmes, assim como em seus romances, ele se mostra um testemunho do submundo do crime e sua mitologia: amizades viris e código de honra, fidelidade e traição, vingança e mais vingança”, diz a Wikipedia. “Através de alguns de seus filmes, ele militou também contra a pena de morte.”

José Giovanni trabalhou na elaboração do roteiro deste Classe Tous Risques, juntamente com o próprio Sautet e Pascal Jardin, e assina sozinho os diálogos – o cinema francês dá destaque especial aos autores dos diálogos.

“Uma obra limpa, direta, de ritmo contínuo”

Classe Tous Risques não foi grande sucesso de público na França: em 1960, as atenções estavam voltadas para os filmes dos jovens realizadores da nouvelle vague – François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Eric Rohmer –, e Sautet não era da turma.

Eis o que diz dele o Guide des Films de Jean Tulard:

“Muito inspirado pelo cinema noir americano, Sautet, por seu primeiro filme assumido, realiza uma obra limpa, direta, de ritmo contínuo, com dois bandidos míticos: Davos, o velho, e Stark, o jovem ladrão. Dois atores soberbos em um filme clássico mas nervoso.”

É um belo filme. Dá vontade de ver ou rever todos os filmes de Claude Sautet que ainda não vi.

Anotação em novembro de 2019

Como Fera Encurralada/Classe Tous Risques

De Claude Sautet, França-Itália, 1960

Com Lino Ventura (Abel Davos)

e Jean-Paul Belmondo (Eric Stark), Sandra Milo (Liliane), Michel Ardan (Riton Vintran), Claude Cerval (Raoul Fargier), France Asselin (Madame Vintran), Michèle Méritz (Sophie Fargier), Simone France (Thérèse Davos), Stan Krol (Raymond Naldi), Marcel Dalio (Arthur Gibelin), Evelyne Ker    (a filha de Gibelin), Betty Schneider (a empregada do prédio de Stark), Jean-Pierre Zola (o dono da agência de detetives), Sylvain Levignac (o detetive da agência), Jeanne Pérez (Jacqueline Chapuis), René Génin        (Chapuis), Robert Desnoux (Pierrot, filho de Abel), Thierry Lavoye (Daniel, filho de Abel)

Roteiro Claude Sautet, José Giovanni e Pascal Jardin

Baseado no livro de José Giovanni

Diálogos José Giovanni

Fotografia Ghislain Cloquet

Música Georges Delerue

Montagem Albert Jurgenson

Produção Robert Amon, Jean Darvey, Mondex Films, Les Films Odéon, Filmsonor, Zebra Films. DVD Versátil.

P&B, 110 min (1h50)

10/11/2018, com Marynha.

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Título nos EUA: The Big Risk. Em Portugal: Contra Todos os Riscos.

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