Cinzas Que Queimam / On Dangerous Ground

Nota: ★★½☆

O filme On Dangerous Ground (no Brasil Cinzas Que Queimam), que só chegou aos cinemas americanos depois de ter ficado vários meses nos arquivos do estúdio à espera de lançamento, não foi exatamente o que o diretor Nicholas Ray queria fazer e fez.

O milionário Howard Hughes, aquela figura toda esquisita, excêntrica, que entre 1948 e 1954 foi o maior acionista e o chefão da RKO Radio Pictures, e se imiscuía em todos os filmes produzidos pelo estúdio, implicou com o final daquela história noir, e obrigou Nicholas Ray a fazer um outro final, mais suave, mais positivo, um happy ending. Pior ainda: mandou cortar uns 10 minutos daquela que era a montagem final. O filme que chegou aos cinemas – e que está disponível hoje em DVD – ficou com apenas 82 minutos.

Na época do lançamento, o filme dividiu a crítica. O New York Times desceu a lenha impiedosamente, enquanto outros veículos elogiaram bastante. O público, esse definitivamente não aprovou o filme de Nicholas Ray. “A estrutura difícil, esquisita, de filme em duas partes, e sua ênfase no clima e nos personagens, mais do que na trama e na ação, não conseguiu conquistar o público (o filme deu um prejuízo de US$ 425.000)”, informa o livro The RKO Story.

A frase do livro contém muita verdade. De fato, é uma estrutura muito estranha essa do filme: são duas partes, dois atos, que parecem não se falar, que dão a impressão de que são coisas muito diferentes, muito distantes. E, sem dúvida alguma, o roteiro (de autoria A.I. Bezzerides e Nicholas Ray, com base em romance do escritor inglês Gerald Butler) e a direção do grande realizador, mais as interpretações – tudo dá muito mais importância ao clima do que à ação e a própria lógica.

Confesso que o filme me deixou aturdido, tonto.

On Dangerous Ground começa como um filme noir e termina como uma fábula.

É um filme estranho.

Um policial solitário – e muito, muito violento

A primeira parte, o primeiro ato se passa na cidade – na segunda, de repente somos transportados para o campo, para uma área rural coberta de neve, bem ao Norte da cidade. Não se fala hora alguma o nome da cidade – o melhor jeito de dizer que pode ser qualquer grande cidade, que aquelas pessoas, aquele contexto, aquela realidade poderiam existir em qualquer cidade.

A primeira parte nos apresenta o protagonista, o policial Jim Wilson (Robert Ryan), nos mostra muito bem quem ele é, como age.

Na segunda parte, Jim, assim como o espectador, fica conhecendo Mary Malden (o papel de Ida Lupino) – e aquele encontro irá mudar Jim para sempre.

As primeiras cenas foram criadas para demonstrar que Jim é um homem solitário. Na primeira sequência, vemos uma mulher pegando o revólver do marido e ajudando o marido a colocar no corpo aquela espécie de cinto que a gente vê os policiais civis americanos usarem, sobre a camisa social, embaixo do paletó. É bem visível que marido e mulher se amam, se tratam com carinho. Ele é Pete Santos (Anthony Ross).

Na segunda sequência, aquele mesmo ritual se repete, com pequenas alterações: outra mulher está ajudando o seu marido a se preparar para ir para o trabalho, para o turno de trabalho. Ele é Bill Daly (Charles Kemper).

Na terceira sequência vemos Jim, sozinho em seu apartamento, comendo sozinho a comida que ele esquentou, e depois jogando no lixo o pouco que restou no prato, e colocando o prato na pia para lavar.

Em menos de 3 minutos, Nicholas Ray nos define Jim Wilson como um homem solitário – o único solteiro da sua equipe de três policiais amigos e companheiros.

Ao longo dos primeiros 40 minutos do filme, o primeiro ato da história, ele vai mostrar, cuidadosamente, detalhadamente, que Jim é um policial angustiado, acabrunhado com toda a torpeza, a baixeza, a miséria do mundo do crime com o qual convive faz 11 anos – e que Jim se tornou num policial violento. Extremamente violento.

Bem mais jovem, Jim havia sido um jogador de beisebol – e, aparentemente, um bom jogador. Mas não teve sorte, não continuou no esporte, virou policial. E foi ficando cada vez mais angustiado, solitário, taciturno, enojado – e violento.

O policial bate no suspeito até perfurar sua bexiga

Quando a ação começa, todos na delegacia em que Jim, Bill e Pete trabalham estão sendo advertidos pelo chefe, o capitão Brawley (o sempre bom Ed Begle), de que precisam redobrar esforços para identificar o prender os homens que, pouco antes, haviam assassinado um outro policial, um colega.

Durante a investigação, com base no que diz um informante, a equipe de Jim chega a uma dame, uma broad – as palavras que os tiras dos filmes noir usam para chamar as mulheres não muito santas, que costumam sair com bandidos. Chama-se Myrna (o papel de Cleo Moore, uma atriz que não teve grandes papéis, mas parece ter tido vida e carreira muito interessantes), e, interrogada por Jim, acaba dando uma pista sobre o bandido indicado pelo informante.

Os três policiais acabam encontrando o tal bandido. Jim dá tanta porrada para fazer o sujeito confessar que ele terá sua bexiga perfurada.

A informação de que o bandido foi para o hospital com a bexiga perfurada é passada para Jim pelo capitão Brawley. O chefe gosta de Jim, acha que ele é um policial competente, dedicado – mas sabe perfeitamente que é também violento, e violento demais. E dá o ultimato: ele precisa se controlar. Tem que se controlar.

O chefe manda o policial se ausentar da cidade

A violência de Jim incomoda muito seus parceiros, Pete e Bill. Bill, homem de muitos filhos, pai de família amoroso, fala com ele de forma suave e também de forma dura que ele tem que se cuidar, tem que se tratar, tem que parar com aqueles arroubos violentos.

É muito interessante a forma com que tanto os colegas quanto o chefe de Jim tratam a violência dele. Não se fala, em momento algum, que é um ponto de honra não bater em preso para que ele confesse. Que isso é intrinsecamente, basicamente errado. Não se demonstra que todos os policiais são ensinados por suas chefias a não serem violentos com os presos.

Fica muito evidente é que, para quem convive com ele, Jim ultrapassa todos os limites admissíveis da violência contra os presos, os suspeitos.

Fica muito claro que Nicholas Ray não tem interesse em discutir a questão genérica da violência policial. O foco da história, do filme é a violência de Jim, especificamente.

Quando Jim se envolve em mais um episódio de violência, o capitão Brawley o chama, diz que não dá mais, que ele precisa sair um tempo, descansar. Como, numa localidadezinha bem ao Norte do Estado, houve um crime de morte, Jim – o capitão determina – irá para lá, para ajudar os policiais locais. Assim sai da cidade, muda de ares, dá um tempo.

Termina o primeiro ato. Vai começar o segundo. Em vez da cidade grande, o campo, a área rural.

Não teria muito sentido continuar relatando em detalhes, em avançar muito nos acontecimentos desse segundo ato. Em resumo (se é que eu sei resumir alguma coisa…), é assim: uma garota bem jovem, filha de um fazendeiro, havia sido assassinada. O pai da garota, Walter Brent (uma bela interpretação do fordiano Ward Bond, na foto acima), é um sujeito tosco, rude, e está absolutamente determinado a matar o assassino.

Jim ficará conhecendo Mary Malden, uma bela mulher cega que mora numa casa isolada no meio do nada.

A fúria vingativa de Brent – em que se ele se vê no espelho – e. sobretudo, a doçura imensa, infinita de Mary vão provocar um tremendo choque na cabeça do policial Jim Wilson.

Bernard Herrmann compôs uma trilha belíssima

Depois de quase 20 anos trabalhando como atriz, Ida Lupino já havia iniciado sua carreira de diretora e roteirista quando On Dangerous Ground foi lançado, no final de 1951. Robert Ryan tinha uma carreira sólida – mas Ida Lupino era tão respeitada pela crítica e querida pelo público que seu nome aparece antes do de Ryan, embora seu personagem só surja pela primeira vez na tela quando o filme está com 40 minutos – na metade, portanto, de sua duração.

Consta que Ida dirigiu algumas sequências do filme, durante dias em que Nicholas Ray esteve doente. Não há menção a isso nos créditos iniciais.

O que há, nos créditos, é uma nada usual citação do nome de uma instrumentista. No quadro em que aparece “Bernard Herrmann” como autor da trilha sonora há, logo abaixo, o seguinte: “Viola d’Amour played by Virginia Majewski”

Bernard Herrmann, o compositor e maestro que havia feito a trilha sonora para Cidadão Kane (1941) e Soberba/The Magnificent Ambersons (1942), de Orson Welles, e mais tarde faria as trilhas de diversos dos grandes filmes de Alfred Hitchcock (Um Corpo Que Cai, 1958, Intriga Internacional, 1959, Psicose, 1961, entre vários outros)

compôs para o filme de Nicholas Ray uma trilha preciosa, que alterna os acordes cortantes, típicos de seu estilo, com melodias suaves, valorizadas pela instrumentação para orquestra completa, que se utilizou de solos da viola d’amore, um instrumento comum apenas na época do barroco. Impressionado com a performance da instrumentista, Herrmann insistiu para que o nome dela aparecesse nos créditos. “Não há cartazes suficientes”, disse Ray, segundo conta o IMDb. “Ponha o nome dela no meu”, pediu o compositor. E foi atendido.

Consta que o grande Bernard Herrmann considerava a trilha que compôs para este estranho filme noir como a sua predileta, entre todas as dezenas que compôs.

Uma bela atriz que não virou estrela

Cleo Moore aparece na tela durante menos de 3 minutos – mas ela me impressionou.

Sua personagem, Myrna, é amiga do bandido que Jim e seus colegas procuram, suspeito de ter matado um outro policial. Jim vai interrogá-la – e, no diálogo ríspido, duro, entre os dois, fica claro que ambos sabem muito bem que, se ela disser alguma coisa, se ela der alguma pista do bandido, imediatamente passará a ser alvo de vingança, e a vingança será brutal.

Nicholas Ray corta propositadamente a cena – o espectador não fica sabendo se Jim bateu nela para obter as informações, ou se, quem sabe, transou com ela, agradou-a. Mas fica claro que ela deu as informações.

Mais tarde, numa sequência rápida, vemos que os bandidos de fato foram atrás de Myrna e se vingaram dela.

Nunca tinha ouvido falar em Cleo Moore.

Sua filmografia é bastante pequena: 25 títulos no total, incluindo 3 curta-metragens, duas séries de TV e nada menos de 7 títulos em que seu nome sequer aparece nos créditos. O lead sumário, as duas primeiras linhas da Wikipedia sobre ela resumem tudo assim: ”Cleouna Moore (31 de outubro de 1924 – 25 de outubro de 1973) foi uma atriz americana, em geral escolhida para o papel da loura sensual em filmes de Hollywood dos anos 50. Ela também se tornou uma conhecida pin-up girl (algo como garota de calendário). Embora nunca tenha se tornado uma estrela, Moore virou uma atriz cult, com vários de seus filmes sendo considerados clássicos cult.”

Nascida na Louisiana, no Sul Profundo, em família com envolvimento na política, com apenas 15 anos Cleo se casou com o filho de Huey Long, conhecido político do Estado, que foi governador e senador. O casamento durou apenas seis semanas, e perto do final da Segunda Guerra, a família Moore se mudou para a Califórnia. Não demorou muito para que a jovem bela e gostosa fosse descoberta: um executivo da RKO sugeriu que ela fizesse um teste, ela passou. Seu primeiro filme, em 1948, foi – e o título dá para indicar que tipo de coisa era – A Rainha do Congo. Em 1950, apareceu em nada menos que cinco filmes.

Pois é, 1950. Em 1950, dúzias de belas moças estavam começando ou tentando começar a carreira em Hollywood. Uma moça dois anos mais jovem que Cleo Moore, nascida Norma Jeane Mortenson, também apareceu em cinco filmes lançados em 1950; três sumiram na poeira da história, mas entre eles estavam A Malvada/All About Eve, de Joseph L. Mankiewicz, e O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle, de John Huston.

Cinco anos depois, em 1955, Norma Jeane-Marilyn Monroe era uma das maiores estrelas de cinema do mundo. Cleo Moore fez apenas um filme naquele ano, Mulheres Condenadas/Women’s Prision, um filme noir em que trabalhava também – coincidência ou não – Ida Lupino.

Seu último filme seria em 1957, Plano Infernal/Hit and Run, também um noir. Foi o único filme de sua carreira em que ela foi a protagonista, com seu nome em primeiro lugar nos créditos. Em 1961, casou-se com um magnata do ramo imobiliário; morreria de ataque cardíaco uma semana antes de completar 49 anos.

Nicholas Ray é um cineasta incensado, adorado

Um roteiro fracassado que resultou em atuações ruins. Foi o que escreveu o crítico do New York Times Bosley Crowther. “A história é um caso raso, irregular, escrito por A. I. Bezzerides a partir do livro Mad With Much Heart de Gerald Butler. A causa do sadismo do tira é apenas superficialmente explicada, e sua alegre redenção é fácil e romanticamente obtida. E, enquanto a mais irritante interpretação é dada por Ward Bond como o fazendeiro, Ida Lupino está enjoativamente teatral como a a moça cega que derrete o coração do tira. Apesar de toda a direção sincera e astuta e da fotografia notável nas sequências externas, esse melodrama da RKO. falha em atravessar seu terreno escolhido.”

“Falha em atravessar seu terreno escolhido”, sobre um filme que tem o título de “em terreno perigoso”, me parece um terrível trocadalho do carilho, mas vamos em frente.

Numa revista chamada Slant, Fernando F. Croce escreveu: “Situado entre o noir do final dos anos 40 e o drama policial de meados dos 50, este é um dos grandes e esquecidos trabalhos. Perigosamente próximo do piegas, o material adquire uma beleza quase transcendental nas mãos de Ray, um poeta da expressão angustiada: a dureza urbana em contraste com o campo austero, coberto de neve, em um dos efeitos mais desconcertantes de todo o filme noir. Apesar da violência e da intensidade contínua, é um filme impressionantemente puro.”

Nicholas Ray (1911-1979), cerca de 30 títulos como diretor no currículo, lançados entre 1948 e 1973, é endeusado por críticos, historiadores e cinéfilos em geral. Dele diz Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema – Os Diretores: “Ray ou o lirismo do homem ferido. Seria essa a razão pela qual ele é hoje em dia objeto de um verdadeiro culto nos Estados Unidos e na Europa, o que é comprovado pelo realizador Wenders, que não pára de lhe prestar homenagem?”

E depois: “Ray dedicava-se à pintura de personagens frágeis, feridos ou neuróticos. (…) A preferência por heróis vulneráveis é uma constante na sua obra.”

No seu Guide des Films, Jean Tulard escreve o seguinte sobre La Maison dans l’Ombre, a casa dentro da sombra: “Um filme comovente em que Ray retoma o tema de Violent: um homem solitário que fez da violência a mola propulsora de sua vida. Que a heroína que ilumina Wilson sobre suas motivações seja uma cega poderia derrubar o filme, mas Ray evita a armadilha graças ao talento de Robert Ryan e de Ida Lupino.”

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4: “Uma obra cheia de clima com o tira endurecido Ryan sendo suavizado pela moça cega Lupino, cujo irmão está envolvendo numa caçada humana no meio rural. Consta que a trilha de Bernard Hermann era seu trabalho favorito. Produzido por John Houseman.”

A menção a John Houseman é merecidíssima. O romeno de nascimento e americano por adoção John Houseman (1902-1988) teve uma importância imensa no cinema americano – e não apenas como ator em 48 filmes e produtor de 30 deles, inclusive alguns clássicos como Assim Estava Escrito (1952), de Vincente Minnelli, e Júlio César (1953), de John L. Manckiewicz, mas também como o responsável pela formação de gerações de atores, na respeitadíssima Juilliard School. Houseman era amigo particular de Ray, e ajudou-o a iniciar a carreira no cinema.

A passagem do tempo não causa prejuízos à imagem de Nicholas Ray e a seus filmes. No All Movie, um dos melhores sites de cinema que há, coisa moderna, trata-se com imenso respeito este filme de 1951. A crítica de Craig Butler começa assim:

“Obsessão, desespero e ódio permeiam as psiquês dos principais personagens masculinos de On Dangerous Ground, criado um filme sombrio, poderoso e inquietante. Que um dos personagens principais encontre a salvação – de forma convincente e persuasiva – através do poder da esperança e do amor é um testemunho da habilidade especial do diretor Nicholas Ray.”

 Anotação em dezembro de 2018

Cinzas Que Queimam/On Dangerous Ground

De Nicholas Ray, EUA, 1951

Com Robert Ryan (Jim Wilson), Ida Lupino (Mary Malden), Ward Bond (Walter Brent), Charles Kemper (Bill Daly), Anthony Ross (Pete Santos), Ed Begley (capitão Brawley), Ian Wolfe (xerife Carrey), Sumner Williams (Danny Malden), Cleo Moore (Myrna Bowers), Gus Schilling (Lucky), Frank Ferguson (Willows), Olive Carey (Mrs. Brent), Richard Irving (Bernie), Pat Prest (Julie), Bill Hammond (Fred), Ruth Lee (Helen), A.I. Bezzerides (Gatos), Tracey Roberts (Peggy Santos), Vera Stokes (mãe),

Roteiro A.I. Bezzerides

Baseado na novela Mad with Much Heart, de Gerald Butler

Adaptação de A.I. Bezzerides e Nicholas Ray

Fotografia George E. Diskant

Música Bernard Herrmann

Montagem Roland Gross

Produção John Houseman, RKO Radio Pictures. DVD Versátil.

P&B, 82 min.

**1/2

Título na França: La Maison dans l’Ombre. Em Portugal: Cega Paixão.

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