A Ternura / La Tenerezza

Nota: ★★½☆

O título, La Tenerezza, A Ternura (2107), promete mais do que o filme do diretor Gianni Amelio entrega, na minha opinião.

É o retrato de um homem solitário, fechado em si mesmo, um velho advogado aposentado que há anos não troca uma palavra sequer com os dois filhos, um homem e uma mulher, e, de repente, se encanta com uma nova vizinha que chega a seu prédio. Ao conviver com a jovem, uma mulher cheia de vida, “uma força da natureza”, como ele mesmo define numa conversa com o marido dela, volta a ter algum gosto pela vida.

A filha Elena trabalha como tradutora de árabe

O filme não começa com Lorenzo, o velho advogado, o protagonista da história (intepretado por Renato Carpentieri, nas fotos abaixo e acima, um bom ator de quem não me lembrava absolutamente). Começa com Elena, que, veremos depois, é a filha dele.

Elena (interpretada por Giovanna Mezzogiorno, na foto abaixo) trabalha como tradutora de árabe num fórum, um tribunal da cidade de Nápoles. Na primeira sequência do filme, Elena está servindo de intérprete para o juiz que faz perguntas e para o acusado de alguma coisa que responde a ele, um jovem africano que, ao que tudo indica, se refugiou ali no Sul da Itália.

– “Eu sou inocente, eu sou inocente”, ela traduz. O rapaz fala durante um tempo, e ela continua a se dirigir ao juiz: – “Ele diz que chegou à Itália há uma semana, que está desesperado, que a mulher dele morreu.” Faz uma pausa, e então diz: – “Senhor juiz, se me permite, ele está mentindo”.

A resposta do juiz é dura, grosseira. Não se dá ao trabalho de perguntar por que a tradutora afirma, com aparente certeza, que sabe que o acusado está mentindo: – “Não cabe à senhora dizer isso. Seu trabalho é traduzir. Faça seu trabalho.”

Corta, e vemos Elena dirigindo seu carro em meio a um trânsito infernal. Vai ao hospital, visitar o pai, que está internado se recuperando de um enfarte. Lorenzo está deitado de lado, olhos fechados. A filha se senta ao lado do leito, conversa com ele. Pergunta se ele está melhor. Conta que seu filho todos os dias pergunta pelo avô.

Depois conta como foi seu dia. Conta que prenderam mais um, um jovem de uns 18 anos. Ela sabia que ele estava mentindo porque, no corredor, antes do interrogatório do rapaz, viu o irmão dele, que falava ao telefone, contar fatos que desmentiam o que o preso diria ao juiz.

É como se estivesse falando para um paciente em coma: o pai não dá sinal algum de vida. Depois de algum tempo, ela vai embora.

Depois que Elena sai do quarto, Lorenzo abre os olhos.Olha para seu colega de enfermaria, um adolescente aí de uns 17 anos, que está vendo um jogo de futebol no laptop, e pergunta a ele quanto está, qual é o placar.

O velho se encanta pela moça que é uma força da natureza

Durante todo o tempo, o velho fingiu que dormia, para não falar com a filha. Mais tarde, aos poucos, através de um diálogo aqui, outro ali, ficaremos sabendo que Lorenzo não falava com os filhos desde que sua mulher morreu. Pouco tempo antes de morrer, sua mulher havia ficado sabendo que ele tinha uma amante, e a tristeza a abalou demais, como que acelerou seu sofrimento, piorou seu estado de saúde. Lorenzo teve a certeza de que tinha sido Elena, a filha, que havia contado para a mãe do caso dele com Rossana (Maria Nazionale).

Veremos, numa sequência em que Elena vai à casa de Rossana verificar se ela tinha notícias de Lorenzo, que o velho estava enganado. Não havia sido ela que contara à mãe sobre a amante.

Ao longo do filme, veremos que Lorenzo é um sujeito mal humorado, impaciente, amargurado, egoista. Um chato, um sujeito de mal com a vida. Rabugento, cínico, misântropo – como bem o definiu um leitor do IMDb, Guy Bellinger.

No entanto, ele se encanta com Michela – o papel da encantadora Micaela Ramazzotti, na foto abaixo, de A Primeira Coisa Bela (2010) e Loucas de Alegria (2016).

Fica conhecendo a moça ao chegar de volta ao prédio em que mora, assim que sai do hospital. Terminou de subir, com alguma dificuldade, é claro, as escadas – seu apartamento fica no último andar, que é o quarto, ou quinto – quando a vê. Está sentada nos degraus, diante do outro apartamento do andar. Ela o cumprimenta, e conta que saiu para comprar alguma coisa e quando voltou se lembrou de que havia esquecido a chave dentro de casa.

Os dois apartamentos do andar, o de Lorenzo e o que agora está ocupado pela moça, têm um pátio interno entre eles – e Lorenzo tem a chave da porta de trás do apartamento vizinho. Assim, ele convida Michela para entrar, e depois passar à casa dela pela porta que dá para o pátio.

A partir desse encontro casual, fortuito, o coração duro do velho se derrete pela moça que é uma força da natureza.

Ficará amigo dela, e de toda a família – o marido, Fabio (Elio Germano), e os filhinhos, garotos aí de menos de dez anos de idade, Bianca e Davide (Bianca Panicc e Giovanni Esposito).

Quando já se passaram uns dois terços dos 110 minutos do filme, acontece uma tragédia terrível, brutal, horrorosa.

O tom sombrio demais afasta o espectador

Em um site chamado Critical Movies Critics, Howard Schumann escreveu: “A solidão e a dor podem ser concomitantes com a velhice, mas os ferimentos podem muitas vezes ser auto-infligidos. Vagamente inspirado no romance As Tentações de Ser Feliz, de Lorenzo Marone, Tenerezza: Holding Hands, do diretor italiano Gianni Amelio (de Felice chi è diverso), é um olhar sobre o efeito produzido em uma família pela falta de comunicação e afeto entre Lorenzo (Renato Carpentieri, de Babylon Sisters), um orgulhosamente independente viúvo na casa dos 70 anos e seus filhos adultos Saverio (Arturo Muselli, de As Consequências do Amor) e Elena (Giovanna Mezzogiorno, de Come diventare grandi nonostante i genitori).”

E ele conclui assim: “Tenerezza: Holding Hands parece nos contar que as coisas na vida que mais nos nutrem, nossa habilidade de dar e receber amor, muitas vezes são bloqueadas por considerações que impedem que entremos em contato com nossa humanidade. Infelizmente, embora a mensagem do filme possa dizer respeito a todos nós, seu tom constantemente sombrio, uniforme, pouco faz para engajar a emoção, e a importante mensagem do filme se perde em sua execução imperfeita.”

Esse Howard Schumann fala, em linguagem de crítico de cinema, exatamente o que eu senti: o filme de Gianni Amelio não me tocou.

Talvez o problema seja meu. Talvez eu simplesmente não tenha entrado no espírito do filme, não tenha conseguido me sintonizar com ele. Pode perfeitamente ter sido isso.

O que me impressionou demais, mas demais da conta, foi como estão irreconhecíveis, mas absolutamente irreconhecíveis, duas atrizes que admiro muito, tanto pelo talento quanto pela incrível beleza: Greta Scacchi e Giovanna Mezzogiorno.

Greta Scacchi faz Aurora, a mãe de Fabio, sogra de Michela. Ela aparece pouco – basicamente, em algumas sequências já quando o filme se aproxima do fim, em conversa com Lorenzo.

Claro, Greta Scacchi não poderia estar, em 2017, ano de lançamento do filme, com o mesmo rosto de beleza acachapante, luminosa, alucinante com que interpretou a promotora Carolyn Polhemus em Acima de Qualquer Suspeita/Presumed Innocent, de 1990. Quando fez a mulher que enlouquece o colega interpretado por Harrison Ford, a atriz anglo-italiana estava com 30 aninhos. Em 2017, estava com 57, e é óbvio que 27 anos fazem imensa diferença. Mas, diabo, nesse papel de sogra de Michela ela parece ter muito mais de apenas 57 anos. É como se fosse outra pessoa, outro rosto, completamente diferente.

O filme teve 10 prêmios, fora outras 12 indicações

Como se fosse outra pessoa, outro rosto, completamente diferente também é o caso de Giovanna Mezzogiorno. E aí a mudança é ainda mais assustadora, porque em 2017 Giovanna Mezzogiorno estava com apenas 43 anos. Meu Deus, uma jovem!

Giovanna Mezzogiorno me impressionou demais, demais da conta, desde que a vi pela primeira vez, em A Janela da Frente, de Ferzan Ozpetek, de 2003. “É uma ótima atriz – além de ser uma mulher de beleza extraordinária, uma das mais belas que já apareceram no cinema nas últimas décadas”, anotei.

A admiração cresceu com A Fera no Coração, de Cristina Comencini, de 2005: “Essa moça Giovanna Mezzogiorno, romana, nascida em 1974, só um ano antes de Fernanda, é uma das grandes revelações de jovens atrizes das últimas décadas. É linda, lindíssima, a pele claríssima como uma folha de papel novo, como a lua cheia na mezzanotte sem estrela alguma, os olhos verdes claros brilhantes – e tem muito talento. A expressão de seu rosto luminosamente belo ao ouvir do irmão a história trágica de sua infância tenra, quando o filme já se aproxima do final, consegue transmitir como ninguém toda a tristeza imensa do mundo.”

E cresceu ainda mais com Vincere, de Marco Bellocchio, de 2009, em que ela faz Ida Dalser, a amante do ditador Benito Mussolini, mãe do filho dele Albino: “Giovanna Mezzogiorno é uma deusa. Sua beleza é um espanto, um encanto, a perfeição absoluta – nem Michelangelo conseguiria esculpir um rosto como o dessa atriz de imenso talento. (…) Em Vincere, interpretando a trágica Ida Dalser, Giovanna Mezzogiorno nos presenteia com uma das mais fascinantes atuações da história. É uma coisa marcante demais, inesquecível – como Helen Mirren como Elizabeth II em A Rainha, como Marion Cotillard em Piaf – Um Hino ao Amor.”

Pois é. Todas essas loas, toda essa admiração – e, ao ver a atriz agora fazendo o papel de Elena, a filha do protagonista da história, mulher triste, solitária, simplesmente não conseguia reconhecer Giovanna Mezzogiorno!

E não se passou tanto tempo assim, entre Vincere e este La Tenerezza. Apenas oito anos! A moça estava com apenas 43 – e parece uma velha senhora!

Seguramente foi intencional: o realizador quis deixar de lado a beleza resplandescente da atriz e ficar apenas com o talento dela. Mas eu fiquei bastante chocado.

Vejo agora que La Tenerezza teve 10 prêmios, fora outras 12 indicações, em festivais mundo afora. Mas não só em festivais. Foram nada menos que oito indicações ao David de Donatello, o Oscar italiano, concedido pela Academia Italiana de Cinema. Levou um prêmio, o de melhor ator para Renato Carpentieri. Mas foi indicado também nas categorias de melhor filme, melhor direção, melhor ator coadjuvante para Elio Germano, melhor atriz coadjuvante para Micaela Ramazzotti, melhor roteiro adaptado, melhor música, melhor desenho de produção.

Como eu falei: o problema pode ter sido meu, por não ter entrado em sintonia com o filme.

Anotação em julho de 2019

A Ternura/La Tenerezza

De Gianni Amelio, Itália, 2017

Com Renato Carpentieri (Lorenzo), Micaela Ramazzotti (Michela), Elio Germano (Fabio), Giovanna Mezzogiorno (Elena, a filha de Lorenzo), Greta Scacchi (Aurora), Maria Nazionale (Rossana, a amante de Lorenzo), Giuseppe Zeno (Giulio), Arturo Muselli (Saverio, o filho de Lorenzo), Hieb Khili (o tunisiano), Valerio Comparelli (o paciente no hospital), Enzo Casertano (o porteiro), Hedy Krissane (o egípcio), Fabio Cocifoglia (o notário), Bianca Panicci (Bianca, a filha de Michela e Fabio), Giovanni Esposito (Davide, o filho de Michela e Fabio)

Roteiro Alberto Taraglio

História de Gianni Amelio, com a colaboração de Alberto Taraglio & Chiara Valerio

Baseado no romance de Lorenzo Marone

Fotografia Luca Bigazzi

Música Franco Piersanti

Montagem Simona Paggi

Casting Marita D’Elia

Produção Pepito Produzione, RAI Cinema.

Cor, 110 min (1h50)

**1/2

Título nos EUA: Tenerezza: Holding Hands.

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