A Festa / The Party

Nota: ★★½☆

São todos grandes atores, dos melhores que há – e é um filme em que os atores são especialmente fundamentais: toda a ação se passa dentro de um único lugar, uma casa, e é quase em tempo real. Uma reunião de uns poucos grandes amigos, para uma comemoração – mas aí começa a dar merda, e não pára mais.

Ahnnn… Nada de muito novo. Mas, diacho, não dá para esperar nada de muito novo: o cinema já fez tudo o que é possível fazer.

E – repito – os atores são grandes, dos melhores que há: Kristin Scott Thomas, Timothy Spall, Patricia Clarkson, Bruno Kanz, Emily Mortimer. Há ainda uma atriz de que eu não me lembrava, igualmente ótima, Cherry Jones, e um jovem que vem sendo incensado, Cillian Murphy.

Sete atores, sete personagens – só sete personagens, reunidos na casa de dois deles, para celebrar um feito.

A diretora e autora do roteiro original, a inglesa Sally Potter, é a realizadora de Ginger & Roger (2012), um belo drama familiar sobre a amizade de duas garotas na Londres de 1962, auge da guerra fria, e do elogiado Orlando, a Mulher Imortal (1992),

Opa: tudo pronto para vermos um grande filme!

E no entanto não é. Na verdade, é uma grande de uma decepção.

Na minha opinião, é claro, e também na de Mary. Mas foi escolhido para participar da mostra competitiva de Festival de Berlim, e seguramente poderá agradar a muita gente.

Em parte, ao menos, é um problema específico meu: não consigo gostar de humor negro. Não entendo, não entro em sintonia.

Janet acaba de ser convidada para o shadow cabinet

É uma comédia de humor negro, ou o que alguns críticos chamariam de sátira social. Um filme feito para criticar o comportamento de um determinado estrato da sociedade inglesa, os intelectuais progressistas, liberais, de esquerda. Para gozar a cara deles, para demonstrar que eles têm muitos defeitos, que seu discurso não tem lastro com o que de fato sentem e fazem no dia a dia. Que, a rigor, a rigor, são ridículos, lamentáveis, fracos, uns basbaques.

Começa de maneira inusitada, surpreendente. A câmara está posicionada diante da porta de uma casa. A tomada é bem rápida, e o espectador provavelmente nem chega a perceber, mas é como se a câmara fosse os olhos da pessoa que chegou e tocou a campainha da casa.

A porta se abre, e a pessoa que abriu a porta, a personagem de Kristin Scott Thomas, tem uma expressão de raiva, de ódio incontido, de alguém absolutamente transtornado. Ela está segurando um revólver, e ergue o braço, apontando o revólver diretamente para a câmara – para os olhos da pessoa que acabou de chegar à sua casa.

A tomada é muito, mas muito rápida, coisa de um minuto. Aí corta, e vemos Kristin Scott Thomas na cozinha da casa, preparando uma refeição.

Enquanto trabalha, recebe um telefonema atrás de outro em seu celular, e vai agradecendo pelos cumprimentos que recebe.

Chama-se Janet, é uma política, e acaba de receber o convite para ser ministra da Saúde no shadow cabinet, o gabinete de sombra, o anti-Ministério formado pela oposição, uma tradição da política britânica.

Na ampla sala da casa, seu marido, Bill (o papel de Timothy Spall, na foto abaixo), está sentado em uma poltrona, copo de vinho na mão – e uma expressão estranha, muito estranha. Acabou de colocar um disco no toca-discos – sim, um disco de vinil, um rock tipo anos 70. Mas não parece estar ouvindo a música. Parece ausente, parece não estar ali, perdido em pensamentos, talvez, a cabeça no mundo da Lua – ou em algum outro lugar do universo, mas não ali, na sala de sua casa.

É uma expressão meio de um sujeito em surto. De louco.

Por duas vezes Bill repete – como se fosse um eco – uma palavra qualquer que Janet acabou de falar ao telefone com mais uma pessoa que ligou para cumprimentá-la.

Num dos telefonemas, Janet abaixa a voz, fala bem baixinho, sorridente, feliz – depois aumenta a voz de novo, agradece, fala tchau: não temos sequer 5 minutos de filme, e já sabemos que Janet, que acaba de ser convidada para assumir o Ministério da Saúde no shadow cabinet da oposição, tem um amante.

Uma boa gozação sobre as lésbicas fanáticas

Janet havia convidado três casais para jantar com ela e Bill, naquele dia, para celebrar o convite para o Ministério. Uma pequena festa, uma festa en petit comité.

Os primeiros a chegar são April (a americana Patricia Clarkson) e Gottfried (o suíço-alemão Bruno Ganz). April é a maior amiga de Janet, e dela ficaremos sabendo pouco – sequer a profissão dela é mencionada. O que é dito e repetido é que ela está cansada de Gottfried, os dois estão para se separar, e ela não acredita muito em política parlamentar, ao contrário da amiga.

Gottfried é uma figuraça. Parece um velho hippie fora de época. É um budista, apaixonado pela cultura indiana, crítico firme de muitos dos valores ocidentais, em especial, veremos, a medicina. Define-se com um personal healer, ou coisa parecida: um sujeito que dá conselhos aos outros sobre como se encontrar, como ser feliz.

April reclama que ele só fala clichês, e, de fato, Gottfried dirá, ao longo do filme, alguns clichês – com um ar de quem está entregando para o ouvinte a mais preciosa lição de vida.

O segundo casal é formado por duas mulheres de idades bem diferentes – Martha (Cherry Jones), que está aí com uns 60 e poucos anos, e Jinny (Emily Mortimer, na foto abaixo), de uns 40 e poucos. Martha chega primeiro, Jinny chega depois, vinda diretamente de uma consulta médica – e assim que entra na sala leva a companheira para um pequeno quintal da casa. As duas queriam ter filho, Jinny havia feito inseminação artificial, e acabara de saber que estava grávida não de um bebê, mas de três.

A veia satírica da autora e diretora Sally Potter estava a toda, e ela chegará mesmo a, remando contra a maré do politicamente correto, dar uma belíssima gozeira no excesso de valorização da arte e da ciência de ser gay. Lá pelas tantas, depois que se abre a temporada de tirar esqueletos do armário e a reunião se torna um desfilar de problemas, acusações, brigas, baixarias, torna-se público que, uns 40 anos antes, Martha havia trepado com um homem.

E aí Jinny fica absolutamente furiosa – não só com um irracional ciúme do passado, de algo que tinha acontecido 40 anos antes, mas também com nojo do fato de sua companheira ter chegado perto de um homem. Ela diz uma frase do tipo: – “Você trepou com um estuprador cheio de pelos no corpo!”

É uma das boas piadas do filme. Sim, A Festa tem boas piadas.

Martha tem que se dar ao trabalho de dizer para a jovem companheira que a) nem todo ser humano munido de pênis é um estuprador; e b) ser homo, gostar de mulher, não deve jamais significar ter ódio dos homens.

Não há um único personagem simpático, agradável

O outro casal convidado para a reunião que era para ser festiva é bem mais jovem que os donos da casa, que estão na faixa dos 60 e bastante. Ela se chama Marianne, fez tese sob a orientação de Bill – que é professor universitário – e trabalha junto com Janet. O marido dela, que April já havia descrito como “enormemente bonito”, chama-se Tom (o papel do irlandês Cillian Murphy, na foto acima), e mexe com finanças, ganha fortunas.

Tom chega sozinho, explica que Marianne chegará mais tarde.

É a expressão do desespero, o rapaz. Assim que chega, vai ao banheiro – e cheira uma grande carreirinha de cocaína. Está suando, está agitado, não consegue se controlar – e carrega uma arma, um revólver.

E não é necessário relatar mais nada. Feita a apresentação para o espectador dos sete personagens – sete, já que Marianne ainda não chegou –, está tudo pronto para começar a sessão de problemas.

São belas interpretações. É o que se poderia esperar desses grandes atores.

Por que, então, não gostei do filme?

Bem, tem a coisa do humor negro: como já disse, não entendo humor negro, não consigo me sintonizar.

Não gosto dessa coisa de filme (ou livro, ou peça, o que for) que só mostra defeitos das pessoas, que diz que todo mundo é chato, ou ruim, ou mau caráter, ou falso, ou hipócrita.

Acho que Sally Potter exagerou na quantidade de esqueletos que aquelas pessoas guardavam no armário. É problema demais. E todos são ruins, ou mesquinhos, ou falsos – e chatos.

Não há como gostar de um filme em que não há um único personagem simpático. Nem unzinho sequer.

A verdade é que todas as objeções que faço ao filme são questões de gosto pessoal meu – nada é demérito do próprio filme.

Então encerro com o parágrafo final da crítica sobre o filme publicada no site do grande crítico Roger Ebert; depois da morte de Ebert, o site tem sido mantido por um grupo de pessoas ligadas a ele. A crítica de The Party é assinada por Glenn Kenny, que se demonstra fã ardoroso de Sally Potter:

“Apesar de as coisas ficarem muito sérias, The Party nunca pára de ser engraçado, às vezes tremendamente engraçado. ‘Acredito na verdade e na reconciliação. Verdade e reconciliação’, diz uma Janet inteiramente destruída, perto do fim, segundos antes de começar a morder seu próprio punho. Filmado em um widescreen preto-e-branco avelulado, interpretado com a maior empenho pelo elenco irrepreensível, este é, na minha opinião, o primeiro grande filme de 2018.”

Anotação em outubro de 2018

A Festa/The Party

De Sally Potter, Inglaterra, 2017

Com Kristin Scott Thomas (Janet), Timothy Spall (Bill), Patricia Clarkson (April), Bruno Ganz (Gottfried), Cherry Jones (Martha), Emily Mortimer (Jinny), Cillian Murphy (Tom)

Argumento e roteiro Sally Potter

Fotografia Aleksei Rodionov

Montagem Emile Orsini e Anders Refn

Casting Irene Lamb e Heide Levitt

Produção Adventure Pictures, Oxwich Media

P&B, 71 min (1h11)

**1/2

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