Um Assaltante Bem Trapalhão / Take the Money and Run

Nota: ★★★☆

O primeiro personagem que Woody Allen criou para ele mesmo interpretar, em seu filme de estréia como diretor (e co-autor do roteiro), de 1969, é, como perfeitamente define o título brasileiro, um assaltante bem trapalhão.

Mais ainda que um assaltante, é um trapalhão. Sobretudo um trapalhão. Um sujeito atrapalhado, que não sabe fazer nada direito. Um estrupício ambulante.

O personagem, Virgil Starkwell, e o filme, Take the Money and Run, são engraçadíssimos, impagáveis. É uma piada atrás da outra, a uma velocidade avassaladora – ótimas gags visuais, com Woody-Virgil fazendo as mais absurdas asneiras, misturadas com ótimas piadas de texto.

Estava ali, muito obviamente, um baita talento cômico – um autor e ator que sabia fazer gags visuais e diálogos matadoramente engraçados.

Mas ainda faltava algo que fosse absolutamente inovador, criativo, novo. Um personagem marcante, só dele, que fosse sua marca registrada.

Sim, porque trapalhões, isso já havia de monte. Jerry Lewis havia criado o perfeito tipo trapalhão. O Carlitos de Chaplin, um dos pioneiros entre as personagens da comédia cinematográfica, tinha um lado bastante trapalhão. O Gordo e o Magro tinham seu lado trapalhão. O mesmo pode-se dizer de Bob Hope, e de tantos outros comediantes. Num distante, periférico país do Terceiro Mundo, a principal rede de televisão tinha, a partir exatamente de 1969, o mesmo ano de Take the Money and Run, um show que se chamava exatamente Os Trapalhões, uma criação de Renato Aragão – que seguramente se baseou bastante nos tipos criados por Jerry Lewis.

Depois de sua estréia em Take the Money and Run, Woody Allen levaria ainda oito anos, e cinco filmes, para criar o seu próprio Carlitos, o seu próprio Mon Oncle, a persona única e exclusiva dele – o artista-intelectual judeu nova-iorquino neurótico, inseguro, cheio de dúvidas, hipocondríaco, que faz análise há anos. Este personagem apareceu pela primeira vez em Annie Hall, de 1977 – e estaria presente a partir daí em vários dos filmes do autor.

Mas, a rigor, o assaltante bem trapalhão Virgil Starkwell já tinha alguns dos tiques da persona que viria depois. E já era, repito, afortunadamente impagável.

Em 1969, aos 34 anos de idade, Allan Stewart Konigsberg chegava anunciando ao mundo que ali estava um realizador de talento.

Viria a ser simplesmente um dos melhores do mundo.

Não há uma “narrativa completa”, mas tem uma belíssima sacada

O roteiro é assinado por ele e Mickey Rose, que era seu amigo de infância – e seria também o co-autor do segundo filme dirigido por Allen, Bananas (1971).

Eric Lax, autor do esplêndido livro Conversas com Woody Allen, diz que os dois primeiros filmes do autor – este aqui e Bananas são “uma série de piadas enfileiradas”, enquanto o terceiro, Tudo o Que Você Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar, é uma série de esquetes curtos; apenas no quarto, O Dorminhoco (1973), ele conseguiu construir “uma narrativa completa”.

É bem verdade. Um Assaltante Bem Trapalhão é uma série de piadas enfileiradas – uma atrás da outra, como disse pouco acima. Não há propriamente uma história redonda, “uma narrativa completa” – mas há uma bela idéia, uma sacada inteligente dos autores Woody Allen e Mickey Rose: o filme é apresentado como se fosse um documentário. Um documentário sobre o assaltante Virgil Starkwell, que foi preso diversas vezes e se tornou uma figura falada na imprensa, um nome conhecido.

Assim, temos um narrador, com uma voz um tanto empolada, como nos antigos cinejornais, que vai relatando a vida de Virgil Starkwell, desde a infância até a maturidade. O Virgil garoto é interpretado por Mitchell Tunick, que de fato parece com o que deve ter sido Woody Allen garoto. A voz, ótima, que lê o texto escrito por Allen e Rose, imitando a linguagem séria e cheia de chavões dos cinejornais, é de Jackson Beck, e era conhecidíssima do público americano. É de Jackson Beck a voz que introduzia cada episódio do Super-homem tanto na TV quanto no rádio; durante mais de 20 anos, fez a voz nos comerciais da Little Caesar Pizza.

Entremeando as trapalhadas de Virgil Starkwell, há depoimentos de pessoas que o conheceram – exatamente como nos documentários. Uma professora. Um psiquiatra que o examinou na cadeia durante uma de suas prisões. Seu pai e sua mãe – que, para não serem reconhecidos, usam máscaras horrendas, com bigodões que fazem lembrar o bigode de Grouxo Marx – uma das claras influências de Woody Allen em seus primeiros filmes.

Pai e mãe são interpretados por Henry Leff e Ethel Sokolow, e as sequências em que eles aparecem são hilariantes. Mas essa afirmação é chover no molhado, porque todas as sequências são muito engraçadas mesmo.

A mãe está sempre tentando defender o filho, dizendo que ele era uma criança boazinha, que tinha qualidades, e o pai, bravíssimo, diz que o filho nunca prestou, é um canalha, um bandido.

Um Assaltante Bem Trapalhão é tido como o precursor de uma tendência, de uma série de filmes que viria depois – o falso documentário, o que os americanos chamam de mockumentary, junção de mock (zombaria, imitação, coisa falsa) com documentary. (Vejo agora que a Wikipedia em Português usa os termos pseudodocumentário e mocumentário, este último um anglicismo sem sentido para quem não conhece a palavra mock.)

Nada mal para um estreante.

Uma ferina gozação dos que defendem a tese de que os bandidos são coitadinhos

O filme faz uma grande gozação sobre os estudiosos de psicologia dos criminosos, dos antropólogos e dos acadêmicos em geral “de esquerda” que defendem a tese de que os criminosos são produtos do meio social violento, de famílias desestruturadas, da pobreza, da miséria – da injustiça social, do capitalismo, em suma. A velha tese de que a sociedade, o sistema têm culpa pelo fato de os bandidos serem bandidos – o bandido mesmo não tem culpa nenhuma, é um coitadinho.

O narrador do documentário sempre enfatiza que as origens de Virgil Starkwell foram modestas, que sua família era muito pobre, quase miserável, que ele cresceu em um bairro de altíssimo índice de criminalidade – tudo que a rigor é desmentido pelas imagens que vemos: o bairro em que ele cresceu não é nada miserável, é classe média média, normal, e, da imensa violência do lugar, a tela mostra que são as brincadeiras bestas de qualquer turma de garotos de qualquer lugar do mundo.

Nesse sentido, nessa gozação às teorias “de esquerda” sobre as origens da criminalidade, Um Assaltante Bem Trapalhão se aproxima de Uma Jovem Tão Bela Como Eu/Une Belle Fille Comme Moi (1972), de François Truffaut, em que um um sociólogo, trouxa, inocente (interpretado por André Dussollier), se apaixona por seu objeto de estudo, uma presidiária absolutamente malandra, safada, sacana (interpretada por Bernadette Lafont), e é feito de gato e sapato por ela.

Estreante na direção, Allen tinha já, no entanto, experiência como roteirista

Embora estreante na direção, Allen já tinha experiência como roteirista. Escreveu os roteiros de shows, séries e filmes de TV, entre 1956 e 1963; em 1965, fez o roteiro de Que Que Há, Gatinha?/What’s New, Pussycat?, que Clive Donner dirigiu, e em que ele trabalhou como ator ao lado de Peter Sellers, Romy Schneider e Peter O’Toole. E, em 1966, criou os diálogos para superpor aos originais de um filme japonês dirigido por Senkichi Taniguchi; era um filme de ação, de espionagem, e Allen inventou uma história maluca sobre uma receita de salada e fez os diálogos em inglês – absolutamente distantes do que se falava originalmente. Há quem considere essa bobagem, O Que Há, Tigresa?/What’s Up, Tiger Lily? (1966) como seu primeiro filme como diretor.

Ou seja: ao dirigir este Um Assaltante Bem Trapalhão, era um diretor estreante – mas já tinha alguma experiência no cinema.

O filme foi produzido por Jack Rollins e Charles H. Joffe. Os dois são amigos de Woody Allen, e o acompanharam ao longo de toda a sua carreira – participaram da produção de todos seus 46 filmes.

O primeiro dia de Woody Allen como diretor foi na lendária San Quentin

A ação se passa no Estado de Nova Jersey, mas, por questão de economia, decidiu-se que as filmagens seriam em San Francisco e região. Diversas das cenas em que Virgil está preso foram feitas em San Quentin, um dos presídios mais famosos dos Estados Unidos, na Baía de San Francisco, ao Norte da cidade. O primeiro dia de filmagens – o primeiro dia de Woody Allen como diretor – foi exatamente em San Quentin.

Cerca de cem presidiários de San Quentin trabalharam como figurantes. Os atores e os membros das equipes técnicas recebiam, na entrada, um carimbo com uma tinta especial que brilhava diante de luz ultra-violeta, de forma a que os guardas pudessem deixá-los sair ao final do dia.

“Para mim, a maior emoção foi ir para a Penitenciária San Quentin, no primeiro dia de filmagem”, Allen conta no livro de Eric Lax. “A excitação não era ‘estou fazendo o primeiro dia de meu primeiro filme’, mas ‘hoje vou para San Quentin, e vou ver aqueles caras nas celas, e a cozinha e a fábrica de juta’. Estava mais excitado com isso do que com fazer o filme.”

Eric Lax pergunta então se foi quando as autoridades responsáveis pelo presídio disseram “Se fizerem vocês reféns, nós não vamos salvar”. Woody Allen responde:

“Foi o que nos disseram. Disseram: ‘Faremos de tudo para tirar você, mas não vamos deixar ninguém sair. Então, fiquem em grupo’. E os presidiários pareciam contentes de estarmos lá. Quebrei a monotonia daqueles dias para eles. E ficaram contentes de fazer figuração no filme. Demos maços de cigarros para eles, que era o que eles queriam. Não tínhamos autorização para lhes pagar. Agora eu teria ficado apavorado. Mas na época não me incomodou nada. Voltamos lá duas semanas depois, para refilmar uma cena, e eu reconheci um cara da primeira filmagem e disse: ‘Oi, ainda está por aqui?’ Ele riu.”

Allen reconhece que o veterano montador Ralph Rosenblum salvou o filme

Woody Allen reconhece, nas entrevistas que deu a Eric Lax, que quem salvou Take the Money and Run, quem impediu que o filme fosse uma porcaria, uma coisa horrorosa, foi o experiente, veterano montador Ralph Rosenblum.

No primeiro corte que Woody Allen fez, o filme terminava com o protagonista Virgil Starkwell sendo morto por policiais, fuzilado com diversas balas, à la Bonnie & Clyde, de Arthur Penn. Um horror para uma comédia, é claro. E Allen ainda detalha que a perna dele tremia, agitava-se sem parar, toda manchada de sangue. A intenção dele era dar em seguida um toque de humor (ainda que bem negro): quando Louise, a mulher de Virgil, ia visitar o túmulo dele, com o filhinho do casal, ela ouviria uma voz lá de dentro: – “Me tirem daqui…”

Jack Rollins e Charles H. Joffe convenceram o rapaz a chamar Ralph Rosenblum.

Uma das primeiras coisas que o grande montador fez foi sugerir tirar fora aquele final sangrento, aterrorizante.

Pediu para ver todo o material filmado – e não apenas aquela versão já montada, aquele primeiro corte. Encontrou diversas boas piadas que Allen havia jogado fora.

Reestruturou toda a história. Pegou a entrevista com os pais de Virgil, e a dividiu em várias tomadas espalhadas ao longo do filme. Passou a usar as diversas entrevistas entre as sequências que não têm muito a ver com o que vinha a seguir, dando uma unidade que antes a narrativa não tinha.

Ralph Rosenblum pediu a Allen que escrevesse novos trechos de falas para o narrador, para ajudar a unir sequências que não tinham ligação uma com a outra – e depois contou ter ficado impressionado com a rapidez, a facilidade com que o diretor reaparecia pouco depois na sala de montagem trazendo falas que se encaixavam perfeitamente dentro do que o montador queria.

“Sinto que o Ralph me salvou nesse filme”, diz ele no livro Conversas com Woody Allen.

O nome de Ralph Rosenblum não aparece nos créditos de Take the Money and Run. Mas aparece nos dos filmes seguintes: Allen o chamou para montar Bananas, O Dorminhoco, A Última Noite de Bóris Grushenko e Annie Hall.

Louise Lasser, que era a mulher de Allen, ganhou um pequeno papel

Segundo o IMDb, Woody Allen chegou a considerar a possibilidade de colocar sua mulher, Louise Lasser (na foto acima), no papel de Louise, a moça que o protagonista pensa em assaltar, num parque, e depois vira sua namorada e em seguida esposa. Ele e os produtores acabaram, no entanto, optando por dar o papel de Louise a Janet Margolin (na foto abaixo), uma bela atriz que começou a carreira no teatro, na Broadway, e fez sucesso em alguns filmes dos anos 60: A Maior História de Todos os Tempos, Na Voragem do Amor, Morituri (todos eles lançados em 1965) e Nevada Smith (1966).

Ela está muito bem como a moça tímida que se apaixona pelo sujeito trapalhão que mente para ela dizendo ser violoncelista. Foi seu primeiro trabalho em comédia, e ela disse em entrevistas ter adorado trabalhar com Allen, e que tinha sido extremamente divertida a experiência.

Allen daria a Janet Margolin um papel em Annie Hall, de 1977. A atriz, no entanto, não teria mais muita sorte na carreira. Morreria em 1993, com apenas 50 anos de idade.

Louise Lassiter ganhou um papel no filme de estréia do marido. Allen a colocou no papel de uma vizinha de Virgil Starkwell que dá uma entrevista à “equipe de documentaristas” que está fazendo o filme sobre a vida dele. A vizinha conta que ficou absolutamente espantada ao saber que aquele “idiota” que ela via no seu bairro era um conhecido criminoso.

Louise Lasser foi a segunda mulher de Allen entre as de papel passado. Seu primeiro casamento foi com Harlene Susan Rosen, e durou entre 1956 e 1962. O com Louise Lasser durou de 1966 a 1970. A atriz trabalhou também em Bananas e Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo – e continua na ativa.

Um registro que tem que ser feito: Allen voltaria ao tema do ladrão pé de chinelo, rastaquera, 31 anos mais tarde, em Trapaceiros/Small Time Crooks (2000). Já era, claro, um cineasta absolutamente experiente, maduro – e o filme é tão engraçado quanto este aqui.

“O mais amado e respeitado artista cômico desde os dias do cinema mudo”

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 ao filme, e fez um comentário bastante sucinto: “O primeiro filme de Woody como diretor/escritor/estrela é cheio de idéias engraçadas, contando, em estilo documentário, a história da vida de um ladrão compulsivo. Uma parada sem fim de piadas; algumas funcionam, outras não, mas que as que são boas são um arraso! Louise Lasser é vista rapidamente.”

O livro The Films of the Sixties, de Douglas Brode, observa que Take the Money and Run não é um filme que tenta contar uma história com base na realidade – é um filme que conta uma história baseado no jeito com que as histórias são contadas nos filmes. As cenas dentro do presídio, por exemplo, demonstram que Woody Allen viu os diversos filmes dos anos 40 e 50 passados em presídios. A sequência em que Virgil começa a namorar Louise se parece com sequências de Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch.

O autor conclui o texto sobre o filme assim:

Take the Money and Run estabeleceu Woody como o Chaplin dos anos 70: a consciência cômica central do nosso tempo, e o único artista do cinema capaz de pegar experiências de sua vida pessoal, combiná-las com sátira do que acontecia na sociedade contemporânea, e oferecê-las como homenagens a memoráveis filmes do passado. Seus filmes iriam iluminar a década seguinte: Bananas, O Dorminhoco, A Última Noite de Bóris Grushenko, todos provaram a engenhosidade intelectual de Allen, seu calor pessoal, e o senso de humor auto-depreciativo que foram as marcas registradas do mais amado e respeitado artista cômico desde os dias do cinema mudo. O Pequeno Vagabundo de Chaplin finalmente encontrou seu igual no inseguro sobrevivente dos 60 e 70 criado por Allen.”

Uau! É isso aí. É bem isso aí!

Anotação em setembro de 2017

Um Assaltante Bem Trapalhão/Take the Money and Run

De Woody Allen, EUA, 1969

Com Woody Allen (Virgil Starkwell)

e Janet Margolin (Louise), Marcel Hillaire (Fritz, o “diretor” do filme do assalto), Jacquelyn Hyde (Miss Blair), Lonny Chapman (Jake, um dos presos), Jan Merlin (Al, um dos assaltantes de banco), James Anderson (diretor de prisão), Howard Storm (Fred), Mark Gordon (Vince), Micil Murphy (Frank), Minnow Moskowitz (Joe Agneta), Nate Jacobson (o juiz), Grace Bauer (a mulher da fazenda), Henry Leff (Mr. Starkwell, o pai), Ethel Sokolow (Mrs. Starkwell, a mãe), Dan Frazer (o psiquiatra), Mitchell Tunick(Virgil Starkwell garoto), Mike O’Dowd (Michael Sullivan), Jackson Beck (a voz do narrador), Louise Lasser (Kay Lewis)

Argumento e roteiro Woody Allen e Mickey Rose

Fotografia Lester Shorr

Música Marvin Hamlisch

Montagem Paul Jordan e Ron Kalish

Casting Marvin Paige

Cor, 95 min (1h25)

Produção Jack Rollins & Charles H. Joffe Productions, ABC Pictures Corporation, Palomar Pictures International

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Título na França: Prends l’oseille et tire-toi! Em Portugal: O Inimigo Público.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Café Society em 30 Abril 2018 às 4:07 pm

    […] Woody Allen disse, em entrevista e em alguns de seus belos filmes, que, diferentemente do que ensinam os livros de auto-ajuda, as pessoas precisam, para serem felizes, de uma boa dose de sorte. […]

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