The Crown – A Segunda Temporada

Nota: ★★★★

The Crown é um brilho, uma maravilha, um primor. Embora não tenha passado em sala de cinema, nas telas gigantescas – é uma produção original da Netflix, para distribuição via streaming, essa absoluta modernidade que pula portanto as salas e até mesmo os meios físicos, DVD e Blu-ray –, é cinema da melhor qualidade. Cinema para cinéfilo nenhum botar defeito. 

O parágrafo acima abriu meu comentário sobre a primeira temporada de The Crown, em novembro de 2016. Repito agora porque ele serve  perfeitamente para definir a segunda temporada.

 

É um luxo só, um deslumbre, em todos os aspectos artísticos e artesanais, técnicos.

E é também, ou sobretudo, uma absoluta maravilha como reconstituição de fatos históricos importantes, fundamentais, que marcaram o século XX. Um presente para todas as pessoas que se interessam pela História – tanto as que conhece bem os acontecimentos desse passado recente que moldaram o mundo de hoje, tanto para os que apenas ouviram falar de alguns deles.

Estão lá a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, os conflitos em torno do Canal de Suez nos anos 1950, a corrida espacial, o enfraquecimento do governo do primeiro-ministro Anthony Eden e sua substituição por Harold Macmillan, a ascensão de John Kennedy no cenário mundial, o escândalo Profumo…

Com revelações fascinantes sobre cada um desses eventos e a participação neles, é claro, da Rainha Elizabeth II e sua família.

E, naturalmente, sobre os vários, variados, diversos casos e histórias e crises envolvendo a família real mais famosa do mundo – dos mais conhecidos, como o casamento da princesa Margaret com o fotógrafo plebeu e nada convencional Tony Armstrong-Jones, até segredos que haviam sido muito bem guardados sobre intimidades da família e as crises conjugais.

Uma absoluta preciosidade.

Um curso de História contemporânea e, ao mesmo tempo, uma novela fascinante

A primeira temporada de The Crown, produzida e lançada em 2016, focaliza fatos ocorridos nos últimos anos do reinado de George VI da Grã-Bretanha e do início do de sua filha Elizabeth II – mais exatamente entre 1947 e 1955 -, com um ou outro flashback para contextualizar os eventos.

Esta segunda temporada, produzida em 2017 e lançada em dezembro daquele ano, abarca o período entre 1956 e 1963. Como na anterior, no entanto, inclui também flashbacks, que relatam fatos bem anteriores, fundamentais para a compreensão dos acontecimentos do período abordado – e das personalidades dos principais personagens.

Essa magnífica, extraordinária série criada por Peter Morgan, um especialista em roteiros baseados em fatos reais e especificamente em Elizabeth-II-logia, é uma aula de História contemporânea. Melhor dizendo, um curso de História contemporânea – mas passa longe, muito longe, de qualquer coisa parecida com lições cansativas, enfadonhas.

Muito ao contrário: Peter Morgan e os outros profissionais que dividiram com ele a autoria dos roteiros dos dez episódios desta segunda temporada souberam, com talento incomum, alinhavar, juntar, entrelaçar fatos da Grande História com aqueles muitos eventos da vida pessoal da Rainha Elizabeth II (Claire Foy), seu marido Philip (Matt Smith), seus filhos e parentes mais próximos.

O que se apresenta para o espectador tem o sabor de uma novela – uma boa, excepcional, perfeita novela, com personagens fascinantes, conflitos, imprevistos, novos problemas, tensões. Muito drama. Pathos a dar com o pau.

Assim, aqui vai um conselho ao eventual leitor que ainda não viu a segunda temporada de The Crown e veio dar neste texto: a partir daqui, serão relatados alguns eventos mostrados nos dez episódios. A rigor, relatar isso é spoiler – é informação que atrapalha o prazer de se acompanhar a série e ser surpreendido pelos fatos mostrados.

Se você ainda não viu, não leia a partir de agora. Veja a série.

A série banca que as ligações do duque de Windsor com o nazismo foram profundas

De todas as informações surpreendentes desta segunda temporada – e foram muitas para mim, que julgava conhecer um pouco da História e das histórias em torno de Elizabeth II –, as mais absolutamente espantosas são aquelas mostradas no episódio 6, “Vergangenheit (passado), sobre Edward Albert, o rei Edward VIII. Edward VIII foi o que reinou por menos de um ano, em 1936, e abdicou ao trono, sendo sucedido por seu irmão, o rei George VI, o pai de Elizabeth II.

Eu me lembrava que Edward, o duque de Windsor, teve alguma simpatia ou alguma proximidade com o nazismo. Lembrava disso vagamente – uma memória muito, mas muito mais vaga do que pelo resto da história dele, o rei que abdicou ao trono apaixonado por uma americana divorciada, Walis Simpson, e então viveu o resto da vida com ela em Paris, torrando dinheiro que não trabalhou para merecer.

Outros filmes já falaram da história do rei Edward VIII, depois duque de Windsor.

Em 2011, Madonna fez um filme sobre a história de amor entre o rei e a americana, W.E. – O Romance do Século/W.E. – o W de Wallis, o E de Edward. Ele é interpretado por James D’Arcy e ela, por Andrea Riseborough, Gostei muito do filme – mas, pelo que me lembro, não se fala das relações dele com o nazismo.

Edward VIII é interpretado por Guy Pearce em O Discurso do Rei/The King’s Speech (2010), o maravilhoso filme de Tom Hooper centrado exatamente nos meses em torno da abdicação e da ascensão de seu irmão George VI, o rei do título, que teve que lutar contra a gagueira ao ser surpreendido quando a coroa do maior império do mundo caiu de repente sobre sua cabeça. O grande Colin Firth teve uma das melhores interpretações de sua carreira como George VI.

Na primeira temporada de The Crown, aqueles meses de 1936 são mostrados também, é claro, em diversos flashbacks. George VI é interpretado pelo ótimo Jared Harris, e vemos naquelas sequências suas filhas Elizabeth e Margaret ainda garotinhas. Edward VIII é interpretado por Alex Jennings (na foto abaixo), e Wallis Simpson, por Lia Williams.

Edward VIII e Wallis Simpson aparecem de novo nesta segunda temporada, e aparecem bastante – o episódio 6 é todo ele voltado para a figura do rei que durou pouco e abdicou.

The Crown afirma que as ligações de Edward VIII com o nazismo foram fortes, intensas. Mostra que Wallis Simpson foi ao mesmo tempo a mulher de Edward VIII e amante de Joachim von Ribbentrop, o ministro de Relações Exteriores da Alemanha nazista, o sujeito que deu o nome ao infame Pacto Molotov-Ribbentrop, o tratado de não-agressão assinado em Moscou em 23 agosto de 1939 entre os regimes de Hitler e Stálin – poucos dias antes da invasão da Polônia simultaneamente por tropas nazistas e soviéticas, em 1º de setembro de 1939, que marcou o início da Segunda Guerra Mundial.

Pois The Crown mostra que Edward VIII tentou fazer a Grâ-Bretanha se aliar à Alemanha nazista, nos anos que precederam o início da guerra em setembro de 1939.

E pior ainda, muito pior ainda: já usufruindo de seu rico, luxuoso exílio na França então ocupada, o duque de Windsor ainda forneceu à Alemanha nazista informações sobre um pretenso enfraquecimento das forças britânicas durante a guerra, enquanto Londres era bombardeada pelos aviões da Luftwalle, a fim de tentar um cessar-fogo entre Alemanha e a Grã-Bretanha que permitisse sua volta ao trono.

Que absurda sorte da da Grã-Bretanha que Edward VIII abdicou do trono

Não sei se essas informações já eram de pleno conhecimento na Grã-Bretanha ou parte delas foi revelada pela série. Imagino que sejam verdadeiras, que se baseiem em fontes fidedignas. The Crown mostra que documentos oficiais comprovam tudo isso. O episódio 6 começa com um flashback: na Alemanha logo após a rendição final do nazismo, em meados de 1945, um oficial entrega a americanos uma caixa de documentos ultra-secretos que ele havia guardado como garantia de escapar de uma quase inevitável prisão após a vitória dos aliados, que àquela altura já parecia inevitável.

O governo americano ficou de posse daqueles documentos, mas passou cópia deles para o governo britânico. A série mostra que o próprio primeiro-ministro Winston Churchill (na única aparição dele nesta segunda temporada, interpretado, como ao longo de toda a primeira, por John Lithgow), ao examinar os documentos, tratou deles diretamente com o rei George VI.

Os documentos foram guardados a sete chaves, como ultra-secretos. Até serem descobertos, no finalzinho dos anos 50, mais de dez anos após o fim da guerra, por historiadores britânicos. As autoridades do arquivo oficial levaram o caso a seus superiores, até chegar ao primeiro-ministro, que então o levou ao conhecimento da rainha Elizabeth.

O marido, Philip, a rainha mãe (Victoria Hamilton), o antigo chefe administrativo do Palácio de Buckingham, Tommy Lascelles (Pip Torrens), todos se unem para mostrar a Elizabeth que havia informações ainda mais absurdamente comprometedoras contra seu tio do que aquelas contidas naquela documentação nazista.

Esse episódio 6 da segunda temporada de The Crown é bem realizadíssimo, como todo o resto da série – mas é absolutamente chocante, apavorante.

Apavorante, tremendamente apavorante.

A gente fica com a sensação de que Deus é inglês – e democrático.

Que absurda sorte da Inglaterra, da Grã-Bretanha, do mundo, do planeta, que esse pulha desse Edward VIII abdicou do trono e foi substituído por seu irmão mais novo e, pela impressão que se tinha na época, menos preparado.

Que absurda sorte foi que o soberano britânico em 1939 era o rei George VI, e não o irmão filo-nazista dele.

Claro: e que absurda sorte, também, que em 1940 o primeiro-ministro era Winston Churchill.

Anthony Eden e Hardol Macmillan são mostrados como políticos fracos

No período abordado nesta segunda temporada, de 1956 a 1963, tiveram audiências semanais com a rainha Elizabeth II três primeiros-ministros, todos do Partido Conservador: Anthony Eden (abril de 1955 a janeiro de 1957), Harold Macmillan (janeiro de 1957 a outubro de 1963) e Alec Douglas-Home (outubro de 1963 a outubro de 1964).

Este último aparece pouquíssimo nesta segunda temporada da série.

Na primeira temporada, The Crown mostrou Winston Churchill como um grande estadista – com alguns defeitos, é claro, mas, no cômputo final, um grande estadista. Já o retrato de seus sucessores na série não é nada bom.

Anthony Eden (o papel do sempre bom Jeremy Northam) é mostrado aqui como um homem fraco, hesitante. A série atribuiu a ele boa parte da responsabilidade pela crise com o Egito de Gamal Abdel Nasser, com o país tomando dos ingleses a administração do Canal de Suez. E mostra que todas as ações do governo Eden a partir daí foram equivocadas e levaram a novos equívocos. Quando Eden deixou o governo, a Grã-Bretanha estava mergulhada em grave crise econômica e tinha perdido bastante de sua importância na geopolítica mundial.

Harold Macmillan (interpretado por Anton Lesser) não tem melhor tratamento na série. Também é mostrado como um homem tíbio – embora seu governo tenha sido melhor que o anterior.

The Crown acentua bastante o fato de que a mulher de Macmillan teve uma longa relação extra-conjugal, que era de conhecimento de muita gente, inclusive e principalmente do próprio político. Era – pelo que a série mostra – um casamente pavoroso, que só se mantinha porque os políticos evitavam como podiam o divórcio.

Todo mundo trai todo mundo – mas divórcio era fora de questão

Traições, casos extra-conjugais – disso há absoluta fartura em The Crown. A sensação que se tem é de que infidelidade é o esporte preferido de 11 em cada 10 ingleses. Apesar disso, e apesar do alto grau de civilização e civilidade daquele povo, havia naquela época uma imensa rejeição ao divórcio entre as figuras públicas.

Para a família real, então, divórcio era algo a ser evitado como se fosse o maior pecado, o crime mais abjeto.

Esta segunda temporada começa no auge de uma crise no casamento da rainha com Philip. Um letreiro informa que estamos no dia 16 de fevereiro de 1957, no porto de Lisboa: dezenas de jornalistas estão no porto, diante do navio real Britannia ancorado ali. Lá dentro, Elizabeth e Philip estão tendo uma DR – só que discussão de relação entre a rainha da Grã-Bretanha e seu marido é bem diferente das DRs das pessoas comuns.

A rainha tinha acabado de receber um telefonema do secretário de imprensa do Palácio. E ela diz para Philip que os rumores sobre a crise conjugal deles não cessaram.

– “Acho que nós dois concordamos que não podemos continuar assim. Pensei em aproveitar essa oportunidade, sem as crianças, sem distrações, para colocarmos as cartas na mesa e termos uma conversa franca, para variar, sobre o que precisamos mudar para que este casamento funcione.”

Philip diz: – “Certo. Quem começa? Pergunta idiota. Eu já deveria ter aprendido que sempre falo depois.”

Elizabeth: – “Se eu falar primeiro, vou começar por aí. Suas queixas. (…) Você choraminga feito uma criança.”

Depois de algum tempo, no meio da conversa duríssima, em que os dois estão absolutamente tensos, ela sintetiza a questão do divórcio.

– “Sei que este casamento acabou sendo bem diferente do que imaginávamos. E que estamos numa situação que é única. A saída que existe para todo mundo…”

Ele a interrompe: – “O divórcio.”

E ela: – “Sim. O divórcio. Não é uma opção para nós.”

Por mais de uma vez, o espectador é lembrado, ao longo da série, que a rainha da Inglaterra é a líder da Igreja Anglicana – acima mesmo do bispo de Canterbury. E a Igreja Anglicana se opunha fervorosamente ao divórcio.

A segunda temporada começa num momento de grande crise conjugal

Philip se incomodava com sua posição subalterna, secundária. Não suportava ter suas ações definidas pelo staff do palácio, dirigido primeiro por Tommy Lascelles, depois por Michael Adeane (Will Keen). Não aguentava ter o título de nobreza – duque de Edimburgo – inferior ao do filho – Charles, o herdeiro, é o príncipe de Gales.

Exatamente para tentar contornar essa situação toda foi que, cinco meses antes daquela discussão a bordo do Britannia, Philip havia iniciado uma longa viagem ao redor do mundo, representando a família real em eventos em diversos países da Commonwealth, a comunidade britânica, as nações que haviam sido colonizadas pelos britânicos. A turnê tinha incluído a abertura da Olimpíada de Melbourne, na Austrália. Elizabeth achava que o marido se sentiria importante nessas visitas a diversos países – e ao mesmo tempo teria um tempo para se distanciar do controle do staff do Palácio.

Depois de começar a narrativa nesse ponto de tensão aguda – o reencontro de Elizabeth e Philip ao final da viagem dele de cinco meses ao redor do mundo –, voltamos no tempo, para meados de 1956, exatamente a época em que surgiu a idéia da excursão dele.

No dia em que Philip iria partir para a viagem, a rainha descobre, numa maleta dele, onde ela iria colocar um presente, o retrato de uma bailarina. Elizabeth não confronta o marido – e passará os cinco meses de ausência dele se corroendo com ciúme de possíveis amantes de Philip.

The Crown não foge, de forma alguma, de aspectos dolorosos, difíceis, da vida da rainha e das pessoas que a cerca. Muito ao contrário: vai fundo em revelações que são sem dúvidas embaraçosas para a família real. No entanto, não afirma, não diz explicitamente que Philip traía a mulher. Deixa o espectador com a impressão de que ele teve casos, e que era mesmo chegado a comer profissionais – mas não é jamais algo explícito, preto no branco.

Um episódio é dedicado a Philip, sua adolescência, e sua relação com Charles

No último episódio desta segunda temporada, “Homem Misterioso/Mystery Man, The Crown deixa implícito que Philip frequentou as mesmas festas promovidas pelo médico osteopata Stephen Ward – regadas a muita bebida e belas prostitutas de luxo – às quais ia também John Profumo, o político conservador que foi ministro da Guerra do governo Macmillan e deu nome a um dos grandes escândalos políticos da Grã-Bretanha durante a Guerra Fria.

Profumo tornou-se amante de uma jovem modelo chamada Christine Keeler – que, logo se soube, era também amante de Yevgeni Ivanov, adido militar na embaixada soviética em Londres. Christine aparece rapidamente no episódio, interpretada por uma moça chamada Gala Gordon. Quando o explosivo triângulo amoroso virou manchete de todos os jornais, Profumo, evidentemente, renunciou.

Na série, uma foto tirada em uma das festas do médico Stephen Ward mostra Profumo, algumas belas moças e, ao fundo, um homem de costas. A foto foi capa dos jornais ingleses, e havia referências ao “homem misterioso” cujo rosto não aparece. Foi sugerido que ele poderia ser Philip.

Nessa época, Elizabeth estava grávida de seu terceiro filho, Andrew.

O Philip que The Crown pinta não é um salafrário, um mau caráter. Não, de forma alguma. É um sujeito com boas qualidades e também com graves defeitos, como todo mundo, afinal. Eternamente atormentado pela posição inferior à da mulher, mas basicamente fiel a ela, no sentido mais sério e profundo. Até mesmo devotado a ela.

Como todas as pessoas, Philip – conforme mostra a série – é um produto do seu meio, seus valores são os que foram passados a ele pela família, pelo meio. Teve uma infância e adolescência profundamente traumática – a família expulsa de seu país, a Grécia, a mãe louca, internada em hospício, o pai mulherengo vivendo uma paixão com uma jovem dançarina, a irmã mais velha e mais querida casada com um oficial nazista.

Tendo sido educado, quando adolescente, num internato para rapazes extremamente rígido, com disciplina militar, na Escócia, entendeu que a mesma escola ensinaria boas lições ao filho mais velho, o herdeiro do trono, Charles (interpretado por dois atores, um garotinho, o outro no início da adolescente, Billy Jenkins e Julian Baring).

Desde a primeira temporada, a série já mostrava que o jeito de Charles – um garoto tímido, sensível, fechado, pouco expansivo – não agradava ao pai. No décimo e último episódio da primeira temporada, Philip comenta com Elizabeth que os dois filhos mais velhos vieram trocados: Anne era mais masculina que Charles.

O episódio 9 desta segunda temporada, “Paterfamilias”, é inteiramente dedicado a mostrar fatos da adolescência de Philip, antes ainda da Segunda Guerra, e a passagem de Philips pelo internato na Escócia.

Por seu entendimento errado, obtuso, retrógado, machista, de que a disciplina militar poderia ensinar as qualidades de macho ao filho, Philip – contra a vontade de Elizabeth e do próprio garoto – enfia Charles na tal escola, onde ele sofre feito um condenado, coitado. Ao final do episódio, um letreiro informa que, quando chegou a sua vez de educar os filhos – William e Harry, os filhos de Diana Spencer –, Charles os colocou no Eaton, o colégio no qual ele gostaria de ter estudado, o que era preferido pela mãe.

Nisso aí a série deu uma editorializada, mostrou claramente sua opinião: Charles fez o correto, ao contrário do pai.

A série retrata a rainha Elizabeth como um ser humano extraordinário

A própria rainha, a protagonista da história toda, essa Elizabeth Alexandra Mary da casa de Windsor, neste ano de 2018 há 65 anos no trono de rainha do Reino Unido, esta é mostrada aqui, assim como na primeira temporada, como um ser humano não menos que extraordinário.      Uma das mulheres mais importantes do século XX, a rainha Elizabeth II é retratada em The Crown como um ser admirável, respeitável, em qualquer quesito que possa haver.

Elizabeth não foi preparada desde cedo para exercer o reinado. É sempre bom levar isso em consideração, e o a série mostra isso bem. Afinal, era a filha do segundo homem na linha sucessória de seu avô, o rei George V. Não se imaginava que Albert Frederick Arthur George viesse a ser o rei, papel reservado ao primogênito, Edward Albert Christian George Andrew Patrick David, que assumiu o trono em janeiro de 1936 como Edward VIII.

Foi só com a absolutamente surpreendente decisão de Edward VIII de abdicar ao trono que o pai de Elizabeth assumiu. E a suposição de todos era de que George VI ficaria muitos e muitos anos no trono – costumam ser bem longevos os pertencentes à casa de Windsor. Morreu com apenas 57 anos – e Elizabeth teve que assumir o trono aos 26 anos de idade.

(A expectativa de que ela só se tornaria rainha bem mais tarde explica perfeitamente aquela frase dela no duro diálogo com Philip a bordo do Britannia: “Este casamento acabou sendo bem diferente do que imaginávamos”.)

Uma vez coroada, Elizabeth passou a colocar a si própria sempre em segundo plano: primeiro vem a Coroa, a rainha, a instituição – só depois vem ela própria, a pessoa, seus desejos pessoais, suas vontades, seus interesses.

Chamada com ironia e desprezo de Shirley Temple por seu tio, o rei que namorou o nazismo, e por seu primeiro chefe de governo, Winston Churchill, Elizabeth II se tornou um dos soberanos mais dignos, respeitáveis da História contemporânea.

A segunda temporada dá muita importância a Margaret, a irmã sofredora

A personagem mais importante desta segunda temporada, que recebe maior atenção e aparece mais tempo em cena, depois de Elizabeth e Philip, é a princesa Margaret, a irmã mais jovem da rainha, interpretada pela bela Vanessa Kirby (na foto acima).

O último episódio da temporada 1 já havia sido dedicado a mostrar como a paixão de Margaret por um homem divorciado, o capitão Pete Townsend (Ben Miles) se tornou uma fonte de profunda infelicidade para ela e um enorme peso para Elizabeth.

A Igreja Anglicana proibia o casamento de alguém da família real com uma pessoa divorciada. Elizabeth ficou profundamente dividida entre suas obrigações como chefe de Estado e da Igreja e seu amor pela irmã, sua vontade de fazê-la feliz.

Ao final, como aconteceu várias vezes, ao longo de sua vida e como a série já mostrou até aqui, Elizabeth, entre o dever como rainha e suas vontades pessoais, escolheu cumpriu o dever, e Margaret foi impedida de se casar com Pete Townsend. Margaret jamais escondeu seu ressentimento contra a irmã por isso – bem ao contrário, sempre que podia, jogava na cara de Elizabeth que ela foi a culpada por sua infelicidade.

The Crown mostra em detalhes como Margaret ficou conhecendo o fotógrafo Tony Armstrong-Jones, jovem, sedutor, cercado por uma aura de rebeldia.

Se com relação às aventuras sexuais de Philip a série é contrita, cuidadosa, optando pelo implícito e jamais pelo explícito, já com Armstrong-Jones (interpretado por Matthew Goode) ela não tem essas preocupações. Mostra que, naqueles anos iniciais da década de 60, pouco antes da explosão dos Beatles, dos Rolling Stones, da chegada da minissaia, Armstrong-Jones era um absoluto lascivo, libidinoso. Não só tinha várias amantes ao mesmo tempo como era chegado a um ménage-à-trois.

Informada sobre isso pela dupla Tommy Lascelles e Michael Adeane, os bigodudos, como Philip definia o ex e o então chefe do staff do Palácio, Elizabeth tentou alertar a irmã – mas foi repelida.

Na sequência em que Margaret finalmente se casa, a câmara se eleva diante da Abadia de Westminster, pega o prédio do Parlamento logo atrás dela, numa tomada estonteantemente bela de Londres.

É de fato uma absoluta maravilha a segunda temporada de The Crown.

Uma terceira temporada já estava em produção, em fevereiro de 2012, quando vimos a segunda.

Informa-se que os atores Claire Foy e Matt Smith serão substituídos por outros, mais velhos, na terceira temporada, para acompanhar o envelhecimento de Elizabeth e Philip. Não creio que será fácil a adaptação dos espectadores às novas caras da rainha e seu marido. Claire Foy e Matt Smith foram excepcionais, nestas duas primeiras temporadas. Nem seria necessária a semelhança física que têm com os personagens que interpretam – bastaria seu talento.

Anotação em janeiro de 2018

The Crown – A Segunda Temporada

De: Peter Morgan, criador, roteirista, produtor-executivo, EUA-Inglaterra, 2017.

Diretores: Philip Martin, Benjamin Caron, Stephen Daldry, Philippa Lowthorpe.

Com Claire Foy (rainha Elizabeth II) Matt Smith (Philip, duque de Edimburgo),

e (na realeza e seu entorno) Vanessa Kirby (princesa Margaret, irmã de Elizabeth), Matthew Goode (Tony Armstrong-Jones), Victoria Hamilton (rainha Elizabeth, a rainha mãe), Daniel Ings (Mike Parker, o secretário particular do príncipe Philip), Chloe Pirrie (Eileen Parker, a mulher de Mike), Alex Jennings (David, duque de Windsor, o rei que abdicou), Lia Williams (Wallis Simpson), Finn Elliot (Philip adolescente), Billy Jenkins (príncipe Charles), Julian Baring (príncipe Charles), Pip Torrens (Tommy Lascelles), Will Keen (Michael Adeane), Jared Harris (rei George VI, o pai de Elizabeth), Paul Sparks (Billy Graham, o pregador), Mark Tandy (Cecil Beaton, o fotógrafo real), Ben Miles (capitão Peter Townsend, o namorado de Margaret),

(na política e seu entorno) Jeremy Northam (Anthony Eden), Anton Lesser (Harold MacMillan), Tim Steed (John Profumo), Jodi Balfour (Jackie Kennedy), Michael C. Hall (John Kennedy), Julian Ovenden (Bob Kennedy), John Heffernan (Lord Altrincham), Winston Churchill (John Lithgow), David Annen (Alec Douglas-Home), Amir Boutrous (Gamal Abdel Nasser), Richard Lintern (Stephen Ward, o médico osteopata), Christine Keeler (Gala Gordon)

Roteiro Peter Morgan, Edward Hemming, Tom Edge, Amy Jenkins

Fotografia Stuart Howell,

Música Rupert Gregson-Williams, Hans Zimmer, Lorne Balfe

Casting Robert Sterne, Nina Gold

Cor, cerca de 500 min (8h20)

Na Netflix. Produção Netflix, Left Bank Pictures, Sony Pictures Television Production UK.

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