Segurança em Jogo / Bodyguard

Nota: ★★½☆

Bodyguard, no Brasil Segurança em Jogo, série inglesa de 2018, é assim uma espécie de mistura de House of Cards com Homeland. Como o primeiro, fala de política, dos meandros do governo – no caso, o britânico -, das intrigas, das lutas entre os diversos organismos da máquina estatal. Como o segundo, trata do terrorismo, das ameaças dos grupos radicais – árabes e não árabes.

É uma série curta: são seis episódios de uma hora cada um. Os cinco primeiros são ótimos. No sexto, a série se desmancha: os criadores perderam completamente a mão, partiram para soluções sem lógica, sem sentido, apelativas, grosseiras.

Uma pena. Uma pena danada, porque de fato a série começa muito bem, e é daquelas que não dá vontade de parar de ver.

O protagonista da história, David Budd, é um sargento da Polícia Metropolitana de Londres, da área de antiterrorismo. Está aí com uns 40 e poucos anos, é um veterano da guerra do Afeganistão, e está separado da mulher, Vicky. Os dois ainda se amam, mas ela o botou para fora de casa – o roteiro prefere não explicitar o motivo, mas o espectador vai percebendo que Vicky não aguentou mais os momentos de explosão do marido, que se recusa a procurar ajuda de psicólogos ou psiquiatras para tratar os traumas da guerra. Em mais de uma ocasião é citado que ele tem PTSD, a desordem de stress pós-traumático, na sigla em inglês.

David – o espectador vê de cara – é extremamente competente. Foi, seguramente, um ótimo soldado no Afeganistão – mas não é do tipo do militar que acredita piamente nas missões para as quais é enviado, o patriota que crê no dever de defender seu país, seja como for. Bem ao contrário: tem profundo desprezo pelos políticos, pelos governantes, as pessoas que tomam as decisões e mandam os outros se ferrarem no campo de batalha.

David Budd é interpretado por Richard Madden, que ficou famoso como Rob Stark na série Game of Thrones. Não tinha reparado nele como o príncipe na versão caprichadíssima de Kenneth Branagh para a história de Cinderella (2015), mas me lembrava dele em Atentado em Paris/Bastille Day (2016), um filme bem interessante que também trata da ameaça do terrorismo de grupos árabes.

Richard Madden é a série Bodyguard. Ele está presente na tela praticamente o tempo todo. Toda a trama se desenvolve em torno de David Budd. E a ator se sai bem – até mesmo nas sequências de absoluto exagero no último episódio.

Vicky, a mulher de David, é interpretada por Sophie Rundle.

David abre a porta de um banheiro do trem e dá de cara com uma mulher-bomba

A série começa de maneira brilhante: David está num trem, voltando para Londres depois de visitar a mãe no interior, com seus dois filhos, Ella, de 10 anos, e Charlie, de 8 (Bella Padden e Matthew Stagg). Bem treinado, esperto, atento a tudo que passa a seu redor, rapidamente percebe algo anormal. E há de fato algo absolutamente anormal: está no trem um casal de terroristas árabes. Ela é uma mulher-bomba: está enrolada num cinturão carregado de explosivos poderosíssimos.

Como David chega até a mulher-bomba é mostrado em detalhes, com calma – mas não é o caso de me alongar aqui na explicação. O fato é que, quando estamos aí com menos de 10 minutos do primeiro episódio da série, David acaba de abrir a porta de um banheiro do trem e dar de cara com a mulher-bomba, segurando na mão o dispositivo que aciona os explosivos.

Ela está absolutamente apavorada.

Nós a vemos em close-up, assim como vemos o rosto dele.

David é um policial extremamente competente, bem treinado – e então começa a conversar com a moça.

– “Você está tão assustada quanto eu. Só quero ajudar. Você não tem que fazer isso. Pode mudar de idéia.”

Ela se mostra extremamente tensa, parece que vai apertar o dispositivo. Ele fala um pouco mais alto: “Não faça isso. Por favor, pare. Não se mova. Não se mova, por favor!”

Ela chora. Olha para ele em desespero.

– “Você não quer fazer isso. Parece que não quer mesmo. Ouça, o especialista da unidade antiterrorismo sabe sobre possível incidente aqui. Eu quero dizer a eles que você quer conversar. O que você acha? Conversar parece bom?”

Pega o telefone, fala com a chefe de segurança do trem.

O espectador já conhecia a chefe de segurança; David tinha ido falar com ela quando percebeu os movimentos suspeitos de um árabe – o marido da mulher-bomba. Os dois achavam que o homem estava sozinha; quando David foi examinar o banheiro de onde o árabe tinha saído foi que se deparou com a moça prestes a se explodir.

Então, pelo celular, ele fala com a chefe de segurança do trem que há uma segunda pessoa, mas que os dois estão conversando. – “Avise ao SCO19 que ela está disposta a conversar. Solicito que policiais armados não entrem no trem, e que a prioridade operacional seja o pelotão antibomba e negociadores. Mas, de imediato, evacue os vagões contíguos.”

“Vi colegas morrerem. Quase morri também. Para quê? Nada.”

A chefe de segurança transmite pelos alto-falantes o pedido para que todos os passageiros que estão naqueles dois vagões saiam deles. Quando se levantou para investigar o que estava acontecendo, David havia pedido a uma mulher que tomasse conta de seus filhos. De onde está, de pé diante da mulher-bomba, ele olha para trás, vê que a mulher está levando os meninos  para outros vagões.

Continua conversando com a moça:

– “Meu nome é David. David Budd. E o seu?”

Ela faz um esforço imenso para dominar o pânico, o desespero, e  consegue dizer: – “Nadia”. (Ela é interpretada por Anjli Mohindra.)

– “O homem que esteve aqui antes… é seu marido?”

Ela faz que sim com a cabeça. David continua conversando; diz que ela não precisa ter medo do marido, que ela pode ser colocada em segurança pelo governo e o marido nunca poderá fazer mal a ela. Insiste em que está tão assustado quanto ela, conta que acabou de visitar sua mãe com seus filhos. Mostra fotos do casal de garotinhos no celular, fala seus nomes, suas idades: – “Ella tem 10 anos, Charlie tem 8”.

(Esse detalhe vai se revelar muito importante bem mais tarde, no final da série.)

O trem vai desacelerando – em torno da linha há dezenas de policiais fortemente armados. Nadia tenta fechar a porta do banheiro.

David lança a argumentação que mostra quem é ele, o que pensa:

– “Espere. Não faça isso. Por que alguém que ama quer matá-la? Você sofreu lavagem cerebral. Ele sofreu. Você sofreu. Sei disso. Estive no Afeganistão. Vi colegas morrerem. Quase morri também. Para quê? Nada. Políticos. Covardes e mentirosos. Os nossos e os deles. Fanfarrões que nunca derramam o próprio sangue. Você e eu somos apenas danos colaterais. Não deixe que eles vençam, Nadia. Não deixe que eles vençam.”

Depois do ato heróico, David é escalado para ser guarda-costas da ministra

O grande feito de David, ter conseguido impedir um atentado que seguramente deixaria dezenas e dezenas de mortos, não merece grandes manchetes – ou pelo menos a série não tem a preocupação de mostrar isso. Mas rende uma promoção: a chefe do departamento, Lorraine Craddock (Pippa Haywood) o chama e diz que ele passará a trabalhar como agente de segurança da ministra do Interior, a ministra do Home Office, na nomenclatura britânica.

A ministra Julia Montague (o papel de Keeley Hawes, uma mulher bem interessante) é o segundo personagem mais importante da série. É uma mulher forte, segura de si, ambiciosa. Embora do mesmo partido do primeiro-ministro, é claro (a série procura não identificar qual o partido está no poder, se o Conservador ou o Trabalhista), há uma rusga entre eles; os políticos mais próximos do primeiro-ministro acham que Julia luta para ocupar o lugar dele.

Como é a ministra que chefia as forças de segurança interna, num tempo de ameaças terroristas, Julia batalha por uma legislação mais rígida, que permita à polícia ter maior acesso às informações dos computadores e celulares das pessoas suspeitas. É uma política falcão, linha dura – bem mais falcão que o próprio primeiro-ministro e boa parte da bancada de seu partido.

Atrai com isso, é claro, a ira de boa parte da imprensa e de todas as organizações de defesa dos direitos humanos, que vêem na legislação proposta pela ministra uma interferência do governo na vida privada das pessoas.

A legislação que ela defende, e que está para ser votada no Parlamento, incomodará também – e profundamente – o crime organizado. Mas isso – os chefões do crime organizado incomodados com leis mais duras sobre privacidade – só vai aparecer nos dois últimos episódios da série.

A postura falcão, dura, guerreira da ministra é tudo o que contraria as convicções de David Budd, um sujeito, como já foi dito, contra a guerra, contra os líderes políticos e militares que mandam inocentes para a frente de batalha.

E esse conflito é interessantíssimo: David vai proteger a vida de uma pessoa que representa aquilo que ele despreza, em termos de convicção política e moral.

Ao mesmo tempo, ele vai ficar atraído pela figura da ministra, uma mulher de personalidade forte, bonita, sedutora, fascinante mesmo. E é claro que a ministra – aquele mulherão, divorciada, vivendo sozinha – vai cada vez mais prestar atenção ao policial dedicado, extremamente competente, que chegou para trabalhar com ela com uma folha de ótimos serviços prestados, incluindo o recente caso de conseguir desmontar um grave ataque terrorista.

As ameaças terroristas não partem apenas de extremistas árabes

O tempo todo ao lado da ministra, David vai percebendo as intrigas dentro do Ministério. Há uma guerra quase aberta, escancarada, entre a chefe da Polícia Metropolitana, Anne Sampson (Gina McKee), e o chefe do Serviço Secreto, Stephen Hunter-Dunn (Stuart Bowman). A ministra Julia se inclina a dar mais poderes ao Serviço Secreto, o que, naturalmente, provoca profundo incômodo na chefe da Polícia. O segundo homem do Ministério, Mike Travis (Vincent Franklin), toma partido de Anne Sampson, da Polícia.

E Stephen, do Serviço Secreto, vai fornecer material para a ministra Julia usar contra o próprio primeiro-ministro.

Em suma: um infernal ambiente de intrigas, fofocas, guerra interna no meio de um governo em guerra contra as ameaças terroristas. Que, veremos ao longo da série – e isso é uma das grandes qualidades de Bodyguard –, não partem apenas de extremistas árabes.

É clara a preocupação da série em mostrar diversidade racial

Um detalhinho interessante que está na página de Trivia sobre a série no IMDb: é da atriz Keeley Hawes a voz de Lara Croft em vários games Tomb Raider, criados com a personagem que já foi interpretada no cinema por Angelina Jolie e Alicia Vikander.

Não conhecia essa atriz Keeley Hawes, e ela é de fato uma das maiores qualidades da série Bodyguard. Londrina, nascida em 1976, começou a carreira bem cedo, quando tinha apenas 13 anos. Já tem 70 títulos em seu currículo; participou de filmes como Morte no Funeral (2007) e No Topo do Poder (2015), mas a maior parte de seus trabalhos é em séries de TV.

Uma característica importante da série é a preocupação dos realizadores – facilmente perceptível – em ter um elenco diversificado, em evitar mostrar um mundo de machos brancos, e, ao contrário, ter muitas mulheres em papéis importantes, e também negros e árabes. Assim, a ministra do Interior é mulher, a chefe da Polícia Metropolitana é mulher, a chefe da divisão em que David trabalha é mulher. Um dos braços direitos da chefe da Polícia, Deepak Sharma (Ash Tandon) é de ascendência indiana, e a principal colaboradora dele, Louise Rayburn (Nina Toussaint-White), é negra, assim como vários outros policiais.

Isso não impediu, no entanto, que a série fosse duramente criticada como sendo ofensiva aos muçulmanos, por mostrar personagens árabes de forma estereotipada. Eis um trecho de matéria publicada no site em inglês da Al Jazeera, assinada por Aina Khan:

“De acordo com The Riz Test, uma iniciativa que visa a estudar o retrato de muçulmanos na televisão britânica, Bodyguard foi um fracasso. The Riz Test funciona de maneira similar ao teste Bechdel, que avalia o retrato das mulheres no cinema, e o teste Duvernay, que mede a diversidade racial. Ele coloca cinco questões: Os personagens muçulmanos foram mostrados como hiperagressivos, uma ameaça para a forma de vida ocidental, anti-modernos, oprimidos se forem mulheres ou misóginos se forem homens, ou perpetradores de terrorismo? ‘Quando shows como Bodyguard perpetuam essas histórias negativas, especialmente contra um pano de fundo de um aumento de crimes de ódio e de islamofobia na Europa e nos Estados Unidos, essas narrativas podem ter implicações na vida real’, disse Shaf Choudry, que criou The Riz Test com Sadia Habib.”

É. Não é fácil fazer filmes ou séries neste mundo do politicamente correto e dos testes como esses citados aí acima.

Apesar das críticas, a série foi um tremendo sucesso. Segundo a BBC, que a exibiu, o último episódio foi visto por 11 milhões de pessoas na Grã-Bretanha, um recorde de audiência.

Então é isso. Durante cinco episódios, uma bela série de TV, misturando política e ação, com algum romance e sexo, é claro. Pena que tudo vire uma papagaiada ridícula no sexto e último episódio.

Anotação em novembro de 2018

Segurança em Jogo/Bodyguard

De: Jed Mercurio, criador, roteirista, produtor executivo, Inglaterra, 2018

Diretores: John Strickland e Thomas Vincent

Com Richard Madden (David Budd)

e Keeley Hawes (Julia Montague, a ministra do Interior), Sophie Rundle (Vicky Budd), Gina McKee (Anne Sampson, a chefe da Polícia Metropolitana), Vincent Franklin (Mike Travis, o segundo do Ministério da Defesa), Ash Tandon (Deepak Sharma, o oficial sênior da polícia), Nina Toussaint-White (Louise Rayburn, a parceira de Deepak Sharma), Pippa Haywood (Lorraine Craddock, a chefe de David), Stuart Bowman (Stephen Hunter-Dunn, o chefe do Serviço Secreto), Paul Ready (Rob MacDonald, assistente da ministra), Nicholas Gleaves (Roger Penhaligon, o ex-marido da ministra), Bella Padden (Ella Budd, a filhinha de David), Matthew Stagg (Charlie Budd, o filhinho de David), Anjli Mohindra (Nadia, a terrorista), Matt Stokoe (Luke Aitkens), Tom Brooke (Andy Apsted), Michael Shaeffer (Longcross, o bandido do Serviço Secreto), Richard Riddell (Tom Fenton, o parceiro de David), Claire-Louise Cordwell (Kim Knowles, a parceira de David), Stephanie Hyam (Chanel Dyson), Shubham Saraf (Tahir Mahmood, assistente da ministra), Sarah Malin (a advogada de Nadia), David Westhead (o primeiro-ministro)

Argumento e roteiro Jed Mercurio

Fotografia John Lee

Música Ruth Barrett e Rskin Williamson

Montagem Andrew McClelland e Steve Singleton

Casting Kate Rhodes James

Produção World Productions.

Cor, cerca de 600 min (6 horas)

**1/2

 

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