Rita – A Primeira Temporada

Nota: ★★★☆

A primeira grande qualidade de Rita, série dinamarquesa que estreou em 2012 e teve quatro temporadas, até 2017, é o fato de ela ter sido feita, de ela existir.

Que maravilha haver uma série de TV sobre uma professora de uma escola dinamarquesa – um ser humano, que não é homicida, não é serial killer, não é ladra, não é sequestradora. Uma pessoa, digamos, “normal”, entre aspas, porque “de perto ninguém é normal”, e Rita, especialmente, não é nada normal, mas é uma pessoa, não um super-herói, um ser de outra realidade, de alguma terra do meio, ou alguma distopia de futuro próximo ou distante.

Que maravilha, também, o fato de podermos ver uma série de TV dinamarquesa, de ela estar disponível aqui. Nada contra o cinema americano, de forma alguma, mas tudo contra a absoluta supremacia, a onipresença de produções americanas nos cinemas, nas emissoras de TV.

Depois dos oito episódios da primeira temporada, cada um deles com cerca de 40 minutos, o espectador tem todo o direito de se perguntar: mas… exatamente por que uma série sobre Rita, essa personagem específica? Por que essa professora de escola fundamental merece ser a protagonista de uma série de TV? O que ela tem de excepcional, de diferente, de exclusivo?  Aí é que está a delícia, aí é que está o que considero a segunda grande qualidade da série: Rita não tem nada de absolutamente especial, único.

E a série não tem assim uma trama intrincada, cheia de fatos impactantes, surpreendentes. Não, não, nada disso. É uma série sobre comportamento, sobre o dia a dia de pessoas comuns, gente como a gente. Ordinary people, e como elas enfrentam os problemas que vão surgindo, como elas se divertem, como elas gozam os momentos de prazer.

Que maravilha que se fale de gente como a gente nas séries de TV!

Rita é uma mulher que não tem papas na língua, fala o que sente – e assusta os caretas

Rita Madsen (interpretada por Mille Dinesen) assusta um pouco as pessoas, em especial as mais conservadoras, caretas. Logo no primeiro episódio, uma jovem senhora que fica conhecendo Rita diz ao marido que ela é “uma mulher horrível”. Os próprios filhos dela a definem, em mais de uma ocasião, como uma mulher “fucked up” – assim, usando a gíria em inglês. Literalmente, fodida, uma mulher fodida, ferrada.

É uma definição totalmente errada.

Divorciada, 42 anos de idade, mãe de três filhos que têm aí entre 22 e 15 anos, Rita é, isso sim, uma pessoa pouco convencional. Teve filhos muito cedo – Ricco, o primogênito (Morten Vang Simonsen), nasceu quando ela estava com 20 anos, o que já é algo bem pouco comum para mulheres de sua geração, a que nasceu em meados dos anos 70. Não se dá com o ex-marido – que faz anos mora na Inglaterra e vê muito pouco os filhos –, mas isso não chega a ser propriamente uma excentricidade.

Também não se dá com a mãe, Lillebeth (Lisbet Lundquist), mas, de novo, isso não é lá uma raridade.

Mas Rita fala o que pensa. Não tem papas na língua – e o que sai da boca dela não é de fato do agrado de pessoas convencionais. Mesmo na sala de aula, usa de uma franqneza, de um realismo agressivamente cru, que espanta os pais de muitos dos alunos.

É politicamente incorreta nestes tempos sombrios da ditadura absoluta do politicamente correto. Fuma, bebe, fala palavrão na frente de crianças, detesta vegetarianismo, veganismo, não dá a mínima importância aos cuidados com doces, guloseimas, junk food.

Veste-se de forma fora dos padrões para os caretas – ou seja, com confortabilíssimas calças jeans, camiseta e camisa de flanela de manga comprida. (Exatamente do jeito com que eu me visto – mas eu sou não mulher, nem professora.)

E aqui é necessário fazer o registro: a Rita da atriz Mille Dinesen, alta, magra, loura, cabelos compridos, olhos claros, é, como mostram as fotos deste post, uma mulher vistosa, atraente. A rigor, bem mais vistosa, atraente e gostosa, sexy, do que propriamente bonita. É uma daquelas mulheres capazes de ter várias expressões, várias caras diferentes. Há momentos em que fica até mesmo feia; ao contrário, há também alguns poucos momentos em que parece bem bonita.

Mora numa casa bastante simples, despojada (para os padrões daquele país riquíssimo), mas que tem o grande conforto de ser bem perto da escola pública em que dá aulas – de Dinamarquês e História.

Não dá a mínima importância para aparência – nem dela mesma, nem da casa, nem do carro.

Ah, sim, e trepa com quem der na telha. Tem um caso com Rasmus (Carsten Bjørnlund, na foto abaixo), o jovem diretor da escola, mas é só sexo, sem propriamente amizade, namoro, conversa, proximidade. Ele bem que gostaria que a relação fosse mais séria, mais profunda, mas ela – nos primeiros episódios desta primeira temporada –, de Rasmus só quer saber de sexo.

E de vez em quando, se vê alguém que lhe pareça interessante, num bar, onde for, dá para ele – no banheiro do bar, no carro.

Em suma, então: Rita é uma mulher nada convencional, nada careta. É liberada, liberal, politicamente incorreta, desbocada, boquirrota.

Comete erros – como todo mundo comete na vida.

Mas não tem nada de fucked up – ao contrário do que dizem dela Ricco e também Jeppe (Nikolaj Groth), o caçula, que na primeira temporada está com 15 anos e estuda na escola em que a mãe dá aula.

Surpresa: Rita e o pai da noiva do filho tinham sido namorados na juventude

Não se diz, em momento algum, o nome da cidade em que Rita vive e dá aula. O quando é muito óbvio – são os dias de hoje, os dias em que a série foi feita. No caso da primeira temporada, 2012. O onde não é explicitado, mas é um bairro classe média de país muito rico – bairro de uma cidade qualquer, o que é a melhor maneira de dizer que poderia ser em qualquer lugar da Dinamarca.

O IMDb especifica que as filmagens foram em Rødovre, que é um lugar da Grande Copenhagen. “Grande”, claro, em termos de país de Primeiríssimo Mundo: a população total da região metropolitana da capital dinamarquesa não chega a 2 milhões de habitantes.

A pessoa que diz que Rita é “uma mulher horrível” chama-se Jette (Lotte Andersen), e é a mãe de Bitten (Lykke Sand), a namorada firme, noiva de Ricco, o primogênito. No primeiro episódio da série, Ricco vai com a namorada, a mãe e o pai dela, Tom (Carsten Norgaard, na foto abaixo) para que eles conheçam sua família. É um programa diurno, num fim de semana – os pais de Bitten e ela almoçarão com a mãe e os irmãos de Ricco.

Assim que as visitas chegam, o espectador percebe que Rita e Tom se conhecem – e eles não escondem isso. Tinham sido namorados quando ela estava aí com uns 18 anos, e nunca mais tinham se visto. O reencontro foi uma surpresa total para eles – e também para todos os demais.

É visível que a relação entre os dois tinha sido forte, importante.

É visível também que Jette, a mulher de Tom, acha a casa da futura sogra de sua filha simples demais, despojada demais – Jette, bem ao contrário de Rita, é uma pessoa tradicional, convencional, apegada a aparências e sinais de riqueza. E a antipatia que vai sentindo por Rita tem a ver, também, com o ciúme que sente do passado do marido, e do evidente prazer que ele demonstra por ter se reencontrado com a paixão da juventude.

E Rita não tenta de forma alguma ser simpática com a futura sogra do filho. Depois de uma menção ao fato de que Ricco nasceu pouco tempo depois que o namoro dela com Tom terminou, Rita brinca que o filho pode talvez ser irmão da namorada.

Num momento em que se encontram só os dois na cozinha, Ricco pede à mãe para baixar a bola, maneirar um pouco, não espantar tanto os pais da noiva.

Os dois filhos mais velhos não sabem ainda o que vão fazer na vida

O namoro-noivado de Ricco e Bitten é mesmo sério, ele conta para a mãe. Na verdade, ele já a pediu em casamento, e ela topou. E os dois de fato se casam, ainda nesta primeira temporada.

Ricco é um bom rapaz – mas, estranhamente, o criador da série e coordenador dos roteiristas Christian Torpe não se preocupou em mostrar de que exatamente o primogênito de Rita vive. Lá pelas tantas, Ricco abre uma lanchonete – mas o espectador não fica sabendo de onde ele tirou o dinheiro para financiar a coisa.

Assim como seu irmão mais velho, Molly, a filha do meio (o papel de Sara Hjort Ditlevsen, uma gracinha de atriz), não definiu ainda o que vai fazer na vida. No primeiro episódio, ela reaparece em casa. Não se diz explicitamente, mas o espectador tem o direito de inferir que ela estava morando com o namorado; o namoro se desfez, e então ela voltou para a casa da mãe.

Molly se dá muito bem com a mãe – a rigor, todos os três filhos se dão bem com Rita. Afeiçoa-se também à avó, quando Lillebeth pede a Rita para passar uns tempos com ela, porque tinha sofrido um acidente e machucado a perna.

Depois que a avó volta para sua própria casa, Molly passa a visitá-la. Diz para a avó que gostaria de fazer uma experiência e trabalhar como enfermeira – e Lillibeth acaba arrumando para ela um emprego de meio período como atentende numa clínica de idosos. A experiência acaba não dando certo.

Achei isso interessante, essa coisa de a série mostrar dois jovens que não se definiram na vida, não sabem que profissão escolher. É algo extremamente comum aqui, e é de fato interessante saber que acontece a mesma coisa em um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo.

De Jeppe, o caçula, não se exige, é claro, saber que profissão ele terá. Ainda tem 15 anos, ainda está na escola elementar. De Jeppe, o que os dois irmãos querem saber é quando ele vai admitir que é gay.

Jeppe sempre responde a eles que não é gay – e acrescenta que tem uma namorada. Mas, num dos primeiros episódios desta primeira temporada, a namoradinha de Jeppe diz para ele que está pronta, e, no quarto dele, começa a tirar a roupa. Aí o espectador percebe perfeitamente que Jeppe sem dúvida não é hétero.

E a partir daí ele assumirá ser homo. Sem problema algum, sem qualquer reação negativa por parte de ninguém da família. Como deveria ser em todas as famílias. (Na foto abaixo, Nikolaj Groth, que interpreta Jeppe Madsen.)

Com os alunos, Rita extrapola, avança sinal, invade áreas que são só dos pais

Numa de suas tentativas de achar um emprego, numa clínica médica, se não me engano, Molly é diagnosticada como disléxica. Ela cobra de Rita o fato de a mãe jamais ter reparado que ela tinha esse transtorno – e cobra de uma forma, eu achei, amena demais.

Afinal, essa é uma falha gritante de Rita como mãe, uma falha grave, séria. Indica uma absurda falta de atenção de Rita para o comportamento de sua própria filha ao longo de toda a infância e adolescência.

È talvez a prova mais contundente de que Rita tem falhas, defeitos.

Um deles – que me incomodou bastante, em alguns momentos – é o absurdo excesso de auto-confiança, de segurança no seu próprio taco. Chega a roçar pela soberba: Rita se acha o máximo, a maior do mundo – e o próprio excesso de auto-confiança a faz cometer erros.

Por exemplo, no relacionamento com Rosa (Lea Høyer), adolescente aí de uns 14 anos, aluna de uma das classes às quais Rita dá aula. Rosa é daquele tipo CDF, que sabe tudo e, a cada vez que a professora pergunta alguma coisa para a classe, levanta a mão primeiro.

Com razão, Rita diversas vezes não dá a palavra a Rosa, e passa para algum outro aluno. Com razão – porque se não fizesse isso só Rosa falaria na classe. Sem razão, no entanto, ou deixando de ter razão por excesso de auto-confiança, Rita, quando é convocada pelo diretor Rasmus para uma reunião com os pais de Rosa, que reclamam que a professora não dá a devida atenção para a aluna, extrapola e diz que a garota é uma chata, problemática, solitária.

Extrapola. Em suas relações com os alunos, Rita extrapola. Até parte de conceitos corretos – mas extrapola. Avança sinal. Invade áreas que são privativas dos pais.

Como, por exemplo, no caso do aluno novo cujos pais são neuróticos, loucos na campanha anti-açúcar. Rita extrapola, avança sinal, e presenteia o garoto com um bolo de chocolate. (Na foto abaixo, Morten Vang Simonsen, que faz Ricco Madsen.)

Rita comete erros – mas às vezes não tem culpa pelos problemas que surgem

Rita tem uma adversária, uma oponente na escola – a orientadora Helle (Ellen Hillingsø). Helle está sempre atenta para as falhas, os erros de Rita, e sempre disposta a levá-los ao conhecimento de Rasmus. Mas Rasmus, além de aprovar basicamente as atitudes de Rita, ainda por cima está apaixonado por ela.

Ao longo de vários episódios da primeira temporada, Helle persegue Rita querendo saber por que, afinal, ela resolveu ser professora. A pergunta enfurece a mulher que em geral já é bastante furiosa. Mais para o fim da temporada, cai a ficha na cabeça de Rita. E ela proclama, com ar de vitória, que resolveu ser professora para proteger as crianças de seus próprios pais.

Há algum sentido nisso, acho. É uma posição defensável – em parte. Apenas em parte. O problema é que Rita se acha no total direito de proteger as crianças de seus próprios pais porque – de novo a questão central – ela tem certeza de que é a melhor coisa do mundo, e só ela é que tem razão.

De algumas pisadas no tomate Rita não tem propriamente grande culpa. O exemplo mais claro é o caso que ela começa a ter com um sujeito de quem ela vai com a cara quando o vê num bar. Ela bate o olho no sujeito, e daí a pouquinho está dando para ele no banheiro. Só depois é que fica sabendo que o cara, Lars (Michael Fabricius Sand), é o pai de Rosa. Ela de fato não o havia reconhecido da tal reunião com o diretor Rasmus.

Poderia ter parado a história por aí, é claro – mas não pára. Continua se encontrando com ele. E, por acaso, exatamente num momento em que ela tenta uma aproximação com a aluna Rosa, acontece de a garota ficar sabendo que a amante do pai, que provocou a separação dos pais, é exatamente Rita. (Na foto abaixo, Sara Hjort Ditlevsen, que faz Molly Madsen.)

Uma série que defende a convivência em paz entre pessoas diferentes, díspares

Então, ao fim e ao cabo, voltando ao princípio: por que essa professora de escola fundamental merece ser a protagonista de uma série de TV, já que ela não tem nada de excepcional, de exclusivo, de único?

Em parte, eu mesmo já respondi a essa pergunta lá no início: porque é agradável, é interessante a gente ver uma série de TV sobre uma professora dinamarquesa que não tem nada de excepcional, de exclusivo, de único. Uma mulher que é desbocada, anticonvencional, mas que afinal de contas é mais ou menos “normal”, como tantas outras pessoas. (Em muitas coisas, sou bastante parecido com Rita, assim como muitos amigos e amigas.)

Mas creio que a maior qualidade da série, ao menos desta primeira temporada (não vi ainda as outras, nem sei se vou ver), é mostrar que Rita, a heroína, ok, talvez a anti-heroína da história, é uma mulher que erra, que falha, que pisa no tomate, às vezes no tomateiro inteiro – mas consegue aprender com seus erros, e melhorar, ainda que um pouco.

Porque Rita aprende a baixar um pouco a bola, o topete, a arrogância da auto-confiança excessiva. No fim da primeira temporada, depois de cometer mais um erro, e um erro que poderia resultar em imensa infelicidade para todos os mais próximos dela, Rita é capaz de puxar o freio de mão, parar, sair daquela trajetória. Como diria o técnico do time de várzea do interior de Minas, Rita consegue arrecuar os arfes pra evitar a catástre. (Em Português, seria recuar os zagueiros para evitar a catástrofe, tá? Mas em Mineirês é muito mais expressivo.)

Acho que essa é a grande moral da história, da série: a gente erra, às vezes erra feio, mas sempre dá para aprender, consertar, melhorar.

Rita é também – além de muitas vezes bastante divertida – uma série que faz a velha e boa e fundamental defesa da convivência entre os diferentes, os díspares.

Boa parte da sabedoria que se pode aprender na vida é conviver bem com as pessoas que pensam e agem de forma diferente da gente.

O dinamarquês Christian Torpe, o roteirista e produtor que inventou essa Rita, quis dar o recado que Sá, Rodrix e Guarabyra sintetizaram em um rock-rural de 1972, de autoria dos dois primeiros: “Ama teu vizinho como a ti mesmo, / Msmo que ele não precise, / Mesmo que ele seja um grilo na comunidade”.

A rigor, o mesmo recado que tinha sido dado por um sujeito cabeludo na Galiléia, uns 2000 e poucos anos atrás.

Anotação em junho de 2018

Rita – A Primeira Temporada

De: Christian Torpe, roteirista, criador, produtor executivo, Dinamarca, 2012

Diretores: Lars Kaalund, Jannik Johansen,

Com: Mille Dinesen (Rita Madsen)

e Nikolaj Groth (Jeppe Madsen, o filho caçula), Morten Vang Simonsen (Ricco Madsen, o filho mais velho), Sara Hjort Ditlevsen (Molly Madsen, a filha), Carsten Bjørnlund (Rasmus, o diretor da escola), Lise Baastrup (Hjørdis, a colega nova), Ellen Hillingsø (Helle, a orientadora), Lykke Sand (Bitten Dyrehave, a noiva de Ricco), Carsten Norgaard (Tom Dyrehave, o pai de Bitten), Lotte Andersen (Jette Dyrehave, a mãe de Bitten), Lisbet Lundquist (Lillebeth, a mãe de Rita), Elena Arndt-Jensen (Trine), Ferdinand Glad Bak (David), Lea Høyer (Rosa, aluna), Michael Fabricius Sand (Lars, o pai de Rosa), Kristoffer Fabricius (Uffe), Ole Dupont (Lærer)

Roteiro Christian Torpe, Marie Østerbye

Fotografia Kim Høgh, Rasmus Heise

Música Kristian Leth, Fridolin T.S. Nordsø

Montagem Per K. Kirkegaard, Andri Steinn, My Thordal,

Henrik Vincent Thiesen

Cor, cerca de 320 minutos (5h20)

Produção SF Film Production, Netflix.

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