Ralé / Donzoko

Nota: ★★★★

Em Ralé, seu filme de 1957, Akira Kurosawa demonstra cabalmente que, de fato, é o William Shakespeare do cinema.

Do bardo inglês se diz que sua obra abrange todos, absolutamente todos os sentimentos, as emoções de que são capazes os seres humanos. Se algum dia a humanidade conseguir obter o que boa parte dela parece perseguir – sua própria extinção –, mas restar no planeta a obra completa de Shakespeare, os seres de um lugar mais civilizado que porventura baixarem por aqui terão como saber quais eram os sentimentos dos terráqueos, e como eles os exprimiam.

A obra de Akira Kurosawa (1910-1998) também é assim.

Em Ralé desfilam uns 10 ou 12 pobres personagens – e, ao longo de 137 minutos de cinema de excelência, eles demonstram amor, ódio, inveja, ciúme, medo, insegurança, alegria, tristeza, excitação, vaidade, soberba, ganância, desgosto, repulsa, vingança…

E demonstram suas emoções ao estilo japonês, ao estilo do cinema do grande mestre japonês: abertamente, escancaradamente, violentamente, visceralmente. Aos berros. Aos pulos. Às lágrimas. Com caretas, esgares, trejeitos, expressões rasgadas.

E são, na grande maioria, pessoas feias, muito feias. Andrajosas, esfarrapadas, maltripilhas. São mendigos, miseráveis, deserdados da fortuna, abandonados pela sorte. Toda a ação se concentra num único local – uma construção paupérrima, equivalente a um grande barraco de favela, ou um cortiço, onde vive, na mais completa e absoluta carência dos mais básicos confortos, uma dezena de pessoas, que pagam aluguel ao dono do imóvel, o proprietário de uma casa que fica ao lado do grande cortiço.

Ralé. Escória. A miséria em estado absoluto.

Ralé é um filme intenso. Denso, pesado, duro, cru – intenso. É uma obra-prima, cinema em estado de graça – mas ver Ralé é também uma experiência penosa, árdua. O espectador sai esgotado, exaurido.

Kurosawa demonstra uma grande simpatia por aquelas pessoas miseráveis

Em seu roteiro, Akira Kurosawa e Hideo Oguni adaptaram para o Japão do final do Período Edo, ou seja, meados do século XIX, a peça que o russo Máximo Gorki lançou em 1902, em que a ação se passava na Rússia imperial. A peça sempre foi conhecida no Brasil como Ralé – embora o título original, Na Dnie, na transcrição para nosso alfabeto, signifique “No Fundo”. Na França, a peça – assim como o filme – teve o título de Les Bas-Fond, que é exatamente escória, escumalha, camada baixa; em inglês, é The Lower Depths, as camadas mais profundas, as profundezas mais baixas.

Essa questão do título pode parecer minúcia, mas não é, de forma alguma. A palavra ralé tem de fato um sentido depreciativo, negativo, ao passo que No Fundo, assim como o título em inglês, é muito mais objetivo – não envolve uma postura moral, uma opinião.

E o propósito do escritor – que Kurosawa preservou com imensa fidelidade – parece ser, de fato, mostrar as qualidades, as virtudes que podem existir mesmo entre as pessoas das camadas mais profundas da miséria material.

Eu diria que, se não há muitas qualidades, virtudes, naquelas pessoas, há ao menos esperança. Capacidade de tentar buscar algum tipo de alegria, de contentamento.

O filme deixa isso muito claro.

Kurosawa tem por aquelas pessoas miseráveis, infelizes, despossuídas de tudo, uma grande compaixão, uma imensa simpatia.

Isso é parte fundamental da grandeza do filme.

Cada tomada do filme parece um ensaiadíssimo balé

O realizador dividiu o filme em quatro grandes capítulos, ou atos, como no teatro. Em cada um dos atos, não há corte de tempo – mostra-se uma sequência inteira, completa, de diálogos, de acontecimentos. Os cortes de tempo acontecem exatamente na passagem de um ato para outro, e essas passagens são marcadas muito distintamente por um fade out prolongado, demorado – quando a imagem, a tomada desaparece, e a tela fica preta por alguns milésimos de segundo, antes de surgir a imagem da tomada seguinte.

As tomadas são longas, bem longas. A câmara em geral fica parada, estática, em plano de conjunto – aquele em que vemos o corpo inteiro das pessoas, o lugar em que elas estão. E, na maior parte das vezes, há mais de uma pessoa no quadro focalizado pela câmara – três, quatro ou mais pessoas, se movimentando, falando, conversando, interagindo.

Tomadas longas com vários atores ao mesmo tempo exigem cuidado, precisão, disciplina: tudo tem que sair certo, certíssimo, cada detalhe, cada fala, cada movimento, porque refazer uma tomada longa logicamente é muito mais difícil, complexo, do que refazer uma curta.

Cuidado, precisão, disciplina são qualidades que mestre Kurosawa tinha de sobra. E, ao que tudo indica, ele tinha também o dom de ensinar isso aos seus atores.

Cada tomada do filme é um ensaiadíssimo balé.

Os moradores do cortiço discutem e brigam demais entre si

No seu roteiro, Kurosawa e Hideo Oguni não tiveram qualquer preocupação de apresentar logo ao espectador os principais personagens da trama, nem os elementos que conduzirão a história num crescendo até seu clímax – que acontece ao final do que chamei de terceiro ato. Depois haverá ainda o quarto ato, que é assim uma espécie de epílogo – quase um P.S., um posfácio.

O filme abre com uma panorâmica – a câmara faz um lento giro em torno de si mesma, mostrando os 360 graus do lugar em que vai se passar a ação, enquanto vão rolando os créditos iniciais. Com alguns segundos de intervalo, vamos ouvindo badaladas de um sino – um som grave, pesado, soturno como a vida das pessoas que vamos conhecer em seguida.

Vivem ali, naquele cortiço, apertados, umas dez pessoas, como já foi dito. A convivência forçada não os faz se tornarem amigos – muito ao contrário. Há brigas, discussões constantes.

Ao longo da primeira meia hora de filme, vamos conhecendo aquelas pessoas:

* Tonosama (Minoru Chiaki) diz que já foi um samurai, no passado, mas perdeu tudo. Não fica absolutamente claro, ao longo de todo o filme, se o que ele diz tem algum fundo de verdade ou é apenas uma ilusão, que alimenta para se confortar, se consolar. Uma de suas ações prediletas é infernizar a vida de Osen.

* Osen (Akemi Negishi) é uma prostituta. Passa boa parte do tempo distante dali, imersa em sonhos, devaneios. Conta seguidamente para todos que teve no passado um pretendente, homem fino, de posses.

* Otaki (Nijiko Kiyokawa) é uma vendedora de doces. Em geral está bem humorada, sorridente. É uma das poucas, entre aquelas pessoas, que parece de fato estar em paz com a vida.

* Yoshisaburo (Kôji Mitsui) é um jogador inveterado. Tem um jeito um tanto cínico. Gosta de cantar, dançar, se divertir, beber. Bem, mas beber é algo que quase todos ali fazem – e em quantidades industriais. Os miseráveis deste filme de Akira Kurosawa bebem mais saquê do que bebem uísque os personagens dos filmes de John Ford, cineasta por quem o japonês tinha imenso respeito.

* Há um personagem cujo nome não é citado nunca. Foi ator, mas perdeu tudo, inclusive a memória e boa parte da sanidade mental. Os outros se referem a ele apenas como “o ator”. É um dos que mais bebem; parece estar sempre bêbado, e querendo beber mais. É uma interpretação impressionante de Kamatari Fujiwara – um ator que, fascinantemente, parece que tinha problemas para memorizar suas falas.

* Tomekichi (Eijirô Tôno) é um dos poucos que tem uma profissão, um ofício definido: é um funileiro. Ou melhor, era, porque está sem emprego – e isso o desespera.

* Asa (Eiko Miyoshi), a mulher do funileiro, está muito velha e doente. Queixa-se de dores constantemente.

O protagonista da história é um homem grande, belo, forte – um ladrão

Um novo inquilino vai aparecer naquela miserabilíssima hospedaria. É um velhinho, um peregrino, um andarilho, que, bem ao contrário da maior parte das pessoas daquele lugar, está sempre sorridente, sempre disposto a ajudar os outros, a dar uma palavra amiga aqui, um conselho ali, uma sugestão acolá. Chama-se Kahei, e é interpretado por um ator fantástico, Bokuzen Hidari.

O velhinho Kahei – que muitos vão chamar de “vovô” – chega quando o filme está com uns 25 minutos. Pouco antes da chegada dele, havia surgido na na tela aquele que acaba sendo o mais importante de todos os personagens – Sutekichi, o papel do grande Toshiro Mifune.

Sutekichi é grande, belo, forte, poderoso. Aquelas pessoas todas ali ou o respeitam ou o temem. Ele também tem uma profissão bem definida: é um ladrão.

Completa o quadro de personagens importantes o trio que vive na casa grande:

* Rokubei (Ganjirô Nakamura) é o proprietário. Sujeito dinheirista, avaro, nojento.

* Osugi é a mulher dele. Consegue a façanha de – conforme o espectador verá com o tempo – ser uma figura mais nojenta, mais abjeta do que o marido. Ela é interpretaea por Isuzu Yamada, o segundo nome a aparecer nos créditos iniciais no elenco, logo depois do de Toshirô Mifune, o maior astro do cinema japonês dos anos 50 e 60, veterano colaborador de Akira Kurosawa.

* E, finalmente, Okayo, a irmã mais bela e mais jovem de Osugi. Okayo é interpretada por Kyôko Kagawa, que estava, em 1957, ano de lançamento do filme, no frescor dos 26 aninhos. Viria a se tornar a atriz preferida de Kurosawa, e trabalhariam juntos em mais 4 filmes, inclusive o último dele, Madadayo (1993).

Atenção: a rigor, vai aqui um spoiler. Melhor pular para o próximo intertítulo

Os pontos que vão levar aos acontecimentos mais dramáticos da história só começam a aparecer quando o filme já está aí com 25, 30 minutos, e portanto, a rigor, falar deles – ainda que rapidamente, e sem revelar o desfecho – é spoiler.

Assim, aqui vai o aviso. Se o eventual leitor ainda não tiver visto o filme, melhor parar de ler agora, ou pular para o próximo intertítulo.

Veremos que Osugi, a mulher do proprietário, tem uma paixão por Sutekichi, o ladrão. Chegará a propor a ele – qual a Cora Smith de O Destino Bate à Porta, a Phyllis Dietrichson de Pacto de Sangue – que mate o marido para que os dois fiquem com o dinheiro.

Sutekichi é ladrão, mas não um assassino. Tem honra, E, além de tudo, tem desprezo por Osugi. Na verdade, ele ama a bela Okayo. E, por ela, está até mesmo disposto a abandonar a profissão, endireitar-se, passar para o lado dos que respeitam as leis.

“Comparado a Renoir e Ford, não sou nada além de um garotinho”

Adaptar obra literária de grande autor foi algo que Akira Kurosawa fez várias vezes, ao longo de sua carreira de 30 filmes. Em 1951, fez uma adaptação do romance O Idiota, do russo Fiódor Dostoiévski – também com Toshiro Mifune. No mesmo ano deste Ralé, 1957, lançou também Trono Manchado de Sangue, sua versão do Macbeth de Shakespeare – também com Toshiro Mifune.

A peça de Máximo Gorki já havia sido filmada antes. Exatos 21 anos e uma guerra mundial antes. Em 1936, Jean Renoir lançou Les Bas-Fonds, com Jean Gabin no papel principal, o do ladrão Pepel Wasska. O fascinante é que Jean Renoir é um dos cineastas – juntamente com o americano John Ford, já citado aqui – mais admirados pelo grande mestre japonês.

No prefácio de seu livro Relato Autobiográfico, de 1982 (lançado no Brasil pela editora Estação Liberdade), Kurosawa diz que relutou bastante em escrever sua autobiografia. “Entretanto, desta vez, pela insistência e desejo de meus amigos, não pude recusar esta tarefa”, escreveu. “Creio que esta capitulação se deve a minha leitura da autobiografia do diretor francês Jean Renoir (1894-1979). Em uma ocasião eu o encontrei e ele me convidou a um jantar durante o qual conversamos sobre vários assuntos. A impressão que tive nesse encontro foi a de que absolutamente não era o tipo que se sentaria para escrever uma autobiografia. Saber que ele havia se aventurado a isso foi como sentir uma explosão em meu interior.

“No prefácio àquele livro, Jean Renoir escreve o seguinte: ‘Muitos de meus amigos me intimaram a escrever minha autobiografia. Não é suficiente para eles que um artista expressou-se livremente com a ajuda de uma câmara e de um microfone. Eles querem saber que homem é esse artista.’”

Mais adiante, Kurosawa escreve:

“Minha decisão de escrever os presentes capítulos (…) inspirou-se nessas palavras e na impressão maravilhosa que Jean Renoir deixou em mim quando o encontrei pela primeira vez – o sentimento de que eu gostaria de envelhecer da mesma forma que ele envelheceu.

“Há mais uma pessoa com a qual eu gostaria de me assemelhar em sua velhice: o recentemente falecido diretor John Ford (1895-1973). Sinto que ele não tenha deixado sua autobiografia. Naturalmente, comparado a esses dois mestres ilustres, Renoir e Ford, não sou nada além de um garotinho. Mas se tantas pessoas estão dizendo que querem saber que tipo de pessoa sou, provavelmente é meu dever escrever algo para elas.”

Que figura Akira Kurosawa! “Comparado a esses dois mestres ilustres, Renoir e Ford, não sou nada além de um garotinho.” Ele escreveu esse prefácio em 1981, aos 71 anos. Ainda não havia sido indicado ao Oscar de melhor diretor por Ran, de 1985, mas já levara a Palma de Ouro de Cannes (por Kagemusha, de 1980) e uma quantidade imensa de prêmios nos mais importantes festivais do mundo, e já era unanimemente considerado como um dos maiores realizadores da História do cinema. (Em 1990, ganharia um Oscar honorário pelo conjunto da obra.)

Infelizmente, no entanto, Kurosawa não fala deste Donzoko na sua autobiografia: ele decidiu que só iria narrar os acontecimentos até 1950, o ano em que fez Rashomon.

“Deve-se preferir a beleza ilusória à verdade, por mais terrível que ela seja?”

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 ao filme, que descreveu como “um drama bem dirigido e com boas atuações, mas incessantemente palavroso, sobre almas torturadas, abatidas pela miséria”, baseado na “peça de Maxim Gorki”.

O monumental Guide des Films de Jean Tulard dá 3 estrelas em 4 – o que é algo raro. (A maioria dos 15 mil filmes resenhados não tem cotação alguma – apenas os de fato melhores.) No verbete, cita uma frase que seguramente Kurosawa falou em entrevistas sobre o filme: “Adaptação da peça de Gorki que Kurosawa transportou para o fim da época Tokugawa, no começo do século XIX. ‘Para fugir da miséria e da falta de liberdade, as pessoas do povo tentam se consolar através de pequenas evasões mentais. Dentro deste filme, eu tentei recriar essa atmosfera.’”

(Vi na Wikipedia que o Período Edo ou Período Tokugawa é compreendido entre 1603 e 1868, época em que o Japão foi governado por xóguns da família Tokugawa. Xógum, por sua vez, uma alta patente militar japonesa, título dado pelo próprio imperador, é o nome do romance histórico de James Clavell lançado em 1975, um cartapácio que saiu no Brasil em dois grossos volumes. O livro deu origem a uma minissérie da TV americana de 1980, com Richard Chamberlain no papel principal.)

O Petit Larousse des Films (eta guiazinho bom, este, que me surpreende a cada vez que vou a ele) faz uma bela avaliação, depois de um parágrafo de sinopse que fala em “condições quase insuportáveis das existências dos personagens em meio a detritos, álcool e tuberculose”:

“Bem mais perto de Gorki que Jean Renoir, Kurosawa constrói seu espaço cênico em um ambiente único em que entram e saem os personagens. A câmara os esmaga, em planos médios, inscrevendo-os na paisagem da qual não podem fugir. O tom cinza escuro, terno, acentua o trágico e nos lança num universo surreal. Como Gorki, Kurosawa faz aqui uma pergunta que encontramos em vários de seus filmes: deve-se preferir a beleza ilusória à verdade, por mais terrível que ela seja?”

Anotação em dezembro de 2017

Ralé/Donzoko

De Akira Kurosawa, Japão, 1957

Com Toshirô Mifune (Sutekichi, o ladrão), Isuzu Yamada (Osugi, a mulher do proprietário), Kyôko Kagawa (Okayo, a irmã mais nova de Osugi), Ganjirô Nakamura (Rokubei, o proprietário), Bokuzen Hidari (Kahei, o velho peregrino), Minoru Chiaki (Tonosama, o que se diz ex-samurai), Kamatari Fujiwara (o ator), Akemi Negishi (Osen, a prostituta), Nijiko Kiyokawa (Otaki, a vendedora de doces), Kôji Mitsui (Yoshisaburo, o jogador), Eijirô Tôno (Tomekichi, o funileiro), Eiko Miyoshi (Asa, a mulher de Tomekichi), Haruo Tanaka (Tatsu), Atsushi Watanabe (Kuna), Kichijirô Ueda (Shimazo, o agente de polícia)

Roteiro Akira Kurosawa e Hideo Oguni

Baseado na peça de Máximo Gorki

Fotografia Kazuo Yamazaki

Música Masaru Satô

Montagem Akira Kurosawa

Desenho de produção Yoshirô Muraki

Produção Toho Company.

P&B, 137 min (2h17)

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