Os Pássaros / The Birds

Nota: ★★★½

Os Pássaros é um grande filme. Agora, lógica, sentido, razão, isso ele não tem.

Faz sentido Melanie Daniels (o papel de Tippi Hedren, a protagonista da história) se dar ao trabalho de comprar os dois periquitos e levá-los até a porta do apartamento de Mitch Brenner? Melanie não tinha ido com a cara dele, quando se encontraram na loja de pets, na primeira sequência do filme, que se passa numa sexta-feira. Ele havia sido grosseiro com ela, agressivo, tinha feito críticas a ela.

Tudo bem: daria para admitir que Melanie, apesar de tudo, sentiu atração por Mitch, um sujeito com boa estampa (o papel de Rod Taylor). Quis provocá-lo, chamar sua atenção. Tá. Dá para engolir. Não tem muita lógica, mas vá lá.

Mas, ao saber, por um vizinho de Mitch, que ele estava naquele sábado em Bodega Bay, a 90 quilômetros de San Francisco, faz sentido Melanie viajar até lá?

Bem, forçando a barra um pouco, daria para admitir que teria sentido, se a atração da moça pelo sujeito fosse imensa. Certo, Melanie é mesmo uma filhinha de papai, uma mocinha mimada, uma aventureira, capaz de gestos como pular numa fonte em Roma nua – embora ela argumente que na verdade tenha sido empurrada pelos amigos que estavam com ela.

E Annie Haywood, o personagem de Suzanne Pleshette? Faz sentido Annie ter se mudado de San Francisco para Bodega Bay mesmo depois que seu caso com Mitch acabou? Sair de uma cidade linda, maravilhosa, cosmopolita, para dar aulas na escola de um vilarejo onde o sujeito que terminou com ela passa os fins de semana?

Não, não tem sentido algum.

Isso porque ainda não se falou do mais importante, do básico, do fundamental: os pássaros.

Por que os pássaros resolvem atacar as pessoas em Bodega Bay?

Por que os pássaros atacam em alguns momentos, e em outros ficam quietos, só piando?

E por que só ali em Bodega Bay e na cidade vizinha? Só ali, e não em qualquer outro lugar deste mundo, vasto mundo?

Não tem qualquer lógica. Não faz sentido. Não há razão alguma para isso.

Pois é. Mas é tudo estupidamente bem feito, a câmara é extraordinária, os efeitos especiais – embora possam parecer meio rudimentares hoje, nesta época de imagens criadas por computador – funcionam muito bem, os efeitos sonoros são fantásticos… E Tippi Hedren é linda e é muito engraçado vê-la com aquele conjunto verde-água-do-Nilo chiquérrimo e mais aquele casaco de pele numa pequena vila de pescadores.

O que acontece é que o espectador manda às favas a lógica, o sentido, a razão, e fica com um medo danado daqueles pássaros.

E há diversas sequências absolutamente inesquecíveis, antológicas. Todas as várias sequências de ataques dos pássaros são excelentes. A do final, em que Melanie-Tippi Hedren é atacada no quarto da casa dos Brenner, é absolutamente apavorante – e brilhante.

E a sequência dentro do restaurante, logo após o ataque às crianças na saída da escola e logo antes do ataque terrível no centrinho do vilarejo, que resulta no fantástico incêndio, é coisa de gênio. De aplaudir de pé como na ópera.

Só mesmo Alfred Hitchcock.

(Como é inesgotável, o tema “sentido”, “significado” do filme voltará a ser tratado mais tarde.)

Jean Tulard diz que é “un chef d’oeuvre”, uma “fábula com tons ecológicos”

“Un chef d’oeuvre”, derrama-se o Guide des Films do mestre Jean Tulard, que dá ao filme a cotação máxima, 4 estrelas, que de fato reserva aos poucos filmes que ele considera obras-primas.

“Uma campanha publicitária muito bem orquestrada e um trailer extraordinariamente bem realizado (apresentado pelo próprio Hitchcock, dando um curso de ornitologia enquanto saboreia maliciosamente uma galinha) contribuíram para assegurar um imenso sucesso a essa obra do mestre, que estava no auge de sua glória. O público procurava o espetacular, e isso lhe foi servido, porque, graças a espertas trucagens, o resultado permanece até hoje surpreendente. Observando agora, com o passar do tempo, percebe-se que se trata também de uma bela fábula com tons ecológicos, tendo como pano de fundo a luta do bem e do mal. A trama psicológica também tem importância por causa da relação mãe-filho. Graças ao gênio de Hitchcock, o conjunto é perfeitamente equilibrado, um modelo para quem quer aprender sobre cinema. Resultado: uma obra-prima.”

O livro Cinema Year by Year 1894-2000 fala dos “enormes desafios” enfrentados pela equipe de efeitos especiais, que misturaram retroprojeção, animação e pássaros mecânicos. “Todavia, para a cena em que Hedren é encurralada num quarto por um enxame de inimigos de penas, pássaros reais foram soltos junto de seu corpo. Hitchcock, que notoriamente gosta de colocar suas protagonistas ‘geladas’ em vários tipos de infernos, ficou muito contente, segundo consta, com os resultados dessa cena. Hedren foi bem menos entusiástica diante daquela provação”.

O que Hitchcock fez com Tippi Hedren foi tortura – tortura, pura e simples

Não tenho o menor interesse em tentar entender o trabalho das equipes de efeitos especiais. Há seguramente dezenas e dezenas de bons relatos sobre como foram realizadas as sequências dos ataques dos pássaros do ponto de vista técnico. Vou passar ao largo deles.

O fundamental, para mim, é o resultado, o que o espectador vê na tela. E o trabalho do diretor, dos atores, do roteirista, do diretor de fotografia.

Todas as indicações são de que as provações – para usar o termo suave do texto do Cinema Year by Year – a que Hitchcock submeteu Tippi Hedren chegaram muito perto da tortura pura e simples. Ela ficou diante de uma grande quantidade de pássaros num pequeno espaço do estúdio, e foi de fato atacada por eles.

O excelente filme A Garota/The Girl, de Julian Jarrold, que reconstitui como foram as filmagens de Os Pássaros e a relação tensa entre Hitchcock e Tippi Hedren, mostra em detalhes como foi de fato uma sessão de tortura as filmagens daquela sequência do último ataque do filme.

É absolutamente chocante.

As filmagens daquela sequência duraram uma semana inteira. “Foi a pior semana da minha vida”, Tippi Hedren diria mais tarde. Absolutamente exausta, exaurida física e mentalmente, a atriz chegou a ser internada após o fim das filmagens da sequência. Quando vemos Mitch carregando a aterrorizada Melanie escada abaixo, Rod Taylor está na verdade carregando uma dublê – a atriz estava no hospital.

Mary não quis rever Os Pássaros comigo. Disse que se lembrava bem do filme – e que, depois de ter visto A Garota, preferia não chegar perto daquela tortura.

Mas vamos a mais opiniões sobre o filme.

“Talvez seja a sua fita mais enigmática”

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4: “O clássico de Hitchcock sobre uma mulher (Hedren) e ataques massivos de pássaros que a seguem por uma isolada comunidade da Califórnia. Não é adequado a pessoas muito sensíveis; uma delícia para quem entra no jogo. Segure-se em alguma coisa e assista.”

O livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer diz que Os Pássaros “é uma espécie de anomalia” na obra de Hithcock: “O diretor nunca esteve tão próximo de dirigir um filme de terror. Talvez seja também a sua fita mais enigmática. Os Pássaros convida o espectador a variadas interpretações, mas Hitchcock não dá pistas do que tinha em mente. Se pretendia dar apenas um significado, acabou-se desviando dele e dá poucas e provocativas explicações para o horror que transpira da tela”.

O livro menciona que o diretor deixou a atriz Tippi Hedren – “escolhida a dedo para ser a última de uma longa linhagem de protagonistas louras” – “à beira de um ataque de nervos com sua ética de trabalho cada vez mais sádica e difícil de lidar”. E se arrisca a dizer que tal sadismo poderia ser “uma espécie de resposta agressiva e mal dirigida à aposentadoria precoce de Grace Kelly, sua atriz favorita”.

Poderia. Sabe-se que Hitch não se conformou com o fato de Grace Kelly trocar Hollywood pelo papel de princesa do Mônaco; mesmo depois de ela se casar com o príncipe Rainier, em abril de 1956, chegou a escrever para ela pedindo que considerasse a possibilidade de fazer mais um filme com ele.

Haviam trabalhado juntos, é bom lembrar, em três grandes filmes: Disque M para Matar, Janela Indiscreta (ambos de 1954) e Ladrão de Casaca (1955).

Não há música, em momento algum – só uma apavorante mistura de ruídos

O livro 1001 Filmes prossegue dizendo “o tema do filme permanece dúbio, na melhor das hipóteses, com Hitchcock privilegiando o horror e os efeitos assustadores”. E conclui: “A tensão aumenta com a ajuda da inovadora trilha sonora eletrônica (supervisionada por Bernard Herrmann), uma mistura de estranhos sons que algumas vezes se associam assustadoramente com o grasnar das aves e o ameaçador bater das asas”.

A trilha sonora de Os Pássaros é de fato muito, muito impressionante. Não há música, em momento algum do filme. É, seguramente, o único dos filmes de Hitchcock, pelo menos dos feitos a partir de 1940, que não tem trilha sonora do modo com que convencionalmente entendemos a expressão.

A rigor, é um dos pouquíssimos filmes, desde que o cinema incorporou o som, em 1927, que não tem nenhum acompanhamento musical no pano de fundo.

O que há é isso que o livro 1001 Filmes descreve como “uma mistura de estranhos sons” – acompanhada pelo grasnar e pelo bater de asas de pássaros. É inovador, sim – e é também assombroso, assustador.

Nos créditos iniciais – belíssimos, em que aparecem ao fundo aves atravessando a tela da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo, em todas as posições possíveis, e mordendo e tirando partes das letras dos nomes dos atores e da equipe –, está escrito o seguinte:

“Produção e composição de som eletrônico por Remi Gassmann e Oskar Sala. Consultor de som Bernard Herrmann.”

Imagino que a menção ao maestro Bernard Herrmann tenha sido apenas uma gentileza de Hitchcock. Hermann compôs as músicas para as trilhas sonoras dos filmes do cineasta entre O Terceiro Tiro (1955) e Marnie (1964). Não deve, seguramente, ter tido qualquer participação na “produção e composição de som eletrônico” da dupla citada aí acima.

“Este é um filme de Hitchcock, e as aves locais parecem saber disso”

O livro 501 Must-See Movies divide os filmes por gêneros – dez gêneros diferentes. The Birds não está entre os filmes de “Mistério & Thriller”, que é o gênero onde estão Rebecca (1940), Pacto Sinistro (1951) e Janela Indiscreta (1954). Está entre os filmes de Horror.

“Depois de um encontro fortuito em uma pet shop, a rica socialite Melanie Daniels (Hedren) decide fazer uma visita surpresa a Mitch Brenner (Taylor), na casa da família na pequena cidade litorânea de Bodega Bay, mas este é um filme de Hitchcock, e as aves locais parecem saber disso.”

Delícia de frase!

Prossegue: “Embora há muito tempo associado ao gênero, Hitchcock na verdade só fez dois filmes de horror (sendo o outro Psicose) e, como é costume nos filmes de Hitchcock, as coisas não são feitas de acordo com as regras. Hitchcock deve ter adorado gastar a primeira meia hora fingindo que o filme iria ser uma comédia romântica, mas quando ele começa a dar um número crescente de indícios da violência que viria em seguida, tudo fica de fato interessante.”

E conclui: “Uma das grandes conquistas aqui é tornar plausíveis as maneiras relaxadas e insuspeitas da maioria dos personagens, enquanto a audiência vai sendo alimentada com todos os eventos ameaçadores e toques necessários para a tensão aumente e aumente.”

O livro The Films of the Sixties, de Douglas Brode, traz uma tese interessantíssima sobre The Birds. Ele usa o conceito de “MacGuffin”, que Hitchcock adorava, citava sempre. A Wikipedia define o MacGuffin assim: “um dispositivo do enredo, na forma de algum objetivo, objeto desejado, ou outro motivador que o protagonista persegue, muitas vezes com pouca ou nenhuma explicação narrativa. A especificidade de um MacGuffin, normalmente, é sem importância para a trama geral”.

Diz The Films of the Sixties:

“Todo filme de Hitchcock tem um MacGuffin: a chave que destranca uma explicação lógica para todas as coisas aparentemente insanas que estão ocorrendo ao longo da história. Sempre desfrutamos dos assustadores elementos de suspense: coisas estranhas estão acontecendo! Sempre, no entanto, o mistério é ao fim esclarecido, e as motivações passam a parecer bastante racionais – se menos que prováveis. Essa é a base da fórmula de sucesso de Hitchcock, e funcionou bem por mais de 30 anos. Mas em 1963 Hitchcock deu à sua audiência o maior choque de todos: um filme sem um MacGuffin.

“Era The Birds, um pesadelo-tornado-realidade lindamente conrtrolado, que começa com uma fascinante, agradável, ilusoriamente relaxada confrontação em uma pet shop entre um atraente jovem, Mitch Brenner (Rod Taylor) e uma bela mulher, Melanie Daniels (Tippi Hedren). Como em um típico conto de Hitchcock, os dois rapidamente desenvolvem uma antipatia pelo outro (ou é apenas para esconder uma atração mútua?).

“Durante algum tempo, o filme tem a aparência de um estranho melodrama romântico, até que o som dos pássaros no céu vai ficando mais alto. (…) Rapidamente se mostra que os pássaros estão concentrando seus ataques naquele lugar – mas por quê? Poderia ser a presença de uma rede de paixões entre as pessoas que passou para a natureza? Estaria Hitchcock tentando realistamente mostrar como o equilíbrio da natureza pode ser perigosamente ameaçado, ou esta seria sua visão do Armagedom? Os efeitos especiais são fascinantes e assustadores, mas o ponto mais incrível do filme é que essas questões nunca são respondidas.”

Pode ser interpretado como um aviso, um alerta da natureza – uma profecia

Para mim, é simples. É como falei lá em cima: Os Pássaros conta uma história que não tem qualquer lógica, sentido, razão – e, no entanto, é um grande filme.

O próprio The Films of the Sixties também dá a explicação, logo de cara: Hitchcock quis apresentar a seu público o maior choque de todos: um filme sem MacGuffin. Um filme sem lógica.

Mas a melhor explicação de todas me parece agora aquela dada no livro 501 Must-See Movies: “este é um filme de Hitchcock, e as aves locais parecem saber disso”.

Como era um filme de Hitchcock, as aves de Bodega Bay resolveram promover ataques em massa contra os bípedes humanos. De vez em quando atacavam, de vez em quando ficavam quietas, só fazendo aqueles ruídos apavorantes. Simplesmente porque elas sabiam que aquele é um filme de Hitchcock.

Simples assim.

Agora, quem quiser fazer uma interpretação, pode, uai. Claro que pode.

Os pássaros que de repente resolvem atacar as pessoas em Bodega Bay podem ser um aviso da natureza para o bicho homem: parem de mexer comigo, seus putos, ou vocês vão ver como eu reajo!

Um recado da natureza, um alerta, alguns anos antes de muita gente boa neste mundo se despertar para os gravíssimos perigos que estamos correndo ao tratar o planeta – o único que há, pois não existe planeta B, pelo menos por enquanto e durante as próximas muitas décadas – de forma tão desleixada, como se fosse uma grande lata de lixo.

Hitchcock seria, então, não apenas o mestre do suspense, mas o profeta que, antes dos cientistas todos, nos alertou para as mudanças climáticas.

Os pássaros podem representar o que cada espectador bem entender. Livre interpretar é só interpretar, como diria o Millôr.

Robin Wood, um sério estudioso da obra do cineasta, autor do livro Hitchcock’s Films Revisited, diz o seguinte, no excelente documentário All About The Birds, realizado pelo especialista Laurent Bouzerau em 1999:

– “Os pássaros representam a erupção do caos, do imprevisível. Podem ser visto como tudo o que não entendemos, o que não podemos controlar, nem apenas no mundo físico, mas também no nosso mundo interior, sob as capas protetoras que usamos para tocar a vida.”

Parece que todos criticaram a atuação de Tippi Hedren. Acho injusto

Como toda unanimidade é imbecil, conforme ensinou Nelson Rodrigues, há uma voz dissonante. A de Pauline Kael, claro, a prima donna da crítica americana, o texto mais ferino do mundo. Diz Dona Kael:

“Alguns dos efeitos especiais são divertidos, e uns poucos são perversos e apavorantes, mas os efeitos tomam conta deste filme de pavor de Hitchcock, e ele falha ao tentar tornar as situações da trama convincentes. O roteiro (de Evan Hunter) é fraco, e as atuações são tão horrorosas que muitas vezes o espectador não sabe o que pensar dos personagens.”

Parece ter sido bastante disseminada a crítica à atuação da novata Tippi Hedren, que até então trabalhava como modelo e Hitchcock escolheu a dedo para o papel, e voltaria a trabalhar com ele no seu filme seguinte, Marnie (1964). O livro The Films of the Sixties, por exemplo, diz que a maior fraqueza de The Birds não é o final ambíguo, mas a presença de Tippi Hedren, que o diretor queria transformar em uma nova Grace Kelly. “Embora a sra. Hedren tenha bons ossos na face, uma beleza clássica e uma aura requintada, ela se provou bastante parecida com um zumbi na tela – sem nada do charme e profundeza de personalidade que Ms. Kelly trazia para seus papéis.

Não concordo. Não acho que Tippi Hedren tenha uma atuação horrorosa. De forma alguma. Bem ao contrário.

Bem, querer comparar alguém a Grace Kelly é dureza, né?  Ninguém passaria nesse teste. Ninguém.

É algo improvável, absurdo, inaceitável querer comparar qualquer atriz a Grace Kelly. É como aceitar que alguma outra atriz a não ser Audrey Hepburn interpretasse Sabrina. Em 1995, o diretor Sydney Pollack fez uma gostosa (embora desnecessária) refilmagem do clássico de Billy Wilder de 1954, com uma das mulheres mais belas da História do cinema no papel que havia sido de Audrey Hepburn – Julia Ormond. Pobre Julia Ormond – parece que nenhum crítico jamais a perdoou pela ousadia. Sempre tive a certeza de que a carreira de Julia Ormond travou para sempre por causa da refilmagem de Sabrina.

Tippi Hedren, na minha opinião, faz muito bem o papel dessa Melanie Daniels, filhinha de papai desmioladinha que resolve fazer uma grande brincadeira com o sujeito que havia encontrado por acaso numa loja de animais.

E ela está soberba na terrível sequência do ataque das aves a Melanie Daniels, no clímax final do filme. Sim, nas cenas finais, após o ataque, tem o ar de zumbi. Verdade. Consegue ter a expressão de um zumbi – porque o ataque dos pássaros deixou a personagem naquele estado absolutamente catatônico.

Alguém assobia para Melanie Daniels – e ela fica feliz da vida com o elogio

Um detalhinho que achei absolutamente fascinante: Os Pássaros mostra que, em 1963, antes da praga do politicamente correto, das paranóias de um pós-feminismo babaca, ouvir um fiu-fiu na rua era motivo de alegria

Acontece na primeira sequência do filme. Logo após os belos créditos iniciais, há tomadas gerais da Union Square, no centrinho de San Francisco. Melanie Daniels-Tippi Hedren está caminhando, com aquele belo vestido de alta-costura criado para ela por Edith Head, em direção à pet shop onde vai perguntar se já havia chegado o mainá que havia encomendado. Naquele momento, um senhor gorduchinho e careca está saindo da loja, segurando as correntes de dois cachorros – a participação especial, o cameo role que Hitch sempre fazia em cada um de seus filmes.

Alguém assobia para Melanie Daniels – fiu-fiu!

Ela então pára e se vira para trás, para ver quem havia elogiado sua beleza. Tem um sorriso de satisfação bem aberto no belo rosto.

Hoje, ligaria para o advogado para processar o assobiador por assédio.

Foi o segundo filme de Hitch baseado em história de Daphne Du Maurier

Aqui vão informações interessantes e algumas curiosidades sobre o filme, várias delas tiradas da página de Trivia do IMDb:

* Foi o terceiro filme de Hitchcock baseado em história escrita por Daphne Du Maurier (1907-1989). O primeiro foi A Estalagem Maldita/Jamaica Inn (1939) e o segundo Rebecca (1940). Os Pássaros é uma adaptação de um conto da escritora inglesa, cujos direitos haviam sido comprados para uso na série de televisão Alfred Hitchcock Presents.

* Evan Hunter (1926-2005), o autor do roteiro, escreveu um livro chamado Me and Hitch, sobre sua experiência de trabalhar com o célebre diretor. Era um escritor extremamente prolífico; escreveu mais de cem novelas, peças teatrais e roteiros para o cinema, entre eles os de Sementes da Violência/Blackboard Jungle (1955) e O Nono Mandamento/Strangers When We Meet (1960). Escrevia tanto que usava quatro diferentes pseudônimos: Ed McBain, Curt Cannon, Hunt Collins e Richard Marsten.

* A rigor, a trama do filme e o conto que o originou são bem diferentes. Segundo o IMDb, filme e conto têm em comum apenas o título e o fato de que os pássaros, naquele lugar situado no litoral, têm aquela tendência inexplicável de atacar os humanos, para em seguida ficarem quietos, para depois, de repente, atacarem de novo.

Na história de Daphne Du Maurier, o principal personagem descobre que os ataques das aves tem a ver com as marés. A ação do conto se passa na Inglaterra, e os personagens centrais são todos de uma família – pai, mãe e dois filhos.

* Acho fascinante que o nome da personagem de Tippi Hedren seja Melanie. É exatamente o nome da única filha que Tippi Hedren teve, do primeiro de seus três casamentos. A garotinha nasceu em 1957. Em 1973, aos 16 anos, faria seu primeiro filme, dirigida pelo grande Arthur Penn: em Um Lance no Escuro/Night Moves, lançado em 1975, ela, bem precoce, aparece nua em duas cenas. Viria a ter uma carreira no cinema mais bem sucedida do que a da própria mãe: Melanie Griffith tem mais de 80 títulos no currículo, já ganhou 12 prêmios, fora 21 outras indicações, inclusive uma ao Oscar, por Uma Secretária de Futuro/Working Girl (1988).

* Veronica Cartwright, que faz o papel da garotinha Cathy, a irmã de Mitch Brenner, tinha 14 anos quando o filme foi lançado. Já era uma veterana, com vários papéis em séries de TV. Havia inclusive trabalhado em dois episódios da série Alfred Hitchcock Presents, e tinha também trabalhado sob a direção do grande William Wyler na segunda versão para o cinema da peça The Children’s Hour (1961), no Brasil Infâmia. Para mim, o papel mais marcante de Veronica Cartwright foi como a dona do jornal local em As Bruxas de Eastwick – uma espécie assim de líder da caretice da cidade.

* Para as fotos e os filmetes publicitários do filme, Hitchcock aparece com um corvo pousado em ombro. Aquele corvo não aparece no filme; foi descoberto depois do final das filmagens, e comprado de seu dono original, um garoto de 12 anos.

* A produção do filme mentiu sobre a idade de Tippi Hedren nos textos distribuídos à imprensa. Foi dito (e a imprensa entrou nessa) que ela tinha 28 anos em 1963. Só várias décadas mais tarde a própria atriz desmentiu essa versão, contando que nasceu em 1930. Estava, portanto, com 33 quando o filme foi lançado.

* Melanie Daniels usa o mesmo conjunto verde – vestido e top, blazer – ao longo de praticamente todo o filme, já que viaja para Bodega Bay com a intenção de voltar logo para San Francisco, sem levar nenhum tipo de mala. Assim, a chefe do departamento de figurinos da Paramount, Edith Head, a mulher dos 8 Oscars e outras 18 indicações ao prêmio da Academia, mandou fazer seis conjuntos idênticos para Tippi Hedren usar ao longo das filmagens. Edith Head chamava aquele tom de verde de Eau de Nil – água do Nilo.

* Hitchcock deu de presente para Melanie Griffith, a filhinha de Tippi Hedren, uma boneca que tinha o rosto idêntico ao de sua mãe.

* Diversos finais foram considerados. Um deles mostraria a Golden Gate Bridge – que fica 90 quilômetros ao Sul de Bodega Bay, na entrada da Baía de San Francisco – completamente coberta de pássaros.

* Não há o tradicional letreiro “The End” no final do filme. Hitchcock queria dar a sensação de que aquele terror não terminaria jamais.

* Feito logo depois de Psicose, Os Pássaros foi o filme número 48 de Hitchcock. Depois dele o diretor faria mais cinco: Marnie (1964), Cortina Rasgada (1966), Topázio (1969), Frenesi (1972) e Trama Macabra (1976).

Anotação em agosto de 2017

Os Pássaros / The Birds

De Alfred Hitchcock, EUA, 1963

Com Tippi Hedren (Melanie Daniels), Rod Taylor (Mitch Brenner)

e Jessica Tandy (Lydia Brenner), Suzanne Pleshette (Annie Hayworth), Veronica Cartwright (Cathy Brenner), Ethel Griffies (Mrs. Bundy, a ornitóloga), Charles McGraw (Sebastian Sholes, o pescador), Ruth McDevitt (Mrs. MacGruder, da loja de animais), Joe Mantell (o vendedor no restaurante), Doodles Weaver (pescador), Richard Deacon (homem no elevador), Doreen Lang (a mãe das crianças no restaurante), Malcolm Atterbury (Al Malone, o auxiliary do xerife), Karl Swenson (o bêbado no restaurante), Lonny Chapman (o dono do restaurante)

Roteiro Evan Hunter

Baseado em história de Daphne du Maurier

Fotografia Robert Burks

Trilha sonora Remi Gassmann e Oskar Sala

Montagem George Tomasini

Figurinos Edith Head

Efeitos visuais Ub Iwerks

Produção Alfred J. Hitchcock Productions. DVD Universal

Cor, 120 min (2h)

R, ***1/2

9 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 15 Janeiro 2018 às 5:25 pm | Permalink

    Cara, essa Pauline Kael devia ser uma pessoa MUITO chata.

  2. Valdecir Tozzi
    Postado em 17 Janeiro 2018 às 7:16 am | Permalink

    Bom dia, Sérgio!
    Desculpe-me a intromissão (e, por favor, não precisa publicar este comentário), mas gostaria de alertá-lo que há datas, na última linha do texto, com erro de digitação: nos títulos Marnie e Frenesi.

    Valdecir

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 17 Janeiro 2018 às 1:16 pm | Permalink

    Grande Valdecir, muitíssimo obrigado pelo alerta! Já fiz as correções! Muito, muito obrigado!
    Sérgio

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 17 Janeiro 2018 às 1:35 pm | Permalink

    Sem dúvida, Senhorita!
    Exatamente o contrário de você!
    Um abraço!
    Sérgio

  5. Senhorita
    Postado em 17 Janeiro 2018 às 5:57 pm | Permalink

    Fui elogiada no melhor site de cinema do mundo. Toma, Pauline!

  6. Alex
    Postado em 18 Janeiro 2018 às 2:21 pm | Permalink

    A primeira vez que vi Os Pássaros faz uns 20 anos, eu era novo ainda, e fiquei fascinado com aquele terror sem qualquer razão.
    Depois deste vi todos os ‘grandes’ do Hitch, mas este ainda é meu favorito – mesmo depois de ver A Garota e toda a tortura que passou a Tippi, não há como não achar este um filme incrível.

    Foi um deleite poder vê-lo no cinema numa sessão de clássico há algum tempo. Mesmo tendo assistido umas 3 vezes, na tela grande ficou ainda melhor. Filmaço!
    Por último: também acho a Tippi Hendren muito bem.

  7. luis
    Postado em 19 Janeiro 2018 às 3:10 pm | Permalink

    Hehehe! O que eu gosto em “Os pássaros” é justamente ele não fazer sentido. O que mais me assustou foi não saber até o fim por que os bichos resolvem atacar todo mundo. E é o que me faz gostar tanto do filme. Hoje em dia, o cinema de suspense e terror busca explicar tudo nos mínimos detalhes: de onde veio isso, por que aquilo, quem é aquele… Ora, o que causa o medo é principalmente o desconhecido… Excesso de explicações acaba com qualquer terror. Um abraço e parabéns por mais um texto bem escrito e cheio de informações.

  8. Jussara
    Postado em 20 Janeiro 2018 às 4:27 pm | Permalink

    Revi “Os Pássaros” em janeiro de 2016, depois de muitos anos. Estava numa pousada, e tinha na TV uma pasta só com filmes do Hitch. Resolvi ver porque era uma tarde off, “descansando” do mar (é quase um pecado falar isso, porque eu amo o mar, mas enfim).

    Confesso que assisti sem prestar muita atenção (estava tentando mudar a data da minha volta), mas gostei de ter revisto. Só que é aquilo, obviamente não me causou o mesmo impacto de quando vi pela primeira vez, ainda bem jovem.

    Algumas cenas achei bem mal feitas (a parte dos “defeitos” especiais), e minha prima que estava ao lado, não largava o celular (geração Millennial) mas dava umas olhadas pra tela de vez em quando, comentou que a sequência dos pássaros atrás das crianças é muito tosca (também achei).

    Para mim, a parte mais assustadora é o terço final, dentro da casa. Preciso rever para fazer maiores considerações, e a Mary does have a point (o filme “A Garota” é chocante), mas ainda assim quero ver mais uma vez, principalmente agora que tenho o Blu-Ray que veio num box do velhinho inglês louco, como diz você.

    Sobre a atuação de Tippi Hedren, me lembro de que não achei péssima, mas fraca, dá pra perceber que ela estava se esforçando, não era algo natural. Sabendo pelo o que ela passou, até dou um desconto, mas também não dá pra dizer que ela era uma excelente atriz.

    Isso de nada fazer sentido na história não me aborreceu, vamos ver na próxima vez, como vai ser minha percepção.

  9. José Luís
    Postado em 1 Fevereiro 2018 às 2:42 pm | Permalink

    Gosto deste filme mas não é um dos meus favoritos de Hitchcock. Parece-me muito bem feito embora concorde em parte com as referências do Sérgio ao argumento. Lembro-me de na conversa com Truffaut o realizador dizer que tinha achado falhas no dito e que tinha improvisado, o que é absolutamente invulgar num realizador como Hitchcock.

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