Os filmes que não suportei ver até o fim (5)

Eis aí uma pequena leva de filmes que não consegui ver até o fim, nos últimos meses.

Repito o que disse da última vez que publiquei um post assim: sempre tive uma paciência de Jó, um estômago forte para agüentar abacaxis.

Com a existência, nos últimos anos, deste site, passei a abandonar pela metade ainda menos filmes do que antes. É uma coisa insana, eu sei. Mas é pragmático: se vejo até o fim, posso fazer mais um post, e manter o compromisso (insano, eu sei) que assumi comigo mesmo de botar um post novo ao menos a cada três dias.

É fundamental registrar: nem sei se são abacaxis. Não vi tempo suficiente para poder fazer uma avaliação. Seguramente devem ter qualidades, porque são admirados por muita gente. Simplesmente não me bateram. Só isso.

A Espera/L’Attesa

De Piero Messina, Itália-França, 2015

Com Juliette Binoche (Anna), Lou de Laâge (Jeanne), Giorgio Colangeli (Pietro), Domenico Diele (Giorgio), Antonio Folletto (Paolo)

Roteiro Giacomo Bendotti, Ilaria Macchia, Andrea Paolo Massara & Piero Messina

Baseado em peça de Luigi Pirandello

Produção Indigo Film, Barbary Films, Medusa Film, Pathé.

Cor, 100 min (1h40)

Desistimos de ver lá pelos 15 minutos de maneirismos e frescuras estéticas. O diretor Piero Messina passa 15 dos 100 minutos de seu filme fazendo um esforço hercúleo para não contar para o espectador o que está acontecendo.

Eu sabia o que acontecia no filme, porque, por mais que a gente tente não ler as críticas, as sinopses, acaba sabendo das bases das histórias dos filmes – e então eu sabia que A Espera conta o encontro entre uma mãe siciliana de um filho morto com a noiva dele, que não sabia que o noivo estava morto.

A mãe siciliana é interpretada por Juliette Binoche. A noiva, por Lou de Laâge. A noiva era francesa, o que torna absolutamente sensata a escolha de uma atriz francesa para o papel. Por que raios acharam que a Binoche poderia fazer uma siciliana, não tenho a menor idéia.

Mas a questão não foi essa: foi o maneirismo, o excesso de maneirismo. Quinze minutos em que o diretor tenta, de todas as maneiras, esconder do espectador o que está acontecendo é demais.

O que acontece nos primeiros 15 minutos é o seguinte: o filho morre, é enterrado. A mãe – muito rica, poderosa – está inconsolável. Alguém liga, ela não atende. Insistem. Insistem. Insistem. A mãe não atende. Lá pela décima vez, atende – e do outro lado da linha está a moça que se diz noiva do rapaz. Pede para falar com ele.

A mãe não conta que o filho está morto. Permite que a noiva viaje da França até aqueles cafundós da Sicília.

Para contar esses fatos, o diretor foge deles mais que o diabo foge da cruz.

Talvez até tenha qualidades. Muita gente gostou.

Estou velho, meu tempo é curto, não dá pra aguentar diretor chato, metido a besta.

Uau: só agora vi que se baseia em uma peça de Pirandello. Bem… O que me afastou do filme não foi a história – foi a forma de contá-la.

 

Una

De Benedict Andrews, Inglaterra-Canadá-EUA, 2016

Com Rooney Mara (Una). Ruby Stokes (Uma adolescente), Ben Mendelsohn (Ray), Tara Fitzgerald (Andrea)

Roteiro David Harrower, baseado na peça Blackbird, dele mesmo

Produção BRON Studios, Creative Wealth Media Finance, Film4

Cor, 94 min (1h34)

Mulher, a Una do título (Rooney Mara), vai confrontar o homem (Ben Mendelsohn, creio) que a comeu quando ela era garota, vizinha dele. Pelo que se mostra no início do filme, a garotinha (interpretada por Ruby Stokes) o provocava bastante.

A narrativa vai e vem entre presente e passado que nem bola de pingue-pongue. Acho que não aguentamos mais de dez minutos.

É preciso dizer sempre: pode ser que o filme seja bom. Não sei dizer – só vi dez minutos e não tive mais paciência.

O que mais me fez apertar a tecla stop foi o excesso de ida e vinda no tempo, o pingue-pongue passado x presente, Una Lolita, Una mulher.

Confesso que também o tema em si – a coisa de uma mulher abusada querer ir confrontar, muitas décadas depois, o abusador, que já havia sido condenado e cumprido pena de prisão – não me atrai em nada, em absolutamente nada.

Sou então um terrível, nojento, horroroso porco-chauvinista, talvez até defensor de abusadores?

Não. Não, de forma alguma. Mas essa excessiva patrulha, essa coisa do #MeToo, essa coisa de que todo homem é culpado até prova em contrário, essa coisa de que toda mulher que deu pra subir na vida é imaculada sofredora inocente, isso me cansa.

Incrível é que, meses depois, nos deparamos com um filme que parte de premissa semelhante, e vimos. Não o rejeitei, apesar do tema. É O Conto/The Tale (2018), de Jennifer Fox, com Laura Dern no papel principal.

 

Big Little Lies – A Primeira Temporada

De David E. Kelley, criador, roteirista, EUA, 2017

Com Reese Witherspoon (Madeline Martha Mackenzie), Nicole Kidman (Celeste Wright), Shailene Woodley (Jane Chapman), Zoë Kravitz (Bonnie Carlson), Laura Dern (Renata Klein)

Baseado em livro de Liane Moriarty

Produção Blossom Films, David E. Kelley Productions, Pacific Standard.

Cor, 14h

A série tem sido bastante elogiada, e o elenco é uma maravilha: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Laura Dern, Shailene Woodley. Deve ser boa, sem dúvida.

Se fosse um filme, creio que aguentaria até o final. Mas, como é uma série longa, 14 episódios, não teria sentido. Por que raios eu passaria 14 horas da minha vida vendo aquele monte de americanos ricos e chatos, desagradáveis, antipáticos e seus probleminhas?

Minha amiga Jussara Osmond, que tem muito bom gosto, é uma das fãs da série, e até reviu recentemente. Tinha me recomendado, e ficou surpresa quando contei que não gostei. “Olhando de perto, é um bando de rico chato mesmo”, me escreveu, “mas são histórias sobre pessoas e relacionamentos; acima de tudo pais e filhos, e violência contra a mulher (mesmo na classe A). Tem uma história de estupro também, cuja gravidez a mãe levou adiante. A personagem trata o filho com tanto amor, que achei muito legal. Nunca tinha visto isso no cinema.”

É. Acho que vou tentar ver de novo.

Anotações em abril e junho de 2018

 

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