O Terror das Mulheres / The Ladies Man

Nota: ★★★☆

O Terror das Mulheres, no original The Ladies Man, de 1961, o segundo filme escrito e dirigido por Jerry Lewis, é uma mistura nada fina de belas qualidades e algumas imensas bobagens. Tem momentos engraçadíssimos, hilariantes, deliciosos, alguns de grande inventividade – e outros bem panacas.

Como todos os que fez esse comediante extraordinário.

Como o anterior, O Mensageiro Trapalhão/The Bell Boy, de 1960, The Ladies Man não tem propriamente trama, enredo, entrecho. É um desfilar de esquetes cômicos, com apenas um fiapinho de história, bem tênue, bem fininho, apenas o suficiente para servir de ligação entre um esquete e outro.

No centro de todos os esquetes está ele mesmo, Jerry Lewis, interpretando a persona que criou para si, o do sujeito atrapalhado, desajeitado, atabalhoado, desastrado, canhestro. Trapalhão, em suma – como definiu com perfeição o título escolhido pelos exibidores brasileiros para The Bell Boy.

Naquele seu filme de estréia como diretor, depois de uma carreira de 11 anos como ator em mais de uma dúzia de comédias – muitas delas como parte da dupla Martin & Lewis, com seu amigo e depois desafeto Dean Martin –, ele fazia um mensageiro de hotel, um daqueles funcionários que carregam as malas e atendem aos pedidos mais simples dos hóspedes. O hotel era o gigantesco e luxuoso Fontainebleau de Miami, que havia sido aberto apenas seis anos antes do lançamento do filme, e as trapalhadas que o bell boy interpretado por Jerry Lewis fazia eram de matar os hóspedes de ódio – e de rir os espectadores do filme.

Um sujeito que não quer mais ver mulher à sua frente, no meio de dúzias de mulheres

Aqui, ele faz um personagem tão trapalhão quanto o do mensageiro. Chama-se Herbert H. Heebert, um jovem que, no dia de sua formatura no colegial, descobre que o grande amor de sua vida ama um outro, e fica profundamente chocado, traumatizado. Não quer mais ver mulher alguma à sua frente. Despede-se de papai e mamãe (esta, interpretada por ele mesmo) na pequenina cidade em que nasceu e viveu até então, pega uma malinha e vai para Los Angeles – onde acaba arranjando emprego na casa gigantesca de uma senhora milionária, Helen Welenmelon (o papel de Helen Traubel).

Quem o recebe, conversa com ele e dá o emprego é a empregada-faz-tudo da milionária, Katie (a ótima Kathleen Freeman).

O que Herbert H. Heebert, o sujeito traumatizado que não quer ver mulher pela frente, não sabe – e vai saber só na manhã seguinte, quando acordar – é que a mansão imensa da senhora Helen Welenmelon serve de pensionato para umas duas dúzias de jovens e belas mulheres.

A senhora Helen foi, quando jovem, uma cantora de ópera; agora viúva, com aquela mansão de dezenas de quartos, tinha resolvido acolher jovens que vinham de todos os cantos do país em busca de fama e sucesso na Cidade dos Anjos.

Herbert H. Heebert berra “Mamãe!” diversas vezes, ao longo da história, ou melhor, dos esquetes, ao se ver diante de tantas mulheres, logo ele, tadinho, traumatizado pela traição da amada.

E esta é toda a trama, se é que se pode chamar isso de trama, de O Terror das Mulheres/The Ladies Man. Como diria João Gilberto, é só isso o meu baião, e não tem mais nada, não.

Não vai aí, de forma alguma, uma crítica, uma reclamação, um menosprezo – apenas uma constatação. Vou voltar a falar dessa coisa de esquetes, mas, antes, quero ver o que dizem as sinopses e avaliações de críticos. Estou curioso para saber se nelas é realçada essa característica de fiapo de história, ou se fui eu que dei grande peso a isso.

O cenário é a verdadeira estrela do filme, diz Leonard Maltin

A sinopse do IMDb, escrita por um leitor, Chris Makrozahopoulo, resume bem a coisa, me parece:

“Depois que sua garota o deixa por um outro, Herbert fica muito deprimido e começa a procurar emprego. Finalmente encontra um numa grande casa que é habitada por muitas, muitas mulheres. Poderá ele viver na casa com todas essas mulheres?”

O Petit Larousse des Filmes – cada vez gosto mais dele – faz uma sinopse perfeita de Le Tombeur des Ces Dames: “Herbert H. Heebert surpreende sua noiva nos braços de um estranho e decide renunciar às mulheres. Ele se emprega como faz-tudo em uma casa de jovens mulheres.”

Le Tombeur des Ces Dames – esse foi o título na França. Tombeur: galã, conquistador, sedutor, um don giovanni. Os distribuidores franceses optaram pelo contrário do escolhido pelos brasileiros. Aqui, Herbert H. Heebert é o terror das mulheres; na França, é o conquistador.

Já os distribuidores portugueses foram perfeitamente portugueses: apegaram-se à lógica e ao título original, e lá o filme se chamou O Homem das Mulheres. Tout court.

Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4: “Comédia muito engraçada com Jerry como o faz-tudo em uma escola de garotas dirigida por Mrs. Wellenmelon (Traubel). O set enorme é a verdadeira estrela; Buddy Lester e George Raft têm participações especiais divertidas.”

Maltin comete um errinho – é uma espécie de pensão, não uma escola –, mas chama a atenção para duas coisas fundamentais do filme, as participações especiais e, mais importante ainda, o set, o cenário, que é sem dúvida a mais explosiva mostra de talento do filme.

Pois é: essas sinopses aí acima não citam a questão da trama pequena, miúda, fiapinho – mas creio que deixam claro que a história não é lá grandes coisas.

E isso de fato não é demérito algum.

Assim como Chaplin e Allen, Jerry Lewis criou uma persona

Ter fiapo de história, de trama, apenas o suficiente para servir de traço de união entre um esquete e outro, é uma tradição tanto dos musicais quanto das comédias do cinema americano desde bem seu início, nos tempos dos filmes mudos.

Nos musicais, essa tradição permaneceu inalterada até pelo menos os anos 50; dezenas e dezenas e bons musicais são sequências de esquetes, muito mais que propriamente histórias.

Charlie Chaplin – para falar apenas do mais importante e inesquecível de todos os pioneiros – fez filmes assim, em que muito mais importante que uma complicada trama eram as gags, as piadas visuais. E elas vinham aos borbotões, sem parar – e por isso seus filmes agradavam às platéias nas décadas de 1910, 1920, e continuam agradando até hoje.

Bem depois de Chaplin, outro gênio da comédia também começou fazendo filmes, com trama pequena, só um fiapinho de história, e uma sequência sem fim de esquetes, de gags. Os primeiros filmes de Woody Allen, feitos entre 1969 e 1973, também eram exatamente assim: Um Assaltante Bem Trapalhão, Bananas, Tudo o Que Você Queria Saber Sobre sexo, O Dorminhoco. Apenas a partir de seu quinto filme, A Última Noite de Bóris Grushenko/Love and Death, de 1975, Allen passou a de fato elaborar histórias.

Respeitadas todas as numerosíssimas diferenças entre eles, há um elemento em comum nas trajetórias de Charles Chaplin (1889-1977), Jerry Lewis (1926-2017) e Woody Allen (1935 e que Deus o tenha ainda por muito tempo). Talvez Caetano Veloso chamasse isso de linha evolutiva da comédia americana.

Todos os três criaram personas.

Cada um deles criou não apenas um personagem, mas uma persona. Chaplin criou o vagabundo de bom coração, sempre trajado daquele mesmo jeito – sapatos enormes, um terno folgado demais, o chapéu coco, uma bengala, tudo velho, tudo um tanto em andrajos. É provavelmente a persona mais famosa de toda a História do cinema, no mundo todo – Carlitos em Português, Charlot em francês, apenas The Tramp, o vagabundo, na sua própria língua.

A persona de Woody Allen em cada filme tem um nome diferente, mas todo mundo sabe identificar os traços de sua personalidade, suas características: é um tipo urbanóide, especificamente nova-iorquino, judeu, um tanto intelectual, em geral com alguma veia artística ou ligado a algo relacionado às artes, neurótico, nervoso, neurastênico, hipocondríaco, inseguro – e que fala sem parar, depressa demais, pelos cotovelos.

Na imensa maioria das vezes, o judeu neurótico foi interpretado pelo seu próprio criador – mas não necessariamente. Em Celebridades (1998), foi interpretado por Kenneth Branagh; em Tudo Pode Dar Certo (2009), por Larry David – e o personagem de Joaquin Phoenix em O Homem Irracional (2015) é quase igualzinho à persona do judeu neurótico de tantos outros filmes.

Jerry Lewis criou o sujeito atrapalhado, desajeitado, atabalhoado, desastrado, canhestro. O trapalhão.

(Aqui, um rápido parênteses. Ninguém me tira da cabeça que Jerry Lewis foi a grande influência para Renato Aragão criar seus Trapalhões.)

Como Carlitos, o trapalhão é um sujeito de bom coração. Como o judeu neurótico, é um sujeito bastante inseguro.

Faz tudo errado – neste The Ladies Man aqui, ele quebra uma porção de coisas preciosas na imensa casa cuja dona foi louca o bastante para contratá-lo como handy man, faz-tudo. Porque ele faz tudo, é verdade: faz tudo de jeito trapalhão, errado. Quebra vasos, objetos que a senhora Welenmelon colecionava com imenso amor. Consegue atrapalhar completamente o programa de televisão feito ao vivo para lembrar os telespectadores da grande cantora que havia feito imenso sucesso no passado.

Faz tudo errado – mas no fim dá tudo certo.

Inclusive os filmes. Apesar de algumas sequências simplesmente bobas, tolas, como as diversas em que o trapalhão Herbert olha para câmara e berra “Mamãe!”

De repente George Raft, o gângster de tantos filmes, pega Jerry Lewis para dançar

Entre os grandes destaques deste The Ladies Man estão as participações especiais.

Quando o filme está com 45 minutos, toca a campainha na grande mansão, e Herbert vai atender. O visitante é um homem de uns 50 anos, cara de pouquíssimos amigos, um jeitão de gângster, bem vestido, num belo terno, chapéu caro. O ator que o interpreta, Buddy Lester (na foto acima), não é conhecido do público brasileiro, mas era extremamente famoso nos Estados Unidos naquela época – um astro da stand up comedy, ator de cinema, teatro e TV, que fez a abertura de vários shows de Frank Sinatra.

O visitante tinha ido pegar sua namorada para saírem.

O número cômico entre os dois é longo, bastante bobo – e absolutamente hilariante.

Outro visitante que Herbert vai receber na porta é George Raft (na foto acima), interpretando a si mesmo – George Raft, o famosérrimo ator de tantos e tantos filmes de gângster.

Herbert não o reconhece, jamais ouviu falar em George Raft – e o esquete dos dois é, assim como o com Buddy Lester, longo, bobo e impagável.

Depois de uma longa conversa de loucos, George Raft diz para Herbert: – “Vamos dançar?”. E o duro ator que toda a audiência associa a um perigoso, malvadíssimo gângster pega numa das mãos de Herbert-Jerry Lewis, enlaça o corpo dele com a outra, e sai dançando pelo salão. Uma absoluta delícia.

Em um outro esquete sensacional, Herbert desobedece a uma ordem estrita que havia sido dada por Katie, a simpática empregada da casa – nunca bater e muito menos entrar em um determinado quarto.

Pois Herbert, curioso, é claro, doido para saber quem é a ocupante daquele quarto que não pode ser perturbada, entra nele – e ali encontra não apenas a misteriosa srta. Cartilagem (Sylvia Lewis) como também toda a grande orquestra de Harry James. E então O Terror das Mulheres, um filme de esquetes, apresenta um esquete com um número musical estrelado pela big band do grande Harry James. Mais uma absoluta delícia.

A mansão em que se passa a história vira uma grande casa de bonecas

Mas a maior sacada do filme, a cereja do bolo, a pièce de résistance do filme é como ele soube usar o cenário – a casa de vários andares e dezenas e dezenas de cômodos.

Em diversas sequências, a mansão da senhora Helen Welenmelon é mostrada como uma dessas casas de bonecas que as crianças adoram – falta a parede de um dos lados, e então vemos os diversos cômodos abertos. E, em  majetosos planos gerais, vemos os diversos personagens, Herbert e as dezenas de moças, como se fossem bonequinhos dentro de uma casa de boneca.

É de fato uma belíssima sacada, um show de criatividade.

Só por isso vale a pena ver (ou rever) o filme.

Anotação em fevereiro de 2018

O Terror das Mulheres/The Ladies Man

De Jerry Lewis, EUA, 1961

Com Jerry Lewis (Herbert H. Heebert)

e Helen Traubel (Helen Welenmelon, a dona da mansão), Kathleen Freeman (Katie, a empregada), George Raft (ele mesmo), Buddy Lester (Willard C. Gainsborough), Harry James (ele mesmo), Jack La Lanne (ele mesmo), Westbrook Van Voorhis (ele mesmo), Marty Ingels (Marty), Buddy Lester (Buddy), Pat Stanley (Fay), Gloria Jean (Gloria), Hope Holiday (Miss Anxious), Sylvia Lewis (Sylvia)

(e também, como as moças da mansão) Dee Arlen, Francesca Bellini, Vicki Benet, Patricia Blair, Lillian Briggs, Bonnie Evans, Jacqueline Fontaine, Marianne Gaba, Gretchen Houser, Karyn Kupcinet, Paula Lane, Mary LaRoche, Shary Layne, Mary LeBow, Ann McCrea, Daria Massey, Fay Nuell, Madlyn Rhue, Caroline Richter, Sheila Rogers, Nancy Root, Lynn Ross, Joan Staley, Kay Tapscott, Patty Thomas, Gloria Tracey, Meri Welles, Beverly Wills

Roteiro Jerry Lewis & Bill Richmond e Mel Brooks (não creditado)

Fotografia W. Wallace Kelley

Música Walter Scharf

Montagem Stanley Johnson

Desenho de arte Hal Pereira e Ross Bellah

Coreografia Bobby Van

Figurinos Edith Head

Produção Jerry Lewis, Paramount. DVD Empire.

Cor, 106 min

***

Título na França: Le Tombeur de ces Dames. Em Portugal: O Homem das Mulheres.

 

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