O Jornal / Novine

Nota: ★★★☆

Políticos corruptos, a política tomada pela corrupção. Organização criminosa formada por político corrupto eleito para a chefia do Executivo e por magnata do setor de construção civil. Fortunas de dinheiro sujo sendo irrigadas para campanha eleitoral.

Não, não é uma série brasileira para concorrer com o fenômeno O Mecanismo. Chama-se no original Novine, O Jornal, e, como a dirigida por José Padilha, está disponível na Netflix. Novine é a palavra em croata para jornal. A série, de 12 episódios de cerca de 50 minutos cada, é uma produção de 2016.

Lá como cá, mazelas há – na política. Na produção para a TV, para o cinema, lá como cá há talento. Novine tem um monte de qualidades.

Poder ver uma série de TV feita na Croácia, um país tão pouco conhecido da gente aqui, já é uma bênção, uma maravilha. Para jornalistas, e qualquer pessoa que goste de jornalismo, então, é fascinante, porque a redação de um jornal é o epicentro de toda a trama. A maior parte da série se passa dentro da redação ou envolvendo um dos jornalistas que trabalham no Novine – o diário que dá o nome da série se chama pura e simplesmente “Jornal”, essa coisa tão absolutamente fundamental, e tão atolada em profunda crise nos últimos anos todos, mundo afora.

Praticamente toda a ação se passa em Rijeka, maior cidade portuária da Croácia        

O quando é muito fácil de perceber: o espectador tem vários elementos para ver que são os dias atuais. Já o onde não se especifica: não aparece vez alguma (pelo menos eu não percebi) o nome da cidade em que se passa a ação. Há – como em tantas outras séries, de Dexter a O Negócio – diversas tomadas gerais da cidade, pontuando a narrativa, servindo assim como uma espécie de pausa entre os capítulos, as sequências. Muitas tomadas aéreas, de diferentes lugares da cidade – e é uma cidade grande, com paisagens muito díspares uma da outra. Fica à beira do mar, tem uma grande zona portuária, uma área com belos edifícios antigos, de não mais de seis ou oito andares, outras áreas com prédios mais altos, mais modernos.

Uma cidade grande, de muito movimento, de economia forte. Fiquei pensando que deveria ser Zagreb, a maior cidade da Croácia. Ignorância absoluta: Zagreb fica longe do mar.

A cidade em que toda a ação de Novine se passa é Rijeka, o maior porto da Croácia e a terceira maior cidade do país (depois da capital Zagreb e de Split), embora tenha apenas 240 mil habitantes em sua área metropolitana. (“Apenas” para nós, enfiados aqui no Terceiro Mundo em que são comuns monstruosidades de mais de 2 milhões de pessoas em uma única capital.)

O único jornal independente está para ser vendido para o magnata da construção

O Novine é o único jornal independente da cidade – rapidamente são fornecidas ao espectador indicações disso. Todos os demais órgãos de imprensa são, de alguma maneira, controlados pelo grupo político que domina o lugar. O principal líder político é o prefeito Ludvig Tomasevic (Dragan Despot), que teve a carreira insuflada pelo clã dos Kardum, dono de um conglomerado da construção civil. O patriarca já havia morrido; quem comanda agora os negócios é seu filho único, Mario Kardum (Alexander Cvetkovic, na foto acima). Mario e Tomasevic são aliados; têm, com mais alguns companheiros, uma empresa secreta com sede em Lichtenstein, que lava dinheiro sujo e provê fortunas para o grupo – parte das quais o prefeito Tomasevic pretende usar em sua futura campanha para a presidência do país.

Um boato começa a correr na redação logo no início do primeiro episódio: Josip Vukovic (Damir Loncar), o dono do Novine, ele mesmo jornalista quando mais novo, sujeito bom caráter, que dava toda liberdade aos editores e exigia apenas que fosse feito um jornalismo sério, independente, estaria para vender o jornal.

E estaria para vender o último jornal independente do lugar exatamente para o magnata Mario Kardum.

A série começa em tom maior, com brilhantismo, soltando faíscas de talento

Antes de saber de tudo isso, antes mesmo de ser apresentado ao jornal Novine, antes de mais nada, o espectador vê um acidente.

A série começa com um acidente de trânsito.

Vemos um carro rodando numa grande estrada quase deserta, noite profunda. Um plano longo, a câmara em um helicóptero, ou drone, no alto, no céu – os realizadores querem demonstrar logo de início que a série que está começando é uma bela produção, feita com orçamento folgado, com recursos técnicos, com talento.

No carro estão três pessoas jovens, aí na faixa dos 25, 30 anos – duas mulheres e um homem. Param o carro junto a um acesso à estrada. Saíram de uma farra, não decidiram ainda para onde vão. Estão meio bêbados, continuam bebendo no carro, falam muitos palavrões.

Um mendigo bate com a mão no carro – o rapaz que está ao volante se assusta. Discutem se devem baixar o vidro para falar com o homem. O rapaz baixa o vidro. O homem pede um dinheiro. As duas moças fazem que estão procurando dinheiro nos bolsos, nas bolsas, dizem que não têm.

– “Jesus está vendo vocês, crianças” – diz o mendigo, ele mesmo um tanto parecido com a imagem que se faz de Jesus Cristo, barba e cabelos longos.

O rapaz manda ele cair fora.

Ele começa a se distanciar do carro, mas repete o alerta: – “Jesus está observando vocês! O dia do seu julgamento virá!”

As duas moças dão risadinhas.

O mendigo se afasta, murmurando pragas.

O motorista liga o carro, vai começar a pôr o carro em movimento.

A câmara focaliza o mendigo que se afasta – enquanto o vemos na tela, ouvimos gritos de pavor e o ruído violento de uma batida de carro.

Algum carro que vinha atrás do dos jovens bateu violentamente nele.

O carro dos jovens capota – mas eles ainda estão com vida. A câmara mostra uma das moças se mexendo no chão.

O motorista do carro que bateu no deles poderia atender os feridos, ligar para a emergência.

Mas não. Foge do local.

O que tinha sido uma batida de carro, um acidente, passa a ser algo muito pior. Deixar o local de um acidente sem prestar ajuda às vítimas é crime sério, pesado. Homicídio.

Toca o telefone na casa do homem que saberemos em seguida que é o magnata Mario Kardum. O espectador compreende que é alguém pedindo a ajuda dele para encobrir a história do acidente. Kardum dá instruções – livre-se do celular, jogue fora, não ligue para mais ninguém, não faça nada, espere, vou mandar alguém aí pegar você, vou dar um jeito em tudo.

Surgem os créditos iniciais.

Novine começa em tom maior, com brilhantismo, soltando faíscas de talento.

Discutem-se muito, ao longo da série, questões importantes do jornalismo

A série discute temas importantes, fundamentais, relacionados ao jornalismo. Fala-se muito, é claro, da grande crise dos jornais – tem diminuído o número de assinantes e de leitores, têm caído a circulação e a verba publicitária dirigida aos jornais. O fenômeno vem acontecendo no mundo inteiro, ao longo das últimas três décadas, pelo menos, e, naturalmente, tem tudo a ver com o advento da internet e a difusão do conceito ilógico, irracional, estapafúrdio, de que notícia é grátis.

Muito ao contrário: jornalismo custa caro. Muito caro. Manter uma boa redação, pagar salários dignos para bons profissionais exige muito dinheiro. Quanto mais independente, e portanto mais confiável, mais caro custa o jornalismo.

Acostumado a trabalhar em redações grandes, de empresas importantes, fiquei impressionado com a estrutura da redação do Novine, o jornal que é o centro da trama da série. É tudo muito bom, instalações de primeiríssimo mundo.

Mas o jornal está enfrentando o problema universal de queda de circulação, queda de faturamento com publicidade. E para o tal Mario Kardum e seu grupo dinheiro não era problema. Ele fez uma oferta irrecusável, e o velho proprietário Vukovic não tinha como recusar.

Os jornalistas do Novine vão falar bastante da questão da independência editorial, a necessidade de se dar as notícias da forma mais isenta e mais trabalhada possível. Vão discutir também, e muito, a diferença entre o jornalismo sério, honrado, independente, e o jornalismo sensacionalista, irresponsável, cada vez mais praticado por sites que só têm compromisso com o número de cliques a ser obtido.

Muitos personagens, muitas ligações intrincadas entre eles, muita traição

Que o eventual leitor não pense, a partir do que foi dito nesses parágrafos acima, que a série tem muito papo cabeça e pouca ação. De forma alguma. Há a discussão sobre alguns dos temas mais fundamentais do jornalismo, sim, mas isso não é longo nem cansativo. E o que não falta é ação.

A trama da série é fascinantemente rica; há muitos personagens – e as relações entre eles são intrincadas, complicadas, complexas. As pessoas bebem demais, fumam demais e trepam demais – fora de casa. Pelo que a série mostra, os jornalistas, os políticos e as pessoas que os circundam na Croácia são profundamente tensos, estressados, infelizes – e infiéis com seus parceiros.

Dijana Mitrovic (Branka Katic), por exemplo, a mais brilhante repórter do jornal, conhecida na cidade, no país, respeitada, trepa com Marko Mladenovic (Mijo Jurisic), o principal assessor do prefeito. Com o agravante – e bota agravante nisso – que Marko é casado com Anja (Marina Redzepovic), que vem a ser irmã de Dijana.

A mulher que é tida como uma das mais brilhantes repórteres do país trai a irmã com o marido dela!

Outro bom repórter do Novine é Andrej Marinkovic (Goran Markovic). Andrej vai cobrir aquele acidente de trânsito que deixou três jovens mortos – e não vai descansar enquanto não conseguir alguma pista sobre a pessoa que bateu no carro dos jovens e em seguida sumiu. Vai inquirir com insistência o chefe dos investigadores da polícia, Toni Nardelli (Alen Liveric) – que vem a ser uma pessoa próxima dele, foi seu padrinho de casamento.

Toni Nardelli, o policial padrinho do bom repórter Andrej, no entanto – o espectador ficará sabendo logo – é um homem do esquema do magnata Mario Kardum. Foi para Toni que Kardum pediu ajuda para limpar o local do acidente, após receber aquele telefonema na madrugada.

Tudo enrolado como novelo de lã? Calma, porque tem muito mais – e nada do que será dito aqui é spoiler. Tudo é coisa que aparece no primeiro ou nos dois primeiros episódios da série.

Andrej, o bom repórter, é casado com Alenka Jovic Marinkovic (Olga Pakalovic), uma jovem editora do Novine. Alenka, o espectador verá logo de cara, é uma carreirista, uma pessoa fascinada com o poder, muito mais interessada em poder que em ética; tem uma relação próxima com o patrão, o velho Vukovic, e será convidada pelo novo patrão, Kardum, para assumir o cargo de editora-chefe do jornal.

O casamento de Andrej e Alenka não vai nada bem. Os dois visivelmente não se suportam. E Andrej está bastante apaixonado por uma bela jovem advogada, Hana Masic (Dajana Culjak, na foto abaixo), que acontece de trabalhar para Kardum. O magnata, na verdade, está muito interessado em comer a moça que Andrej come.

O editor-chefe do jornal, Martin Vidov (Zijad Gracic, na foto abaixo) – que será substituído pela jovem e carreirista Alenka – é veterano, experiente, bom jornalista, embora talvez não brilhante, nem muito firme. Procura sempre o apoio de Nikola Martic (Trpimir Jurkic), mostrado claramente como o melhor, mais seguro, mais talentoso editor do jornal.

Veremos que o editor-chefe Vidov esconde-se no armário: não assume publicamente, mas é homossexual, tem um caso firme com um amante. Veremos também, com o tempo, que Vidov conta com a amizade e o apoio do arcebispo católico da cidade. O qual, por sua vez, é muito próximo de Dubravka Kardum, a mãe de Mario Kardum, a viúva do patriarca que construiu o império da construção civil. Mario tem grande temor pela mãe, pessoa de personalidade forte, inteligente, safa.

Nikola Martic, o melhor, mais experiente e seguro editor do jornal, não está muito feliz no seu casamento com Dunja (Katarina Bistrovic-Darvas), também jornalista, no momento desempregada. Até porque está absolutamente fascinado por Tena Latinovic (Tihana Lazovic), uma jovem e bela repórter do Novine. Ah, as jovens e belas jornalistas… (Eu mesmo me casei com duas.)

Ali pelo meio, o ritmo diminui – mas volta logo a acelerar

Questões sérias do jornalismo. Conflitos conjugais a dar com o pau. Relações intrincadas. Gente traindo a mulher, a irmã. Um acidente que se transformou em crime, com três vítimas fatais – em que a polícia trabalhou para encobrir a identidade do culpado.

Pavor na redação diante da chegada de um novo patrão – e um patrão sabidamente envolvido com negócios escusos e com a política. Um prefeito corrupto que luta para ser o candidato de seu partido à Presidência da República.

Ah, sim! E por duas vezes, não apenas uma, mas duas, é dada aquela ordem fantástica, o sonho de todos os jornalistas: – “Parem as máquinas!”

Novine é um caldeirão de temas interessantes, eletrizantes.

É necessário fazer um registro: a série dá uma piorada ali pelo meio.

Começa, como já foi dito, com tudo, a mil por hora, esbanjando talento, vigor.

Os três primeiros episódios são fantásticos, de deixar o espectador sem fôlego – repletos de informações novas, surpreendentes, a cada momento.

Há um cuidado dos realizadores de mostrar os acontecimentos todos de cada episódio como se acontecessem ao longo de um mesmo dia. Cada episódio começa de madrugada, ou de manhãzinha – para terminar na noite profunda, já na madrugada seguinte.

No entanto, ali pelo quinto, sexto episódio, há uma queda no ritmo. Cheguei até a achar que estavam encompridando um pouquinho aquelas tomadas gerais da cidade, que estavam enchendo um pouquinho de linguiça.

Essa sensação passa depressa. As coisas vão rapidamente esquentando novamente – e esquentando muito.

Algumas características são bem semelhantes às das séries conhecidas

É fascinante como a série da Croácia tem, ao mesmo tempo, tantos elementos semelhantes a séries americanas, inglesas, brasileiras – e elementos distintos, diferentes delas.

Aquela coisa já citada de termos, de tempos em tempos, tomadas da cidade, planos gerais, muitas vezes vistas aéreas, pontuando a narrativa, é idêntica ao que se usa em tantas outras séries.

O esquema de cada episódio começar com um pequeno intróito – em geral uma ação inesperada, surpreendente, um gancho para fisgar o espectador, chamar sua atenção, e só depois começarem os créditos iniciais – é o mesmo usado em tantas séries que já vimos por aqui.

Paralelamente a isso, a esses pontos semelhantes às séries a que estamos habituados, no entanto, os realizadores de Novine apresentam algumas características que são únicas, sui generis, ou, no mínimo, pouco usuais.

Por exemplo, a câmara lenta, o slow motion.

A câmara lenta é um recurso bem pouco usado, na imensa maioria dos filmes e das séries de TV da Europa Ocidental e das Américas.

Novine abusa do slow-mo.

Em cada um dos 12 episódios, e mais de uma vez em cada um deles, vemos uma sequência em câmara lenta. Um acontecimento forte, inesperado, um momento de especial importância na trama – plá! Lá vem o slow-mo.

(E, diacho, nunca mais na vida, desde que Paul Simon lançou o disco Graceland, em 1986, consigo pensar em câmara lenta sem lembrar dos versos: “These are the days of miracle and wonder / This is the long distance call / The way the camera follows us in slo-mo / The way we look to us all”. Mas isso é algo absolutamente pessoal. Perdão pela digressão.)

A série croata tem uma frescurinha formal absolutamente sui generis

Mas há algo ainda mais inusitado do que os momentos em câmara lenta, nas bossas formais criadas pelos realizadores da série Novine.

Em cada um dos 12 episódios, um dos personagens enfia a cabeça numa pia cheia de água.

Coisa mais inusitada!

Será que na Croácia há uma mania nacional de as pessoas deixarem suas pias cheias de água, e lá pelas tantas enfiar a cabeça ali?

Só se for na Croácia, porque no resto do mundo, que eu saiba, isso não acontece.

Neguinho chega, abaixa a cabeça, e xuááá… enfia a cabeça na água.

E a câmara mostra a cara do neguinho, em super big close-up, em absoluto contreplongée. Como se a câmara estivesse colocada no fundo da pia, embaixo da água. Filmando o rosto do personagem ali acima, os olhos abertos, saindo bolhas pelas narinas, pela boca.

Uma frescurinha formal, sacumé? Aquilo que eu chamo de fogos de artifício, criativol. Muito usado por diretores jovens e que se julgam geniais, e filmam como se estivessem berrando no ouvido do espectador: – “Olhem como eu sou genial! Eu sou que nem o Godard, o Gláuber!”

Não chega a atrapalhar, essa frescurinha formal usada em Novine. Eu até que me diverti. Dizia pra Mary: – “Ih, olha aí o slow-mo! Agora mesmo alguém enfia a cara na água da pia!” E não dava outra: daí a pouco alguém enfiava a cara na água da pia.

Ao contrário do usual, temos aqui um único diretor, um único roteirista

Há algo mais sério que diferencia a série croata da maioria das outras que conhecemos.

Em geral, há uma ou duas pessoas que são tidas como os criadores de cada série. Os responsáveis por tudo, os regentes maiores, que organizam o trabalho dos vários roteiristas e dos vários diretores. Organizam tudo – até mesmo para que haja uma certa uniformidade ao longo dos episódios, para que o estilo peculiar de cada roteirista ou diretor não se imponha demais, prejudicando a unidade geral do conjunto.

Muito diferentemente do que a gente está acostumado a ver, a série Novine foi, parece, todinha escrita por uma única pessoa e dirigida por uma única pessoa. Argumento e roteiro por Ivica Djikic, direção Dalibor Matanic.

Digo parece porque tudo indica que é assim, mas não consegui confirmar essa informação com fontes confiáveis. O IMDb, sempre perfeito, informa que Ivica Djikic escreveu 6 episódios e Dalibor Matanic dirigiu 6 episódios – mas não informa quem teria dirigido os outros 6. Na Wikipedia, há textos sobre Novine – só que em croata.

Como todos os episódios têm o mesmo estilo, o mesmo jeito, creio, com razoável dose de segurança, que Djikic escreveu os 12, que foram, todos eles, dirigidos por Matanic.

Os dois são jovens. Dalibor Matanic é croata, nascido em Zagreb em 1975, o mesmo ano da minha filha. Tem 19 títulos em sua filmografia.

Ivica Djikic também é croata, embora tenha nascido – em 1977 – em Tomislavgrad, na Bósnia e Herzegovina, então uma das unidades da República Socialista Federal da Iugoslávia. Foi jornalista, é claro – ou então não teria condições de ter escrito tão bem sobre uma redação de jornal como demonstra nesta série. Hoje vive apenas de escrever.

Nunca vi qualquer dos outros 18 títulos de filmes e séries que Dalibor Matanic dirigiu. O nome de Ivica Djikic no entanto, já estava – para minha surpresa – neste 50 Anos de Filmes: é dele o romance em que se baseou o filme Cirkus Columbia, de 2010, uma co-produção Bósnia e Herzegovina, França, Inglaterra, Alemanha, Eslovênia, Bélgica e Sérvia sobre a qual escrevi, maravilhado, em maio de 2012:

“Uma beleza, uma maravilha, um filmaço, este Cirkus Columbia. (…) É uma fascinante história de família, contada com imenso talento e um leve toque de humor, embora seja um drama pesado, devido à situação política que é o pano de fundo da narrativa e está sempre presente no dia-a- dia dos personagens. A ação se passa em uma pequena cidade, não identificada, em 1991 – logo após a queda do comunismo e a dissolução da antiga Iugoslávia, e às vésperas da proclamação da independência da Bósnia e Herzegovina, em 1992. Naquele mesmo ano, 1992, começaria a absurda, sangrenta, brutal guerra civil que duraria três anos.”

E em seguida escrevi: “Como outros grandes filmes recentes, Cirkus Columbia traz aquela moral, aquela conclusão definitiva: as pessoas são muito mais importantes que as ideologias, os governos, os países. As ideologias, os governos acabam servindo para infelicitar, infernizar a vida das pessoas.”

Interessantíssimo: é mais ou menos o que o espectador pode achar, ao final do décimo-segundo episódio deste Novine.

A impressão é de que na Croácia não se mata tanto quanto por aqui

Há ainda uma questão de fundo, séria, importante, em que a série croata se distancia demais das feitas mais ao Ocidente.

Não é algo sobre que se possa falar muito sem cair no spoiler – mas é algo tão importante que tem que ser mencionado.

Na Croácia não se mata tanto quanto nos países da Europa Ocidental e das Américas.

Ou, no mínimo, nesta série croata não se mata como nas séries e nos filmes e nos livros da Europa Ocidental e das Américas.

Se os fatos narrados em Novine se dessem nos Estados Unidos, no Brasil, na Inglaterra, na Noruega de Jo Nesbo, na Suécia de Stieg Larsson, haveria, com toda certeza, um grande número de assassinatos.

A impressão que esta série dá é que, na Croácia, hoje, se dá mais importância à vida humana.

Talvez seja uma lição que eles tenham aprendido com tanta carnificina nas guerras do início dos anos 1990.

O mundo é uma salada russa. O mundo é pequeno pra caramba

Rijeka, Zagreg, a Croácia – tudo isso nos parece muito distante, pouco conhecido ou absolutamente desconhecido. E é mesmo. A rigor, a rigor, tudo o que se refere à antiga Iugoslávia nos parece bem distante, pouco sabido.

Os mais velhos, mais interessados, mais lidos é claro que se lembram do assassinato do príncipe Ferdinando, do Império Áustro-Húngaro, em Sarajevo, em 1914, tido como o estopim para a deflagração da Primeira Guerra Mundial. Lembram-se, é claro, da Iugoslávia como uma reunião de várias repúblicas, diversos povos, sob o regime do marechal Josip Broz Tito (1892-1980), um ditador comunista sui generis, anti-stalinista. Sabem do esfacelamento do país logo após a queda do comunismo na União Soviética e em todas as repúblicas satélites dela – e da sangrenta, brutal, pavorosa guerra civil que se seguiu ao fim da Iugoslávia, após a qual estabeleceram-se ali diversos países independentes, Bósnia e Herzegovina, Kosovo, Sérvia, Macedônia, Montenegro e Croácia.

É possível que esteja falando apenas por mim, mas o fato é que não compreendi na época e não compreendo hoje o processo que levou àquela guerra horrenda, apavorante, em plena Europa de final de século XX, o pedaço mais civilizado do planeta, na mesma época em que se dava o processo de unificação, de pacificação do continente, após ter sido o epicentro de duas guerras mundiais.

Da Croácia mesmo, me lembrava de pouquíssimas coisas. Sim, é uma região de forte presença do cristianismo – e a série mostra isso muito bem, e explora isso muito bem. É uma região de mulheres muito belas. É a região de Zagreb e, de resto, de Dubrovnik, que dizem ser uma cidade lindíssima, debruçada sobre as águas profundamente azuis do Adriático, e que foi homenageada por John Lewis, o líder do Modern Jazz Quartet, com a composição “A Day in Dubrovnik”, gravada pelo MJQ e pela New York Chamber Symphony no álbum Three Windows, de 1987 – 16 minutos de  música que fazem qualquer ateu crer em Deus.

Novine nos faz conhecer bastante da Croácia. E nos apresenta a bela, estranha, múltipla cidade de Rijeka.

Parece tudo tão distante – e, no entanto, se o eventual leitor olhar no mapa, verá que Rijeka fica pertinho, mas pertinho mesmo de Trieste, ali na nossa tão conhecida Itália. Não muito longe de Veneza.

Como dizem os poetas Cartola e Abujamra, o mundo é um moinho. O mundo é uma salada russa. O mundo é pequeno pra caramba.

Anotação em maio de 2018

O Jornal/Novine

De Miodrag Sila e Nebojsa Taraba, produtores, Croácia, 2016

Direção Dalibor Matanic

Com Branka Katic (Dijana Mitrovic, a melhor repórter), Trpimir Jurkic (Nikola Martic, o melhor editor), Alexander Cvetkovic (Mario Kardum, o magnata da construção), Zijad Gracic (Martin Vidov, o editor-chefe), Olga Pakalovic (Alenka Jovic Marinkovic, a editora carreirista), Edita Karadjole (Dubravka Kardum, a mãe de Mario Kardum), Zdenko Jelcic (Blago Antic, o investigador), Tihana Lazovic (Tena Latinovic, a jovem repórter), Mijo Jurisic (Marko Mladenovic, o assessor do prefeito), Dajana Culjak (Hana Masic, a advogada, assessora de Mario Kardum), Alen Liveric (Toni Nardelli, o chefe de polícia), Anja Matkovic (Renata Savic, a repórter do jornal concorrente), Dragan Despot (Ludvig Tomasevic, o prefeito), Goran Markovic (Andrej Marinkovic, o bom repórter), Ivica Pucar (Dario Antic, o filho de Blago), Jasna Maloca (Ljubica Majic), Marina Redzepovic (Anja Mladenovic, a mulher de Marko, irmã de Dijana), Katarina Bistrovic-Darvas (Dunja Martic, a mulher de Nikola Martic), Sandra Loncaric (Vanja Kardum, a mulher de Mario Kardum), Damir Loncar (Josip Vukovic, o antigo dono do jornal), Anita Cuncic (Sofija Naletlic), Mladen Cvetko (Tomislav Mirkovic), Leonardo Kranjec (Dusko Santic), Heda Oresic (Jasna Ivanda)

Roteiro Ivica Djikic

Fotografia Danko Vucinovic

Música Jura Ferina e Pavao Miholjevic

Montagem Ivan Zivalj e Tomislav Pavlic

Produção Miodrag Sila e Nebojsa Taraba, Drugi Plan

Cor, 600 min aproximadamente (10h)

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Título em inglês: The Paper.

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