O Décimo Homem / El Rey Del Once

Nota: ★★½☆

O diretor argentino Daniel Burman tem duas características marcantes. É prolífico: de 2000 para cá, escreveu e dirigiu 9 longa-metragens e mais um curta, parte de um filme de vários autores, fora a direção de duas minisséries.

E é constante, coerente. Trata sempre, basicamente, dos mesmos temas: as relações familiares – e a comunidade judaica de Buenos Aires.

Neste El Rey Del Once, no Brasil O Décimo Homem, ele vai fundo, mas bem fundo no retrato de uma parte dessa comunidade. Descreve com detalhes, com minúcias, usos e costumes de judeus portenhos – e são usos e costumes tão próprios, tão específicos, que, muitas vezes, enquanto via o filme, me senti como se estivesse observando o comportamento de gente de uma civilização que me é desconhecida. Algo que sinto, por exemplo, quando vejo um filme chinês, ou japonês, ou coreano. Como não sei como são os costumes daquelas civilizações, fica bastante difícil saber exatamente o que está acontecendo.

Mostram-se rituais do judaísmo – e quem é gói bóia

Só para dar um exemplo:

Quando o filme já passou da metade, está com 50 dos seus curtos 82 minutos, Ariel, o protagonista (interpretado, muito bem, por Alan Sabbagh), segue Eva (Julieta Zylberberg) por uma rua escura, deserta, do Once, o bairro portenho do título original. Ele está de carro, e a segue bem devagar. Ela entra em uma sinagoga. Pouco depois, ele entra também – e é cercado por um grupo de homens, que, aparentemente, acham que ele chegou ali para participar de um ato religioso.

Ariel é logo cercado pelos homens, que falam alegremente com ele, com a alegria de quem recebem o filho ingrato, o filho pródigo. Falam sobre um Tifilin – e eu vou lá saber o que é isso? Algum gói aí sabe o que é isso?

E então procedem a algum ritual que, para quem não conhece os códigos do judaísmo, não faz o menor sentido.  Colocam um solidéu na cabeça de Ariel, mandam que ele tire o relógio do pulso. Um outro homem chega e pergunta a ele se aquela é a primeira vez.

O senhor idoso que comanda a operação enrola no braço esquerdo de Ariel uma fita ou coisa parecida, e diz para ele: – “Quem nunca colocou um tefilin na vida é chamado de karkafta.”

OK, se eu estivesse vendo um filme sobre um ritual num terreiro de umbanda também não estaria entendendo lhufas, é verdade – e os terreiros de umbanda estão mais perto de mim do que Jerusalém ou as sinagogas do Once ou ali do Bom Retiro, mas o que quero dizer é que em boa parte de El Rey del Once quem é goi bóia.

A sequência prossegue. Ariel está com uma expressão de absoluta surpresa: apesar de perfeitamente judeu, ele nunca foi religioso, e também não está compreendendo o que está acontecendo.

– “Quando você põe o tefilin, entra em outro nível”, diz o senhor idoso para Ariel. “É similar à circuncisão.”

Um outro homem manda ele ficar calado – não pode falar nada naquele momento: – “O importante é colocar os tefilins na mão e na cabeça. Depois você pode falar.”

Ariel-Alan Sabbagh faz expressões fantásticas de absoluta surpresa, de quem não está entendendo coisa alguma.

Os homens todos em volta dele começam a cantar, a bater palmas.

A câmara de mão do diretor de fotografia Daniel Ortega (diacho, o cara é homônimo do ditador nicaraguense) focaliza os rostos que se movem em grande close-up.

Os homens cantam, batem palmas, botam a mão de Ariel sobre seus  olhos, para que ele não veja nada.

E aí passam a cumprimentá-lo: o ritual acabou, e ele merece os parabéns, mesmo sem saber por que, exatamente da mesma forma que o pobre do espectador gói.

Aturdido, Ariel diz que precisa ir ao banheiro.

Os homens dizem que ele é uma nova pessoa, agora que eles já terminaram o ritual. Ariel repete que quer ir ao banheiro. Indicam a ele a direção do banheiro, e ele segue naquela direção. Depois de atravessar um aposento, chega diante de um outro – e vê Eva, que não o vê, tirar um roupão e exibir seu corpo nuzinho.

Eva vai até uma espécie de piscina e mergulha, diante do olhar cada vez mais aturdido de Ariel.

Ariel vive em Nova York, e vai a Buenos Aires rever o pai

Pois é. Se Ariel fica aturdido, imagine-se o espectador que, como eu, jamais entrou em uma sinagoga, e não tem a menor idéia de que em algum lugar da sinagoga há piscinas para os pecadores expiarem seus pecados.

El Rey del Once é todo assim: cheio de atitudes, de comportamentos que são incompreensíveis para a parte da humanidade que não usa solidéu.

Daniel Burman mergulha tão de cabeça em aspectos do cotidiano da comunidade judaica que acaba ficando meio em segundo plano o outro grande tema central de seus filmes – as relações familiares, em especial a relação pai e filho. Ou filho e pai, melhor dizendo, já que os protagonistas dos filmes de Burman, ele mesmo um rapaz jovem, nascido em 1973, são os filhos.

Quando o filme começa, sem créditos iniciais, após apenas os nomes das companhias produtoras, como agora é a moda, Ariel está em Manhattan, onde vive e trabalha faz muitos anos. Havia saído de Buenos Aires fazia muito tempo, e se dado bem na capital do mundo; formado em economia, trabalha com finanças, e portanto ganha bastante bem.

Naquele momento em que a ação se inicia, Ariel está se preparando para embarcar para Buenos Aires, para rever o pai, depois de muitos anos, e apresentar para ele sua namorada Monica. Monica é bailarina, e, como tinha um teste daí a alguns dias, viajaria um pouco mais tarde para a Argentina.

Toca o celular de Ariel e é exatamente o pai, Usher (Usher Barilka). O filho o chama pelo nome, e não de pai, papai ou qualquer variação disso. Usher ordena que Ariel, antes de embarcar, compre sapatos 46, com velcro – é para um garoto que não tem condições de usar sapatos com cadarços. Ariel tenta argumentar que está quase na hora de ir para o aeroporto – e por que não comprar o sapato em Buenos Aires, afinal? Usher diz que número 46 é impossível achar em Buenos Aires – e insiste que tem que ser com velcro.

Ariel tinha planos de se despedir de Monica, antes de embarcar, mas o pouco tempo que tinha, consome procurando sapatos 46 com velcro em diversas lojas. Do táxi rumo ao aeroporto JFK, liga para Monica, que reclama muito por não poder se despedir pessoalmente dele.

O espectador verá que Monica é meio chatinha, e liga demais para o namorado. O que o espectador não verá será Monica: ela jamais aparece em cena. Apenas se ouve sua voz, a voz da atriz Elisa Carricajo.

O pai, o rei do bairro, é tão ocupado que não tem tempo para ver o filho

O espectador verá pouquíssimo de Usher, mas ouvirá bastante a voz dele – a voz do ator Usher Barilka.

Usher, o espetador verá também, é um homem ocupado demais, faz mil coisas ao mesmo tempo, não consegue um momento sequer para encontrar o filho que não vê faz anos e que atravessou meio mundo para estar com o pai.

A narrativa é rápida demais, há cortes de tempo aqui e ali, e não é de imediato que o espectador percebe exatamente que Usher criou uma fundação, uma espécie de Exército da Salvação pessoal, para atender aos desvalidos da comunidade judaica de Buenos Aires.

Usher, o espectador irá percebendo, é o que o título original do filme diz, El Rey del Once. Todos os conhecem, todos querem saber dele, todos têm um favor a pedir a ele.

Ariel vai à fundação do pai, reencontra uma tia querida, fica conhecendo uma das voluntárias mais dedicadas, mais abnegadas, uma moça bela, estranha, de beleza igualmente estranha – a Eva já citada acima, e que até aparecerá peladinha entrando na piscina da sinagoga.

Quando Ariel vai cumprimentá-la, uma pessoa diz que ninguém pode tocar nela. Ariel imagina que seja alguma coisa relacionada à ortodoxia religiosa.

Mais tarde vai tocar bastante nela.

Usher liga para Ariel e pede que ele faça um favor: ir ao apartamento de fulano de tal, que morreu, e retirar de lá tudo o que houver de valor. Como não conhece as coisas, já que esteve fora tanto tempo, melhor que vá com Eva, manda Usher.

Eva não fala nada. Usher a chamará de mudinha, em telefonemas posteriores a Ariel. Mas Eva não é muda, conforme o espectador verá. O motivo pelo qual falava tão pouco no começo, por que tem fama de mudinha, não entendi, não. Deve ser porque sou gói.

Como Truffaut, Daniel Burman conta histórias de um seu alter-ego

A distância que se estabelece entre parentes, em especial entre pais e filhos, é tema recorrente nos filmes de Daniel Burman.

Daniel Burman foi formando um conjunto de filmes absolutamente autorais – essa coisa tão maravilhosa, tão rara e tão bem-vinda. Não quero dizer que o talento desse jovem argentino seja proporcional ao dos grandes que vou citar a seguir, mas o fato é que ele faz filmes tão autorais quanto François Truffaut, Woody Allen e Ingmar Bergman.

Truffaut, para exemplificar, criou um alter-ego, Antoine Doinel, que perseguiu ao longo de um período de 20 anos, entre Os Incompreendidos (1959) e O Amor em Fuga (1979). Daniel Burman criou em seus filmes diversos Ariel. Os protagonistas são quase sempre Ariel – e por quatro filmes Ariel foi interpretado pelo mesmo ator, Daniel Hendler, da mesma forma que Antoine Doinel foi sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud.

Em O Abraço Partido (2004), o Ariel feito por Daniel Hendler é um jovem mal saindo da adolescência que frequenta uma galeria de Buenos Aires em que sua mãe tem uma lojinha de lingerie e seu irmão trabalha com importação e exportação. Diversos conhecidos da família estão à procura de passaporte do país da Europa unificada de onde vieram seus pais e avós, uma saída para a vida sempre apertada em um país do Terceiro Mundo de economia sempre instável. Já Ariel estava à procura de respostas para suas dúvidas de jovem ainda não instalado no mundo dos adultos – inclusive as sobre sua origem, sua família, seu pai, que um belo dia abandonou mulher e filhos para ir lutar no exército de Israel e nunca mais deu notícia.

O Abraço Partido deu a Daniel Burman, então com apenas 31 anos, o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim, e mais o Urso de Prata de melhor Ator para Daniel Hendler.

O filme seguinte, na minha opinião, foi ainda melhor: em As Leis de Família/Derecho de Família (2006), o mesmo Daniel Hendler faz outro Ariel, Ariel Perelman, um jovem advogado que está se sentindo bem trabalhando como professor e defensor público. O problema é que o pai dele, também advogado, e dono de um grande escritório, sentindo que pode estar chegando perto da morte, quer que o filho assuma a chefia do seu escritório.

Seguiram-se outros filmes bons: Ninho Vazio (2008), Dois Irmãos (2010), o mais fraco de todos, na minha opinião, A Sorte em Suas Mãos (2012).

Os dois atores principais são excelentes, das melhores coisas do filme

Uma das grandes qualidades deste El Rey del Once é a escolha do ator que interpreta o Ariel da vez, esse Ariel que viaja de Nova York para reencontrar o pai que não vê faz muitos anos – e não consegue vê-lo, porque Usher, o pai, é ocupado demais fazendo caridade para os outros e não tem um tempinho para ficar com o filho único que mora longe.

Alan Sabbagh, nascido em Buenos Aires em 1980, filho de pai sírio, ator de cinema, teatro e televisão, tem 29 títulos de filmes no currículo, inclusive o ótimo Clube da Lua/La Luna de Avellaneda (2004). É um ótimo ator – e, fisicamente, é o oposto do galã. É uma figura simpaticíssima – mas é atarracado, gorduchinho, tem longas entradas.

É uma maravilha um protagonista que parece muito mais uma pessoa “normal”, gente como a gente, do que um modelo, um galã, um alaindelon.

E Julieta Zylberberg, a atriz que faz Eva, é outro grande acerto. Julieta, também de Buenos Aires, de 1983, tem quase 50 títulos no currículo – inclusive o fantástico Relatos Selvagens; ela faz, no segmento “Os Ratos”, a garçonete de bar à beira de estrada que reconhece no único cliente de uma noite chuvosa o sujeito rico que causou a morte de seu pai.

Julieta não tem absolutamente nada daquela beleza Barbie – e o jeito mal cuidado com que Eva se veste e se penteia, mais o estilo um tanto sujo, granulado, apressado, às vezes mal iluminado escolhido a dedo por Burman e seu diretor de fotografia Daniel Ortega ajudam a não realçar a beleza fora padrão de seu rosto. Mas é uma bela mulher, sim – e uma ótima atriz.

Não daria para terminar o texto sem falar, ainda que muito rapidamente, de El Once, o bairro que dá o título ao filme, o bairro onde Usher, o pai desse Ariel da história, é o rei.

Se o eventual leitor conhece Buenos Aires, é até provável que já tenha caminhado pelo Once, mesmo sem saber. Quem dá uma olhada na planta de Buenos Aires no Google Maps não enxerga um bairro chamado El Once. Me parece que El Once na verdade, na verdade, é um sub-bairro, um trechinho da cidade que é tido como tal pelos seus moradores. É basicamente a região de fervilhante comércio popular delimitada por Avenida Rivadavia , Pueyrredón, Corrientes e Calle Pasteur, um pouco ao Sul da Recoleta, a Oeste de Montserrat, a Norte de Balvanera. Uma referência básica é a Estación Once do metrô, perdão, do subte.

Não é a região da colônia judaica rica, como em São Paulo é o bairro de Higienópolis. Não – é a concentração da colônia judaica mais classe média média para pobre. Equivale ao Bom Retiro paulistano.

Dá vontade de voltar a Buenos Aires e caminhar por ali, prestar atenção aos Ariel, às Eva.

Anotação em abril de 2018   

O Décimo Homem/El Rey Del Once

De Daniel Burman, Argentina, 2016

Com Alan Sabbagh (Ariel)

E Julieta Zylberberg (Eva), Usher Barilka (Usher), Elvira Onetto (Susy), Adrián Stoppelman (Mamuñe, o açougueiro), Daniel Droblas (Hercules), Elisa Carricajo (a voz de Mónica), Dan Breitman (Mumi Singer), Uriel Rubin (Marcelito Cohen), Dalmiro Burman (Ariel aos 11 anos)

Argumento e roteiro Daniel Burman

Fotografia Daniel Ortega

Montagem Andrés Tambornino

Produção BD Cine, Pasto, Televisión Federal, Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales

Cor, 82 min (1h22)

**1/2

 

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