O Cisne / The Swan

Nota: ★★☆☆

O Cisne/The Swan, de 1956, é uma das mais contundentes provas de que um filme não é só um filme. É um filme, claro, mas é também o que o cerca, as histórias envolvendo sua produção, seu lançamento, o impacto que provocou, as reações a ele, o contexto todo.

Em O Cisne, a família de uma princesa européia, jovem e linda, é visitada por seu primo, o príncipe herdeiro do trono – e todos esperam que ele a peça em casamento.

Durante as filmagens, a atriz que interpretava a princesa estava sendo cortejada por um príncipe europeu.

No dia 19 de abril de 1956, após cerimônia na Catedral de São Nicolau em Monte Carlo, Miss Kelly, como os jornais americanos a chamavam, passou a ser Sua Serena Alteza Princesa Grace do Mônaco.

O Cisne foi lançado nos Estados Unidos no dia 26 de abril, exatamente uma semana depois do casamento que atraiu as atenções de todo o mundo, quando todos os jornais e emissoras de TV falavam do casamento de Grace Kelly com o príncipe Rainier do Mônaco.

“Grace divertiu-se filmando O Cisne, mas sua concentração total não estava no trabalho”, diz uma das biografias da atriz que virou princesa de verdade, Grace Kelly – As Vidas Secretas da Princesa, de James Spada. “A distração da sua co-estrela tornou-se óbvia para (Alec) Guinness, que recorda:

“ – Às vezes a via esperando no palco de filmagem olhando aereamente, e lhe perguntava: ‘Você está se sentindo bem?’ Então, ela voltava a si, mas sempre com um princípio de surpresa, como se tivesse estado longe dali.

“Ela estava bem longe dali – imaginando como seria sua vida como princesa do Mônaco. Pois, pouco depois de ter voltado para casa vinda de Cannes, e durante toda a filmagem de O Cisne, Grace estava sendo cortejada – pelo correio, telefone e mensageiro – pelo príncipe Rainier.”

Grace Kelly havia viajado a Cannes para a apresentação do filme número 9 de sua meteórica carreira cinematográfica, o terceiro sob a direção de Alfred Hitchcock, Ladrão de Casaca/To Catch a Thief (1955). Parte do filme havia sido rodada ali mesmo na Riviera francesa – e foi durante as filmagens que a atriz e o príncipe Rainier se conheceram.

Diante desses fatos todos, dá para ver O Cisne apenas como um filme, e nada mais? Dá para ver O Cisne como algo absolutamente independente de sua história, seu contexto?

Um emaranhado de coincidências cerca O Cisne

Ah, sim, tem um detalhinho interessante, nesta história cheia de coisas interessantes, detalhinhos ou não: Grace e Rainier se casaram na catedral que leva o nome de São Nicolau. Fantástica coincidência: o sujeito que, em O Cisne, forma um triângulo amoroso com a princesa jovem e bela e o príncipe herdeiro do trono se chama Nicholas.

Nietzsche teria tido que as coincidências não existem, e há quem, com sabedoria muito maior, diga que as coincidências são uma maneira de Deus se manter anônimo. O fato é que Nicholas, o professor que é uma das pontas do triângulo amoroso de O Cisne de 1956, é interpretado por Louis Jourdan, o francês bonitinho, galãzinho, que Alfred Hitchcock – o sujeito que dirigiu 3 dos 11 únicos filmes estrelados por Grace – tinha detestado ao fazer The Paradine Case, no Brasil Agonia de Amor (1947).

O filme com Grace Kelly foi a terceira adaptação da história para o cinema

O Cisne de 1956 foi a terceira versão cinematográfica de uma peça escrita em 1920 pelo húngaro Ferenc Molnár, nome de batismo Ferenc Neumann (1878–1952). Molnár ainda vivia na sua Budapeste natal quando Hollywood fez as primeiras duas versões da peça. (Nos anos 30, fugindo do nazismo, ele iria se radicar nos Estados Unidos.) A primeira, com o título da peça, The Swan, havia sido feita ainda na época do cinema mudo, em 1925; o diretor foi um sujeito de quem nunca ouvi falar, Dimitri Buchowetzki, e o único ator que conheço é Adolphe Menjou, que faz o príncipe herdeiro Albert.

A segunda versão fugiu do título original. Produção de 1930, chamou-se no original One Romantic Night e, no Brasil, Noite de Idílio. Foi dirigida por Paul L. Stein; a grande, soberba Lilian Gish interpretava a princesa Alexandra. Já os atores que fazem o príncipe Albert e o professor Nicholas me são desconhecidos: Rod La Rocque e Conrad Nagel, respectivamente.

Sim, mas e que raio de história é esta criada pelo dramaturgo húngaro que Hollywood filmou três vezes?

Aí é que está.

Era uma vez uma princesa que foi criada para se casar com um rei

Não sei a peça teatral, nem as versões de 1925 e 1930, mas o que O Cisne de 1956 conta é o seguinte:

Era uma vez na Europa Central, nos anos 1910, uma família real que havia perdido o seu reino. Não se explica por que, se o reino havia virado uma república, se havia sido incorporado por outro reino.

O pater famílias havia morrido. Viviam, num esplêndido castelo, no meio do campo, a mãe, a princesa Beatrice (Jessie Royce Landis, a mesma atriz que havia representado a mãe de Grace Kelly em Ladrão de Casaca), sua tia velhinha Symphorosa (Estelle Winwwod) e os filhos Alexandra (ela, Grace Kelly), George (Van Dyke Parks) e Arsene (Christopher Cook).

A primeira sequência é longa, majestosa, toda feita com planos gerais, até porque eram os primeiros anos do CinemaScope, que hoje chamamos de tela widescreen, mas na época era um grande novidade, a tela grande para concorrer com a telinha pequena da televisão.

Nessa primeira sequência, a princesa Beatrice recebe um telegrama. É do seu primo Albert, que ela não via já fazia uns 20 anos – Albert, o filho da sua prima, a rainha Maria Dominika (o papel de Agnes Moorehead).

Albert, o filho da rainha, o príncipe herdeiro, o futuro rei, avisa no telegrama que dali a dois dias estará chegando para visitar a prima Beatrice.

Albert já havia percorrido toda a Europa, visitando as princesas disponíveis, e não havia gostado de nenhuma.

Portanto – a princesa Beatrice tem absoluta certeza, nos primeiros minutos do filme –, se ele vem agora visitar aqueles parentes, é porque ele vai pedir Alexandra em casamento.

Durante toda a vida, Alexandra havia sido preparada para isso: para ser pedida em casamento por um príncipe que em seguida herdaria um trono. Beatrice havia criado a filha Alexandra para ser rainha – simplesmente assim.

E então chega o príncipe Albert, o herdeiro, o futuro rei – o papel de Alec Guinness, o extraordinário ator inglês, um dos maiores camaleões do cinema, em seu primeiro papel em uma produção americana.

E o príncipe Albert, que todo mundo achava que tinha ido até lá para pedir a mão da prima princesa Alexandra em casamento… não dá a menor bola para aquela mulher de beleza maluca, sideral, absurda, inimaginável!

A mãe da princesa tenta uma manobra para que o príncipe se coce

Vive no castelo um sujeito cultíssimo, que entende de tudo, de álgebra a astronomia, passando por esgrima. Chama-se Nicholas Agi (o papel do galã Louis Jourdan), e é o preceptor e professora dos dois príncipes, os garotos George e Arsene – além de instrutor de esgrima da princesa Alexandra.

Nicholas, é claro, é óbvio, é absolutamente apaixonado por Alexandra. Quem na face da terra não seria apaixonado por aquela Alexandra-Grace Kelly toda?

Na última noite da visita do príncipe Albert ao palácio da prima Beatrice haveria um grande baile. E o sujeito continuava não dando a menor atenção à prima de beleza absurda. Aí Beatrice tem a idéia: faz com que Alexandra convide o professor Nicholas. Quem sabe a visão do professor bonito com a princesa não faria Albert finalmente prestar atenção a ela?

Parece uma daquelas historinhas para moçoilas românticas e bobas

Enquanto rolava diante de mim essa história, eu pensava que aquilo era um conto de fadas – bem semelhante ao conto de fadas que fez Grace Kelly abandonar o papel de uma das maiores estrelas de Hollywood para assumir o de princesa de verdade.

Interessante – eu pensava – essa coisa de vida imitando a arte, de arte imitando a vida.

E achava tudo aquilo, mais do que um conto de fadas, uma historinha meio bobinha para moçoilas românticas bastante iletradas, semi-descerebradas.

Moçoilas leitoras daqueles romancinhos vagabundos, sem qualquer valor literário – será que o eventual leitor sabe como é? Aqueles romancinhos publicados em livrinhos vendidos nas bancas de jornal. Havia uma coleção “Sabrina”, não sei se existe mais. Romancinhos bem baratinhos, bocós, escritos em escala industrial.

Mais antigamente tinha M. Delly, Biblioteca das Moças.

Torquato Neto foi fundo na sátira a essas coisas na letra de “Mamãe Coragem”: “Mamãe, não chore, não tem jeito / Pegue uns panos pra lavar leia um romance / Leia Elzira, a Morta Virgem, O Grande Industrial”.

Quando o filme estava ali pela metade, quase perdi a paciência e parei de ver.

Tinha resolvido ver o filme apenas e tão somente por causa de Grace Kelly; planejo ter aqui no 50 Anos de Filmes todos os filmes de Grace Kelly, assim como todos os filmes de Marilyn Monroe, de François Truffaut, de Alfred Hitchcock, de Woody Allen.

Era uma tarefa, um trabalho, ver The Swan.

E eu me enchia o saco com aquele filme que contava uma historinha meio bobinha para moçoilas descerebradas.

E aí tudo muda.

Aos 42 minutos do segundo tempo, The Swan vira tudo – mesmo que o espectador não queira.

E aí não tem jeito: tem que vir o aviso. Se o eventual leitor não tiver visto o filme, deve parar por aqui, ou então pular para o outro intertítulo, porque aí vem spoiler. Vou revelar o fim do filme.

Atenção: spoiler, e dos piores. Revela-se o fim do filme

É muito surpreendente. É fantasticamente surpreendente.

Tudo parecia se encaminhar numa direção, naquela historinha romântica, absoluto conto de fadas.

De repente, faltando uns 5 minutos para o filme terminar, muda tudo.

Ao contrário do que acontece nos contos de fada, ao contrário do que acontece na imensa maioria, quase totalidade das comédias românticas, o amor não conquista tudo. O amor não vence.

Acontece o oposto. Vence a convenção, o casamento por conveniência.

Até os 43 do segundo tempo, um absoluto conto de fadas. Quando já estamos quase entrando na prorrogação, muda tudo. O filme passa a ser cinicamente realista – ou realisticamente cínico.

E temos um final infeliz.

A Metro contava com um tremendo sucesso de bilheteria – e não foi

A Metro-Goldwyn-Mayer fez tudo para que o filme fosse um extraordinário sucesso de bilheteria. Ao perceberem que o namoro de Grace Kelly com o príncipe Rainier era sério, os executivos do estúdio seguraram o filme, atrasaram seu lançamento, na expectativa de que pudesse vir um casamento.

Depois da conclusão das filmagens, Grace Kelly estrelou um novo filme, seu 11º, que viria a ser seu último – Alta Sociedade,

O Cisne só foi lançado, como já foi dito, no dia 26 de abril de 1956, uma semana após o casamento em Mônaco, para aproveitar toda a exaustiva cobertura da imprensa.

Nem dois meses depois, em 17 de junho, estrearia Alta Sociedade.

Parece incrível, mas o filme não foi um estrondoso sucesso de bilheteria. Ao contrário: consta que, com bilheteria de US$ 1,763 milhão no mercado americano e US$ 1,986 milhão no resto do mundo, deu um prejuízo de US$ 798 mil.

A biografia de Grace Kelly transcreve a seguinte declaração de Dore Schary, o chefão da Metro nos anos 50:

“ – Pensávamos que O Cisne seria um bom filme… realmente bom. E pensávamos que seria um sucesso absolutamente tremendo. Aqui estávamos jogando com este conto de fadas que se transformara em realidade. Então, o casamento aconteceu, com todos os cinejornais, e depois não importaram de ir ver nosso filme O Cisne. Eles diziam: – ‘Tá, nós sabemos sobre isso, mas aqui está a verdadeira historia’.”

(Os grifos para realçar as palavras são do livro, não meus.)

E então o autor James Spada afirma: “Também houve insinuação de que, na época da distribuição de O Cisne, muita gente já tinha visto o suficiente de Grace Kelly”.

Deve seguramente ter havido o efeito de superexposição, e muita gente devia de fato estar saturada de tanto ver Grace Kelly na TV e nos jornais.

Mas será que parte do insucesso popular do filme não se deve exatamente ao fato de que, no fim, não é aquele conto de fadas absoluto que parecia ser?

O público gosta de contos de fadas. Não de histórias que começam como conto de fadas e terminam de forma realisticamente cínica.

O fato é que Alta Sociedade – que, como já foi dito, estreou menos de dois meses depois – foi um grande sucesso de bilheteria. E O Cisne foi um fracasso.

Um guia faz um jogo de palavras sobrea princesa na reel life e na real life

Em seu guia, Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4:

“Suave comédia de costumes de Molnár tem elenco atraente mas não muito brilho. Jourdan está bom como pretendente de Kelly, mas ela está prometida ao príncipe Guinness. Filmado antes em 1925 e (como One Romantic Night) em 1930. CinemaScope.”

O Guide des Films de Jean Tulard é curto e grosso sobre Le Cygne: “Elegância e refinamento. A atriz principal se casa quando o filme é lançado.”

O guia de Mick Martin & Marsha Porter dá 3 estrelas em 5 e faz um joguinho de palavras intraduzível. Diz que o filme, baseado na peça de Molnár que já havia sido filmada antes duas vezes, “dá à princesa de Hollywood Grace Kelly bastante tempo para se comportar na vida de celulóide como aquilo em que ela se transformaria pouco depois na vida real”. (Na foto acima, a príncesa Grace e seu príncipe na vida real.)

No original, claro que é muito melhor: “This Ferenc Molnar comedy (…) gave Hollywood princess Grace Kelly ample time to act in reel life what she shortly became in real life”.

Anotação em fevereiro de 2018

O Cisne/The Swan

De Charles Vidor, EUA, 1956.

Com Grace Kelly (princesa Alexandra), Alec Guinness (príncipe Albert), Louis Jourdan (professor Nicholas Agi), Jessie Royce Landis (princesa Beatrice), Brian Aherne (Karl, o irmão de Beatrice), Leo G. Carroll (Caesar, o mordomo), Estelle Winwood (Symphorosa, a tia de Beatrice), Agnes Moorehead (rainha Maria Dominika), Van Dyke Parks (George, irmão de Alexandra), Christopher Cook (Arsene, irmão de Alexandra), Robert Coote (capitão Wunderlich, ajudante de ordens do príncipe Albert)

Roteiro John Dighton

Baseado na peça de Ferenc Molnár

Fotografia Joseph Ruttenberg e Robert Surtees

Música Bronislau Kaper

Montagem John Dunning

Figurinos Helen Rose

Produção Dore Schary, Metro-Goldwyn-Mayer.

Cor, 112 min

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