O Bar / El Bar

Nota: ★★½☆

O Bar, do realizador basco Álex de la Iglesia, tem muito de O Anjo Exterminador, a ópera surrealista que o iconoclasta profissional Luís Buñuel cometeu no México em 1962. Isso é óbvio demais, salta aos olhos. Mas tem também, na minha opinião, uma boa pitada de Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, e um tanto do odor de A Comilança (1973), de Marco Ferreri.

Na obra de Buñuel, um grupo de pessoas das classes abastadas se reúne para um lauto jantar – e, ao final do repasto, percebem que simplesmente não conseguem sair do salão. E ali vão ficando, vão ficando, até que os últimos resquícios de algo parecido com educação, fineza, temperança desaparecem completamente para dar lugar a um comportamento cada vez mais animalesco.

É quase exatamente a mesma coisa que acontece na história criada e roteirizada por Álex de la Iglesia e seu costumeiro colaborador Jorge Guerricaechevarría. Aqui, num dia de semana qualquer, um grupo de pessoas está dentro de um bar na Plaza Mostenses, no centro de Madri, quando de repente se vêem impedidas de sair. São pessoas comuns, “normais”, classe média. E, à medida em que o tempo vai passando, aquelas pessoas vão, exatamente como em O Anjo Exterminador, igualzinho que nem, deixando de lado a educação, a fineza, a temperança. e também qualquer tipo de racionalidade, e vão se transformando em animais, feras, bestas.

Bem no início da narrativa, quando estamos aí com apenas uns dez minutos de filme, um homem que estava no bar saí à rua – e leva um tiro fatal, disparado não se sabe de onde. Enquanto ele cai na calçada, o sangue formando uma poça crescente, todas as dezenas, centenas de pessoas que passavam pela praça central no horário comercial, diurno, desaparecem como que por encanto.

O grupo dentro do bar se alvoroça, o pânico começa a roçar as pessoas.

O homem baleado se contorce, ainda não está morto.

As pessoas discutem se devem ajudá-lo, fazer alguma coisa. Um homem rompe o imobilismo, abre a porta do bar, sai e abaixa-se para junto do ferido. Novo tiro – e o segundo homem cai morto ao lado do primeiro.

Oito pessoas trancadas em um bar. Gente “normal”, urbanóides comuns

As pessoas ficam discutindo o que fazer, e se perguntando o que pode ter acontecido. Seria um ataque terrorista? Algo como uma guerra bacteriológica?

São nove as pessoas que ficam presas no bar. Eram oito inicialmente, mas na última hora chega um tipo estranho, um homem gordo, que não pede nada e vai direto para o banheiro:

* Amparo (o papel da veterana Terele Pávez), a dona do bar;

* Sátur (Secun de la Rosa), o garçom, o faz-tudo do bar;

* Elena (Blanca Suárez), uma jovem bonita, que estava indo para um encontro marcado com um rapaz num desses sites de reunião de almas solitárias, e entrou no bar para tomar um café e tentar recarregar o celular que acabara de miar;

* Nacho (Mario Casas), um tipo de óculos e barba negra longa, que poderia talvez parecer um muçulmano. Veremos que trabalhava em publicidade, e, no momento do primeiro tiro, estava completamente absorto ouvindo música com fones de ouvido e vendo alguma coisa interessantíssima no seu iPad;

* Trini (Carmen Machi), uma freguesa constante daquele bar, uma senhora aí de cerca de 50 anos, que sempre ficava jogando numa maquininha de caça níquel;
* Israel (Jaime Ordóñez, na foto abaixo), um sem-teto, mendigo andrajoso, conhecido na região, que volta e meia passava pelo bar e ganhava uma bebida e alguma comida de Amparo ou Sátur:

* Andrés (Joaquín Climent), sujeito atarracado, barbado, um ex-policial aposentado, também cliente costumeiro do bar;

* Sergio (o ator argentino Alejandro Awada), um sujeito que carregava uma pasta tipo 007, vendedor, comerciante.

Oito pessoas – três mulheres, cinco homens. Gente “normal”, classe média, urbanóides comuns, como quaisquer outras pessoas das grandes cidades. Mais o gordo que se trancou no banheiro.

Trancados dentro de um bar bem no centro de Madri. Incapazes de sair, de romper a barreira. Trancados, fechados entre quatro paredes. Huis clos. A cada minuto que passa demonstrando que a frase de Jean-Paul Sartre é a verdade escancarada – o inferno são de fato os outros.

O filme abre com um espetacular plano-sequência, um tour de force belíssimo

Tinha visto apenas um dos filmes de Álex de la Iglesia – Enigmas de um Crime/The Oxford Murders, co-produção Espanha-Inglaterra França de 2007 –, e tinha fica absolutamente, mas absolutamente encantado. The Oxford Murders, baseado em novela do espanhol Guillermo Martínez, com roteiro da dupla Álex de la Iglesia-Jorge Guerricaechevarría, é, como anotei na época “um show de talento, inteligência, erudição. Um filme descaradamente pretensioso, metido a besta – e tem motivos para ser, porque é bom mesmo.”

Por isso me dispus a ver uma nova obra do realizador basco (de la Iglesia nasceu em Bilbao, em 1965) com a melhor das expectativas.

E ele abre seu filme de 2017 usando exatamente o mesmo truque que usou quando The Oxford Murders está aí com uns 15: um fantástico plano-sequência em que a câmara passeia por diversas pessoas no meio de ruas apinhadas do nervoso, superpovoado centro da cidade.

É um balé extraordinário, fantástico, este que a câmara de de la Iglesia e seu diretor de fotografia Ángel Amorós executa no início do filme, logo após créditos iniciais de imensa beleza gráfica, em que vemos algo como micro-organismos das mais diversas cores se movimentando.

É um tour de force, é uma maravilha, é muito talento.

A câmara pega a bela Elena conversando com uma amiga no celular; aí abandona Elena e passa a seguir outra pessoa; depois abandona essa segunda e pega uma terceira que cruzou com a segunda, e assim por diante. Vamos conhecendo os rostos de várias das pessoas que reencontraremos logo em seguida no bar. Depois a câmara volta a pegar Elena, vemos que uma cigana chega perto dela e entrega um pequeno objeto – um amuleto, pelo qual esperava um pagamento, ao menos algum trocado. Mas Elena, ainda falando ao telefone, distraída, joga fora a dádiva – e a cigana começa a xingá-la e a disparar todo tipo de maldição contra ela.

A maldição da cigana é terrível, é que nem a do faraó. A pobre Elena, pouco depois disso, pagará todos os seus pecados dentro daquele bar que se transforma em prisão, em masmorra de tortura medieval. Ela e os demais infelizes que o destino fez estarem dentro daquele bar quando de repente aconteceu…

O que exatamente aconteceu? E por que motivo aquilo tudo aconteceu?

Mas aconteceu o quê, exatamente? O que houve que levou à morte a tiros de dois homens diante daquele bar? Por que raios os corpos deles depois desapareceriam inteiramente, assim como as poças de sangue? Por que diabos surgiriam ainda mais tarde aquelas pessoas todas vestidas de preto, como se fosse uma equipe da Swat, com máscaras de oxigênio, e botariam fogo naqueles pneus que acumularam ali no meio da rua?

Por que motivo aconteceram todos esses eventos? Qual é a explicação lógica, racional, para tudo isso?

Ahá!

É aqui que entra a semelhança com Os Pássaros.

Tudo o que acontece ali com aquelas nove pessoas retidas num bar do centro de Madri neste O Bar acontece exatamente pelo mesmo motivo que levou os pássaros a ficarem doidões em Bodega Bay, no litoral da Califórnia, acima de San Francisco, e passarem a agredir as pessoas como nunca jamais em tempo algum fizeram em qualquer outro lugar do planeta. Qual seja: a gente não sabe!

Ninguém sabe!

Porque os roteiristas resolveram escrever a história assim, uai! Precisa de mais alguma explicação?

Mistério neste mundo de mistérios, brother! Mistério, hermano! No le gusta un misterito?

É uma fantasia. Uma parábola. Uma alegoria.

Um jeito de demonstrar que os homens têm apenas uma capinha muito fininha de racionalidade envolvendo-os. E, em situação de perigo, a capinha vai embora e eles se mostram o que realmente são: animais. Perfeitamente capazes de, no minuto seguinte, se revelarem feras, bestas. Bestas-feras.

E não adianta os Novos Baianos cantarem que “besta é tu”. Bestas – é o que mostra o filme de Álex de la Iglesia – somos todos nós.

Todo o filme tem um um jeito de sujeira, de fedor. É um filme que fede

Falta eu falar o que tem a ver A Comilança, de Marco Ferreri, com este O Bar.

É o tom, o clima, o jeito todo de sujeira, de fedor. O Bar é um filme que fede.

O Cheiro do Ralo (2006), do incensado diretor Heitor Dhalia, é cheiroso, comparado com este o Bar – cheira a lavanda, água de rosas.

Durante bem mais de 30 dos longos, intermináveis 102 minutos do filme, os personagens estão mergulhados na merda. Literalmente. Não é força de expressão, não: é absolutamente literal.

Então é assim. É um filme feito com talento – muito talento. A primeira meia hora é de fato um tour de force de deixar o espectador zonzo, tonto. Depois ela vai ralentando, ficando mais e mais violento, repetitivo, repetitivo, violento – e fedido.

Não recomendo a um caro amigo que veja O Bar – por mais talento que Álex de la Iglesia exiba.

Mas, como detesto falar mal de um filme sozinho, indico para o eventual leitor uma outra opinião, a de Jesús Martin, na revista eletrônica Acción. Ele começa assim: “Álex de la Iglesia mistura surrealismo apocalíptico e thriller asfixiante, nesta excêntrica comédia urbana”.  Conclui dizendo que, embora irregular em seu desenvolvimento, “El Bar goza da vantagem sempre agradável de ser uma loucura simpática e singular”.  Entre uma coisa e outra, faz uma avaliação sensata, correta, do filme.

Anotação em outubro de 2017

O Bar/El Bar

De Álex de la Iglesia, Espanha-Argentina, 2017

Com Blanca Suárez (Elena), Mario Casas (Nacho. o barbudo), Carmen Machi (Trini, a senhora que joga), Secun de la Rosa (Sátur, o garçom), Jaime Ordóñez (Israel, o mendigo), Terele Pávez (Amparo, a dona do bar), Joaquín Climent (Andrés, o policial aposentado), Alejandro Awada (Sergio, o comerciante), Jordi Aguilar (o varredor de rua), Diego Braguinsky (funcionário), Mamen García (a cigana), Daniel Arribas

Argumento e roteiro Álex de la Iglesia e Jorge Guerricaechevarría

Fotografia Ángel Amorós

Música Carlos Riera e Joan Valent

Montagem Domingo González

Casting Pilar Moya

Produção El Bar Producciones, Atresmedia Cine, Atresmedia, Crea SGR,

Institut Valencià de Cinematografia (IVAC).

Cor, 102 min (1h42)

**1/2

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