Mogambo

Nota: ★★½☆

Que tal uma trama assim? O sujeito está enfurnado no meio da selva africana há décadas, vivendo de capturar animais selvagens e vendê-los para algum lugar da civilização e eventualmente de servir de hospedeiro e guia de ricaços interessados em fazer safáris. De repente, cai de pára-quedas diante dele a Ava Gardner.

Bem, aí o sujeito – o sortudo mais sortudo da face da terra – agradece ao bom Deus, põe-se de joelhos, beija o chão que Ava Gardner pisou e a pede em casamento e fim da história?

Não, não é bem assim. O camarada fica bravo porque chegou a Ava Gardner em seu pequeno hotel-base de caçadas no meio da selva da África central. Trata mal o animal mais belo que Deus criou – no dizer de Frank Sinatra, que se casou com ela –, e insiste em que ela deve ir embora dali na próxima diligência , perdão, no próximo barco que passar pelo rio.

(Fiz confusão com diligência, porque o filme é de John Ford.)

Mas passa-se um pouco de tempo, e o sujeito, que é mal humorado pra burro, mas não é idiota, oferece um uísque para Ava Gardner. Ela gosta, e aí, com 18 minutos de filme, o camarada crau – come a Ava Gardner.

Aí, uns minutos depois, aparece diante do cara a Grace Kelly.

Pode uma coisa dessas?

O aventureiro-caçador-desbravador-empreendedor Victor Marswell – o papel de Clark Gable, aos 52 anos de idade, mas parecendo bem mais –passa décadas solitário ali no meio da selva africana. E de repente surgem na frente dele, com poucos dias de diferença, Ava Gardner e Grace Kelly!

É um absurdo!

Uma mistura de aventura na selva africana com uma triste história de amor

O mestre John Ford que me perdoe – assim como o eventual leitor que for apaixonado por Mogambo (1953) –, mas não consegui fazer uma abertura séria sobre o filme que acabei de rever agora pela primeira vez. (Só tinha visto uma única vez, em 1963, há exatos 55 anos, e não me lembrava de nada.)

Fiquei pensando nisso o tempo todo: como é possível um sujeito de repente ter diante dele, apaixonadas por ele, doidas por ele, Ava Gardner e Grace Kelly?

Agora falando sério:

Mogambo é uma interessante mistura de filme de aventura na África, uma aventura de brancos ingleses e americanos no meio dos mistérios, perigos, todo o exotismo e a extraordinária beleza do continente africano, com um drama de amor – uma história triste de um triângulo amoroso, a rigor um quadrado amoroso.

Todo triângulo amoroso – ou quadrado, ou o que for – é necessariamente triste. No mínimo para um dos envolvidos. Sei disso por experiência própria (várias experiências próprias, para ser mais exato), e então confesso que me senti um tanto perdido ao rever o filme agora. Minha concentração ficava toda para a questão do drama de amor, e não sobrava para a parte que deve ter sido responsável pelo sucesso de público do filme – a beleza exótica da selva africana, as diversas etnias e seus costumes esquisitos, os animais correndo, nadando e voando livres leves soltos, elefantes, hipopótamos, girafas, flamingos, jacarés, gorilas.

A mulher belíssima aparece ali porque havia sido convidada por um marajá

O roteiro – de John Lee Mahina, baseado na peça de teatro de Wilson Collison – não se preocupa em explicar muito as origens do protagonista da história, o Victor Marswell interpretado por Clark Gable – de onde ele veio, porque foi parar ali no meio da selva da África Central.

O que ficamos sabendo é que ele é um trabalhador sério, dedicado. Estabeleceu ali seu próprio negócio – um negócio que dá alguma renda, mas exige muito trabalho, trabalho duro, intenso, tenso. Já na primeira sequência do filme, ele é chamado por seu braço direito, o inglês John Brown-Pryce (o papel de Philip Stainton), porque os nativos que trabalham para eles identificaram que um leopardo negro estava se aproximando da presa – um carneiro que a equipe havia colocado numa espécie de gaiola diante de um grande alçapão, um buraco cavado na terra e coberto por gravetos e grama.

O leopardo negro, lindíssimo, de fato está chegando perto da presa – e cai no buraco. No momento em que estão retirando o animal do buraco, emaranhado numa teia de cordas, ele morde a mão do outro branco que trabalha para Marswell, Leon Boltchak (Eric Pohlmann). Esse Boltchak reage dando chicotadas no leopardo – e o bicho consegue fugir.

Marswell, um sujeito de fato mal humorado, e tenso, por causa do trabalho duro, volta para a base – seu pequeno, porém confortável hotel-casa-alojamento – furibundo da vida. E vai ficando mais furibundo ao ver a grande quantidade de malas recém-chegadas com o barco que passa pelo rio vizinho uma vez por semana.

Em vez de se derreter diante da visão daquela Ava Gardner toda, Marswell a trata como se ela fosse a fonte de todos os problemas de sua existência.

Ela se apresenta como Kelly, Eloise. Acabava de chegar de Nova York, a convite do marajá de Banjanore.

O marajá havia estado ali, de fato, fazendo safári. Mas tinha voltado para a Índia uma semana antes.

E Marswell diz que Eloise Kelly deverá pegar o próximo barco, daí a uma semana, e se mandar dali, porque ele tinha muito trabalho a fazer.

Assim que o personagem de Gable come o de Ava, aparece Grace Kelly

Hum… Uma mulher belíssima que conheceu um marajá da Índia em alguma festa em Manhattan, e mais tarde foi chamada por ele para ir até a África? Eloise Kelly seria, então, uma puta de luxo?

Provavelmente seria. Mas era 1953, o Código Hays – o rigorosíssimo código de autocensura aprovado pelos grandes estúdios no início dos anos 30, diante da pressão das ligas das senhoras cristãs e coisas parecidas – estava em plena vigência, e então o roteiro vai baixar bastante a bola e mostrar Eloise Kelly como uma mulher que, tendo perdido o marido muito amado durante a Segunda Guerra, tratava de esquecê-los em festas e boates.

O que eu falei que acontece dos 18 minutos de filme não é brincadeira. Quando estamos com 18 minutos de filme, e é talvez a segunda noite de Eloise Kelly ali, Victor Marswell-Clark Gable, com aquela voz absolutamente marcante dele, aquela voz que havia fechado … E o Vento Levou (1939) com um desrespeito aberto ao Código Hays (“Frankly, my dear, I don’t give a damm” – algo como francamente, minha cara, tô me lixando pra isso), diz o seguinte:

– “Kelly, you are all right. Care for a drink?”

Kelly, você é gente fina. Vai uma bebida?

Eloise Kelly, até porque está na pele de Ava Gardner, que era bem chegada, diz que naturalmente topa, sim.

Daí a pouco, ele – crau!

E, aí, no barco seguinte, chega um rico cientista inglês que havia contratado os serviços de Victor Marswell como hoteleiro e caçador-desbravador. O antropólogo Donald Nordley (Donald Sinden) queria fazer estudos de campo na selva africana. E então ele chega, acompanhado da jovem esposa Linda – o papel de uma Grace Kelly no frescor de seus 24 aninhos, em sua terceira aparição nas telas do escurinho do cinema, depois de Horas Intermináveis/Fourteen Hours (1951) e Matar ou Morrer/High Noon (1952).

Um acampamento-hotel perdido no meio da selva da África Central é pequeno demais para a beleza de Ava Gardner e Grace Kelly, não é, não?

Um filme com Ava Gardner e Grace Kelly é um absurdo.

A mulher vivida é morena. A gentil, recatada, religiosa, é loura

Uma loura, uma morena.

Naquele mesmo ano de 1953, Jane Russell e Marilyn Monroe estrelaram Os Homens Preferem as Louras, aquele bobagem gostosa de Howard Hawks. Dois anos depois, Jane Russell e a belíssima Jeanne Crain estrelaram Eles se Casam com as Morenas. Eu não tenho opinião formada sobre essa questão, mas poderia ser um bom tema para se abordar numa agradável tarde de primavera num bar com mesinhas na calçada.

De qualquer forma, é interessante lembrar que, em Matar ou Morrer, um dos melhores westerns de toda a História do cinema, o protagonista, o xerife Will Kane, havia sido amante de Helen Ramírez, a dona do saloon da cidade. Helen é interpretada pela morena Katy Jurado. Mas casar, o xerife se casa com a loura Amy, uma Quaker – o papel de Grace Kelly, é claro.

Helen usa roupas todinhas negras. Amy, que acabara de se casar com o xerife, está toda de branco.

A dona do saloon, morena, vestida de preto. A noiva imaculada, religiosa, loura, vestida de branco.

Em Mogambo, John Ford não chega ao exagero da roupa negra para uma e roupa branca para outra – mas o fato é que a mulher lindérrima de alta quilometragem é morena, e a mulher lindérrima recatada, certinha, é loura.

Recatada, certinha, até se apaixonar pelo sujeito aventureiro, caçador, com aquela pinta de machão toda, tão diferente de seu marido, o antropólogo rico, educado, suave.

Mogambo tem símbolos que não acabam mais.

Houve filmagens em quatro diferentes países da África

Mogambo é uma aventura na África que veio apenas dois anos após Uma Aventura na África/The African Queen (1951), o filme de John Huston cujas filmagens, nas selvas da África Central, tinham sido tão aventureiras, tão encantadoramente exóticas, corajosas, inéditas, que virariam elas mesmas, as filmagens, tema de um filme de Clint Eastwood, Coração de Caçador/White Hunter Black Heart (1990).

Sem dúvida alguma, levar para o meio da selva africana, no início dos anos 50, toda uma equipe de filmagem, incluindo os astros Humphrey Bogart e Katharine Hepburn, mais Lauren Bacall, que não trabalha no filme, mas acompanhava o maridão, foi uma grande conquista do aventureiro John Huston.

Mas filmar Mogambo deve ter sido tão aventureiro, tão difícil, tão esquisito quanto filmar Uma Aventura na África.

O filme começa com um letreiro, logo após os créditos iniciais, que seria, ele mesmo, apenas ele, merecedor de teses e mais teses de estudiosos da História Contemporânea.

Diz o seguinte, naquela linguagem um tanto empolada típica da época do filme:

“A Metro-Goldwyn-Mayer é agradecida além do possível às autoridades dos governos da Colônia do Quênia, Tanganyka, o Protetorado de Uganda e a República da África Equatorial Francesa, cuja cooperação sem limites tornou este filme possível.”

Ponto fascinante pequeno: meu, houve filmagens em quatro diferentes países!

Ponto fascinante grande: uau, o que mudou na geopolítica da África de 1953 para cá!

Colônia britânica em 1953, o Quênia tornou-se república independente em 1964.

A Tanganica é hoje parte República Unida da Tanzânia.

Também colônia britânica na época em que Mogambo foi feito e lançado, Uganda é uma república desde 1967. Vai ser difícil esquecer que Uganda foi governada entre 1971 e 1979 por Idi Amin Dada – o protótipo do ditador africano dos anos pós fim do período colonial.

A África Equatorial Francesa se dividiria, com o fim do domínio francês, em diversos países – República do Congo, Gabão, República Centro-africana e Chade.

Evidentemente, obviamente, eu não sei de cabeça nada disso. Mas é de fato fascinante fazer uma pesquisinha, ainda que rápida, sobre os nomes dos países mencionados naquela abertura de Mogambo.

Era quase um subgênero – Aventuras de Anglo-Saxões na África

Mogambo e Uma Aventura na África pertencem a um ciclo de filmes americanos (e uns poucos ingleses) dos anos 50 e 60 passados nas selvas da África Central. Era quase um subgênero – Aventuras e Desventuras de Anglo-Saxões Protestantes e Brancos nas Profundezas da Selva Africana. Sem fazer uma pesquisa árdua, séria, cuidadosa, dá para lembrar:

* As Neves do Kilimanjaro (1952), de Henry King, com Gregory Peck, Susan Hayward e – olha ela aí de novo! – Ava Gardner. O roteiro parte de um conto de Ernest Hemingway, mas cria um monte de personagens e situações que não existem na história original.

* O Leão/The Lion (1962), de Jack Cardiff, com William Holden, Capucine, Trevor Howard. Assim como este Mogambo, o filme mistura África com outro tema – no caso, um drama familiar.

* Hatari! (1962), de Howard Hawkas, com John Wayne, Elsa Martinelli, Hardy Kruger. Grupo caça animais selvagens para vender para zoológicos. Aventura e romance, nada de drama.

* A História de Elsa/Born Free (1966), de James Hill, com Virginia McKenna, Bill Travers. Casal vive no Quênia e cuida de animais selvagens. A canção “Born free”, de John Barry e Don Black, cantada por Matt Munro, é uma das coisas mais chatas dos anos 60.

Tenho a sensação de estar esquecendo alguns clássicos deste subgênero. Paciência.

Mogambo é a refilmagem de uma obra de 1932, também com Clark Gable

A página de Trivia do filme no IMDb tem nada menos que 48 itens. Deve ter um monte de informações deliciosas, assim como a biografia de Grace Kelly que está ali ao lado – mas minha preguiça é maior que a curiosidade. Acho que já dei a Mogambo a importância que ele tem.

É necessário no entanto registrar que Ava Gardner e Grace Kelly foram indicadas aos Oscars de melhor atriz e melhor coadjuvante, respectivamente. Grace Kelly, no terceiro dos únicos 11 filmes que fez antes de virar princesa do Mônaco, ganhou o Globo de Ouro de melhor coadjuvante.

Necessário também transcrever o que Leonard Maltin fala. Há informações fundamentais. Ele dá 3.5 estrelas em 4 para o filme, e diz o seguinte: “Beleza de refilmagem de Red Dust. Gable repete seu papel, Ava toma o lugar de (Jean) Harlow, Kelly tem o papel de Mary Astor. John Lee Mahin retrabalhou seu roteiro de 1932. Triângulo romântico na África combina amor e ação; lindamente filmado em cores.”

Eu não sabia disso: Mogambo é a refilmagem de Red Dust, no Brasil Terra da Paixão. Mas há diferenças grandes: no filme de 1932, não estamos naa África, e sim na Indochina. O protagonista, interpretado nos dois filmes por Clark Gable, não é um dono de hotel-guia de safári – é o dono de uma plantação de seringueiras. Chega um novo trabalhador na plantação – e o patrão se apaixona pela mulher dele.

Como diriam os donos de plantações de seringueiras da Indochina francesa, plus ça change, plus c’est la même chose. Em bom português, tudo quanto é triângulo amoroso é triângulo amoroso.

Anotação em fevereiro de 2018

Mogambo

De John Ford, EUA, 1953.

Com Clark Gable (Victor Marswell), Ava Gardner (Eloise Y. Kelly), Grace Kelly (Linda Nordley), Donald Sinden (Donald Nordley), Philip Stainton (John Brown-Pryce), Eric Pohlmann (Leon Boltchak), Laurence Naismith (o capitão do barco), Denis O’Dea (padre Josef)

e os africanos Samburu, do Quênia, Wagenia, do Congo Belga, Bahaya, de Tanganica, M’Beti, da África Equatorial

Roteiro John Lee Mahin

Baseado na peça de teatro de Wilson Collison

Fotografia Robert Surtees e Freddie Young

Montagem Frank Clarke

Produção Sam Zimbalist, Metro-Goldwyn-Mayer.

Cor, 116 min (1h56)

R, **1/2

 

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 2 junho 2018 às 4:43 pm | Permalink

    Trocam as moçoilas na refilmagem, mas deixam o mesmo coroa. Fala sério…

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » O Cisne / The Swan em 10 junho 2018 às 1:39 am

    […] as atenções de todo o mundo, quando todos os jornais e emissoras de TV falavam do casamento de Grace Kelly com o príncipe Rainier do […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Rio Bravo / Rio Grande em 2 agosto 2018 às 3:58 pm

    […] do Exército americano – e este Rio Grande é, de fato, o terceiro filme da trilogia do mestre John Ford sobre a Cavalaria, depois de Sangue de Heróis/Fort Apache (1948) e Legião Invencível/She Wore a […]

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