Lua de Papel / Paper Moon

Nota: ★★★★

Lua de Papel, de 1973, é uma gema, uma pérola, uma preciosidade. Uma daquelas jóias raras do cinema em que tudo funciona perfeitamente, tudo se encaixa, não falta nada, não sobra nada. E boa parte do encanto absoluto vem da interpretação de uma garotinha que ainda não tinha completado 10 anos de idade durante as filmagens – as primeiras de que participou na vida.

A direção de Peter Bogdanovich é perfeita, coisa de artesão competentíssimo que ele já era aos 34 anos. Precoce, bem precoce para os padrões do cinema americano, ele havia estreado na direção em 1968, com apenas 29 anos, com um thriller elogiadíssimo pelos críticos mais atentos, Na Mira da Morte/Targets, com o veterano ator de filmes de horror Boris Karloff interpretando um veterano ator de filmes de horror. Em 1971, havia encantado platéias e críticos do mundo inteiro com A Última Sessão de Cinema, e, em 1972, feito sucesso com uma gostosa comédia que fazia lembrar aquelas dos anos dourados do cinema de Hollywood, Essa Pequena é uma Parada/What’s Up, Doc?

Naqueles anos entre o final dos 60 e o início dos 70, um bando de jovens talentosos como ele mesmo estava mudando praticamente tudo em Hollywood – Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, George Lucas, Brian De Palma e, um tanto distante deles, Woody Allen.

Tendo vindo da crítica, e estudado a obra dos grandes mestres (em 1971 lançou um documentário sobre o maior deles, Directed by John Ford), Bogdanovich era um absoluto apaixonado pelos filmes dos anos 30 e 50. Paixão que explica a presença de Boris Karloff em Na Mira da Morte, a viagem aos anos 50 em A Última Sessão de Cinema, o elogio das comédias amalucadas, as screwball comedies, em Essa Pequena é uma Parada – e o mergulho nos anos 30 da Grande Depressão neste Lua de Papel.

Paper Moon não seria a maravilha que é se não tivesse Tatum O’Neal

A direção de Peter Bogdanovich é perfeita,  repito. Exatamente como no filme anterior, A Última Sessão de Cinema, a fotografia é em glorioso, espetacular branco-e-preto, numa época em que o branco-e-preto havia praticamente desaparecido do cinema comercial americano. Vinha assinada por outro mestre em seu metiê, Laszlo Kovacs. E, também como em A Última Sessão, não há trilha sonora composta especialmente para o filme; ouvimos, ao longo de toda a narrativa, pérolas da música americana, em especial da Grande Música Americana – canções de Cole Porter, Hoagy Carmichael, Harold Arlen, este último autor da música que dá o nome ao filme, “It’s only a paper moon”.

O roteiro do experiente, seguro Alvin Sargent é cheio de grandes achados. Sargent baseou-se na deliciosa história escrita por Joe David Brown (1915-1976) e lançada em 1971 com o título de Addie Pray, o nome da personagem central, a “mistress of the con game”, que poderia ser traduzido como “a senhora do jogo da trapaça”.

O elenco todo está soberbo, magnifico. Este é um filme com duas dezenas de personagens que aparecem apenas durante alguns poucos minutos na tela, em breve aparições – e todos os 20 atores que fazem esses pequenos papéis estão maravilhosos. O que é parte do talento de Bogdanovich: ele é um extraordinário diretor de atores.

A direção de arte, todos os pequenos detalhes da reconstituição de época são assombrosamente bem cuidados.

Então, resumindo: história divertida, grande roteiro, direção perfeita, elenco magnífico, fotografia soberba, uma beleza de canções ao longo da narrativa. Um filme que é uma jóia. Mas é Tatum O’Neal, com seus 9 anos de idade, cabelinho bem curto e roupas de menino a maior parte do tempo, que rouba a cena.

Uma gracinha, uma absoluta delícia. Paper Moon é Tatum O’Neal. Não seria a maravilha que é se não tivesse Tatum O’Neal.

O filme começa com um enterro, o da mãe da garotinha Addie

O espectador vê Tatum O’Neal ao longo de praticamente todos os deliciosos 102 minutos de duração do filme. Ela já está presente na primeira tomada da primeira sequência – um enterro, no meio de um descampado sem fim, perdido no interior do Kansas assolado, assim como todo o país, pela mais grave recessão de toda a História.

Um ministro religioso (James N. Harrell) diz as últimas palavras diante de um caixão simples. Junto dele estão duas senhoras, a mulher do ministro (Lila Water), uma amiga, Miss Ollie (Jessie Lee Fulton), e uma garotinha, Addie Loggins – o papel de Tatum O’Neal. Quem está sendo enterrada é Essie May, a mãe de Addie, e, pelo que ouviremos a partir daí, Essie May teria muitos pecados a confessar. Pecou muito, e, tudo indica, teve muitos homens. Qual deles teria sido o pai de Addie é segredo que ela levou para aquele humilde túmulo no meio do nada do Kansas da Grande Depressão.

Sem pai conhecido, a pobre Addie estava naquele momento sendo deixada no mundo com apenas uma parente conhecida – uma irmã de sua mãe, a tia Billie, moradora de St. Joseph, cidade do Estado vizinho de Missouri, do outro lado do Rio Missouri.

Os ruídos do motor de um carro usado, semelhantes aos de tiros, atrapalham o adeus à falecida. Do carro que passava pela estradinha próxima desce um sujeito que se aproxima do grupo. Veremos que se chama Moses Pray, e é um trapaceiro, um malandro, um ladrãozinho, um passador de contos do vigário – o papel de Ryan O’Neal, o pai de Tatum O’Neal na vida real, ator bonito pra caramba, e que estava com tudo naqueles anos 70.

Devido mesmo à sua atividade profissional, Moses Pray é um sujeito que tenta falar com um linguajar educado, refinado, e demonstrar boas maneiras. Chega mesmo a exagerar um tanto nessa tentativa de parecer muito educado, fino, e às vezes até parece meio o que no tempo da minha mãe se dizia “afeminado” e no meu se dizia “viado”.

Entre descer do carro e chegar perto do lugar em que a mãe de Addie está sendo enterrada, ele veste o paletó – e rouba as flores de uma sepultura pela qual passa.

Junta-se ao ministro, às damas e à criança ao redor do buraco escavado no chão. Miss Ollie, ao lado de quem ele pára, puxa conversa, quer saber se ele é parente: – “Estamos procurando a família dela”, diz, sobre a pequena Addie. “Achei o senhor parecido com ela.”

Moses Pray-Ryan O’Neal olha na direção da criança, e nós vemos Addie Loggins-Tatum O’Neal. Miss Ollie já está dizendo que o queixo de Moses é parecido com o queixo da garotinha.

Com 15 minutos de filme, os destinos de Moses e de Addie estão entrelaçados

O trapaceiro Moses Pray viu ali uma oportunidade de ganhar algum. Ele sabe que Essie May morreu num acidente de carro, e sabe que o bêbado que causou o acidente é parente de um comerciante da cidadezinha onde Addie vivia com a mãe.

O reverendo e as damas perguntam se ele não poderia levar a pequena até sua tia Billie em St. Joseph, e Moses finge que, apesar de ser um trabalho duro, ele aceitará porque é uma missão do Senhor.

Na segunda sequência do filme, ele está exigindo do tal comerciante (Noble Willingham) US$ 2 mil de indenização para a garotinha.

Addie está do lado de fora, mas ouve toda a conversa.

O comerciante oferece US$ 200,00 – e Moses aceita de bom grado. Rapidamente, gasta boa parte do dinheiro trocando seu carro por um melhor, e vai até a estação de trem mais próxima para despachar a garota para St. Joseph. Enquanto esperam o trem, vão a uma lanchonete, onde ele, generoso, compra para ela um sanduíche.

E então a pequena Addie exige que ele lhe entregue os US$ 200,00 pagos pelo irmão do sujeito que provocou a morte de sua mãe.

Com uns 15 minutos de filme, os destinos do malandro Moses Pray e da pequena órfã Addie Loggins estão entrelaçados, interligados, amarrados. A pequena gruda-se a ele feito um chiclete, um carrapato. Quer porque quer os US$ 200,00. Na verdade, na verdade, Addie sabe que Moses vai ter dificuldade para conseguir aquela pequena fortuna, e então, enquanto ele não consegue, quer ficar com ele. Por que não? Ele conheceu a mãe dela. Pode até ser seu pai. Aquela senhora não disse mesmo que os dois têm os queixos parecidos?

De seu lado, Moses vai se deixando ficar com a garotinha. Afinal, deve dinheiro a ela. Moses é um trapaceiro, um malandro, um safadinho que vive de passar conto do vigário – mas não é um bandido, um sujeito ruim, mau, vil. De forma alguma.

E a verdade é que – embora até lute contra isso – ele vai, pouco a pouco, se afeiçoando àquela pequena criatura absolutamente surpreendente, absolutamente fascinante.

Moses vive de aplicar o conto do vigário da Bíblia – e Addie demonstra talento

O conto do vigário que Moses aplica é vender Bíblias a senhoras que acabaram de ficar viúvas.

Ele lê os obituários dos jornais, e, poucos dias depois que algum bom homem passa desta para melhor, bate a campainha da casa dele. Pergunta pelo sr. Fulano – e uma mulher triste informa que o sr. Fulano se foi poucos dias atrás.

Moses expressa seus sentimentos, e sua surpresa – puxa, falaram por telefone poucos dias antes.! O sr. Fulano havia encomendado uma Bíblia encadernada em couro legítimo, presente para a sra. Fulana, com o nome dela impresso em letras douradas. – “Sou eu”, diz a viúva, chorosa, emocionada, encantada.

Moses diz que o sr. Fulano havia pago US$ 1,00 de sinal. A viúva inapelavelmente pergunta quanto falta – e paga mais alguns dólares pela Bíblia encadernada e com seu nome impresso com letras douradas.

O espectador vê Moses aplicar seu golpe a quatro mulheres: Pearl, a viúva do sr. Morgan (Liz Ross), Marie, a viúva do sr. Bates (Yvonne Harrison), Elvira, a viúva do sr. Stanley (Eleanor Bogart), e Edna, a viúva do sr. Huff (Dorothy Foster).

São quatro sequências esplêndidas.

Desde o primeiro desses golpes, a pequena Addie se mostra uma mestra na arte de trapacear, enganar o próximo. Ela é capaz de propor um preço bem alto para a Bíblia quando percebe que a viúva tem dinheiro de sobra para pagar. De arranjar rapidamente um pretexto para que ela e seu papai saiam mais depressa quando ao lado da viúva que está sendo vítima do golpe surge um policial.

Mas, quando batem à porta de uma mulher que tem uma penca de filhos famélicos, tem o coração grande e a esperteza de logo dizer – para absoluta surpresa de Moses – que aquela Bíblia já está totalmente paga. É uma das sequências mais impressionantes do filme, e a garotinha Tatum O’Neal dá um show.

Madeline Kahn também dá um show no papel da safada Trixie Delight

Outra que dá um show é Madeline Kahn, aquela atriz fantástica que para mim é um dos símbolos do cinema americano nos anos 70.

Madeline Kahn esteve em três filmes de Peter Bogdanovich: além de neste aqui, trabalhou também em Esta Pequena é uma Parada e em Amor, Eterno Amor/At Long Last Love (1975). Com Mel Brooks, fez outros três: Banzé no Oeste/Blazing Saddles, O Jovem Frankenstein (os dois de 1974) e Alta Ansiedade (1977). Sob a direção do ator de Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein, Gene Wilder, fez O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes (1975). E teve um gostoso papel em O Detetive Desastrado/The Cheap Detective (1978), de Robert Moore.

Aqui ela faz Trixie Delight, o exagero do tipo de personagem que interpretou em vários desses filmes: uma mulher gostosuda, sensual, mas de uma sensualidade um tanto vulgar, um tanto óbvia demais. O nome não poderia ser mais apropriado: delight, afinal, é deleite, satisfação, prazer.

Trixie Delight aparece na vida de Moses e Addie quando a dupla estava num momento bom, com uma fortuna de mais de US$ 600,00 conseguidos com o golpe da Bíblia encomendada pelo morto para dar de presente à viúva, e guardados na caixinha de madeira em que Addie acumula seus objetos mais queridos, inclusive os cigarros que fuma apesar dos protestos do adulto que até poderia ser seu pai biológico.

O encontro com Trixie Delight acontece quando o filme está lá pela metade. Moses e Addie vão a uma dessas feiras de interior em que há barracas com as mais diversas atrações. Addie vai à barraca do fotógrafo, onde as pessoas se sentam numa lua de papel diante da máquina fotográfica. Tira uma foto sozinha, mas quer voltar ali com Moses para os dois sentarem juntos na lua de papel. Só que Moses está naquele momento absolutamente encantado com Trixie Delight, que participa de um show de dança sensual numa barraca diante da qual há uma imensa fila de marmanjos.

Trixie percebe imediatamente que Moses é um simplório, um bobão, um inocente, um pato, um trouxa, quando se trata de mulher, e se prepara para depená-lo até o último dólar.

Addie terá que mexer pauzinhos para tentar impedir isso. Contará com a ajuda de Imogene, a criadinha de Trixie – uma bela interpretação de P.J. Johnson.

Ryan O’Neal vinha do sucesso espetacular de Love Story

Vejo no IMDb que P. J. Johnson, que deveria estar ali com uns 14, 15 anos em 1973, o ano de lançamento de Lua de Papel, foi uma descoberta de Peter Bogdanovich, ou talvez mais exatamente de Gary Chason, o responsável pelo casting do filme. Foi seu primeiro papel no cinema – e um dos únicos. O próprio Bogdanovich daria a ela um papel em Texasville (1990), a continuação de A Última Sessão de Cinema.

Aproveito para registrar por que Ryan O’Neal estava com tudo naquele início dos anos 70, conforme foi dito lá atrás.

Em 1970, aos 29 anos de idade, belo como o deus Apolo, Ryan O’Neal havia interpretado Oliver em Love Story, o filme de Arthur Hiller baseado no best-seller de Erich Segal que todas as moças, mas todas as moças mesmo tinham lido e adorado e chorado muito. Love Story, o filme com Ryan O’Neal e Ali McGraw, bela como a deusa Afrodite, foi o filme de maior bilheteria do ano, com um faturamento de US$ 50 milhões, uma fábula para a época.

Como só sucesso comercial é pouco, em 1972 ele teve o papel principal, ao lado de Barbra Streisand, em Essa Pequena é uma Parada, a comédia de Bogdanovich, e em 1975 – a glória absoluta – fez o papel título em Barry Lyndon, do mestre Stanley Kubrick.

Tatum O’Neal ganhou o Oscar e entrou para a História como a mais jovem premiada

Não deu outra: por seu primeiro papel, seu primeiro filme, Tatum O’Neal levou o Oscar.

Como a Academia faz coisas de que até Deus duvida, Tatum O’Neal foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, juntamente com Madeline Kahn Madeline Kahn é coadjuvante: aparece na tela quando o filme está pela metade, e uma meia hora depois desaparece. Tatum O’Neal aparece em close-up na primeira sequência – e fica na tela, como já foi dito, praticamente o tempo todo. A rigor, ela é a atriz principal do filme: seu personagem é mais importante até mesmo que o de Moses Pray, o personagem de seu pai. Até o nome do livro que deu origem ao filme é o nome do personagem dela.

Na página de Trivia sobre o filme no IMDb, há a informação gozativa, irônica: Tatum O’Neal aparece na tela durante 1 hora, 6 minutos e 58 segundos. É a atuação mais longa de todas as candidatas ao prêmio de melhor atriz coadjuvante da História!

Lua de Papel teve quatro indicações ao Oscar: roteiro adaptado para Alvin Sargent, som, e atriz coadjuvante para Tatum O’Neal e Madeline Kahn. Deu Tatum O’Neal. Aos 10 anos, tornou-se a atriz mais jovem a levar um Oscar em categoria competitiva. É necessário fazer essa distinção porque Shirley Temple havia ganho um Oscar honorário aos 6 anos de idade, em 1935. Mas competindo com outras atrizes, Tatum O’Neal foi a mais jovem.

(Patty Duke havia ganho o prêmio de melhor atriz coadjuvante por sua interpretação de Helen Keller em O Milagre de Annie Sullivan, de 1962, mas ela estava com 16 anos quando o filme foi lançado.)

O Globo de Ouro deu a Tatum O’Neal o prêmio de novata mais promissora.

O italiano David di Donatello de melhor atriz em filme estrangeiro foi dado a ela, dividindo com Barbra Streisand em Nosso Amor de Ontem/The Way We Were.

Ao todo, Lua de Papel teve 8 prêmios e outras 10 indicações.

Antes de encerrar o tópico prêmios, é bom lembrar que, em filmes de Peter Bogdanovich, três diferentes atores ganharam Oscars – além de Tatum O’Neal, também Ben Johnson e Cloris Leachman –, e outros três tiveram indicações – Jeff Bridges, Ellen Burstyn e Madeline Kahn.

O cara é de fato um dos grandes diretores de atores do cinema americano.

“O título é tão bom que você nem precisa fazer o filme. Lance o título.”

Qualquer pessoa sensata diria que não cabe adaptação possível ao título Paper Moon. Como o próprio filme, o título é perfeito, justo, certinho. Vem da letra da canção de Harold Arlen-E.Y. Harburg-Billy Rose – “It’s only a paper moon / Sailing over a cardboard sea / But it wouldn’t be make-believe / If you believed in me”.

Vem da letra da canção – e também da foto de Addie sentada na lua de papel no estande do fotógrafo na feira de diversões.

E então Paper Moon se chamou, ao redor do mundo, Luna de Papel, Luna di Carta, Lua de Papel. Tradução literal, que é mesmo o que tinha que ser.

Com uma exceção: a França. Os exibidores franceses jogaram fora a lua de papel e deram ao filme o título de La Barbe à Papa. Barbe à papa vem a ser algodão doce. De fato, na mesma sequência da metade do filme em que Addie e Moses estão na feira de diversões, a garotinha compra algodão doce. Mas daí a alterar o nome da obra…

É. Tem louco pra tudo.

Aliás, sobre o título, consta que Bogdanovich, descontente com o título da novela, Addie Pray, pensou em Paper Moon, mas não estava muito seguro, e então consultou seu amigo e guru Orson Welles. O autor de Cidadão Kane respondeu, com aquele vozeirão inconfundível dele: “O título é tão bom que você nem precisa fazer o filme. Lance o título”.

Ainda sobre Welles, consta que foi ele que aconselhou Bogdanovich a usar um filtro vermelho na câmara, para adicionar um maior contraste nas imagens em preto-e-branco.

Outras curiosidades:

* Lua de Papel foi a primeira produção da The Directors Company, uma empresa criada por Bogdanovich, Francis Ford Coppola e William Friedkin (o diretor de Operação França, 1971, e O Exorcista, 1973). Um perfeito exemplo da grande revolução que aquela geração de realizadores promovia: diretores que se tornavam os produtores, os donos de suas empresas. Steven Spielberg e George Lucas também viriam a criar suas próprias produtoras.

* Houve um projeto de filmar a história com Paul Newman e sua filha Nell Potts, sob a direção de John Huston, mas ele foi abandonado.

* Consta que, na etapa de pré-produção, Robert Evans, então o chefão da Paramount, sugeriu Warren Beatty e Jack Nicholson para o papel de Moses.

“Esta filha de Ryan rouba o show”

O magnífico livro Cinema Year by Year 1994-2000, que fala de filmes e gente do cinema como se fossem notícias de jornal, faz no título um jogo de palavras com A Filha de Ryan/Ryan’s Daughter (1970), do mestre David Lean: “Esta filha de Ryan rouba o show”. Depois de uma rápida sinopse, o livro diz, em texto datado de 16 de maio de 1973: “É uma variação da relação entre Charlie Chaplin e Jackie Coogan em O Garoto, e, embora não exatamente naquela classe, Paper Moon ameaça ser um grande sucesso. Inevitavelmente, Tatum O’Neal rouba o show como a auto-suficiente garota de nove anos que sucumbe ao ciúme infantil quando Madeline Kah (soberba) aparece para uma carona. Já se fala que ela deverá ter uma indicação ao Oscar.”

Leonard Maltin deu ao filme 4 estrelas, a cotação máxima: “Entretenimento inigualável, voltando aos anos 30 no estilo de Damon Runyon, com o trapaceiro O’Neal se ligando, contra sua vontade, a uma garota (sua filha na vida real) que é bastante esperta. Tatum fez sua estréia no cinema aqui, e ganhou um Oscar por seu trabalho que rouba as cenas. Kahn é engraçada, também, como Trixie Delight. Depois foi transformado em uma série de TV”.

Sim: uma série baseada na história escrita por Joe David Brown foi apresentada na TV americana em 1974 e 1975. Teve 13 episódios; o papel de Moses Pray coube a Christopher Connelly, e o de Addie a uma garotinha muito jovem mas já escolada, treinada, veterana mesmo – Jodie Foster.

(Para lembrar: Jodie Foster havia começado a carreira como modelo aos 2 anos de idade. Em 1974, entre diversas séries para a TV, trabalhou em Alice Não Mora Mais Aqui, e em 1975, em Taxi Driver, ambos de Martin Scorsese.)

Aparentemente, a série de TV não teve grande sucesso.

O Guide des Films de Jean Tulard diz sobre La Barbe à Papa: “Um charme louco neste road movie que inicialmente era para ser dirigido por John Huston e que foi um triunfo financeiro para a Paramount. A dupla pai e filha O’Neal brilha na tela e Tatum levou o Oscar de melhor coadjuvante. Quanto a Bogdanovich, sua nostalgia se exprime, como em A Última Sessão de Cinema, na fotografia em preto-e-branco de grande refinamento.”

Foi Polly Platt, a esposa abandonada, que sugeriu um teste com a filha de Ryan O’Neal

Fiquei um tanto espantado ao ver, nos créditos iniciais, que Polly Platt assina o desenho de produção do filme. Polly Platt, respeitada production designer, era mulher de Bogdanovich desde 1962, tinham dois filhos. O casal era amigo de alguns dos ídolos do jovem realizador, como John Ford, por exemplo.

Durante as filmagens de A Última Sessão de Cinema, Bogdanovich se apaixonou pela jovenzinha e deslumbrante Cybill Shepherd, abandonou o casamento de 10 anos  – e foi um escândalo. Consta que o casal John Ford, entre outros, ficou do lado da esposa abandonada e cortou relações com ele.

O divórcio aconteceu em 1972, um ano depois do lançamento de A Última Sessão e um ano antes do lançamento deste Lua de Papel.

Segundo o IMDb, Polly Platt concordou em cuidar do desenho de produção – estupidamente bem feito, diga-se – de Lua de Papel com uma condição: que Cybill Shepherd não fosse admitida no set de filmagem.

Foi Polly Platt – ainda segundo o IMDb – que sugeriu ao ex-marido fazer um teste com a filha de Ryan O’Neal.

A vida de Peter Bogdanovich daria um filme excepcional.

Anotação em janeiro de 2018

Lua de Papel /Paper Moon

De Peter Bogdanovich, EUA, 1973

Com Ryan O’Neal (Moses Pray), Tatum O’Neal (Addie Loggins),

Madeline Kahn (Trixie Delight), John Hillerman (xerife Hardin/Jess Hardin, o contrabandista), P.J. Johnson (Imogene, a criadinha de Trixie)

e (a partir daqui, em ordem de aparecimento em cena) Jessie Lee Fulton (Miss Ollie, no enterro da mãe de Addie), James N. Harrell (o ministro religioso), Lila Water (a mulher do ministro), Noble Willingham (Mr. Robertson), Bob Young (empregado do posto de gasolina), Jody Wilbur (garçonete da cafeteria), Liz Ross (Pearl, a viúva Morgan), Yvonne Harrison (Marie, a viúva Bates), Dorothy Price (a vendedora de laços), Eleanor Bogart (Elvira, a viúva Stanley), Dorothy Foster (Edna, a viúva Huff), Lana Daniel (uma amiga de Moses), Herschel Morris (barbeiro), Dejah Moore (a vendedora da loja), Ralph Coder (o gerente da loja), Gilbert Milton (o caipira pai de Leroy), Randy Quaid (o caipira Leroy), Rosemary Rumbley (tia Billie)

Roteiro Alvin Sargent

Baseado na novela Addie Pray, de Joe David Brown

Fotografia Laszlo Kovacs

Montagem Verna Fields

Casting Gary Chason

Figurinos Pat Kelly e Sandra Stewart

Produção Peter Bogdanovich, The Directors Company, Saticoy Productions, Paramount Pictures

P&B, 102 min (1h42)

R, ****

Título na França: La Barbe à Papa.

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