Iris

Nota: ★★½☆

Tem uma trama muito boa, inteligente, envolvente, este suspense francês de 2016 – um polar, a palavra deles para thriller. Começa contando uma mentira para o espectador – e logo, logo mostra uma surpresa, que será a primeira de muitas.

Tem um sujeito pobre, trabalhador, enrolado em dívidas, a vida toda complicada, a ex-mulher que faz cobranças, o encargo de cuidar do filho de uns 10 anos. E, no oposto da escala social, tem um banqueiro, sócio e diretor de um grande banco de Paris, que parece estar sofrendo com a tragédia que acontece logo no início da ação – ou ao menos parece acontecer. Uma moeda de dez centavos furada para o espectador que sacar quem é o herói, quem é o bandido entre esses dois.

Tem uma femme fatale, sensualíssima, perigosíssima, o que dá um clima de filme noir – acentuado pelo fato de que 80% das sequências são bastante escuras, propositalmente mal iluminadas. E, já que tem uma femme fatale, tem que ter um pato, um bobo, um sucker, porque esta é a lei do noir: a cada femme fatale corresponde um pato, de quem ela vai fazer gato e sapato.

Ninguém mais indicado a ser pato do que um sujeito pobre, trabalhador, a vida toda enrolada. Ainda mais se ele é o personagem interpretado por Romain Duris, essa espécie de Jean-Paul Belmondo da atualidade. (Faz tempo que acho que Romain Duris, na foto abaixo, tem um jeitão de Belmondo: como o grande astro que estourou nos anos 60, Duris é feio que nem a fome, mas tem lá seu charme, e as mulheres em geral parecem adorar.)

Mais que um noir, no entanto, Iris é um thriller, um polar de trama inteligente, surpreendente, cheio de surpresas, e então o pato, por quem o espectador sentirá de início imensa simpatia, porque sofre como o pão que o diabo amassou, vai demonstrar que não é propriamente um pato.

Já o banqueiro – interpretado por Jalil Lespert, o diretor e co-autor da adaptação e dos diálogos –, este não tem jeito, não tem redenção. O que – um banqueiro, em filme francês? Só pode ser mau, muito mau, o mal em si, traiçoeiro como uma cobra. É uma tradição caríssima ao cinema francês, assim como ao italiano, cujos realizadores, desde meados do século XX, são em geral socialistas ou comunistas ou no mínimo simpatizantes: pobre é bom, rico é ruim. Ruim da cabeça ou doente do pé, ou as duas coisas juntas.

O filme é uma adaptação de Chaos, do japonês Hideo Nakata

Mas aqui este texto já está adiantando para quem ainda não viu o filme algumas informações que, a rigor, a rigor, não deveriam ser adiantadas. Sobre a trama de um thriller cheio de surpresas, quanto menos se adiantar, melhor – a não ser que se diga expressamente que em seguida vem spoiler.

Encontrei no comentário sobre o filme no site da revista À Lire, À Voir uma ótima sinopse que não traz spoiler:

“Iris, a mulher de Antoine Doriot, um rico banqueiro, desaparece em plena Paris. Max, um jovem mecânico endividado, poderia muito bem estar ligar a seu sequestro. Mas os investigadores estão ainda longe de imaginar a verdade sobre o caso que se desenrola diante de seus olhos.”

Ah, como invejo a capacidade que algumas pessoas têm de fazer sinopses curtas, sintéticas, e ao mesmo tempo esclarecedoras e que não atrapalham a vida do espectador…

A autora do texto no À Lire, À Voir é Claudine Levanneur. Logo depois dessa sinopse, ela faz uma resumida apreciação do filme:

“Dois anos depois de sua cinebiografia sobre Yves Saint Laurent, já na sua quarta realização, Jalil Lespert se lança em um polar sensual e venenoso ao adaptar livremente o filme japonês Chaos do realizador Hideo Nakata.”

Ahá! Eu não sabia disso! Não tinha essa informação quando vimos o filme no Telecine Cult; na verdade, não tínhamos informação alguma – ia começar, resolvemos ver. Não prestei atenção se houve essa informação nos créditos iniciais, e, depois de ver o filme, ao dar uma olhada no IMDb, não vi lá que é uma adaptação de um filme de Hideo Nakata.

Os países ocidentais têm refeito muitos filmes do Oriente, em especial de Nakata

Há aqui dois fatos fascinantes. Primeiro: como o cinema japonês (assim como o de Hong Kong e o da Coréia do Sul) tem sido farto em apresentar belas histórias, especialmente na área de suspense-mistério e terror. Algo, aliás, que essas cinematografias orientais compartilham com o cinema espanhol. Vários filmes de Japão, Kong Kong, Coréia do Sul (e também da Espanha) têm sido refeitos no Ocidente.

Segundo: como, entre os realizadores desses países aí, Hideo Nakata tem feito filmes que os ocidentais resolvem refazer. Impressionante!

Em 1998, ele lançou Ringu, no Brasil Ring: O Chamado. Os americanos levaram apenas quatro anos para pôr nos cinemas a refilmagem, O Chamado/The Ring, com direção de Gore Verbinski e Naomi Watts no papel central. Foi um extraordinário sucesso de bilheteria, teve sequência, marcou época.

No mesmo ano de 2002 em que saiu a refilmagem americana de Ringu, Nakata lançou Honogurai mizu no soko kara, Dark Water no mercado americano e nos demais de língua inglesa, Água Negra no Brasil, uma beleza de filme. Os americanos também refilmaram, e para realizar a sua versão chamaram Walter Salles; o brasileiro fez um belo filme, soturno, pesado, inquietante. Seu Água Negra/Dark Water (2005) é prova de que refilmagens podem ser bem competentes.

Kaosu, na França e nos Estados Unidos Chaos, que deu origem a este Iris aqui, é de 2000. Tem roteiro original, baseado em história escrita diretamente para o filme, por Hisashi Saito.

O texto do À Lire, Á Voir sobre Iris fala em “adaptação livre” do filme de Hideo Nakata. Pelo que li agora, parece uma adaptação bastante próxima da história criada e roteirizada por Hisashi Saito. A única diferença que vi entre o que se conta nas sinopses de Kaosu e a trama deste Iris é que o marido rico da mulher que desaparece misteriosamente no original é um empresário, um homem de negócios, e aqui é um banqueiro. Diferença mínima, portanto.

Revi o iniciozinho do filme. De fato, não há qualquer menção ao filme original japonês nos créditos iniciais – são créditos econômicos, sintéticos, apenas com os nomes dos principais atores, do produtor, do diretor e dos autores do roteiro. O que aparece na tela é: “roteiro Andrew Bovell, adaptação e diálogos Jérémie Guez & Jalil Lespert”.

“Adaptação e diálogos” é um crédito usado sempre, e exclusivamente, pelo cinema francês. É a única cinematografia, que eu saiba, que faz questão de dizer quem são os autores dos diálogos, que faz essa distinção. Em geral, nos créditos dos filmes de todas as outras nacionalidades, o autor/os autores do roteiro é/são também o autor/os autores da adaptação da história original para o cinema e dos diálogos.

O filme já abre realçando a injustiça social, o fosso profundo entre dois personagens

Iris, a refilmagem francesa da história escrita por Hisashi Saito, abre realçando a disparidade social, a injustiça.

Tomadas gerais de Paris – mas não da Paris maravilhosa das fotos de sempre, dos monumentos, dos grandes boulevares, dos passeios dos turistas, mas da periferia. Chove, e é uma chuva pesada, insistente – ouvimos o ruído dos pingos. Numa garagem humilde, Max Lopez (o papel de Romain Duris, repito) trabalha consertando um motor.

Vamos vendo os nomes dos atores principais, só dos principais: Romain Duris, Charlotte Le Bon, Jalil Lespert, Camille Cottin.

Depois de mostrar Max Lopez trabalhando no motor, a câmara se vira para cima, para o teto – há goteiras no teto da garagem humilde de Max Lopez, e os pingos caem como se fossem sobre a câmara do diretor de fotografia Pierre-Yves Bastard.

Surge o nome do filme em letras maiúsculas, enormes: IRIS.

Corta, e, num restaurante chiquetérrimo, um casal termina o almoço, toma o café – o banqueiro Antoine Doriot e a mulher. São jovens e belos e ricos e chiques, e parecem apaixonados. Trocam declarações de amor. “Je t’aime, Iris”. “Moi aussi”, a moça muito bela responde.

Levantam-se da mesa. Enquanto o marido paga a conta, a mulher se antecipa a ele e sai até o umbral da porta do restaurante.

Um minuto ou dois depois, quando o marido chega à porta do restaurante, não há mais sinal da mulher. Ele olha para os dois lados da rua, nada; volta ao restaurante, pergunta se alguém viu sua mulher voltar, talvez para ir ao banheiro.

Nada.

Estamos com 4 minutos de filme. Corta, e a belíssima mulher…

Atenção, spoiler. Quem não viu o filme não deveria ler a partir daqui

A belíssima mulher chega à humilde garagem de Max Lopez.

O filme não chegou ainda sequer a 8 minutos, e o espectador já tem sua primeira grande surpresa: não, a bela mulher do banqueiro não foi sequestrada – foi de vontade própria para a garagem humilde de Max Lopez. Está pretextando o seu próprio sequestro.

Ainda não chegamos a 8 minutos de filme, e este texto já revelou uma surpresa. O eventual leitor que ainda não viu o filme deveria de fato seguir o conselho e parar de ler o texto. Não vou revelar o final da história, é claro – mas tudo o que se contar que acontece a partir dos 4 minutos de projeção estraga as surpresas.

Gostaria de registrar alguns pontos.

No primeiro parágrafo deste texto, disse que o filme começa contando uma mentira para o espectador. Ele só vai descobrir isso quando o filme está quase na metade de seus 99 minutos. Quem estava com o banqueiro Antoine Doriot no restaurante chique, e logo em seguida desaparece misteriosamente, e pretexta seu próprio sequestro, não é Iris, a esposa. Iris, a esposa, a que dá nome ao filme, interpretada por Hélène Barbry, na verdade aparece pouco na tela – aparece em umas três ou quatro sequências, mostradas em flashbacks.

Quem estava no restaurante e some no momento em que Doriot paga a conta, e aí aparece na garagem de Max, é uma mulher fisicamente parecida com Iris, e até a seguiu em várias ocasiões para aprender o jeito dela de falar, andar, se vestir, se comportar. Chama-se Claude, e é interpretada por essa moça Charlotte Le Bon (nas duas fotos acima), uma québecquoise nascida em 1986 em Montréal, que, além de atriz, é modelo e apresentadora de um talk-show na rede Canal+.

Seguramente Charlotte Le Bon é boa modelo e talvez seja uma boa apresentadora de talk-show. No filme, aparece linda, gostosa, sensual – e essas são qualidades bastante necessárias para fazer uma femme fatale. Pena que como atriz seja fraquinha.

Uma tendência: mostrar mulheres policiais fortes, competentes, decididas

Na verdade, este Iris mostra que Jalil Lespert – bonitão, ator, autor de adaptação e diálogo, fazendo aqui seu quarto filme como realizador, como já foi dito – ainda não é um bom diretor de atores. Não há nenhuma boa atuação no filme. Romain Duris, experiente, consegue se salvar, mas o resto do elenco é fraco – a começar pelo próprio Jalil Lespert.

É um dos problemas do filme, na minha opinião, o desempenho dos atores. O outro já citei en passant: é a insistência de Lespert e seu diretor de fotografia de mostrar, na imensa maior parte das tomadas do filme, ambientes escuros, propositadamente escuros.

É insistente demais. Fica aborrecido, chato.

Me chamou a atenção em Iris uma característica interessante, que tem estado presente em filmes e séries dos últimos anos: as mulheres policiais de personalidade forte, firme, senhoras de si, poderosas.

A detetive Olivia Benson de Lei & Ordem: Special Victims Unit, interpretada pela bela Mariska Hargitay, é assim. O ótimo francês Polissia/Polisse (2011), dirigido por uma mulher, Maïwenn, tem várias policiais fortes, seguras. Frances MacDormand interpretou uma policial que é muito mais esperta e competente do que parece à primeira vista em Fargo, dos irmãos Coen, lá atrás, em 1996. Susan Sarandon fez uma experiente e competente policial canadense em A Convocação/The Calling (2014). Também passado no Canadá é Roubando Vidas/Taking Lives (2004), em que Angelina Jolie faz uma agente do FBI especializada em traçar o perfil de assassinos.

Talvez o exemplo mais bem acabado – e também o mais exagerado – dessa tendência de mostrar mulheres porretas, fortes, competentes, decididas, trabalhando como boas policiais seja a série The Fall, passada na Irlanda do Norte. A protagonista da história é uma detetive-superintendente da polícia britânica que vai a Belfast para ajudar na investigação sobre um serial killer. Chama-se Stella Gibson e é interpretada, com a petulância necessária para compor a personagem, por Gillian Anderson. Não muito tempo depois de chegar a Belfast, lá pelas tantas a detetive-superintendente Stella Gibson vê um policial que acha bonitão. Pergunta à policial que a acompanha quem é ele, ela diz o nome, James Olson. Então Stella vai até ele, se apresenta e diz que está no Hilton, apartamento tal. Horas mais tarde, no começo da madrugada, Olson vai comparecer ao local – afinal, a mulher é chefona, deu ordem, e é bela. Mas Olson não come Stella – Stella é que o come. Bem mais tarde, ela usará esses termos, numa conversa dura com outro policial graduado, Matt Eastwood (Stuart Graham). “Woman fucks man”, ele diz, pausadamente. E faz a análise sintática: sujeito: mulher. Objeto: homem. “Os homens não estão acostumados com isso”, ela diz.

A capitã de polícia é quem manda no seu parceiro, é quem toma as iniciativas

A primeira vez em que vemos a capitã da polícia parisiense Nathalie Vasseur, neste Iris, ela está na cama com um sujeito que não é seu marido, nem sequer seu namorado: é seu colega de trabalho, parceiro, o capitão Malek Ziani (Adel Bencherif). São acordados pelo telefone – e, pelo jeito, tinham bebido todas na noite anterior, e dormido pouquíssimas horas. É ele que atende, e logo diz para ela que eles têm serviço: foi dada queixa de um sequestro.

(Ela é interpretada por Camille Cottin, na foto acima, atriz muito interessante, que consegue se sair bem neste filme que não tem boa direção de atores.)

Mais tarde, num momento qualquer, a capitã Nathalie Vasseur aproveitará para dizer ao companheiro que é para eles esquecerem o que rolou naquela noite: tinham bebido muito, aconteceu, não vai voltar a acontecer. O capitão Malek Ziani nem ousa responder: fica quietinho.

O espectador verá que a capitã é casada. Verá também que, embora ela e o parceiro tenham a mesma patente, são capitães, é ela que dá as ordens, é ela que dirige o trabalho da dupla.

É uma boa profissional, abnegada, competente. Não aceita como verdade o que ouve das testemunhas. Ouve, anota na cabeça, mas desconfia de tudo. Não compra de cara a história do banqueiro, de que a mulher de repente simplesmente sumiu, desapareceu. Acha que pode ter algo mais por trás dessa história.

Só não daria para imaginar o tanto de algo mais que há atrás da história contada à polícia por Antoine Doriot.

O banqueiro tem problemas sexuais. O pobre tem a potência de um touro

Veremos então que o banqueiro Antoine Doriot tem problemas sexuais: só consegue se excitar em situações de sadomasoquismo pesado. O diretor Jalil Lespert, que interpreta o banqueiro, aproveita para mostrar um clube de sadomasoquismo parisiense e vai fundo numa sequência com cordas e muita chicotada. Já o mecânico Max Lopez, dono de uma pequena garagem num subúrbio parisiense distante – e de uma grande dívida junto justamente ao banco de Doriot – tem a potência sexual de touro de raça. Das vantagens de ser pobre em filme francês ou italiano.

Alguém poderia objetar que é implicância minha, exagero. Implicância é mesmo – exagero, não. Posso citar uns dez ou mais filmes que já estão aqui no 50 Anos de Filmes que professam esse maniqueísmo, essa simplificação absurda de que pobre é bom, rico é ruim.

Anotação em dezembro de 2017

Iris

De Jalil Lespert, França, 2016

Com Romain Duris (Max Lopez), Charlotte Le Bon (Claudia), Jalil Lespert (Antoine Doriot), Camille Cottin (capitã Nathalie Vasseur), Adel Bencherif (capitão Malek Ziani), Sophie Verbeeck (Nina Lopez, a ex-mulher de Max), Hélène Barbry (Iris Doriot), Jalis Laleg (Eli Lopez, o filho), Violetta Sanchez (Sarah), Gina Haller (Laura)

Roteiro Andrew Bovell

Adaptação e diálogos Jérémie Guez & Jalil Lespert

Baseado no filme Kaosu, de Hideo Tanaka, argumento e roteiro Hisashi Saito

Fotografia Pierre-Yves Bastard

Música Dustin O’Halloran e Adam Wiltzie

Montagem Mike Fromentin

Casting Juliette Ménager

Produção Wy Productions, France 2 Cinéma, Nexus Factory, Umedia, uFund.

Cor, 99 min (1h39)

**1/2

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