Insubstituível / Médecin de Campagne

Nota: ★★★☆

O cinema francês teve um realizador especialista em discutir questões do Direito, da Justiça, André Cayatte. Tem um que é o próprio sinônimo do cinema político, Costa-Gavras. Um que tratava sempre das questões da ética, da religião, Robert Bresson. Agora desponta um cineasta da medicina, Thomas Lilti.

Insubstituível, no original Médecin de Campagne, médico do campo, do interior, da província, produção de 2016, foi o terceiro longa-metragem dirigido por Thomas Lilti, e o segundo a abordar o tema medicina. Ele estreou em 2007 com Les Yeux Bandés, os olhos vendados, um drama familiar com Guillaume Depardieu, sobre a vida de uma mãe e de um irmão de um homem acusado de matar diversas mulheres.

Sete anos depois, em 2014, Lilti lançou Hippocrate. O grego Hipócrates, como se sabe, é considerado o pai da Medicina, e os médicos, ao se formarem, prestam o Juramento de Hipócrates. Hippocrate conta as primeiras experiências profissionais de um jovem médico.

O cineasta André Cayatte (1909-1989), que eu saiba, abandonou a prática da advocacia quando passou a se dedicar ao cinema, primeiro como roteirista e mais tarde como diretor. Já Thomas Lilti, nascido em 1976, formou-se em Medicina e consegue se equilibrar entre a prática da medicina, como clínico geral, e o trabalho como roteirista e diretor.

Seguramente há muito de sua experiência como clínico geral neste seu terceiro longa-metragem – a idéia original da trama é dele, e ele assina o roteiro ao lado de Baya Kasmi.

O protagonista é um médico veterano, experiente – e muito competente

O Médecin de Campagne do título original, o personagem central do filme, interpretado pelo sempre bom François Cluzet, ao contrário do protagonista de Hippocrate, é um profissional veterano, tarimbado, experiente – e extremamente bom de serviço.

Entre os 3 e os 10 minutos de filme, o espectador acompanha o dr. Jean-Pierre Werner em sua prática diária. Ele visita pacientes em suas casas, muitos deles em pequenas fazendas, sítios, alguns na pequenina cidade em que ele vive e tem seu consultório.

Trabalha sozinho, dirigindo ele mesmo seu carro pelas boas estradas do interior francês. Nós o vemos na casa do sr. Voucher (Jean Haas), um idoso obeso que demora a tirar toda a roupa para ser examinado. Depois numa fazenda, atendendo a um homem que machucou a mão numa manjedoura.

Na casa de uma jovem mãe de três filhos, Werner está sentado, escrevendo uma receita, uma prescrição, quando observa um par de tênis bem usado – o do pé esquerdo parece mais gasto que o do direito. Pergunta à moça de quem é o tênis, examina o garoto aí de uns 8 anos, e pede que a mãe faça uma radiografia da região lombar dele, por suspeitar de um pequeno desequilíbrio.

Entre um paciente e outro, visita a mãe na fazenda em que ela mora. Com uma rápida pincelada, uma sequência de talvez um minuto, o roteirista e diretor mostra que a família de Werner é dali mesmo, daquela região; seguramente estudou em uma cidade grande, mas fez sua carreira na sua terra natal mesmo; que a mãe, viúva, mora sozinha, e é uma senhora teimosa; e que os dois não se vêem com muita frequência, não são muito próximos.

Se há pessoas que chegam perto de ser insubstituíveis, o dr. Jean-Pierre é uma delas

O consultório de Werner, na pequenina cidade, está sempre cheio.

A uma senhora negra, Sandana (Lismène Joseph), dá, além de orientações médicas, alguns conselhos sobre como administrar o pouco dinheiro que ganha. E escreve uma carta para a assistente social da prefeitura, pedindo alguma ajuda para Sandana.

A uma senhora um tanto obesa, dá palavras de encorajamento, depois de fazer um exame clínico: – “Vai dar tudo certo”, diz ele, em voz baixa, falando bem perto dela, como se estivesse segredando algo com uma amiga íntima. “Quando estamos em uma situação depressiva, e ainda nos dizem que não sabemos nada, é duro. Mas você está agindo bem, está saindo do buraco, está fazendo projetos. Não são os comprimidos que vão curar você. É você mesma.”

É isso: em poucos minutos, o filme demonstra para o espectador que aquele dr. Jean-Pierre Werner é um excelente médico, um bom caráter, um trabalhador abnegado, que conhece bem as pessoas da cidadezinha rural e de seu entorno, e é extremamente respeitado por todos.

Diz-se que a rigor ninguém é insubstituível, mas, se houver algumas pessoas que cheguem perto disso, esse Jean-Pierre Werner é uma delas. Apesar de tão distante do título original, o título brasileiro é bastante apropriado. Na verdade, Irremplaçable foi o título experimental do filme, quando ainda estava em pré-produção. E Irreplaceable foi o título para os países de língua inglesa.

Acontece que o insubstituível dr. Werner está gravemente doente. É a primeira coisa que o filme mostra.

O médico não recebe nada bem a colega que chega para auxiliá-lo

Médecin de Campagne não tem créditos iniciais – apenas são apresentados os nomes das companhias produtoras no primeiro minuto. Nos dois minutos seguintes, vemos o médico Jean-Pierre Werner sendo submetido a uma tomografia e em seguida sendo informado de que tem um tumor inoperável no cérebro.

O médico que o atende no melhor hospital da cidade grande da região, o dr. Norès (Christophe Odent), ele também experiente, calejado, velho amigo de Werner, diz que ele passará por um tratamento de quimioterapia e terá necessariamente que diminuir o ritmo de trabalho.

Depois dessa sequência inicial é que vêm aqueles cerca de 7 minutos em que vemos que Werner não parece ter dado ouvidos ao seu próprio médico, porque enfrenta sua rotina de trabalho desde a manhãzinha até a noite.

Quando estamos com apenas dez minutos de filme, e já sabemos quem é esse dr. Jean-Pierre Werner, surge no consultório dele, já de noite, uma bela mulher de uns 50 anos. Diz seu nome, Nathalie Delezia, mas, como o nome não lhe diz nada , Werner a toma por uma paciente desconhecida, diz que precisarão ser rápidos, porque são 20h30, e pergunta o que ela tem.

Nathalie Delezia, interpretada por Marianne Denicourt, dá um sorriso – é de fato uma bela mulher – e pergunta: – “O dr. Norès não o avisou? Ele estava procurando uma assistente para o senhor.”

Não, o dr. Norès não havia prevenido Werner de que mandaria uma médica para auxiliá-lo, para que diminuísse a carga horária de trabalho. E Werner não reage de modo simpático à chegada de Nathalie. Acha estranho que ela esteja começando na profissão naquela idade, e não antes dos 30, como todo médico iniciante – e diz isso a ela com todas as letras. Ela explica que estudou Enfermagem e trabalhou por 10 anos como enfermeira, antes de se decidir a fazer o curso de Medicina.

Como François Cluzet é um grande ator, e está extremamente bem no filme, o espectador percebe perfeitamente que o dr. Werner se sente incomodado com a chegada da médica. Muito provavelmente não receberia bem nenhuma pessoa que chegasse para ajudá-lo. Sempre trabalhou sozinho, tem imensa auto-confiança, não tem a menor vontade de partilhar o trabalho com um desconhecido – mais ainda uma médica iniciante que já está na meia-idade.

A trama é boa, os personagens são interessantes: o filme envolve o espectador

Durante um bom tempo, ao acompanhar os primeiros dias, as primeiras semanas de convivência entre Werner e Nathalie, Médecin de Campagne vai se parecer com outras histórias de veterano & iniciante que já vimos tantas vezes no cinema.

O médico veterano de fato tem um pé atrás diante da médica iniciante, uma certa má vontade. A iniciante é esforçada, tem vontade de aprender, aprende bem, e depressa. Percebe que o outro está com má vontade, mas vai aguentando.

São interessantes, envolventes os episódios que acontecerão nas vidas de Werner e Nathalie ao longo das primeiras semanas de convivência. Haverá momentos de maior tensão, momentos de calmaria na relação. Chegará o momento em que Nathalie ficará sabendo do tumor de Werner, de seu tratamento, da dificuldade que ele começa a ter para enxergar do lado esquerdo.

A trama é boa, os personagens são interessantes os atores são excelentes (François Cluzet foi indicado ao César de melhor ator). Assim, é impossível o espectador não se envolver com a história, com aquelas pessoas.

Há um leve elemento político-social: o prefeito da cidadezinha, Francis Maroini (Patrick Descamps), tem negócios imobiliários, e Werner não simpatiza com ele: acha que muito do que ele faz visa a propiciar boas oportunidades para sua empresa de construção civil.

Uma noite, o prefeito sofre um acidente feio, e Werner, que acabava de ter uma briga feia com Nathalie, tem que pedir a ajuda dela para atender Maroini

Espectadores mais românticos tenderão talvez a achar que pode rolar um romance entre os dois médicos. Afinal, ele é divorciado, ela é solteira.

Uma banda canta “Hallelluja” em versão suave. E Nina Simone fecha o filme

Há um momento que me assustou um pouco: em plena cidadezinha rural do interior da França – da França, esse país tão cheio de patriotismo, de orgulho pelas glórias nacionais, tão zeloso de sua língua, sua tradição, seus costumes –, realiza-se anualmente um Festival Country! Com uma banda cantando em inglês! E todo mundo vestido como cowboy, com jeans e camisas xadrez!

A banda toca “Riders in the Sky”, meu! “Riders in the Sky”, de Stan Jones, no Brasil “Cavaleiros do Céu”, em versão cantada por Carlos Gonzaga. Ipiaiê, ipiaiô!

Oulalá, quel catastrophe!

Mas, para compensar, logo depois a banda apresenta “Hallelujah” de Leonard Cohen, em versão bem suave.

Enquanto a banda canta Hallelujah, a bela Nathalie aceita o convite de dançar com Alexis (Yohann Goetzmann), o garoto de uma fazenda tido como meio retardado, que tem uma fixação por tudo o que diz respeito à Primeira Guerra Mundial. Depois ela dirá à mãe dele (Josée Laprun) que talvez ele seja autista, e não retardado. É uma mostra de que Nathalie está se dando bem na comunidade, está sendo aceita, está se afeiçoando às pessoas do lugar.

Já que falei de canções… O médico-cineasta Thomas Lilti escolheu para fechar seu belo filme com aquela gravação maravilhosa, impressionante, de “Wild is the Wind” com Nina Simone. Rapaz de bom gosto musical.

O diretor diz que quis fazer uma homenagem aos médicos do interior

Em uma entrevista, Lilti falou desse ser quase em extinção na França e praticamente em todo o mundo ocidental, pelo menos, o médico de família, o médico generalista, o clínico geral: “O médecin de campagne é atualmente mais que nunca percebido como um herói pelas pessoas. Ele encarna um papel social maior, fazendo a ligação entre as gerações, lutando contra o isolamento e a solidão dos pacientes. Ao fazer este filme, eu pretendia fazer uma homenagem a esse metiê do qual aprendi a reconhecer a importância já que, jovem médico, fiz substituições na Normandia ou em Cévennes. Tive, assim, a chance de conhecer homens e mulheres excepcionais.”

O filme não diz hora nenhuma o nome da cidadezinha em que mora o dr. Jean-Pierre Werner, nem o da cidade grande, a espécie assim de capital regional, onde fica o grande hospital em que ele é examinado e faz a quimioterapia. Muito provavelmente era mesmo a intenção dos realizadores mostrar que aquilo poderia acontecer em qualquer lugar do interior da França.

Mas em um determinado momento cita-se que o lugar fica perto da fronteira com a Normandia. Parte das filmagens foi em Chaussy, que de fato fica entre a Grande Paris e a Normandia.

O jovem Thomas Lilti deve muito provavelmente ser um bom médico. Roteirista e diretor, isso ele demonstra que é muito, muito bom.

Anotação em janeiro de 2018                  

Insubstituível/Médecin de Campagne

De Thomas Lilti, França, 2016

Com François Cluzet (Jean-Pierre Werner), Marianne Denicourt (Nathalie Delezia)

e Christophe Odent (dr. Michel Norès), Patrick Descamps (Francis Maroini), Guy Faucher (Monsieur Sorlin), Margaux Fabre (Ninon), Julien Lucas (o noivo de Ninon), Yohann Goetzmann (Alexis), Josée Laprun (a mãe de Alexis), Philippe Bertin (Guy), Géraldine Schitter (Fanny), Isabelle Sadoyan (Madame Werner, a mãe de Jean-Pierre), Félix Moati (Vincent Werner, o filho de Jean-Pierre), Sylvie Lachat (a paciente depressiva), Régis Iacono (o paciente diabético), Michel Charrel (Monsieur Jallet), Jean Haas (Monsieur Voucher), Michel Ridou (o agricultor), Lismène Joseph (Sandana), Françoise Pinkwasser (a paciente do menisco),

Roteiro Thomas Lilti e Baya Kasmi

Baseado numa história original de Thomas Lilti

Fotografia Nicolas Gaurin

Música Alexandre Lier, Sylvain Ohrel e Nicolas Weil

Montagem Christel Dewynter

Casting Julie Navarro

Produção 31 Juin Films, Les Films du Parc, Le Pacte, France 2 Cinéma, France Télévisions.

Cor, 102 min (1h42)

***

Título em inglês: Irreplaceable. Em Portugal: Médico de Província.

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