Estrelas Além do Tempo / Hidden Figures

Nota: ★★★☆

Hidden Figures, no Brasil Estrelas Além do Tempo, se baseia em fatos reais – “baseado numa história real não contada”, como diz a frase promocional. Trata de temas tão importantes, impactantes, e se coloca tão apaixonadamente a favor dos valores bons, corretos, que a gente até acha que é um grande filme.

É um filme muito bom, sem dúvida alguma, e foi bem recebido: ganhou 37 prêmios, fora 81 outras indicações, entre elas três aos Oscars de melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor atriz para Octavia Spencer, que interpreta uma das três estrelas do título brasileiro. Tem nota bem alta, 7,8 em 10, de média das avaliações dos leitores do IMDb, e foi um sucesso de bilheteria: custou US$ 25 milhões e rendeu até novembro de 2017 US$ 235 milhões. Um número extraordinário para um drama sério, sem super-heróis e terras-do-meio.

Tem, no entanto – ao menos na minha opinião – um defeito que o prejudica. Gostaria de conseguir explicar esse ponto de vista mais adiante.

Um dos dois temas do filme é um dos episódios mais fascinantes, sensacionais, extraordinários da História recente: a conquista espacial, o desenvolvimento nos anos 1960 da tecnologia que permitiria a chegada do homem à Lua – tudo se desenrolando como mais um episódio da Guerra Fria, da disputa entre as então duas superpotências do planeta, os Estados Unidos e a União Soviética.

O outro tema central do filme é o abominável, nojento, abjeto crime do racismo.

As estrelas além do tempo do título brasileiro, as figuras escondidas do título original são três mulheres negras que tiveram participação ativa nos trabalhos da Nasa, a agência espacial do governo americano. E o filme esmiúça, analisa e expõe essa coisa absurda, louca, insana, de que, em plenos anos 60, na Nasa, no coração da agência que representava o desenvolvimento científico do governo do país que se orgulha de ser o paradigma da democracia e da liberdade, reinava a segregação racial. Ali no Centro de Pesquisas da Nasa em Langley, bem pertinho de Washington, a capital federal dos Estados Unidos da América, vivia-se um apartheid idêntico ao da África do Sul – só não tinha esse nome.

Havia equipes formadas apenas por brancos, e equipes formadas apenas por negros. Era tudo segregado, separado. Havia banheiros para brancos e banheiros para negros.

Hidden Figures consegue mostrar, assim, misturadas, inextrincavelmente ligadas uma a outra, uma das maiores conquistas da humanidade – e uma das maiores vergonhas, um dos maiores crimes que ela foi capaz de inventar.

Um policial branco de cara nada amistosa desce vai inspecionar as três mulheres negras

O filme começa com uma espécie de intróito, uma sequência do passado. Um letreiro dá o onde e o quando: West Virginia, 1926. Os pais de uma garotinha estão numa escola, recebidos por dois altos funcionários, talvez o diretor e uma assistente. Enquanto acontece o encontro, a garotinha (interpretada por Lidya Jewett), sentada do lado de fora, num corredor, espera – e, ao olhar as figuras geométricas desenhadas nos vitrais, vai dando os nomes delas, fazendo cálculos. Um geninho da Matemática – e é isso que os pais estão ouvindo. Que a garota tem uma inteligência especial, e por isso eles, da escola, mexeram os pauzinhos para que ela fosse aceita, com bolsa integral, na universidade tal, a melhor do Estado que admite negros.

Veremos que a garotinha se chama Katherine Coleman, mais tarde, após dois casamentos, Katherine Coleman Goble Johnson.

Corta, e novo letreiro indica que estamos em 1961. Três mulheres negras estão às voltas com um carro que enguiçou numa estrada. Uma delas é Katherine, claro. As outras duas, veremos, são Dorothy Vaughan e Mary Jackson.

Pela conversa delas ali já dá para o espectador perceber um pouco da personalidade, do jeito de cada uma. Outras informações sobre elas virão bem depressa na narrativa.

Katherine (o papel de Taraji P. Henson), inteligência descomunal, é séria, aplicada, focada. Formou-se com louvor, é uma matemática brilhante. Mary (Janelle Monáe) é a beldade entre as três – e, além de linda, é ousada, atirada, anticonvencional. Veremos que tem vocação para a engenharia. Dorothy (o papel de Octavia Spencer), é meio a chefe do grupo, não só porque é ela que é a dona do carro e o dirige, mas porque é organizada, aplicada e séria como Katherine, e tem evidente capacidade de liderança.

Estão as três ali, capô aberto, tentando identificar o problema do motor, quando percebem que está chegando um carro de polícia. Um policial branco desce do seu carro com cara nada amistosa diante daquelas três mulheres negras. De início, ele é autoritário, agressivo. Mas Dorothy – que enfim identifica um problema na ignição, mexe em uma peça qualquer e faz o motor funcionar – diz que as três trabalham na Nasa, e estão indo para lá, para o Langley Research Center.

O policial que a princípio parecia um racista filho da mãe revela que não é isso, não. E acaba dizendo que, como elas já devem estar atrasadas, vai ligar a sirene e conduzi-las até o trabalho.

– “Três negras perseguindo um policial branco!”, exclama Dorothy, enquanto os dois carros disparam a altíssima velocidade pela estrada.

Para ir ao banheiro, Katherine tem que andar 800 metros e depois mais 800 metros

Aquele período de 1961 que os produtores do filme e os roteiristas Alisson Schroeder e Theodore Melfi (este último também o diretor) escolheram para começar a contar a história era uma época dura para a Nasa e para os Estados Unidos de uma maneira geral. Os soviéticos estavam bem à frente na corrida espacial. Já haviam colocado um sputnik em órbita da Terra levando uma cadelinha, a Laika. Ainda em 1961, colocaram outro satélite em volta do planeta tripulado por um cosmonauta – Yuri Gagárin, o primeiro homem a circundar a Terra em uma nave espacial.

O presidente dos United States of America, o jovem, belo, endeusado John F. Kennedy, pressionava a Nasa para que fizesse o mesmo o mais rapidamente possível. O sujeito da Nasa sobre quem recaía toda a pressão era Al Harrison, o chefe do coração da agência, o Grupo de Trabalho Espacial – a equipe encarregada de projetar os foguetes e os módulos espaciais, de testar a durabilidade dos materiais todos, e de fazer os cálculos e o planejamento para o lançamento e sobretudo para a reentrada do módulo na atmosfera e a definição do local em que ele cairia.

Al Harrison é interpretado por Kevin Costner.

Eram os estágios iniciais da informática. No início de 1961 – pelo que mostra o filme – a Nasa ainda não tinha computadores. Foi naquela época, final de 1961, ou 1962, que uma empresa chamada International Business Machine instalou ali no Langley Research Center um gigantesco mainframe.

Os cálculos matemáticos eram feitos por um grupo de mulheres negras que eram, elas mesmas, chamadas de computadores, e trabalhavam num prédio bastante distante daquele ocupado pelo Space Task Force, o grupo dirigido por Al Harrison. Harrison pede que seja enviado para trabalhar com ele, junto de seus cientistas, o melhor matemático da Nasa – e a pessoa escolhida é Katherine.

Uma mulher, e uma mulher de pele negra, para trabalhar no meio de dezenas de cientistas machos e de pele branca.

Todas as três personagens centrais da história sofrerão muito com o preconceito racial. Mas o filme realça em especial os efeitos da insanidade do racismo sobre Katherine. Ela é soterrada de tarefas pelos membros do grupo de trabalho – e, para ir ao banheiro, tem que andar cerca de 800 metros até o outro prédio, em que há um banheiro para negros, e depois mais 800 metros de volta.

O filme exagera demais na dramatização, nas licenças poéticas

O filme vai mostrando, ao longo de seus 127 minutos que passam depressa, como o trabalho daquelas três mulheres foi se desenvolvendo, e tornando-se mais e mais importante para a Sapce Task Force e portanto para toda a Nasa. Em especial, claro, o trabalho de Katherine, que viria a ser imprescindível para o Projeto Mercury, o que colocou o primeiro astronauta americano em órbita, John Glenn (interpretado por Glen Powell). Paralelamente, vai mostrando as absurdas dificuldades que elas têm para desempenhar suas funções pelo fato de serem negras – e também a vida pessoal delas, seu dia-a-dia em suas casas.

É evidente, é óbvio que, para mostrar isso em um filme, de tal forma que seja atraente para o espectador, que tenha ação, que não seja chato, torna-se necessário usar licenças poéticas, criar momentos de impacto, que concentrem dramaticidade.

A questão, ou melhor, uma das questões é que, na minha opinião, os roteiristas Alisson Schroeder e Theodore Melfi exageraram demais nas

licenças poéticas.

Só para dar um exemplo: o filme mostra que, na hora de subir na cápsula espacial Friendship 7, o astronauta John Glenn, que entraria para a História como o primeiro norte-americano a orbitar a Terra, liga para Al Harrison e pede a ele que aquela matemática brilhante, aquela moça boa de cálculo, confirme as coordenadas de viagem que haviam sido definidas já com a ajuda do gigantesco mainframe da IMB. Aí mandam chamar Katherine às pressas para que ela refaça todos os cálculos – e, enquanto ela fazia seus cálculos, os Estados Unidos da América e o mundo ficavam à espera.

Outro exemplo de dramatização grosseira: numa das vezes em que Katherine tem que ir ao banheiro de negros a 800 metros de distância do local de trabalho da Space Task Forcem ela volta sob uma chuva infernal. Ao chegar de volta ao grande salão em que trabalham os cientistas do grupo,  Al Harrison dá uma bronca nela em altos brados. Diz que ela está sempre fora quando ele precisa dela, pergunta onde ela estava – e então, pela primeira vez, Katharine explode: grita de volta que tinha ido ao banheiro, porque o banheiro para negros mais próximo fica a 800 metros dali.

Na sequência seguinte, Al Harrison está, ele próprio, diante de meia Nasa parada para observá-lo, quebrando, com um pedaço de ferro, a placa que identifica o banheiro para “colored”.

É claro que isso não aconteceu na vida real. Pode ter até havido algo  parecido, mas não exatamente daquela maneira. E é claro que o cinema tem todo o direito de usar licenças poéticas, dar uma dramatizada nas situações – mas isso aí, nesses dois casos, é exagerar demais da conta. Aí é o atacante fazer gol impedido, quebrando o braço do goleiro e entrando com a bola na mão.

Todos os negros do filme, absolutamente todos, são ótimos, perfeitos, impecáveis

Mas, na minha opinião, há um defeito ainda pior do que essas dramatizações grosseiras. O grande defeito do filme, o problema que não permite que ele possa ser considerado um filme de fato grande, um filmaço, é a forma com que são mostradas as vidas particulares dessas três mulheres fascinantes.

É tudo róseo demais.

É tudo perfeito nas famílias dos negros mostrados em Estrelas Além do Tempo. Quando há problemas, eles logo são resolvidos, rapidamente, sem deixar mágoas, manchas, marcas.

Todos os negros que aparecem são filme são pessoas de caráter impecável, sem mácula. São todos perfeitos.

Há brancos de bom caráter, como o chefe do grupo de trabalho Al Harrison, e há brancos racistas, filhos da mãe. Paul Stafford (Jim Parsons), o segundo de Al Harrison, é um pulha, um canalha, que não admite reconhecer a óbvia genialidade de Katherine e, ao contrário, faz tudo o que é possível para dificultar a vida dela no grupo de trabalho.

E Vivian Mitchell, uma burocrata que ocupa alta função na hierarquia da agência, faz também imenso esforço para impedir que o talento gerencial de Dorothy Vaughan seja reconhecido e ela tenha a mais que merecida promoção ao cargo de supervisora.

(Vivian Mitchell é interpretada por Kirsten Dunst – e, diacho, dá para acreditar que não reconheci Kirsten Dunst? Só nos créditos finais, ao ver o nome dela, me caiu a ficha. Ela me pareceu muito mais velha que a Kirsten Dunst cuja imagem tenho na cabeça.)

Brancos do bem, outros brancos racistas, pulhas, imbecis – como na vida real, como no mundo, como em qualquer lugar, em qualquer profissão ou atividade.

As pessoas de pele negra, ah, não: essas são todas perfeitas.

Se chegam a cometer um erro, logo no momento seguinte dão a volta por cima, já que errar é humano. É o caso por exemplo de Jim Johnson (Mahershala Ali), coronel da Guarda Nacional, que Dorothy e Mary tentam de todas as formas jogar para cima de Katherine, que, com três filhas, era viúva.

Na primeira aproximação dos dois, o coronel pisa no tomate. Fala uma ou duas frases infelizes, como se menosprezasse a inteligência de gênio e os títulos acadêmicos de Katherine. Ela o repele com vigor. O coronel volta mais tarde, e vem doce, suave, mais cavaleiro que todos os cavaleiros das novelas para moças, encantador, charmoso, jeitoso – perfeito.

Estrelas Além do Tempo é um filme muito bom. Faz de forma maravilhosa a exposição daquele paradoxo: como estiveram intimamente ligados uma das maiores conquistas da humanidade e um dos maiores crimes que ela inventou.

No entanto, ao atacar o crime do racismo, cometeu o pecado mortal da simplificação grosseira. O que não deixa de ser uma manifestação racista.

Se vissem o filme, Katherine, Dorothy e Mary – mulheres inteligentes, avançadas, lúcidas – seguramente diriam aquela frase que se usa muito nos filmes americanos: “Don’t patronize me”. Não me venha tratar com indulgência, não me menospreze, não ache que eu preciso ser bajulado.

Katherine deu nome a um prédio da Nasaz e recebeu alta honraria do governo

Como acontece em geral nos filmes que retratam personagens reais, ao final, antes dos créditos de encerramento, letreiros informam o que aconteceu na vida daquelas pessoas mais tarde, após o período focalizado.

“Mary foi a primeira mulher afro-americana a ser engenheira aeronáutica da Nasa e dos Estados Unidos.”

“Dorothy foi a primeira afro-americana a se tornar supervisora da Nasa.”

“Katherine continuou fazendo cálculos para as missões Apolo e o ônibus espacial. Em 2016, a Nasa deu o nome dela ao edifício de computação. Aos 97 anos, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade.”

Das três atrizes que interpretam as heroínas da história, só conhecia Octavia Spencer, 31 prêmios, inclusive o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas/The Help, e outras 45 indicações, inclusive ao Oscar de melhor atriz por sua interpretação de Dorothy Vaughn.

Taraji P. Henson nasceu em 1970, na capital federal dos EUA, e tem 65 títulos em sua filmografia. Já ganhou 28 prêmios, fora 65 indicações – inclusive ao Oscar de melhor atriz coadjuvante em O Curioso Caso de Benjamin Button (2008).

Janelle Monáe é a mais nova das três, e a mais iniciante na carreira de atriz. Nascida em 1985 no Kansas, tem carreira firme como cantora; Mary Jackson foi apenas seu segundo papel no cinema.

Nunca tinha ouvido falar do diretor, roteirista e produtor Thedore Melfi. Não é para menos: este aqui foi apenas o terceiro filme que dirigiu.

Só depois que escrevi até o parágrafo acima fui dar uma olhada na página de Trivia do filme no IMDb. Lá é dito que de fato John Glenn pediu especificamente que Katherine Johnson revisasse todos os números para a missão do Friendship 7 – só que o pedido foi feito semanas antes do dia do lançamento.

O grande site enciclopédico também afirma que a questão de ter que correr para outro prédio até chegar ao banheiro de negros nunca aconteceu especificamente com Katherine Johnson. Claro, aconteceu com funcionárias negras – mas não com ela.

O IMDb esclarece ainda que Paul Stafford e Vivian Mitchell, os personagens que dão diversas demonstrações de racismo, interpretados por Jim Parsons e Vivian Mitchell, não são pessoas reais, e sim compósitos – personagens que agregam características de diversas pessoas reais.

Anotação em novembro de 2017

Estrelas Além do Tempo/Hidden Figures

De Theodore Melfi, EUA, 2016

Com Taraji P. Henson (Katherine G. Johnson), Octavia Spencer (Dorothy Vaughan), Janelle Monáe (Mary Jackson),  Kevin Costner (Al Harrison)

e Kirsten Dunst (Vivian Mitchell), Jim Parsons (Paul Stafford), Mahershala Ali (coronel Jim Johnson), Aldis Hodge (Levi Jackson), Glen Powell (John Glenn), Kimberly Quinn (Ruth), Olek Krupa (Karl Zielinski), Kurt Krause (Sam Turner), Ken Strunk (Jim Webb), Lidya Jewett (Katherine jovem), Donna Biscoe (Mrs. Joylette Coleman)

Roteiro Alisson Schroeder e Theodore Melfi

Fotografia Mandy Walker

Música Hans Zimmer, Benjamin Wallfisch e Pharrell Williams

Montagem Peter Teschner

Casting Victoria Thomas

Produção Levantine Films, Chernin Entertainment, Fox 2000 Pictures.

Cor, 127 min (2h07)

***

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 8 abril 2018 às 6:23 pm | Permalink

    Eu, que não me importo nem um pouco com licenças poéticas absurdas em filmes biográficos, reconheço tudo o que foi escrito nesse texto supimpa e ainda assim acho q merece 4 estrelas 🙂

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