E.T. : O Extraterrestre / E.T. The Extra-Terrestrial

Nota: ★★★★

E,T. é um dos melhores filmes para toda a família de todos os tempos, se não o melhor de todos. Emociona pessoas de qualquer idade. É encantador, caloroso, delicioso, daqueles que, quando acabam, nos deixam a alguns centímetros do chão, em êxtase.

Foi um fantástico fenômeno na época de seu lançamento, em 1982. Conquistou platéias ao redor do mundo inteiro, e ainda hoje é um dos filmes mais adorados da História.

Não perdeu nada de sua magia, de seu encantamento. É uma absoluta maravilha.

Ao contar a história da amizade entre um garotinho de 9, 10 anos de idade, de um subúrbio do Sul da Califórnia – bem parecido com ele mesmo – e um jovem alienígena que é deixado para trás pela sua nave espacial, Steven Spielberg criou sua obra mais pessoal, um novo clássico da ficção científica e uma obra-prima sobre solidariedade, aceitação do diferente, que se torna mais belo e necessário ainda nestes tempos de isolacionismo e xenofobia.

“Se há alguém neste planeta que ainda não viu ou ouviu falar de E.T. The Extra-Terrestrial, então é uma pessoa de sorte. De sorte, sim, porque ainda pode ter a experiência de ver E.T. pela primeira vez”, escreveu Susan Sackett, autora do livro Box Office Hits. “É como você experimentar sorvete no verão, ou a primeira vez que vê o mar, ou o primeiro raio de sol depois de três dias de chuva sem parar.”

Adoro textos que são desavergonhadamente pessoais e emotivos, sem aquele tom de narizinho empinado dos “críticos de cinema”. Susan Sackett prossegue:

“1982 foi o verão em que fomos ao cinema e nos apaixonamos por uma criatura de outro mundo: um sujeito pequenino, atarracado, enrugado, que parecia uma tartaruga sem casca, ereto, que tocava a criança inocente na tela e no coração da gente. Todo mundo foi tomado pela experiência emocional, crítico ou cínico, criança ou adulto. Só aqueles com o coração mais duro poderiam se recusar a gostar do maravilhoso alienígena.”

Susan Sackett lembra em seu livro que o New York Times chamou o filme de “uma fantasia encantada”. The Hollywood Reporter o definiu como “um clássico americano instantâneo”, e a Variety, a Bíblia do show-business dos Estados Unidos, fez uma equação: “E.T. = B.O.” – sendo B.O. box-office, bilheteria.

Relata que rapidamente o filme chegou ao primeiro lugar de maior bilheteria de todos os tempos, e ficou no topo durante vários anos.

Os números que constam hoje – agosto de 2018, 36 anos depois do lançamento – do site especializado Box Office Mojo são os seguintes: US$ 435 milhões no mercado doméstico (Estados Unidos e Canadá), US$ 357 milhões no resto do mundo, US$ 792 milhões no total.

E isso a um custo de ridículos, ínfimos – para uma grande produção de Hollywood – de US$ 10 milhões.

E sem um único super-herói.

É, sem dúvida, um fenômeno. Um sensacional fenômeno.

“Até mesmo o mais cínico cinéfilo deveria dar uma nova chance ao filme”

“O pináculo da fase adolescente da carreira de Spielberg, E.T. é um dos mais conhecidos e mais amados filmes de todos os tempos”, diz o livro 500 Must-See Movies. “Representa uma inocência muitas vezeas negligenciada pelo moderno cinema para a família, apelando para nossa melhor natureza imaginativa e afetuosa. (…) Até mesmo o mais cínico cinéfilo deveria dar uma nova chance ao filme. Depois de mais de 20 anos, o filme merece ser visto por si só, deixando de lado a saturação que teve na mídia. É uma história simples, maravilhosamente contada.”

Leonard Maltin deu, evidentemente, a cotação máxima de 4 estrelas – e dá a deliciosa informação de que Debra Winger ajudou a dar voz ao E.T.!

“Um garoto de 10 anos (Thomas) fica amigo de uma criatura de outro planeta que se perdeu na Terra. Uma história calorosa, perspicaz, sobre a inocência da infância, frustração, coragem e amor – como uma ‘atuação’ notável do E.T. Uma experiência emocionante para jovens e velhos. Roteiro de Melissa Mathison. John Williams ganhou um Oscar por sua trilha excepcional, assim como as equipes de efeitos sonoros e visuais. Uma nota curiosa: Debra Winger contribuiu para a voz de E.T.”

Sobre o Oscar e prêmios de uma maneira geral:

Sim, o filme ganhou 4 estatuetas de gesso pintadas de dourado, nas categorias trilha sonora, som, efeitos sonoros e efeitos visuais.

Teve outras cinco indicações ao Oscar, mas não levou, nas categoriais de melhor filme, melhor direção, melhor roteiro original, melhor fotografia e melhor montagem.

Na premiação britânica, levou nada menos que 7 Baftas: melhor filme, melhor direção, melhor fotografia, melhor trilha sonora, melhor maquilagem e ainda melhor atriz novata para Drew Barrymore.

No total, E.T. ganhou 51 prêmios, fora outras 34 indicações.

 “É um filme com o qual você pode crescer e amadurecer”

A participação da maravilhosa Debra Winger e sua voz grave, quente, na criação da voz do E.T. é citada também no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer:

“O filme não se torna uma tolice açucarada graças ao ritmo de Spielberg, à mistura de humor e tristeza no roteiro de Melissa Mathison, à vocalizações ásperas de Debra Winger e Pat Welsh para o E.T. e ao excelente desempenho do elenco. (Henry) Thomas – como o menino sortudo cujo amigo imaginário é real – praticamente carrega o filme em seus pequenos ombros, enquanto Robert MacNaughton (como o irmão mais velho Michael) e Drew Barrymore, com sete anos, estão ótimos como os irmãos a princípio hesitantes mas logo conquistados pelo charme do E.T.”

Roger Ebert, o grande crítico que amava os filmes e sempre falava em primeira pessoa, também, é óbvio, deu 4 estrelas, a maior cotação, para E.T.. Ele começa assim seu longo texto:

“Este filme fez meu coração feliz. É cheio de inocência, esperança e bom ânimo. É também terrivelmente engraçado e danado de emocionante. E.T. The Extra-Terrestrial é um filme como The Wizard of Oz, com o qual você pode crescer e amadurecer, e ele não vai decepcionar você. Conta uma história sobre amizade e amor. Algumas pessoas ficam desconcertadas quando ouvem a descrição: é sobre a relação entre um garotinho e uma criatura que veio do espaço e se torna seu melhor amigo. Isso pode parecer que é um cruzamento de The Thing (O Enigma de Outro Mundo, 1982) e National Velvet (A Mocidade é Assim Mesmo, 1944). Funciona como ficção científica, às vezes é tão amedrontador quanto um filme de monstros, e no final, quando as luzes se acendem, não há olhos secos no lugar.”

Um filme “banhado em simpatia”, que “parece varrer todos os maus pensamentos”

Nem mesmo Pauline Kael, a prima donna da crítica americana, a pena mais cricri do Oeste (e também do Leste) ousou falar mal de E.T.:

“O filme de Steven Spielberg é banhado de simpatia, e parece varrer todos os maus pensamentos da nossa cabeça. Conta a história de um menino de dez anos, Elliott, que se sente sem pai e perdido porque os pais se separaram, e encontra um amigo milagroso – um alienígena do espaço, deixado por descuido na Terra por uma nave espacial em visita.”

Ahhhnnn… Não é bem por descuido.

“Esta fusão de ficção científica e mitologia é emocionalmente global e completa; lembra-nos os sonhos mais fantasmagóricos da infância, e os reabilita. Lança um sortilégio sobre a platéia. De fato, absorvente. Os astros são Henry Thomas, como Elliott, e E.T., desenhado por Carlo Rambaldi.”

O erro factual da crítica de Pauline Kael merece comentários.

Não é por descuido que a nave espacial deixa o E.T. sozinho na Terra. Vemos o que acontece – é logo na primeira sequência do filme. A nave pousou num bosque, perto de um daqueles subúrbios de classe média bem de vida. Um grupo de homens vai chegando perto de onde está a nave; não vemos seus rostos – vemos as pessoas da cintura para baixo, como se a câmara fosse os olhos de uma criança, ou de um daqueles E.Ts., baixinhos como crianças.

Está de noite. Um dos E.Ts., o que vai ser o protagonista da história, se distanciou um pouco da nave. Aparentemente, são botânicos, vieram à Terra colher espécies de plantas para levar para seu planeta.

Alguns homens do grupo que chega ficam entre a nave e o E.T., que se esconde entre arbustos.

Os alienígenas da nave percebem que um deles não conseguiu voltou – mas eles precisam partir, ou serão abordados por aquele grupo de terráqueos, que, tudo indica, está ali exatamente tentando encontrar a nave.

Não dá mais para esperar – e então a nave levanta vôo.

O pobre E.T. se vê sozinho num planeta desconhecido – mas não foi por descuido de seus companheiros. Eles preferiram salvar a missão e retornar para casa, mesmo perdendo um de seus membro.

O E.T. abandonado cabará indo se esconder na casinha do cachorro na casa da família dos irmãos Michael, o mais velho, aí de uns 13, 14 anos, Elliott, o do meio, de 9 ou 10, e Gertie, a caçulinha, de 7 – os papéis, como já foi dito, de, respectivamente, Robert MacNaughton, Henry Thomas e Drew Barrymore.

Minha sequência predileta é a homenagem que Spielberg faz a John Ford

“Elliott, que se sente sem pai e perdido porque os pais se separaram”, diz Pauline Kael – e este ponto, a separação dos pais dos três garotos, é importantíssimo.

A separação aconteceu faz muito pouco tempo – e foi o pai que cascou fora. Mary, a mãe, muito jovem, jovem demais, está fazendo um esforço sobre-humano para tocar a vida, cuidar dos três filhos, recém-abandonada pelo marido. (Dee Wallace, na foto acima, a atriz que Spielberg escolheu para o papel de Mary, estava com 34 anos em 1982, mas, incrível, parece ter uns 25, se tanto.)

Isso é mostrado numa sequência brilhante – pela concepção da roteirista Melissa Mathison, pela interpretação dos quatro atores, por toda a realização orquestrada por Spielberg (o qual, aliás, estava com apenas 36 anos quando dirigiu esta obra-prima).

Estamos com 17 minutos de filme. Mary e os três filhos estão jantando. Conversam sobre o Halloween que está para chegar – quem vai se fantasiar de quê. Elliott já viu o E.T. de frente, no bosque – mas ninguém mais viu, e então Michael está sempre caçoando dele. Diz que Elliott deveria se fantasiar de homenzinho do espaço no Halloween.

Elliott está tristinho, chateado. Diz mais uma vez para a mãe que ele viu, ele tem certeza do que viu. E aí diz:

– “O meu pai acreditaria em mim.”

Mary, delicadamente, diz: = “Ligue pra ele e conte”.

Elliott então diz o que não poderia dizer:

– “Não posso. Ele está no México com a Sally.”

Mary engole em seco a informação que o filho tinha e ela mesma não.

Silêncio. Michael percebe a tristeza no olhar da mãe, olha furioso para Elliott. Até a pequena Gertie, nos seus 7 aninhos, percebe que há algo muito pesado ali, e tenta como que quebrar o gelo:

– “Onde fica o México?”

Daí a pouco, quando acha que os filhos não a estão vendo, Mary  enfim se deixa tomar pelo choro e diz para si mesma: – ”Ele odeia o México!”

É um brilho de sequência. Um absoluto momento de grande cinema.

E.T. é um filme que tem diversas sequências belíssimas, apaixonantes, como aquela em que Elliott está levando o E.T. na bicicleta, e a bicicleta começa a voar, e passa na frente da lua – é a imagem que virou o símbolo do filme, e o logotipo da Amblin, a produtora que Spielberg criou e à qual deu o nome de um de seus primeiros filmes, um curta-metragem de 1968.

São muitas, são várias as sequências maravilhosas – mas a minha preferida é a homenagem de Spielberg ao mestre John Ford.

Toda a família sai de casa – Mary vai para o trabalho, os três garotos estão na escola, e o E.T. fica sozinho. Perambula pela casa, abre a geladeira, vê uma latinha de cerveja, bebe – e fica bebinho.

Simultaneamente, vamos vendo Elliott na escola, na aula de ciências, em que o professor vai fazer os alunos dissecar sapinhos.

O espectador já sabe que entre o E.T. e Elliot se estabeleceu uma sintonia total e absoluta – o que um sente o outro logo sente também. E então Elliott, em plena aula de ciências, fica bêbado.

Em casa, o E.T. liga a televisão, dá uma zapeada – em um canal está passando Depois do Vendaval/|The Quiet Man, o grande clássico que Ford fez na Irlanda de seus pais em 1952. Está rolando exatamente a sequência da chuva, em que Sean Thorton-John Wayne puxa Mary Kate Danaher-Maureen O’Hara pelo braço e lasca-lhe um beijo.

Na escola, Elliott, depois de iniciar um motim soltando os sapinhos que iriam ser dissecados, puxa a garotinha mais linda da escola pelo braço, igualzinho fez Sean Thorton, e lasca-lhe um beijo.

Posso apostar que sempre que via aquela sequência de E.T. mestre Ford enchia um copão de uísque e bebia à saúde de Steven Spielberg.

A idéia básica da história é de Spielberg; ele pediu a uma amiga para escrever o roteiro

Quando E.T. fez 20 anos, e, entre várias comemorações, preparou-se uma edição especial de DVD duplo, com diversos especiais, Steven Spielberg disse, em uma das entrevistas, que a história de E.T. tem tudo a ver com o divórcio de seus pais.

Não há crédito para Spielberg quanto à autoria da história – nos créditos iniciais se diz que é um roteiro original de Melissa Mathison. Mas a idéia básica da trama – a amizade entre um garotinho sensível, cujos pais acabaram de se separar, com um alienígena que é deixado na Terra – é, sim, de Spielberg, e ele conta que era uma idéia antiga que ele tinha tido. Quando fez Encontros Imediatos do Terceiro Grau, em 1977, já namorava a idéia de filmar a história da amizade do garotinho parecido com ele e um E.T.

Para lembrar, estes foram os primeiros filmes dirigidos por Spielberg: Encurralado (1971), A Louca Escapada (1974), Tubarão (1975), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), 1941 – Uma Guerra Muito Louca (1979), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), e então E.T.

Ele contou essa idéia, essa base da história para sua amiga Melissa Mathison, e pediu que ela escrevesse um roteiro. A princípio, Melissa se recusou a pensar no assunto: nunca havia escrito um roteiro sozinha; sua única experiência anterior tinha sido a co-autoria do roteiro de O Corcel Negro.

Mas Spielberg sabe ser convincente – e, em apenas oito semanas, um espaço de tempo extremamente curto, Melissa Mathison entregou o roteiro de E.T.

Uma roteirista iniciante – e uma produtora também iniciante: foi o primeiro filme produzido por outra amiga de Spielberg, Kathleen Kennedy, que, em 1982, tinha apenas 29 anos de idade. Spielberg assina com ela a produção, mas, pelo que se percebe das entrevistas que eles deram na época da comemoração dos 20 anos de E.T., ele cuidou da direção e deixou a produção a cargo de Kathleen Kennedy. Ela viria a ser produtora executiva de praticamente todos os filmes dirigidos e/ou produzidos por Spielberg a partir daí, mas esta foi sua estréia.

Isso é que é estrear com sorte grande.

O E.T. foi o primeiro alienígena bom do cinema desde 1951

É fundamental registrar um pouco do contexto, da perspectiva histórica.

E.T. foi – além de uma obra-prima para a diversão de toda a família – um marco no cinema de ficção científica, por apresentar alienígenas que não vêm a este planetazinho de pouca monta, que gira em torno de uma estrelinha mixuruca, de quarta grandeza, para conquistar espaço, e destruir os seres que vivem nele.

Alienígenas ruins, maus, malvados, assassinos, conquistadores de territórios já tinha havido muitos. Ainda em 1897, quando o cinerma estava engatinhando, o escritor inglês H. G. Wells havia lançado A Guerra dos Mundos, em que marcianos invadem a Terra e fazem os maiores horrores possíveis e imagináveis.

Marcianos, jupeterianos, venusianos, todo tipo de E.T. invadiu a terra, ao longo do século XX, na imaginação desvairada de escritores e roteiristas de cinema.

A partir do início da Guerra Fria, em 1945, o cinema americano passou a apresentar monstros vindos de outros planetas para invadir a paz das cidades dos Estados Unidos – ao mesmo tempo um reflexo da paranóia anti-soviética e um alimentador do ódio ao inimigo ideológico.

O paralelo era óbvio: os monstros alienígenas invasores eram a representação do perigo da invasão pelos soviéticos.

Só um filme, no meio daquela paranóia anticomunista, ousou mostrar um alienígena que vinha em missão de paz – na verdade, que vinha para dizer aos terráqueos que parassem com essa besteira de corrida armamentista nuclear. Foi O Dia em que a Terra Parou, que o mestre Robert Wise lançou em 1951.

O alienígena mais bondoso que chegou à Terra desde 1951 foi este E.T.

Quando fez o filme, Spielberg não tinha filhos, e nunca dirigida crianças

Em 1982, aos 36 anos de idade, Spielberg ainda não tinha filhos. Tinha feito três filmes de grande sucesso comercial, e que haviam agradado ao público juvenil – Tubarão, Contatos Imediatos e Caçadores da Arca Perdida – , mas não tinha tido filhos, nem dirigido atores mirins em papéis importantes.

Mas gênio é gênio, quem tem sorte tem sorte – e o fato é que de repente aquele rapaz tinha diante de si três garotos que ele havia escolhido para fazer os papéis principais de seu novo filme.

Não poderia ter tido maior talento – ou maior sorte, ou as duas coisas juntas – na hora de escolher Robert MacNaughton, Henry Thomas e Drew Barrymore, garotos nascidos respectivamente em 1966, 1971 e 1975, e que estavam, portanto, com 16, 9 e 7 anos de idade em 1982, o ano de lançamento do filme.

Estão extraordinários, excepcionais, os três garotos. São interpretações não menos que magistrais.

O próprio Spielberg realça uma característica que seguramente ajudou Robert, Henry e Drew: o filme – diferentemente da grande maioria – foi rodado praticamente em continuidade. As sequências iam sendo filmadas seguindo quase à risca à ordem cronológica da história. Dessa maneira, os garotos sabiam muito bem o que havia acontecido na história ontem, anteontem – e não tinham idéia do que aconteceria amanhã, depois de amanhã. Eram de fato surpreendidos com os novos acontecimentos da história. A pequenina Drew Barrymore, por exemplo, exibe diante das cãmaras uma autêntica expressão de pavor, de susto, de tristeza, nas sequências em que os homens do governo já invadiram a casa da família, e o E.T. está passando muito mal, quase à morte.

Tudo indica que as pessoas se sentiam em família durante as filmagens

O jovem sem filhos Spielberg de 1982 parece de fato ter se afeiçoado aos três garotos que dirigia – e, naturalmente, os garotos devem com certeza ter se apegado a ele. Nos especiais para o lançamento do DVD comemorativo dos 20 anos do filme, vemos muitas imagens da época das filmagens, e também diversas sequências de todos eles reunidos em 2002 para aquela efeméride. Os depoimentos citam que, durante as filmagens, eles se sentiam como uma família – e as imagens refletem mesmo isso.

Um dos especiais mostra Spielberg reunido em 2002 com todos os principais atores do filme: os três jovens, mais Dee Wallace, que faz Mary, a mãe, e Peter Coyote, que faz Keys, o homem do governo que tem sensibilidade e consegue estabelecer um bom contato com Elliott. Além deles, participa do encontro a bela Kathleen Kennedy – e todos eles contam um pouco sobre o que sentiram durante as filmagens e o que o filme significou em suas vidas.

Não se fala muito do que houve na vida daqueles atores depois de 1982. É um pequeno senão dos especiais do DVD dos 20 anos de E.T.

Dee Wallace trabalha demais. Sua filmografia no IMDb tem mais de 230 títulos de filmes e séries de TV. Se excede em quantidade, não parece fazer o mesmo em qualidade. Numa olhada rápida, não vi nenhum outro filme importante na longa lista de títulos em que ela trabalhou.

Robert MacNaughton não se dedicou ao cinema. Sua filmografia tem apenas 13 títulos.

Henry Thomas se mantém em atividade; tem mais de 60 títulos em sua filmografia. Vi ao menos um dos filmes que fez depois de se tornar adulto, 11:14, uma obra interessante – e o rapaz me pareceu bem no papel dele.

Drew Barrymore é um caso à parte, absolutamente à parte. Se Hollywood fosse uma monarquia, Drew Barrymore seria a princesa primeira colocada na linha sucessória.

A criaturinha absolutamente linda que nos encanta em E.T. é, pelo lado paterno, neta de John Barrymore e de Dolores Costello. Tem como tios-avós Ethel Barrymore e Lionel Barrymore. John, Ethel e Lionel estão entre os mais importantes atores dos primeiros anos de Hollywood. Dolores, a avó materna, por sua vez, era filha de Maurice Costello, grande ator do cinema mudo, e de Mae Costello.

É nome importante demais nas costas, e brilhar como uma estrela supernova quando se tem apenas 7 anos de idade no filme campeão mundial de bilheteria pesa mais que a Terra nas costas de Atlas, e Drew Barrymore, ainda na adolescência, pirou. Passou por clínicas de rehab – e voltou ao mundo dos vivos, e passa bem, para calar para sempre a boca das pessoas que não acreditam em segunda chance.

O E.T. é simpático, fofo – mas a rigor é bem feioso, troncho, deselegante

Para mim, Drew Barrymore é uma das melhores coisas deste filme que tem duzentas mil coisas boas. O desempenho dos três meninos e Dee Wallace, quatro dos cinco atores principais, é de fato uma maravilha. E, sim, o desempenho do quinto ator mais importante, o E.T,. também é ótimo. Dame Pauline Kael tem toda razão quando disse que “os astros são Henry Thomas, como Elliott, e E.T., desenhado por Carlo Rambaldi”.

Tenho uma imensa preguiça de tentar entender como são elaborados os efeitos especiais, os truques, as magias técnicas, tecnológicas do cinema. É uma área que fascina a imensa maioria dos cinéfilos – mas eu sou absolutamente imune a essa fascinação.

Não tenho nenhum interesse em saber como foi que fizeram o E.T. funcionar, como foi que fizeram o tubarão do outro filme funcionar. Para mim, o que importa é o que se vê na tela. O como foi que conseguiram, em especial nessa área de efeitos especiais, bonecos, coisa e tal, não tem importância alguma.

Para mim, importa que o E.T. é simpático. Fofo – apesar de feio como a fome, ou como uma tartaruga posta de pé. É interessante que tenham feito um alienígena fofinho tão feio, tão mondrongo, que anda como uma foca, de jeito desajeitado, nada elegante.

O E.T. de Carlo Rambaldi e Steven Spielberg é o exato contrário de Cary Grant. O exato contrário de Fred Astaire no meio de uma dança. O que Cary Grant e Fred Astaire tinham de elegância, a elegância em si, a elegância acabada, pronta, o E.T. tem de deselegante, troncho, mondrongo. Como eu me sinto, na maioria das vezes. Como a imensa maioria da humanidade de fato é – e talvez esteja aí um dos motivos pelo qual milhões e milhões de terráqueos se apaixonaram pelo E.T. de Rambaldi e Spielberg: porque ele não é lindo maravilhoso, elegante, perfeito – ele é troncho, que nem a gente, que nem gente como a gente.

Mas é interessante ler em 1001 Filmes Para se Ver Antes de Morrer que “sua aparência adorável, com olhos enormes, foi supostamente imaginada quando a equipe de Spíelberg sobrepôs os olhos e a testa de Einstein ao rosto de um bebê”.

E, claro, é interessante também ver, nos especiais da edição comemorativa de 20 anos do filme em DVD, que Spielberg fazia questão de que o E.T. não desse, jamais, a impressão de ser um boneco que tinha alguém lá dentro.

E não é que, em algumas sequências, o E.T. é um boneco que tinha alguém dentro? Nos tais especiais, o próprio Spielberg cita que um garoto sem pernas e dois anões se revezaram dentro de fantasias de E.T. para as filmagens de algumas sequências, como aquela – deliciosa, fantástica – em que, depois de abrir umas latinhas de cerveja na geladeira e beber, o E.T. , bêbado feito um gambá, cai de cara no chão.

Na maior parte do tempo, no entanto – é o que mostram os especiais do DVD dos 20 anos –, o E.T. era um boneco que se mexia atendendo aos comandos de uma equipe de técnicos, que acionavam fios ligados aos pés da figura.

Meio boneco, meio animatron que agia seguindo impulsos dados via fios, meio boneco habitado por anões ou criança sem pernas.

Era dura a vida de quem produzia filmes com seres estranhos, alienígenas, em 1982 – aqueles tempos pré-históricos, antes que a humanidade atingisse a era dos efeitos de computação gráfica.

George Lucas, amigo de Spielberg, lançou a primeira trilogia de Guerra nas Estrelas exatamente naquele tempo tão distante que parece que foi em outra galáxia – 1977, 1980, 1983. Anos mais tarde, depois que a computação gráfica tinha passado a existir, ele quis dar uma melhoradinha nos filmes, e fez isso.

Eu tinha acompanhado o relançamento da primeira trilogia de Guerra nas Estrelas – mas não sabia que Spielberg tinha feito a mesma coisa com E.T. Só vim a saber agora, quando quis rever o filme para escrever sobre ele e ter aqui no 50 Anos, e aí vi pela primeira vez o DVD que tinha comprado faz tempo e sequer tinha aberto.

Um anti-Trump, um anti-Bolsonaro, Spielberg tirou as armas que havia no filme   

Exatamente como George Lucas fez com a primeira trilogia de Star Wars, Spielberg deu uma polida, uma melhorada em E.T., quando o filme estava para completar 20 anos, em 2002.

Nos especiais do DVD, ele fala bastante dessas mudanças que fez. Insiste em que não quis refazer, mexer muito – quis apenas, aproveitando as novas tecnologias à disposição, corrigir umas coisinhas que tinham ficado meio ruins demais no filme original. Não queria surpreender, de forma alguma – queria fazer ajustes que fossem quase imperceptíveis para quem já havia visto o filme antes. Usa diversas vezes a palava enhancement: melhoria, aprimoramento. Não uma modificação. Não fazer de novo. Apenas melhorar, aprimorar aqui e ali.

Não introduzir uma ou outra sequência nova. De forma alguma. Apenas melhorar, aprimorar o que estava na tela.

O cara é o que há. Na nova versão de E.T., em que não introduz nenhuma sequência nova, em que apenas dá uma melhoradinha no visual que poderia ter sido melhor, Steven Spielberg retirtou todas as armas de fogo.

Um anti-Trump, um anti-Bolsonaro, um radical do bem, Spielberg tinha sempre ficado incomodado com a presença de homens do governo armados nas sequências finais, em que os garotos raptam o E.T. doente das mãos dos adultos para levá-lo até o local em que a nave viria resgatá-lo e levá-lo de volta para casa.

Num ato de pura mágica, devido à existência hoje em dia das imagens computadorizadas, as espingardas dos homens do governo (na foto acima) sumiram – e viraram inofensivos walkie-talkies.

O cara é genial demais.

Adorei rever o filme. Me fez lembrar de quando levei minha filha ao cinema

Adorei rever o filme, após tantos anos. Fiquei me lembrando de quando levei minha filha para vê-lo pela primeira vez, em 1982, quando ela estava com 7 anos, exatamente a idade de Drew Barrymorte – ela, minha filha, evidentemente muito mais linda e fofa do que Drew Barrymore. Foi num dos cinemas criados no que antes era o Teatro Paramount da Brigadeiro, o teatro dos festivais, da “Banda”, de “Disparada”, de “Domingo no Parque”, de “Alegria, Alegria”. Falei com minha filha que tinha revisto o filme, que tinha lembrado de quando o vimos na época do lançamento. Ficamos pensando quando vamos poder mostrar o filme para a filha ela.

Respíro fundo diante dessas lembranças, e me pego pensando se Marina se sentirá aflita para mostrar para a neta dela a história do garoto que ficou amigo do E.T. mais troncho, mais feio, mais simpático e mais fofo da História.

Anotação em agosto de 2018

E.T.: O Extraterrestre/E.T. The Extra-Terrestrial

De Steven Spielberg, EUA, 1982

Com Henry Thomas (Elliott), Robert MacNaughton (Michael), Drew Barrymore (Gertie), Dee Wallace (Mary, a mãe), Peter Coyote (Keys)

e K.C. Martel (Greg), Sean Frye (Steve), Tom Howell (Tyler), Erika Eleniak (menina bonita), David O’Dell (menino na escola), Richard Swingler (o professor de Ciências), Frank Toth (policial), Robert Barton (homem do ultrassom), Michael Darrell (o homem da van), Milt Kogan (médico)

Roteiro Melissa Mathison

Baseado em idéia de Steven Spielberg (não creditado)

Fotografia Allen Daviau

Música John Williams

Montagem Carol Littleton

Desenho de produção James D. Bissell

Cenários William Teegarden

Efeitos especiais Dennis Muren, Industrial Light & Magic

Figurinos Deborah L. Scott

E.T. criado por Carlo Rambaldi

Produção Steven Spielberg, Kathleen Kennedy, Universal. DVD Universal.

Cor, 115 min (1h55)

R, ****

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