Depois Daquela Montanha / The Mountain Between Us

Nota: ★★★☆

Dois personagens, e apenas eles dois, ocupam praticamente todas as sequências de Depois Daquela Montanha, no original The Mountain Between Us – Alex e Ben, interpretados por Kate Winslet e Idris Elba.

O filme – produção americana de 2017, dirigido pelo palestino Hany Abu-Assad, autor do impressionante Paradise Now – é Kate Winslet e Idris Elba. Sobretudo, antes de mais nada, é Kate Winslet e Idris Elba.

Um outro personagem, Walter, interpretado por Beau Bridges, aparece na tela no máximo, no máximo durante 5 minutos, no começo da narrativa. Um quarto, Mark (Dermot Mulroney), o noivo de Alex, aparece talvez em uns 6 ou 7 minutos, já bem para o fim.

Durante, vamos dizer, uns 95 dos 112 minutos de filme, a narrativa se concentra em Alex-Kate Winslet e Ben-Idris Elba.

Assim, é bastante irônico, engraçado, surpreendente, fascinante, saber que Kate Winslet, essa moça que é uma das melhores atrizes da História do cinema, e Idris Elba, que tem participado de vários dos filmes de grande bilheteria dos últimos tempos, e tem milhões de fãs no mundo inteiro, não foram as primeiras opções para os papéis. Na verdade, não foram sequer as segundas opções.

Está dito e repetido no IMDb: depois que Michael Fassbender e Margot Robbie abandonaram o projeto, os produtores escolheram Charlie Hunnam e Rosamund Pike. Essa dupla acabou também desistindo – e os papéis foram parar com Idris Elba e Kate Winslet.

É muito doido como se dão as coisas. Porque, me permitido repetir: o filme é Kate Winslet e Idris Elba.

A luta pela sobrevivência em ambiente hostil não é algo agradável de se ver

Em sua maior parte, desde praticamente o início e até quase o final, The Mountain Between Us é um daqueles filmes sobre ser humano versus os perigos da natureza. A dura luta pela sobrevivência num ambiente hostil, perigoso – no caso, um ambiente gelado, as Montanhas Rochosas em pleno inverno.

Especificamente por causa do frio intenso demais, me lembrei de Ninguém Deseja a Noite (2015), da catalã Isabel Coixet, que mostra a história real da ida de uma mulher (o papel de Juliette Binoche) a um ponto bem próximo do Pólo Norte.

Mas ele lembra também diversos outros filmes, como Na Natureza Selvagem/Into the Wild (2007), Livre/Wild (2014), A Perseguição/The Grey (2011), O Regresso/The Revenant (2015).

Filmes que mostram o ser humano no limite de sua capacidade de sobreviver: a vida com a privação de todos os confortos, de todas as coisas básicas. Fome, fome durante dias, semanas; frio muito pior que o frio mais insuportável. Um ambiente mais hostil do que poderia imaginar a mente mais imaginativamente perversa, num fim de mundo.

Não é algo propriamente agradável de se ver – mesmo que a gente saiba que todo aquele sofrimento terá fim, aquelas pessoas afinal serão salvas. Não é algo agradável de se ver, e cheguei mesmo a pensar em apertar a tecla stop. A rigor, a rigor, só não desisti, e fui em frente, por causa de Kate Winslet, essa atriz sempre admirável, maravilhosa. Cheguei a perguntar a Mary se ela queria parar.

Ainda bem que ela não queria. É um bom filme.

Um homem e uma mulher que não se conhecem, num aeroporto lotado

Começa num aeroporto lotado. Veremos depois que é o de Boise, a capital de Idaho, o Estado do Noroeste americano. Há uma nevasca, vários vôos foram cancelados. Entre os passageiros que demonstram maior irritação, preocupação, com o cancelamento estão uma mulher, Alex, e um homem, Ben.

Alex – o espectador vê de cara – é daquele tipo ágil, rápido no gatilho, inquieto, que não consegue ficar parada. É ela que repara em Ben, e se aproxima dele. Diz que percebeu que ele tem grande urgência em viajar, assim como ela – e propõe que os dois unam esforços e dividam um vôo em um pequeno jatinho de empresa de táxi aéreo que já descobriu na internet.

Ben é médico, um neurocirurgião; tinha viajado a Idaho para uma conferência, e tem uma pressa imensa de sair de Boise e chegar a Baltimore, na Costa Leste, porque tem uma operação programada, de um garoto, cuja vida depende daquela cirurgia.

Alex é repórter fotográfica, tinha ido a Idaho para uma matéria sobre skinheads, neonazistas, e tinha pressa imensa de chegar a Nova York no dia seguinte… porque era o dia de seu casamento com o namorado já de bastante tempo, Mark (o papel de Dermot Mulroney).

Essas informações não são dadas todas de uma vez, mas o espectador ficará sabendo delas ao longo da narrativa.

Os dois chegam rapidamente ao hangar de uma empresa de táxi aéreo. A idéia é viajar de Boise até Denver, capital do Colorado, do outro lado das Montanhas Rochosas – de lá seguramente haveria diversos vôos comerciais para a Costa Leste.

O aviador que recebe os dois, Walter (o papel de Beau Bridges), é um veterano alegre, bem humorado. Perguntado se não haveria problema com a nevasca, se não registraria seu plano de vôo junto aos controladores do aeroporto, responde que está tudo muito bem. Costumava pilotar jatos na Força Aérea, era um homem calejado: “Se ninguém estiver atirando em nós, vou deixar vocês lá”, diz, rindo.

Carrega seu cachorro para dentro do jatinho pequenino, um grande labrador.

Ben e Alex não ficam sabendo o nome do labrador: Walter tem um derrame fulminante, o avião cai no topo de uma montanha, a queda é amortecida pela camada espessa de neve, os dois passageiros e o cão sobrevivem, mas Walter morre. Ben o enterra enquanto Alex ainda está desacordada com o choque. Ele verifica que ela teve um ferimento grave na perna, e cuida dele, coloca talas na perna ferida.

Estamos aí com não mais de 15 minutos de filme.

A seguir virá mais de longa 1 hora e meia de sofrimento.

Muito sofrimento, mas muito sofrimento, em meio a uma paisagem deslumbrantemente bela. Daquelas paisagens que são deslumbrantemente belas desde que você não esteja dentro delas – e sim sentado confortavelmente em uma boa poltrona vendo um filme.

O cerne da história, o que há de fascinante, de belo nela, é o fato de que ali estão duas pessoas que não se conhecem, que têm temperamentos diferentes, e que passam a depender um do outro na luta pela sobrevivência.

Críticos dizem que não houve química entre os dois atores

O filme se baseia em romance homônimo de Charles Martin, lançado em 2011. Pela sinopse do livro na Wikipedia, dá para ver que os roteiristas Chris Weitz e J. Mills Goodloe fizeram algumas adaptações – mas nada muito relevante, fundamental.

Os nomes dos protagonistas foram trocados – no original, ele é Ben Payne e ela é Ashley Knox. Ela é escritora, e não fotógrafa. Os dois estão querendo sair de Salt Lake City, e não de Boise. E parte dele, e não dela, a iniciativa de alugar um pequeno avião.

Mudanças pequenas, portanto.

Uma moça chamada Susan Wloszczyna escreveu no rogerebert.com – o site do grande crítico, que adorava os filmes, e adorava ver filmes, e gostava de encontrar neles suas qualidades, antes de seus defeitos – o seguinte:

The Mountain Between Us é um novelão de alta altitude, determinado a fazer a audiência procurar simpatia por um casal que claramente não foi feito um para o outro e interpretado por atores que mererem um generoso C– em química.”

No primeiro parágrafo de seu texto, Ann Hornaday, no Washington Post, lembra que os atores que interpretam os dois protagonistaa são “duas das mais belas e carismáticas estrelas do planeta”. Mas depois ela diz:

“Ajudados pelo diretor Hasny Abu-Assad e a espetacular fotografia de Mandy Walker, que fez a maior parte do filme em locações na British Columbia (nas Montanhas Rochosas do Canadá), Elba e Winslet geram uma química que é convincente na mesma proporção de quanto a história é grotesca.“

Uma das maiores maravilhas da vida é a existência de opiniões absolutamente divergentes. No IMDb, um leitor que se identifica como beawriting7 escreveu um comentário com o título “Não preste atenção às críticas negativas”.

”Para aqueles que dizem que o filme é lento, é bom lembrar que este é um filme sobre personagens, não um filme de ação. Para mim, não é um filme sobre romance, e sim como em uma situação ruim duas pessoas descobrem quem elas de fato são e conseguem vencer seus medos. Esses medos não são sobre a neve. O diretor espera que você seja inteligente o suficiente para entender a trama. Os dois atores fizeram um trabalho fantástico ao transmitir emoção com a linguagem corporal e as expressões faciais. Não acho que os atores que foram pensados antes conseguiriam ter uma atuação tão cheia de nuances.”

Atenção: aqui vai spoiler. Quem não viu o filme não deve ler a partir de agora

O que eu acho é que este é um filme que talvez não tenha definido muito bem que tipo público quer alcançar. Definitivamente, não é o povo que gosta de filme de ação. Talvez isso devesse ser anunciado nos cartazes, no marketing do filme: Atenção! Este não é um filme de ação!

Talvez eu tenha gostado do filme porque, afinal de contas, sou – como o Roberto, e mais tanta gente boa – muito romântico.

A rigor, a rigor, a rigor, a montanha que existe entre Alex e Bem, e que é o título original do filme, não é tão alta assim. Nem sequer chega a ser uma montanha. No máximo, uma colina. Ela é fotógrafa, ele é médico. Não são de classes sociais diferentes, não são opostos em termos de conhecimento, cultura, educação. Ela é falante, aberta, energética, talvez quase hiperativa – ele é fechado, quieto, ensimesmado. Mas e daí? Não vai aí montanha alguma separando um do outro.

O quê? A cor da pele? O fato de a cor da pele de um ser diferente da cor da pele do outro?

Cor da pele não significa coisa alguma.

Tanto Alex quanto Ben são pessoas de bem. Para eles – como para todas as pessoas que não têm a doença nojenta, tenebrosa do racismo -, cor da pele não tem a menor importância.

Anotação em setembro de 2018

Depois Daquela Montanha/The Mountain Between Us

De Hany Abu-Assad, EUA, 2017

Com Idris Elba (Ben Bass), Kate Winslet (Alex Martin)

e Beau Bridges (Walter, o piloto), Dermot Mulroney (Mark, o noivo de Alex), Linda Sorensen (Pamela, amiga de Alex)

Roteiro Chris Weitz e J. Mills Goodloe

Baseado no livro de Charles Martin

Fotografia Mandy Walker

Música Ramin Djawadi

Montagem Lee Percy

Produção Chernin Entertainment, Twentieth Century Fox

Cor, 112 min (1h52)

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