Dégradé

Nota: ★★★½

Tudo em Dégradé é extraordinário, admirável, desde a idéia inicial até os detalhes da realização. Extraordinário, admirável – e também chocante, apavorante, lancinante. Corta a pele do espectador feito peixeira de baiano. Corta e remexe a ferida, e vai enfiando mais para o fundo.

É um filme curtíssimo – apenas 85 minutos. E no entanto parece mais longo que Cleópatra, … E o Vento Levou. O espectador pode admirar a obra de arte – mas quer que acabe logo aquele sofrimento, aquela dor danada, aquela angústia profunda.

Dégradée, de 2015, é uma co-produção Palestina-França-Catar, dirigida pelos irmãos gêmeos palestinos Arab Nasser e Tarzan Nasser. Dá para imaginar que o Catar entrou com dinheiro, a França com talento e os técnicos, e a Palestina com talento e a dor.

Toda a ação se passa dentro de um salão de beleza da Faixa de Gaza

Toda a ação se passa em um único ambiente – um salão de beleza de uma cidade qualquer da Faixa de Gaza. Há algumas tomadas externas, mostrando a rua em frente ao salão, mas são poucas, e é como se a câmara estivesse dentro do lugar, assim como aquelas mulheres, uma dúzia de mulheres.

São duas cabeleireiras-manicures-esteticistas e uma dezena de freguesas ou acompanhantes de freguesas, mulheres que querem se cuidar, se embelezar. Conversam sobre os mais variados assuntos, inclusive, é claro, homens, sexo. Exatamente como – ou quase exatamente como – qualquer bando de mulheres em qualquer lugar deste mundão véio de Deus e do diabo.

Exatamente ou quase como em qualquer lugar do mundo. Até porque ali só há uma pessoa inteiramente vestida como mandam as regras muçulmanas mais rígidas, com a cabeça coberta – Zeinab (Mirna Sakhla), uma mulher extremamente religiosa. Todas as demais se vestem como qualquer mulher de classe média média ocidental – e não usam véu, já que estão em ambiente fechado e ali dentro só há mulheres.

Há uma noiva, Salma (Dina Shuhaiber), que se prepara para a cerimônia de casamento. Quando o filme começa, Salma está sentada em uma das duas cadeiras de trabalho do salão, atendida por Christine (Victoria Balitska), a dona do lugar, jovem, bonita.

Salma, a noiva, foi ao salão acompanhada pela mãe – e ali estão também, provavelmente não porque Salma tenha pedido, a mãe e a irmã do seu noivo. Marcação cerrada.

Junto de Zeinab, a religiosa, está Safia (Manal Awad), uma mulher que fala muito, fala demais, fala mais que todas as outras mulheres reunidas ali. Fofoca baixinho com Zeinab sobre as demais mulheres do salão; sobre sexo; sobre o marido; sobre a vida sexual dela e do marido. Alto, para todos ouvirem, fala de todo tipo de assunto, inclusive, ou, principalmente, de política.

No elenco, Hiam Abbas é o único nome conhecido internacionalmente

A auxiliar da dona do salão, a única outra cabeleireira-faz tudo, Wedad (Maisa Abd Elhadi), moça belíssima, cria pretextos para subir até o segundo andar do prédio e de lá falar pelo celular com o namorado, Ahmed (interpretado por um dos dois irmãos diretores e autores do roteiro, Tarzan Nasser).

A mulher que está sendo atendida pela bela Wedad, freguesa antiga do salão, se chama Eftikhar – e é uma chata de galocha, o protótipo da mulherzinha que se acha melhor que todas as demais, talvez por ser mais rica que as outras. (Numa entrevista, os irmãos autores e diretores chamam a personagem de burguesa.)

Eftikhar está falando ao celular no momento exato em que o filme começa, após rápidos créditos iniciais que só mostram os nomes das produtoras dos três países. O espectador ouve a voz dela antes mesmo de ver a primeira imagem, enquanto a tela ainda está totalmente negra. Ela está conversando com uma amiga, falando sobre o processo de divórcio que vem aí, e sobre o advogado que a está defendendo no caso, um sujeito atraente, gostoso, com quem ela irá se encontrar à noite.

Veremos também que é uma mulher que se recusa a aceitar a passagem do tempo. Já está bem na meia idade, mas que acha que pode manter a aparência de 30 e tantos, 40 anos no máximo. Morre de inveja da beleza jovem da noiva, sentada na outra cadeira do salão.

Essa mulher chatérrima é interpretada pelo único nome conhecido internacionalmente entre todos os que aparecerão nos créditos finais – e é também a primeira vez que vejo Hiam Abbass (na foto abaixo), essa atriz absolutamente extraordinária, maravilhosa, num papel de pessoa desagradável, antipática. Hiam Abbass tem uma penca de filmes admiráveis em sua filmografia: A Noiva Síria (2004), O Visitante (2007), Lemmon Tree (2008), A Fonte das Mulheres (2011), O Casamento de May (2013), para citar só alguns.

O filme está aí para mostrar que a Faixa de Gaza é pior que o inferno

Depois que a ação começa, ainda entram no salão mais duas mulheres, uma delas, Fatima (Sameera Asir), bastante grávida, aí de uns oito meses, e a irmã dela.

Temos então um salão de beleza com duas profissionais atendendo a duas mulheres, enquanto outras aguardam sua hora e outras estão ali apenas fazendo companhia a amigas ou parentes.

Uma dúzia de mulheres, talvez 13, 14 – confesso que não contei para saber o número exato. Uma dúzia de mulheres, de idades variando aí entre 25 e talvez 60 anos – e uma criança, uma garotinha de uns 10, 12 anos, filha de Christine, a dona do salão. (Na foto abaixo, Victoria Balitska, que faz Christine, e Dina Shuhaiber, que faz a noiva.)

Uma dúzia de mulheres ou um pouco mais em um salão de beleza, falando de todos os assuntos possíveis e imagináveis, entre elas ou com amigas ou os maridos ao celular. Todas, absolutamente todas têm celular, é claro.

Poderia ser em qualquer cidade do mundo. Não nos Jardins, ou no Leblon, ou Mangabeiras, ou Moinhos de Vento, para não falar em Upper West Side ou no Marais, porque aquele é um salão de beleza muitíssimo simples, quase pobre – mas que poderia perfeitamente estar em um bairro pobre de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Nova York, Paris.

Só que o salão de beleza da esforçada, trabalhadora Christine está na Faixa de Gaza.

E este Dégradé está aí para nos mostrar – ou para nos relembrar, ou para não nos deixar esquecer nunca, jamais, em tempo algum – que a Faixa de Gaza é pior que o inferno.

Ou que, em comparação com a Faixa de Gaza, a vida no Jardim Ângela paulista ou na Rocinha carioca ou no Buraco Quente belo-horizontino ou em Bom Jesus porto-alegrense é um abençoado paraíso.

Vai tudo num dégradé ao contrário, num crescendo de tensão, pavor

Logo começa uma grande confusão na rua. O espectador ocidental, que não tem informações sobre a vida na Faixa de Gaza hoje, terá todo o direito de não entender muito bom o que se está passando.

Vemos um sujeito com uma barba gigantesca e uma igualmente gigantesca metralhadora plantado diante do salão de Christine, tendo perto de si uma leoa. É exatamente Ahmed, o namorado com quem a bela Wedad volta e meia fala e discute e briga ao celular. (Na foto abaixo, Maisa Abd Elhadi, que faz Wedad.)

Logo chegam homens armados para prender Ahmed.

O espectador vê essas cenas como se estivesse ele mesmo no salão de beleza, onde está a câmara.

Acaba a luz.

Ainda está de dia, é finalzinho de tarde, mas ainda há luz solar entrando pela porta-janela dianteira do salão. Só que, com a queda da energia, vão-se embora o ventilador mais que necessário – é verão, faz um calor desgraçado –, o secador de cabelos, todos os aparelhos elétricos de um salão de beleza.

Christine manda Wedad preparar o gerador – como falta energia constantemente, o salão tem, é claro, seu gerador –, mas as duas vão verificar que a gasolina que faz funcionar a máquina está acabando.

Vai tudo num dégradé ao contrário, num crescendo, como no Bolero de Ravel, como em Festim Diabólico/Rope (1948), como em Matar ou Morrer/High Noon (1952). Acaba a energia, vai acabando a luz do dia, o calor é insuportável, a grávida Fatima começa a passar mal, a chata Eftikhar vai ficando cada vez mais inconveniente, Safia, a falastrona, passa a falar cada vez irritantemente, sem o ventilador a maquiagem da noiva Salma começa a derreter – e lá fora começa um tiroteio que vai se intensificando cada vez mais.

Gaza é Auschwitz, Majdanek, Buchenwald, Bergen-Belsen, Dachau…

O tiroteio, as rajadas de metralhadora, as bombas lá fora são entre a tropa de segurança do Hamas, que governava a Faixa de Gaza em 2015 e a governa ainda hoje, e o clã a que pertence o barbudo Ahmed. O clã estava dando um show de poder nos últimos dias, e afinal, naquela tarde, as tropas do Estado agiram.

Nada disso fica muito claro, nada disso é dito ou mostrado explicitamente = mas a rigor isso não importa. Não importa muito qual seja o motivo daquele tiroteio específico.

O que o filme mostra, sobejamente, brilhantemente, cruelmente, é que aquilo ali é o inferno.

Há seguidas referências às guerras, aos ataques de Israel.

A violência é constante, faz parte do cotidiano.

O salão de beleza de Christine, onde aquelas mulheres se esforçam ao máximo para ter algo parecido com uma vida normal, torna-se na verdade uma prisão. Ninguém pode sair dali – do lado de fora, alguém do Hamas fechou uma porta metálica, avisando que era para a proteção das mulheres. A grávida Fatima começa a sentir contrações e dores cada vez mais fortes – mas não pode sair. Ninguém pode sair. Estão presas.

Huis clos. Lugar fechado, trancado, claustrofóbico.

Claustrofobia.

Metáforas fortes, violentas, agressivamente às claras. Nenhuma sutileza. Dégradé – como o corte de cabelo que alguém sugere para Salma, a noiva – embora Salma não queira cortar o cabelo de jeito algum. Tudo, em Dégradé, é dégradé ao contrário, é crescendo, é aumentando, é indo rumo ao paroxismo.

Claustrofobia, prisão. O salão de beleza de Christine é uma prisão, exatamente como toda a Faixa de Gaza é uma prisão, um território que não conseguiu até hoje ser considerado um Estado, e é cercado por absolutamente todos os lados pelo maior inimigo, e um inimigo armado até os dentes.

Gaza é uma grande prisão.

Gaza é um campo de concentração, onde é mantido preso todo um povo por um Estado rico, forte, uma potência militar como houve poucas tão poderosas em toda a História da humanidade.

Gaza é Auschwitz, Majdanek, Buchenwald, Bergen-Belsen, Dachau, Ravensbrück, Mauthausen, Theresienstadt, Treblinka, Sobibór, Bełżec.

O povo de Deus que o nazismo perseguiu, prendeu e matou hoje faz com os palestinos o que foi feito com ele.

É isso que Dégradé quer dizer.

É como se fosse em tempo real – cada minuto de filme correspondendo a cada minuto da vida

Tudo acontece dentro de quatro paredes – um ambiente fechado, em que convive, a duras penas, uma dúzia de mulheres ou pouco mais.

E tudo acontece praticamente sem corte no tempo.

Quando Dégradé começa, a chata Eftikhar está sendo atendida numa das duas cadeiras do salão, pela bela Wedad, e a noiva Salma está começando a ser atendida por Christine. Oitenta minutos depois, quando o filme está chegando ao fim, eram elas duas que continuavam a ser atendidas.

É praticamente como se não tivesse havido corte algum de tempo. Como se fosse tempo real – como se cada minuto de ação, cada minuto que está sendo mostrado no filme, correspondesse exatamente a um minuto na tela, a um minuto de projeção.

São pouquíssimos os filmes absolutamente em tempo real. Ou ao menos eram pouquíssimos, até alguns anos atrás. Assim, de cor, de cabeça, de bate-pronto, só me lembro de dois – exatamente os dois que citei um pouco acima, Rope e High Noon. Rope é aquele thriller de Alfred Hitchcock todinho passado dentro de um apartamento, e todinho filmado como se fosse um único plano-sequência, sem sequer um corte. Uma única tomada, o filme inteirinho. São 80 minutos, cinco a menos que este Dégradé aqui: 80 minutos de filme, 80 minutos na vida do professor interpretado por James Stewart e dois de seus mais brilhantes alunos. E High Noon é um dos melhores westerns da História. Dura exatamente 85 minutos, e mostra os quase 80 minutos que antecedem o meio-dia em que chegará à cidade o bandidão que quer matar o xerife, e os pouco mais de cinco minutos após o reencontro do xerife com a quadrilha do bandidão.

Dégradé não se esforça por realçar essa coisa – que é rara, e portanto admirável – do tempo real. Mas ele deve entrar para essa classe excelsa de filmes em que o tempo da ação é bem próximo do tempo de projeção.

Foram escolhidas para o elenco mulheres sem experiência de atuação

Os irmãos Nasser se inspiraram em um caso real para criar a história do filme. Aconteceu em 2007: uma família poderosa, que formou uma espécie de milícia em Gaza, roubou um leão para exibir para os moradores e assim demonstrar sua força. Depois de algum tempo, o governo do Hamas resolveu acabar com aquele espetáculo; a luta entre as forças do governo e os membros do clã foi feroz, violenta.

A partir dessa história trágica, que demonstra o contexto irracional da vida em Gaza, Arab e Tarzan Nasser – conta o site AlloCiné – imaginaram o salão de beleza diante do lugar do enfrentamento entre os militares e a família. O site que tem tudo sobre o cinema francês transcreve uma entrevista dos irmãos Nasser: “O filme não se concentra apenas sobre a ocupação israelense, mas também sobre nossos próprios demônios, nossa própria identidade. O que são as mulheres palestinas? Quem são os habitantes de Gaza? Como eles vivem? O que pensam? Qual é seu cotidiano? Nosso trabalho se inspira na tragédia e no absurdo que se abateram sobre a Palestina e, particularmente, sobre a Faixa de Gaza.”

Os diretores fizeram questão de ter, no elenco, mulheres do povo, que nunca tinham tido experiência no cinema ou no teatro. Queriam ter na tela mulheres que falassem o árabe que se fala em Gaza. Para isso, procuraram possíveis candidatas aos papéis nas ruas, nos bares.

Por razões óbvias, pela absoluta falta de segurança que há em Gaza, o filme não foi rodado lá, e sim na Jordânia.

Dégradé foi selecionado para exibição na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes de 2015.
Logo depois da exibição em Cannes, Jordan Hoffman, do jornal britânico The Guardian, escreveu uma crítica que começa assim:

Dégradé é um daqueles filmes que acaba sendo mais importante do que bom. Escrito e dirigido por dois irmãos gêmeos da Faixa de Gaza, onde não existem salas de cinema funcionando nos últimos 30 anos, este é sem dúvida um filme daquela parte tumultuada do mundo, mas que não aparece nas manchetes. Filmado enquanto se desenrolava a guerra de 2014 (entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza), passa-se quase exclusivamente em um salão de beleza. (Um set foi construído na Jordânia.) Doze mulheres batem papo, discutem e finalmente fervem enquanto uma situação violenta na rua as deixa trancafiadas. Esta é uma história sobre indivíduos.”

Por um desses acasos que não parecem acasos, vimos este filme duro, pesado, perturbador no dia 1º de abril de 2018, apenas uns poucos dias depois que soldados israelenses mataram pelo menos 16 palestinos e deixaram mais de 2 mil feridos, num dia de protestos contra a pobreza, a falta de energia elétrica e o fechamento das fronteiras.

A dor na vida real é sempre muito maior que na arte que a imita.

Anotação em abril de 2018

Dégradé

De Arab Nasser e Tarzan Nasser, Palestina-França-Catar, 2015

Com Hiam Abbass (Eftikhar, a “burguesa” chata), Victoria Balitska (Christine, a dona do salão), Maisa Abd Elhadi (Wedad, a segunda cabeleireira), Manal Awad (Safia, a falastrona), Mirna Sakhla (Zeinab, a religiosa), Dina Shuhaiber (Salma, a noiva), Nelly Abou Sharaf (Natalie), Wedad Al Naser (Sawsan, a negra),  Reem Talhami (Wafaa), Huda Al Imam (Sameeha), Raneem Daoud (Mariam, a irmã do noivo), Sameera Asir (Fatima, a grávida), Raya Khatib (Ruba), Tarzan Nasser (Ahmed)

Argumento e roteiro Arab Nasser e Tarzan Nasser

Fotografia Eric Devin

Música Benjamin Grospiron

Montagem Sophie Reine e Eyas Salman

Casting Nabil Koneh e Najwa Mubarki

Produção Les Films du Tambour, Made in Palestine Project, Abbout Productions, Full House, Mille et une Films, Doha Film Institute.

Cor, 85 min (1h25)

***1/2

 

 

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