Crônicas Sexuais de uma Família Francesa / Chroniques Sexuelles d’une Famille d’aujourd’hui

Nota: ★★☆☆

Este filme de título comprido e chamativo – uma produção de 2012 de orçamento pequeno, sem atores famosos – começa uma idéia interessante. A partir de um incidente na escola do filho caçula, a mãe de uma família comum, “normal”, resolve começar a falar sobre sexo em casa, algo que não era usual nas conversas entre o casal e os filhos – assim como na maioria das famílias.

Aí o filme começa a mostrar cenas de sexo, assim de modo muito natural, sem glamourizar, sem nada.

Legal. Bacana.

Mas aí insiste. E insiste. E insiste. E insiste.

De seus 85 minutos, pelo menos um terço é ocupado por cenas de sexo.

Uns 30 minutos de trepação.

Não explícito demais da conta – não se mostram os órgãos genitais. Mas dá-lhe bunda, dá-lhe coxas, dá-lhe peitos. E dá-lhe trepada, uma atrás da outra.

Mary sentenciou: “Vai pra sua tag QuasePornô”.

Sem dúvida. É um filme QuasePornô.

O caçula da família, de 18 anos, é o narrador da história

É uma família de classe média um tanto para alta: moram numa casa bastante grande, bastante confortável, com um belo jardim. Não é dito explicitamente, mas é uma casa numa periferia rica de Paris, ou então de uma outra cidade bem grande, porque a mãe, Claire (Valérie Maës), é advogada de um grande, poderoso escritório.

A história é narrada por Romain, o filho caçula (Mathias Melloul). Ele diz o seguinte sobre a mãe: – “Minha mãe trabalha num grande escritório de advocacia. Ela lida com um monte de documentos de grandes casos, sem se envolver muito. Para se proteger, ela diz. O novo caso de hoje: Romain – Alerta de Problema Sexual. Como eu a conheço, sei que ela nunca vai abandonar o caso.”

Romain conta para o espectador logo de cara qual é seu grande problema na vida: aos 18 anos, ainda não transou. E só pensa nisso.

Na aula de Biologia, é flagrado se masturbando – e se filmando no celular enquanto se masturbava. O diretor da escola – uma belíssima escola particular – chama Claire, e conta para ela o incidente. Avisa que a falta é grave, o caso vai para o conselho disciplinar, e Romain deve ficar em casa durante alguns dias, suspenso das aulas.

Romain explica para a mãe que é um desafio que os colegas haviam inventado: todos do grupo deveriam se filmar durante o ato de masturbar-se em classe. Vários já haviam conseguido o feito. Só ele deu o azar de ser flagrado.

O desafio tinha uma juíza que dava notas ao filme apresentado pelos alunos: Coralie, uma das meninas da classe (o papel de Adeline Rebeillard). Exatamente a garota por quem o coraçãozinho de Romain balançava.

Só depois de um alerta na escola os pais resolvem falar com os filhos sobre sexo

À noite, em casa, Claire conversa com o marido, Hervé (o papel de Stephan Hersoen). Argumenta que eles precisam conversar com os filhos sobre sexo. Abertamente, numa boa. Hervé fica de conversar com Romain, sair com ele para jantar, só os dois. Anne sairia com Pierre, o filho mais velho, que, segundo Romain conta para o espectador, é um sujeito que está sempre alegre, sempre de bem com a vida.

Estranhamente, nem pai nem mãe se dispõem a conversar com Marie (Leïla Denio), a filha do casal. Filha adotiva, conforme Romain, o narrador, nos detalha.

Nenhum dos dois fala com Marie, mas Claire vai conversar com o sogro, Michel (Yan Brian), que mora com a família. Claire conta para o pai do marido que Romain teve um problema na escola, e ficará em casa durante alguns dias – mas não especifica o motivo da suspensão. Questiona Michel sobre sexo: desde que perdeu a mulher, já fazia alguns anos, como ele lida com a necessidade de sexo?

Michel não acha estranho o papo; sente-se até um tanto aliviado com o fato de a nora trazer o tema à baila. Conta que, duas vezes por mês, faz sexo com uma prostituta, sempre a mesma, Nathalie (Laetitia Favart). E diz que foi bom Claire falar sobre o assunto, porque anda temendo morrer do coração no meio de uma trepada com Nathalie.

E então o filme mostra as trepadas. Enquanto Romain, tadinho, tem que se contentar com a masturbação, seus pais trepam, seu avó trepa com Nathalie, seu irmão trepa – sempre em ménage-a-trois – e sua irmã trepa com o namorado, um sujeito absolutamente tarado, que gosta de fazer sexo nos lugares mais diferentes possíveis.

Os atores são pouco conhecidos. Os dois diretoes sempre falam de sexo em seus filmes

Mathias Melloul (Romain), Valérie Maës (Claire), Stephan Hersoen (Hervé), Leïla Denio (Marie), Nathan Duval (Pierre), Yan Brian (Michel), Adeline Rebeillard (Coralie), Laetitia Favart (Nathalie).

Eu não conhecia nenhum desses atores – e parece que de fato eles não são muito famosos. Uma indicação disso é que o IMDb, o fantástico site enciclopédico que tem absolutamente tudo sobre cinema, não tem foto de nenhum deles.

O filme é dirigido a quatro mãos por Pascal Arnold e Jean-Marc Barr. Pascal Arnold assina argumento e roteiro do filme, ao lado de Lucy Allwood.

Jean-Marc Barr, alemão de nascimento, filho de pai americano e mãe francesa, estudou nos Estados Unidos, e trabalha em várias frentes. Tem mais de 70 títulos como ator em seu currículo, e, neste filme aqui, além de co-dirigir, foi também o diretor de fotografia e um dos montadores.

Pascal Atnold e Jean-Marc Barr trabalham sempre juntos. Assinaram juntos a direção de cinco outros filmes antes deste Crônicas Sexuais – e em todos eles “a sexualidade tem um papel importante”, como diz, com elegância, o site AlloCiné, especializado em filmes de língua francesa. Os títulos já demonstram isso: Lovers (1999), Sensual Demais (2000), O Idioma do Desejo (2011).

A intenção é boa: mostrar o sexo como a coisa mais natural do mundo. Mas…

Falei no início que o título deste filme é chamativo. O início, Crônicas Sexuais, já é sem dúvida chamativo. O resto do título no original, nem tanto: “de uma família de hoje em dia”. Chroniques sexuelles d’une Famille d’aujourd’hui. Os exibidores americanos apimentaram um pouquinho mais, ao trocar “uma família de hoje em dia” para “uma família francesa”. Para o senso comum dos americanos, os franceses são tidos como marotos, malandros, safados; beijo de língua é “French kiss”; quando alguém diz palavrão, pede desculpas com um “Pardon my French”.

De resto, o filme mostra duas jovens – Anne, a irmã, e Coralie, a coleguinha de Romain – de fato bastante safadinhas, soltinhas.

Crônicas Sexuais de uma Família Francesa (os exibidores brasileiros preferiram seguir os americanos) me deixou com sensações um tanto conflitantes. Sim, dá para perceber que os realizadores quiseram fazer um filme mostrando o sexo como a coisa mais absolutamente natural do mundo. Mas é impossível não sentir que eles exageraram na dose de sequências de trepadas – e esse exagero vai contra a própria premissa do filme, de tratar o sexo com absoluta naturalidade. OK, a intenção foi boa. Mas o resultado, sem dúvida alguma, é um QuasePornô.

Anotação em junho de 2018

Crônicas Sexuais de uma Família Francesa/Chroniques sexuelles d’une famille d’aujourd’hui

De Pascal Arnold e Jean-Marc Barr, França, 2012

Com Mathias Melloul (Romain, o caçula), Valérie Maës (Claire, a mãe), Stephan Hersoen (Hervé, o pai), Leïla Denio (Marie, a filha), Nathan Duval (Pierre, o filho mais velho), Yan Brian (Michel, o pai de Hervé), Adeline Rebeillard (Coralie, a namorada de Romain), Laetitia Favart (Nathalie, a prostituta), Grégory Annoni (Cédric)

Roteiro Lucy Allwood, Pascal Arnold

Fotografia Jean-Marc Barr

Música Imaro Quartet

Montagem Jean-Marc Barre Teddy Vermeulin

Casting Laurence Wayser

Na Netflix. Produção Toloda, Monkey Pack Films, Supersonic Productions.

Cor, 85 min (1h25)

**

Título nos EUA: Sexual Chronicles of a French Family

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