Atentado em Paris / Bastille Day / The Attack

Nota: ★★★☆

Eis aí um bom filme de ação. Sim, tem muitas cenas de ação e sequências de lutas, mas são extremamente bem realizadas e não ocupam a maior parte do filme. Além delas, há uma bela trama, inteligente, bem engendrada, com personagens interessantes e atores em boas interpretações.

E ainda nos brinda com imagens espetaculares de Paris, aquela cidade lindérrima. Há, ao longo de todo o filme, diversos planos gerais, tomadas aéreas de Paris de deixar o espectador aturdido diante de tanta beleza.

Vejo numa boa filmes de todos os gêneros – gosto, afinal, de bom cinema. Mas os filmes de ação não estão, de forma alguma, entre os meus preferidos. Às vezes até vejo bobagens absurdas tipo Invasão a Londres/London Has Fallen (2016) – tantos bons atores, que tal experimentar? Mas essas experiências são bem frustrantes. “Filme de ação que não valeu”, como diz a música do Chico.

Deste Atentado em Paris, não tinha referência alguma. Nenhuma, nenhuma. Estava zapeando, iam começar os filmes das 10 da noite dos Telecines, dei uma olhada na sinopse e na ficha técnica. “Um jovem artista e um agente indisciplinado da CIA embarcam em uma missão para combater o terrorismo na França”, diz a sinopse – que tem um erro crasso. Não me diziam nada os nomes dos dois atores principais, Idris Elba e Richard Madden, nem o do diretor, James Watkins. Mas resolvi experimentar. Pode ser uma gostosa experiência ver um filme sobre o qual não se tem referência alguma.

Valeu a pena.

Uma sequência espetacular: uma jovem desce a escadaria de Montmartre nua

Só vim a saber depois, claro, mas é uma co-produção Inglaterra-França-Estados Unidos-Luxemburgo. O diretor James Watkins, jovem inglês nascido em 1978, realizou apenas três filmes até agora; este aqui foi seu terceiro longa. Não reconheci o nome, mas tinha visto seu segundo filme, A Mulher de Preto (2012), com Daniel Radcliffe, um suspense competente.

James Watkins é o autor, juntamente com Andrew Baldwin, do roteiro deste Bastille Day – um roteiro original. O que demonstra que o rapaz tem talento tanto para criar uma história original quanto para transformá-la em um bom filme.

O começo é brilhante: somos apresentados rapidamente aos dois personagens centrais da trama em duas sequências curtas que não têm relação alguma uma com a outra.

A primeira sequência se passa diante da Basílica de Sacré-Coeur, na colina de Montmartre. Começo de noite, a escadaria está cheia de gente, turistas de todos os cantos, parisienses, um agito frenético. Close up dos sapatos de uma mulher. Várias tomadas rápidas de pessoas que se espantam com o que vêem – e só então vemos o que elas estão vendo: os sapatos são as únicas peças de roupa que uma bela jovem está usando. Ela desce a escadaria diante da Sacré-Coeur nua, peladinha de tudo, linda leve e solta, cabelos longos, sorrisos nos lábios.

Diversas pessoas passam a filmar o acontecimento extraordinário em seus celulares.

No meio da multidão, um rapaz começa a se movimentar. Caminha entre as pessoas atônitas diante da moça que desfila nua. Com rapidez, agilidade, maestria, arte mesmo, exerce o seu metiê, sua profissião: vai furtando carteiras, celulares, passaportes.

Veremos que se chama Michael Mason, é um americano desterrado, um mestre da arte de bater carteiras, interpretado por Richard Madden, o Robb Stark de Game of Thrones, o Príncipe da Cinderela de Kenneth Branagh (2015).

Veremos também, bem rapidamente, que ele apostou 300 euros com a moça bonita, Beatrice (interpretada por Stéphane Caillard) que tinha conhecido fazia pouco que ela não teria coragem de descer nua as escadarias da Basílica de Sacré-Coeur. Foi idéia dele, a fim de deixar distraídas as pessoas, para que ele pudesse fazer uma boa limpa.

Uma jovem é convencida pelo namorado a colocar uma bomba

A sequência é espetacular – e bem rápida.

Corta, e um letreiro avisa que estamos agora na base da CIA, a agência de inteligência americana, em Paris. Dois funcionários estão interrogando um terceiro. Um dos interrogadores é duro, severo: chama-se Tom Luddy (Anatol Yusef). A outra tem cargo importante, percebe-se logo, assim como se percebe também que ela, ao contrário de Tom, gosta do agente que está sendo interrogado: chama-se Karen Dacre e é interpretada pela bela inglesa Kelly Reilly, de tantos bons filmes.

O agente que está sendo interrogado tem fama de insubordinado, rebelde, cabeça dura; bom de briga, excelente, mas daquele tipo que não gosta de seguir as ordens dos superiores. Chama-se Sean Briar, e é interpretado por Idris Elba, esse sujeito que eu não conhecia, embora tenha mais de 80 títulos na filmografia.

Karen quer dar uma chance a Briar para que ele trabalhe com ela em Paris; Tom acha que ele é uma bomba-relógio, que fez besteiras no Oriente Médio, e que em Paris seria um elefante em uma loja de cristais.

Não estamos nem com uns 8 minutos de filme, e numa nova sequência ficamos conhecendo dois novos personagens, um casal. Ela se chama Zoe (o papel de Charlotte Le Bon, na foto acima), uma jovem idealista, ativista de causas que julga justas, corretas. Não é, no entanto, conforme veremos, propriamente muito esperta, muito inteligente. Nessa primeira sequência em que ela aparece, está sendo convencida pelo namorado, Jean (Arieh Worthalter), da importância da tarefa que ele está confiando a ela: levar uma bomba para a sede de um partido nacionalista, de extrema direita.

Zoe insiste em confirmar que não haverá ninguém lá no lugar, que a bomba causará apenas danos materiais, mas não causará a morte de ninguém. Jean a tranquiliza sobre isso. E então vemos Zoe colocar uma peruca loura e entrar no prédio em que fica a sede do tal partido (o nome é fictício, mas a descrição é de algo próximo da Frente Nacional de Marine Le Pen).

Ela está para deixar a bomba – acondicionada dentro de um bichinho de pelúcia – na sede deserta do partido quando entram umas seis pessoas para fazer a limpeza.

Zoe deixa o lugar carregando a bomba na mesma sacola em que estava antes.

Senta-se numa escadaria, liga para Jean: – “Você garantiu que não haveria ninguém lá!”. Chora. Não sabe o que fazer.

Num café na calçada, bem perto dela, está o americano desterrado, o artista do pickpocket. Michael estava por ali observando qual seria sua próxima vítima.

Num momento em que Zoe está com a cabeça enfiada nas duas mãos, Michael, liso, rápido, silencioso, passa por ela e pega a sacola.

Uma perseguição nos tetos de prédios de Paris – uma sequência deslumbrante

Segundos depois, Zoe dá pela falta da sacola, e seu desespero fica ainda maior. Anda de um lado para outro tentando achar a sacola – bem mais tarde, veremos que o plano dela era jogar a bomba no rio.

Michael remexe na sacola. Vê a peruca que Zoe havia usado e depois enfiado ali, examina o bichinho de pelúcia, bota no bolso o telefone celular. Sai caminhando e deposita a sacola num lugar qualquer da calçada.

Está se afastando dela quando há a grande explosão.

É o mês de julho. Daí a dois dias é o 14 de Julho, a data nacional da França, o Dia da Queda da Bastilha do título original do filme, o fato histórico que deu início à Revolução Francesa de 1789.

Poucas horas depois da explosão, que deixa quatro mortos, imagens do rosto de Michael – gravadas pelas câmaras de vigilância das ruas – já estão em poder tanto das autoridades francesas quanto do pessoal da CIA. Ficamos conhecendo o chefe do serviço de inteligência da França, que responde diretamente ao ministro do interior: chama-se Victor Gamieux e é interpretado por José Garcia.

Com a rapidez de um foguete, e muito à frente das autoridades francesas, o escritório da CIA levanta toda a ficha de Michael Mason. E fica sabendo que nos últimos 18 meses ele ligou um punhado de vezes de um telefone público para a mãe nos Estados Unidos.

Com a rapidez de um foguete, o agente bom de briga, indisciplinado, cabeçudo Sean Briar aposta que Michael mora na rua daquele telefone publico.

Ainda não temos nem 15 minutos de filme, e o agente da CIA Sean Briar está perseguindo o mestre da arte de bater carteiras Michael Mason pelos telhados de uma região central de Paris.

A sequência é – não tem jeito, é preciso usar de novo o adjetivo – espetacular. É bem realizadíssima, é uma coisa de deixar qualquer bom diretor de filmes de ação, Michael Mann, Antoine Fuqua, John Woo, com uma baita inveja.

O agente durão da CIA e o artista do furto de carteiras – uma boa dupla

A trama criada pelo diretor James Watkins e por Andrew Baldwin – repito – é inteligente, bem engendrada. Haverá surpresas, é claro. Uma grande surpresa acontece quando o filme está ali com uns 30, 35 minutos, e revela-se quem está por trás de Jean, o sujeito que convenceu a pobre Zoe a levar uma bomba até a sede de um partido de extrema direita. Haverá pelo menos mais duas imensas surpresas mais adiante.

Uma característica deliciosa da história é o relacionamento interessantíssimo que irá se formando entre o agente da CIA durão, uma máquina mortífera de altíssima qualidade, com o ladrão, o virtuoso do pickpocket, o rapazinho americano desterrado em Paris. Depois da magnífica sequência em que Briar persegue Michael pelos telhados de Paris, há outra sequência fascinante, em que o agente interroga o sujeito que é o suspeito de ter praticado o atentado a bomba.

Michael explica que não sabia nada de bomba, que não tinha nada a ver com bomba, que é apenas um ladrão, um pickpocket. E então Briar, grandalhão, imenso, diz para o garoto bem menor que ele: – “Tá bom, então venha aqui e roube minha carteira”.

Consta que os atores Idris Elba e Richard Madden se deram muito bem. Deve ser verdade: há uma boa química entre os dois.

E aqui cabe uma palavrinha sobre aquela sinopse do filme citada acima, que é usada no Telecine e está na revista Monet, da Net – “Um jovem artista e um agente indisciplinado da CIA embarcam em uma missão para combater o terrorismo na França”. Dá para imaginar que foi uma cópia de uma sinopse distribuída pela produção, que tratava o personagem Michael Mason como “um jovem artista do pickpocket”,,, Mas aí perderam a especificação de qual era a arte…

O filme estreou na França um dia antes do atentado terrorista em Nice

A realidade, a vida real, essa coisa tão surpreendente quanto as tramas bem engendradas de thrillers de ação, interferiu brutalmente na carreira deste Bastille Day nos cinemas.

Bastille Day foi lançado na França – com esse título, um título em inglês, mais apropriado para os mercados americano e britânico – na véspera do Dia da Bastilha de 2016, ou seja, no dia 13 de julho. No 14 de Julho, aconteceu o ataque terrorista em Nice: um caminhão invadiu a área em que a multidão celebrava a data nacional da França na cidade litorânea, matando 84 pessoas e ferindo mais de 200.

O StudioCanal, representando as companhias produtoras, retirou imediatamente todos os anúncios do filme na França, e anunciou que não retiraria o filme de cartaz, mas deixaria às cadeias de cinemas a decisão de interromper ou não a exibição da fita.

Diante do choque do ataque terrorista em Nice, quem, em sã consciência, teria estômago para ir ao cinema ver um filme sobre atentados terroristas em Paris?

Talvez como uma tentativa de dissociar o filme do atentando real em Nice, ele foi rebatizado como The Attack para o lançamento em DVD no Reino Unido. E foi também com esse título que o filme foi lançado no mercado americano.

As filmagens feitas de fato em Paris são uma grande qualidade do filme

Uma característica interessante dessa co-produção Inglaterra-França-Estados Unidos-Luxemburgo é que nenhum dos principais atores tem a nacionalidade do personagem que representa. Idris Elba, que faz o americano de Connecticut Sean Briar, é inglês, nascido e criado em Londres – filho de pai de Serra Leoa e mãe de Gana. Richard Madden, que faz o americano de Nevada Michael Mason, é escocês.

É inglesa a bela Kelly Reilly, a Wendy da trilogia Albergue Espanhol, Bonecas Russas e O Enigma Chinês, que aqui interpreta a alta funcionária da CIA Karen Dacre. E Charlotte Le Bom, que faz a francesa Zoe, é canadense de Montréal.

Em uma entrevista, David Kanter, um dos produtores, explicou que, para o papel do agente Sean Briar eles procuravam alguém que fosse “uma combinação de Steve McQueen e Clint Eastwood”. Encontraram o que queriam em Idris Elba – e a verdade é que o ator está bem, está perfeito como o agente que não tem nenhum respeito pela hierarquia, pelo bom senso, é rebelde, impulsivo – e sempre acerta.

Tanto Idris Elba quanto Richard Madden fizeram montes de elogios, em entrevistas, ao fato de que o diretor James Watkins fez questão de filmar em Paris, em locações reais – e, de fato, este é um filme em que a cidade de Paris é importantíssima em toda trama, é a rigor o personagem principal da história.

E não é apenas a Paris esplendorosa, a Cidade Luz, um dos lugares mais belos do mundo. Sim, há a colina de Montmartre com a Basílica de Sacré-Coeur, há uma ou duas tomadas aéreas da grande estrela formada pelas avenidas que se cruzam no Arco do Triunfo – mas há também longas sequências nos bairros mais afastados, os banlieues, os subúrbios pobres.

“Sou fã de filmes que usam cidades de um jeito que não parecem coisa para turista, e este filme faz com que a audiência descubra um lado bem diferente de Paris”, disse Idris Elba, numa entrevista citada no IMDb. E Richard Madden diz: “Foi ótimo ir a partes de Paris que são apenas residenciais, e longe das áreas centrais. Sim, a gente vê os grandes boulevards e outros pontos turísticos, mas há um monte de cenas em apartamentos, em áreas degradadas, lugares escuros.”

Definitivamente, se o maravilhoso livro Paris by Hollywood/Paris vu par Hollywood, de Antoine De Baecque, uma magnífica edição da Flamarion de 2012, tiver uma reedição, terá que ter um capítulo para este Bastille Day.

Anotação em dezembro de 2017

Atentado em Paris/Bastille Day/The Attack

De James Watkins, Inglaterra-França-Estados Unidos-Luxemburgo, 2016

Com Idris Elba (Sean Briar), Richard Madden (Michael Mason)

e Charlotte Le Bon (Zoe), Kelly Reilly (Karen Dacre), José Garcia (Victor Gamieux), Thierry Godard (Rafi Bertrand), Vincent Londez (Yannick Bertrand), Arieh Worthalter (Jean), Anatol Yusef (Tom Luddy), Eriq Ebouaney (Baba), Stéphane Caillard (Beatrice, a moça que desfila nua em Montmartre), Mohamed Makhtoumi (Christophe), Théo Costa-Marini (Xavier), Jérôme Gaspard (Yves), Ismaël Sy Savané (Serge), James Stewart (Henri), James Cox (Pierre), James Harris (Marcel)

Argumento e roteiro Andrew Baldwin e James Watkins

Fotografia Tim Maurice-Jones

Música Alex Heffes

Montagem Jon Harris

Casting Julie Harkin e Michael Laguens

Produção StudioCanal, Anton Capital Entertainment, Amazon Prime Instant Video, Vendome Pictures, TF1 Films Production, Canal+, Ciné+, TF1, Anonymous Content.

Cor, 92 min (1h32)

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Título nos EUA: The Take.

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