Amigos Para Sempre / Four Friends

Nota: ★★★½

Amigos Para Sempre/Four Friends, que o grande Arthur Penn lançou em 1981, é daquela nobre linhagem de filmes que, como o título indica, fala de um grupo de amigos, de uma geração – e, ao falar da vida desse microcosmo, faz um amplo painel de um período da sociedade como um todo, um afresco sobre um momento da Grande História.

É um filme belo, sensível, emocionado e emocionante. Tem defeitos, e vários – e é fantástico como os defeitos não o diminuem, não o desmerecem. Ao contrário: são provas de que foi uma obra de arte feita com paixão, com os sentimentos, as sensações à flor da pele.

“É tanto sobre as mudanças pelas quais passam seus personagens quanto pela chegada da América à idade adulta.” Essa belíssima definição foi dada não por um respeitado crítico de cinema, mas por um espectador comum, um leitor do IMDb, que se assina babatjie.

Chegada à idade adulta. Amadurecimento. O processo de passagem da adolescência para a vida adulta. Não há, nesta língua tão rica que é a Última Flor do Lácio Inculta e Bela, uma expressão tão perfeita para definir o que os ingleses chamam de “coming of age”. E o coming of age de quatro amigos inseparáveis de uma pequena cidade industrial do Meio-Oeste, ao longo dos turbulentos, agitados, loucos, anos 60 é a base da história – escrita e roteirizada por Steve Tesich – de Four Friends. Eu não saberia dizer se nos anos 60 ocorreu “the coming of age of America”, como diz esse babatjie, mas ele é americano, e portanto tem autoridade para falar.

Mas o fato é que é impressionante o número de leitores do IMDb que escreveram sobre o filme de Arthur Penn com respeito, admiração e emoção. Impressionante e fascinante: que eu saiba, o filme não foi um grande sucesso de público na época do lançamento, 1981. Nem seria de esperar que fosse. Afinal, é um drama sério, voltado para o público adulto, assinado por um diretor de imenso prestígio mas sem propriamente qualquer apelo popular. E não tem sequer um astro no elenco.

Arthur Penn (1922-2010) já havia dirigido diversos grandes astros em seus nove longa-metragens anteriores: Paul Newman, Marlon Brando, Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Robert Redford, Jane Fonda, Gene Hackman, Faye Dunaway, Warren Beatty.

Mas, para Four Friends, fez questão de escolher apenas atores novatos, iniciantes.

Filme bom dá frases boas. Deste, se diz que é “a história da vida de todos nós”

Então, não haveria mesmo motivo para que o filme fosse um tremendo sucesso de público. Mas é fascinante que, passados agora mais de 35 anos de seu lançamento, Four Friends seja visto ou revisto por tanta gente que, com gosto e emoção, escreve elogios a ele.

E isso faz todo sentido.

Especialmente para os mais velhos, para quem viveu ao menos em parte os turbulentos anos 60, para quem é próximo da geração de Danny, Georgia, David e Tom, não dá para não se emocionar com o filme.

Afinal, é como se diz no trailer: “A história da vida de todos nós”. Ou ainda esta outra frase forte falada no trailer: “Era um tempo em que o mundo parecia prestes a explodir em flores – ou em chamas.”

Filme bom dá frases boas. Uma das taglines – as frases boladas pela equipe de marketing do estúdio ou dos distribuidores para vender o filme – de Four Friends é “All the boys love Georgia…and Georgia loves all the boys!”

Os quatro eram colegas de high school, o secundário, na passagem dos anos 50 para os 60; viviam juntos a maior parte do tempo, e os três garotos, juntos, amavam Georgia, uma menina linda, com um sorriso de encantar frades de pedra, corajosa, anticonvencional em tudo por tudo, que idolatrava Isadora Duncan e tinha absoluta certeza de que sairia da sua cidadezinha industrial de East Chicago, Indiana, para brilhar como bailarina nos palcos do mundo. (Jodi Thelen, que faz Georgia, tinha apenas 19 anos de idade no ano de lançamento do filme.)

Tocavam, os quatro, na banda da escola – e, no meio do ensaio, Georgia era capaz de se levantar e continuar tocando seu instrumento de sopro enquanto dançava, para absoluto desespero do professor e maestro.

Como não se apaixonar por Georgia?

Tom (Jim Metzler) era um rapaz bonito, atlético, bem humorado, animado, boa gente.

David (Michael Huddleston) também era boa gente, excelente figura – mas nem bonito, nem atlético nem bem humorado quanto Tom. Judeu, filho do dono de uma funerária, com tendência a ganhar peso e perder cabelo, David precisava, para animá-lo, da animação eterna de Georgia.

O protagonista da história emigrou da antiga Iugoslávia quando tinha uns 12 anos

Todos amavam Georgia, mas Danny (Craig Wasson) amava mais que todos os outros. Danny era como os amigos o chamavam, mas seu nome era Danilo, Danilo Prozor. Nascera na então Iugoslávia, e só emigrara para a América quando já entrava na adolescência, aí com uns 11, 12 anos.

São quatro amigos, e um bom número de personagens terá importância, mas Danilo Prozor é o protagonista da história. O filme abre com a chegada dele à estação de trem onde o esperava o pai, que havia emigrado antes, para se arranjar, se ajeitar na vida antes de trazer mulher e filho.

O garoto Danilo, que aparece na sequência inicial e em mais umas poucas bem no começo do filme, é interpretado por Scott Hardt. O pai, sujeito sério, sisudo, severo, operário de uma das metalúrgicas do lugar, é o papel de Miklos Simon, e a mãe, mulher cegamente obediente ao marido, é interpretada por Elizabeth Lawrence.

Danilo desembarca do trem com a mãe e um grande baú que contém todos os pertences que havia juntado na vida. O baú será fundamental ao longo de toda a narrativa; vai acompanhar Danny em todas as suas andanças por diversas cidades.

A voz em off de uma criança narra para o espectador, na sequência inicial, na estação de trem:

– “Meu pai saiu da Iugoslávia logo depois que eu nasci. Nós fomos apresentados um ao outro na estação de trem de Gary, Indiana, América.”

Ao rever o filme agora pela primeira vez depois de ter visto na época do lançamento, fiquei com a sensação de que a história deve ter muito a ver com a vida real do autor – e parece que tem mesmo. Volto ao tema mais tarde.

A história é contada por vários narradores. Até a vizinha de Georgia narra um trecho

Uma característica que me deixou fascinado nesta revisão é que Four Friends não tem um narrador, ao contrário da imensa maioria dos filmes que têm narrador. São vários os narradores que pontuam, com a voz em off, a história que vamos vendo na tela.

Uma vizinha dos Prozor, e também da família de Georgia e da de Tom, porque todos moravam no mesmo bairro, a senhora Zoldos (Beatrice Fredman), uma mulher extremamente simpática, costumava ver aqueles três rapazes e a menina bonita da janela de sua casa.

Ela conta para o espectador, com a voz em off, quando o filme está ainda com apenas 8 minutos, e vamos vendo os três rapazes se encaminhando para a casa de Geórgia, todos de terno, no dia da festa de formatura, cada um com um instrumento de sopro à mão:

– “David, Tom e Danilo eram os melhores amigos – e amavam a mesma garota, Georgia. Ela era minha vizinha do lado, na Alameda Aberdeen, e eu adorava ver os meninos virem visitá-la. Viviam sempre juntos. Eu ficava intrigada, tentando adivinhar quem ela escolheria. Garotos maravilhosos, todos os quatro.”

E então a senhora Zoldos cumprimenta os três rapazes, da janela de sua casa. Todos respondem alegremente com um “boa noite, Dona Zoldos”, e ela provoca: – “Vocês precisam ver o vestido que Georgia arrumou para a festa”.

Os três executam – mal pra burro, é claro – o estribilho de “Georgia on my mind”, e então Georgia surge pela primeira vez na tela, uma gracinha de garota por quem qualquer um se apaixonaria perdidamente. Eu, se morasse em East Chicago, Indiana, seria perdidamente apaixonado por ela.

Georgia diz: – “Hello, kiddos”, e coloca um cigarro na boca. Os três rapazes lutam para ver quem consegue acender primeiro o seu isqueiro Zippo.

Georgia vai repetir a expressão “kiddos”, “kiddo”, variação de kid, garoto, umas 30 vezes ao longo do filme, mesmo muito tempo depois que todos deixaram de ser garotos. E o espectador vai ouvir diversas, diversas vezes “Georgia on my mind”, a canção de Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell que fazia um sucesso incrível naquele início dos anos 60 na gravação de Ray Charles.

Não era para menos. Os kiddos – e o espectador também – ficam mesmo com Georgia em suas cabeças.

Sempre imigrante, Danilo tinha paixão pelo hino nacional americano

Bem adiante na história, um outro narrador dirá uma frase fascinante sobre a personalidade de Danilo Prozor, o imigrante iugoslavo que veio a conhecer o pai na estação de trem de – como ele mesmo recita – Gary, Indiana, América.

Esse narrador é Louie Carnahan (Reed Birney), colega de quarto de Danilo na moradia universitária. Filho de um industrial milionário, sofrendo de uma doença degenerativa grave, Louie é um apaixonado por Ciência, por Astronomia, Física. (Impossível não lembrar do grande físico Stephen Hawking, que teve parte de sua vida retratada no maravilhoso A Teoria de Tudo, de 2014.) Numa bela cena, passada aí em 1962, 1963, ele faz Danilo jurar que, quando o homem finalmente pisar na Lua, o amigo vai se lembrar dele. (É claro que, quando o filme já se encaminha para o fim, e estamos em 1969, há uma sequência em que Danilo vê na TV o passeio de Neil Armstrong pela Lua.)

Quando o filme está com 48 minutos, vemos Danilo, Louie e a irmã dele, Adrienne Carnahan (Julia Murray) num estádio de futebol lotado, todos de pé, cantando o hino americano. Adrienne está com o braço envolvendo Danilo. E a voz em off de Louie-Reed Birney diz:

– “Meu amigo Danilo tem uma paixão pelo hino nacional. Ele vai aos jogos de futebol para poder ficar de pé no meio de milhares de espectadores e cantar. Durante todo o tempo em que convivo com ele, jamais o ouvi dizer Estados Unidos. É sempre América. Como se ele visse algo quando diz a palavra. América.”

Imigrante é sempre imigrante, não importa quantos anos tenha já vivido na terra que não é a sua terra natal. Há sempre um travo na língua, na alma, uma mistura eterna de agradecimento de um lado e estranheza de outro. Eu, que imigrei para São Paulo há meio século, ainda tenho isso – algo que Danilo Prozor sente o tempo tempo.

Georgia recita o poema que ele fez para ela: “I love you like the Pilgrim loves the Holy Land, like the wayfarer loves his wayward ways, like the immigrant that I am loves America, and the blind man the memory of his sighted days.”

Eu amo você como o peregrino ama a Terra Santa, como o viajante ama seus caminhos, como o imigrante que sou ama a América, e o cego a memória dos dias em que via.

O jovem imigrante e a garota Wasp milionáruia resolvem se casar

Logo que termina o hino americano no campo de futebol, o locutor pede um minuto de silêncio pela morte de John F. Kennedy. O espectador sabe, então, que estamos em 1963.

No quarto da moradia estudantil que Danilo divide com Louie, há uma fotografia de Kennedy.

Diversos filmes de Arthur Penn fazem referências à presidência de Kennedy. “Onde você estava quando Kennedy foi morto?”, pergunta uma personagem ao protagonista de Um Lance no Escuro/Night Moves (1975). Em Caçada Humana/The Chase (1966), há um assassinato à queima-roupa idêntico ao assassinado de Lee Harvey Oswald por Jack Ruby.

A família de Louie passa a ter importância muito grande na história lá pela metade dos 114 minutos do filme.

O namoro de Danilo com Adrienne vai ficando sério. Ele comenta com Louie que Adrienne acha que os dois deveriam casar – ao que Louie aconselha que, se for assim, eles deveriam fugir juntos e casar em segredo. Louie sabe do que está falando, mas Danilo não o escuta, e, numa visita à mansão ualtramilionária dos Carnahan, durante jantar com o pai e a mãe de Louie e Adrienne, o imigrante iugoslavo diz ao Wasp podre de rico que quer casar com a filha dele.

(Mr. e Mrs. Carnahan são interpretados por James Leo Herlihy e Lois Smith.)

A festa de casamento que se organiza na mansão dos Carnahan é daquelas coisas revoltantemente ricas, luxuosas.

No meio da festa, quando o filme está com 67 minutos, há uma tragédia absurda, inominável.

O espectador já havia visto indícios de que algo muito, muito grave estava ocorrendo.

Obviamente não faz sentido relatar o que é. Seria um spoiler absurdo.

A idade dos atores não bate com a dos personagens, entre outros problemas

Falei no início do texto de defeitos do filme. Sim, há defeitos. Há problema, por exemplo, com as idades dos personagens e dos atores. Já foi dito que, no ano de lançamento, a atriz Jodi Thelen estava com 19 – e, assim, não é nada estranho vê-la fazendo a Georgia que frequenta a high school, no início dos anos 60, mas é um pouco estranho vê-la já beirando os 30, no finalzinho da década de 60.

Muito mais estranho é ver, no início do filme, um Danilo Prozor na high school na pele de Craig Wasson, nascido em 1954, e que portanto estava com 27. O mesmo se pode dizer dos atores que fazem David e Tom: Michael Huddleston estava com 29, e Jim Metzler, já com 30.

Defeito do filme? Sim. Mas fazer o quê, quando você vai contar a história de jovens entre os 17, 18, e os 30 e tantos anos? Ou bem se opta por isso que Arthur Penn optou, o risco de parecer um tanto estranho, ou bem se parte para ter dois atores para cada papel – o que pode ficar muito mais esquisito ainda.

Há outras questões.

Há muito exagero. A rigor, tudo é exagerado. Há fatos demais na história desses quatro jovens. Há dor demais, tragédia demais, idas e vindas demais. Às vezes fiquei com a sensação de que o roteiro teve que dar uma acelerada para poder conter tanta informação, tantos acontecimentos dentro de um filme de pouco menos de 2 horas. Fica parecendo que o roteiro foi a adaptação para o cinema de um romance prolixo como um Guerra e Paz – mas não, é um roteiro original, uma história criada diretamente para o cinema.

Há sequências em que os atores exageram demais – mesmo sob a batuta de Arthur Penn, um dos maiores diretores de atores de todos os tempos.

Há situações bastante ridículas – mas péra lá: quem já não passou por situações absolutamente ridículas na vida?

Quando terminei de rever o filme, fiquei com a nítida sensação que já citei lá em cima: os defeitos de Four Friends, em vez de diminuí-lo, o engradecem.

Não há como não amar um filme emocionante que fala dos sonhos de pessoas que eram jovens nos anos 60, que pensavam em mudar o mundo, que até achavam que era possível mudar o mundo, enquanto tudo parecia estar mudando, as convenções antigas caindo, o movimento pelos direitos civis vencendo, os protestos contra a guerra do Vietnã ameaçando o Establishment, a contracultura ocupando cada vez mais espaço…

É uma belíssima sacada, por exemplo, a gente ver, quando o filme se aproxima do fim, que Tom – que havia ido para a guerra no Sudeste Asiático – tinha se casado com uma vietnamita. O filme mostra isso sem parecer que dá atenção ao fato, como se fosse só en passant. É uma maravilha.

Um quê de Jules et Jim, de 12 anos antes. E da obra-prima de Ettore Scola

Três homens que amam a mesma mulher. Três homens que amam a mesma mulher…

Claro: no filme que marcou toda a minha geração – que é a mesma dos três atores que fazem os três amigos, que é praticamente a mesma daqueles personagens –, dois homens amavam a mesma mulher. E, de novo, quem não amaria aquela Catherine-Jeanne Moreau, que conquista para todo o sempre os corações de Jules et Jim no filme de François Truffaut de 1962?

É possível que Danny, David e Tom não tenham visto Jules et Jim na época do lançamento – não creio que em East Chicago, Indiana, houvesse cinema que passasse aquele filme. Mas que eles acabaram vivendo algo parecido com o que o jovem francês e o jovem alemão vivem no filme de Truffaut, lá isso é verdade.

Mas então o que dizer de Nós Que Nos Amávamos Tanto/C’eravamo Tanto Amati, que Ettore Scola lançou em 1974, 12 anos depois de Jules et Jim e apenas 7 anos antes deste Four Friends?

Em Nós Que Nos Amávamos Tanto, três homens, três grandes amigos, amam a mesma mulher – e, meu Deus do céu e também da terra, seria possível não amar aquela Luciana-Stefania Sandrelli?

Como no filme de Arthur Penn, três homens, três grandes amigos, amam a mesma mulher, ao longo de três décadas – e, por trás da história dos quatro amigos, vemos o painel gigantesco, o afresco que é a História da Itália, do fim da Segunda Guerra Mundial a meados dos anos 1970.

E ainda há mais um ponto em comum entre os dois filmes. Nos dois, pessoas da família milionária são mostradas como ruins da cabeça e doentes do pé.

É uma armadilha em que caíam os realizadores de esquerda, simpatizantes do socialismo ou do comunismo, como eram Arthur Penn, Ettore Scola e a imensa maior parte dos mais talentosos diretores franceses e italianos da segunda metade do século XX.

Várias obras do escritor Steve Tesich foram filmadas por bons diretores

Será possível que Arthur Penn, um criador profundamente influenciado pelo cinema europeu, e seu escritor e roteirista Steve Tesich não tenham visto Nós Que Nos Amávamos Tanto?

Steve Tesich, nascido Stojan Tesich em Uzice, Sérvia, então Iugoslávia, em 1942, tinha 14 anos quando emigrou para a América – exatamente para East Chicago, Indiana, como seu personagem Danilo Prozor. Seu pai, como o da sua criatura, era um operário numa indústria da região.

Formado em 1965 pela Universidade de Indiana, tornou-se dramaturgo e depois roteirista de cinema. Sua peça Breaking Away foi filmada em 1979 por Peter Yates, com roteiro do próprio autor, que ganhou um Oscar pelo trabalho. Em 1981, o mesmo Peter Yates dirigiria outro filme baseado em roteiro original de Steve Tesich, Testemunha Fatal, com William Hurt e Sigourney Weaver.

Vi esse filme em 2005; não anotei nada sobre ele, a não ser a ficha técnica básica e a cotação mais baixa que pode existir, bola preta. Devo ter visto mal. Foi a mesma coisa com O Mundo Segundo Garp/ The World According to Garp, de 1982, dirigido pelo competente George Roy Hill, com Robin Williams e Glenn Close, que vi em 1991 e achei na época “um dos maiores equívocos que já vi”. Garp tem o roteiro de Steve Tesich, baseado em novela de John Irving.

O autor morreu em 1996, de ataque cardíaco; tinha apenas 54 anos.

Há quem diga que os fatos do filme não são plausíveis. Como se os anos 60 fossem plausíveis

Muitas jovens sonham em ser a nova Isadora Duncan, ou, ao menos, uma bailarina respeitada, ou atriz, ou escritora – mas, naturalmente, são poucas as que conseguem. A garota Jodi Thelen tinha atributos para fazer grande sucesso no cinema: beleza imensa, simpatia, talento. Não teve grandes oportunidades; sua filmografia tem apenas 23 obras. Michael Huddleston também não aconteceu. Fez 17 filmes.

Dos quatro atores escolhidos por Arthur Penn para os papéis principais em Four Friends, os que se deram melhor foram Craig Wasson e Jim Metzler. Cada um deles tem mais de 80 títulos no currículo. Craig Wasson teve uma grande chance como o protagonista de Dublê de Dorpo/Body Double (1984), de Brian De Palma.

Leonard Maltin deu ao filme 3 estrelas em 4: “Uma jornada de auto-conhecimento para um jovem idealista imigrante iugoslavo (Wasson), que atravessa os turbulentos anos 1960 na América. Charmoso, piegas, poderoso, sentimental e às vezes espantosamente antiquado – uma coisa realmente misturada, com muitas recompensas e não poucas falhas. Roteiro largamente autobiográfico de autoria de Steve Tesich.”

O grande Roger Ebert dá a cotação máxima, 4 estrelas, e começa seu belo texto assim:

“Lá pelo meio de My Dinner With Andre (um dos filmes americanos de Louis Malle, do mesmo ano deste Four Friends, 1981), Andre Gregory se pergunta em voz alta se não seria possível que os anos 60 tivessem sido a última década em que nós todos estávamos realmente vivos – se depois disso não teríamos mergulhado em um estado perplexo de auto-hipnose, aplacados por bens de consumo e em um estado de excitação ilusionista pela televisão. Ao sair de Four Friends, eu tinha alguns dos mesmos pensamentos. Este filme traz as contradições quase inacreditáveis daquela década à tona, como uma nostalgia, ou uma recriação de tempos passados, mas como a experiência de reviver toda a agonia e a liberdade dos dez anos mais esquisitos que qualquer um de nós irá testemunhar.”

Ebert era muito bom demais, mesmo…

Ele conclui:

Four Friends é um filme muito bom. Como Breaking Away, a história de crescer em Bloomington, Indiana (para o qual Tesich também escreveu o roteiro original), este é um filme que lembra tempos passados com tanta clareza que há momentos em que parece que é tudo uma grande invenção. Nós realmente falamos aquelas coisas? Levantamos mesmo aquelas hipóteses? Vivemos no limite do que parecia ser uma sociedade que tinha virado livre e louca ao mesmo tempo? Alguns críticos disseram que as pessoas e os eventos neste filme não são plausíveis. Não sei se eles estão negando a verdade do filme, ou argumentando que, do ponto de vista dos anos 80, os anos 60 foram só um sonho ruim. Ou um sonho bom.”

Depois disso, não há mais nada a ser dito. A não ser um obrigado, Arthur Penn!

 Anotação em setembro de 2017

Amigos Para Sempre/Four Friends

De Arthur Penn, EUA, 1981

Com Craig Wasson (Danilo Prozor), Jodi Thelen (Georgia), Michael Huddleston (David), Jim Metzler (Tom)

e Elizabeth Lawrence (Mrs. Prozor), Miklos Simon (Mr. Prozor), Scott Hardt     (Danilo garoto), Beatrice Fredman (Mrs. Zoldos, a velha vizinha), Zaid Farid (Rudy, o colega que canta), David Graf (Gergley, o colega bocó), Reed Birney (Louie Carnahan, o colega na universidade), Julia Murray (Adrienne Carnahan), Lois Smith (Mrs. Carnahan), James Leo Herlihy (Mr. Carnahan), Vera (Natalija Nogulich)

Argumento e roteiro Steve Tesich

Fotografia Ghislain Cloquet

Música Elizabeth Swados

Montagem Marc Laub e Barry Malkin

Produção Gene Lasko e Arthur Penn; Cinema 77, Filmways Pictures, Florin, Geria Productions. DVD Versátil.

Cor, 114 min (1h54)

R, ***1/2

Título em Portugal: Quatro Amigos. Na França: Georgia. Na Itália: Gli Amici di Georgia.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Back in the USSR em 11 julho 2018 às 10:01 pm

    […] filme Amigos para Sempre/Four Friends, de Arthur Penn, o mais europeu dos cineastas americanos, os quatro amigos do título cantam […]

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