Águas Rasas / The Shallows

Nota: ★★★½

Águas Rasas/The Shallows, co-produção EUA-Austrália-Espanha de 2016 dirigida pelo espanhol Jaume Collet-Serra, é uma impressionante mistura de dor e beleza. É um filme de uma excelência plástica, visual, absolutamente admirável, esplendorosa – e, ao mesmo tempo, um filme difícil de se ver, porque é doloroso demais, angustiante demais.

É um tour-de-force: na maior parte dos 86 minutos de duração, digamos em 66 dos 86 minutos, a ação se passa dentro do mar, e com uma única personagem, Nancy, uma jovem e bela surfista, interpretada por Blake Lively.

Um tour-de-force doloroso, angustiante – e estupidamente bem realizado. O trabalho do realizador Collet-Serra e do diretor de fotografia Flavio Martínezes Labiano é extraordinário, excepcional, fora de série. Cada tomada parece ter sido cuidadosamente estudada, preparada, como se fosse um comercial de TV de meio minuto, executado em estúdio, com todas as facilidades de se trabalhar em ambiente fechado, propício – só que é um longa-metragem, e a ação toda se passa ao ar livre, numa praia deserta e no mar.

É de tirar o fôlego do espectador – literalmente. Tanto pela absurda beleza das imagens quanto pelo clima, pela atmosfera apavorante.

Depois de perder a mãe, a jovem surfista Nancy vai para uma praia deserta

A trama – criada por Anthony Jaswinski, ele também autor do roteiro – é absolutamente simples. Nancy é uma moça de Galveston, Texas, que acaba de perder a mãe, vítima de câncer. Oprimida pelo choque da perda, resolve interromper o curso de Medicina e se aventura pelo México, atrás de uma praia deserta que a mãe, desportista, ativa, excelente surfista, havia descoberto quando jovem, quando estava mais ou menos com a idade que Nancy tem agora, uns 25, 26, por aí. (Blake Lively é de 1987, e estava portanto com 29 quando o filme foi lançado.)

Na primeira sequência, um garotinho anda por uma praia deserta, chutando bola, e se depara com um capacete de surfista bastante rasgado, na areia, junto da água. O garoto pega aquilo, examina, e vê que há, dentro do capacete preto, uma pequenina câmara de filmar.

Não há créditos iniciais – apenas o nome das empresas produtoras e o título do filme.

Corta, e Nancy está viajando de carona no jipe de um homem da região, Carlos (Óscar Jaenada). Conversa por mensagem de texto com a amiga que tinha vindo com ela até a cidade mais próxima e tinha ficado no hotel, ressaqueada. O mexicano tem que chamar a atenção dela para que preste atenção ao que está em volta – o jipe passa por um estrada de terra cercada por vegetação frondosa.

Nancy agradece pelo toque.

Conversam meio em inglês, meio em espanhol – a americana sabe algumas palavras.

Chegam à praia – e é a visão do paraíso. Uma maravilha de praia, e ninguém, ninguém na areia.

Nancy oferece um dinheiro, mas Carlos recusa – é do lugar, não saiu do caminho, apenas deu a carona.

Sozinha no meio da praia paradisíaca, a moça besunta-se de protetor solar, veste sobre o biquíni aquela espécie de maiô de surfistas, reúne os pertences todos na mochila e se lança ao mar.

É acachapante a beleza de cada tomada. É uma coisa muito fora de jeito, é tudo bonito demais – e, diacho, quem está dizendo isso é um sujeito que vê filmes sem parar.

Nancy fica absolutamente sozinha naquela praia paradisíaca

Há dois mexicanos surfando ali, dois garotões entre os 25 e os 30 anos, assim como a própria Nancy. (São interpretados por Angelo Josue Lozano Corzo e Jose Manuel Trujillo Salas.) Passam a conversar aos gritos, a gringa e os mexicanos; um deles fala inglês.

Há um diálogo interessante. O mexicano pergunta se ela é da Califórnia, ela responde que não, é de Galveston, Texas – e o mexicano se espanta: – “Vocês surfam no Texas?”

(Fui ver depois no mapa; Galveston, na verdade, fica numa ilha, junto de uma grande baía, Trinity Bay, no Golfo do México. Não muito longe de Pasadena, aquela da refinaria.)

Os mexicanos dão dicas para a gringa loura – eles a chamam assim, ora de gringa, ora de loura: ali naquele determinado lugar há pedras, rochas, que, na maré baixa, viram uma ilha; perto das pedras há uma formação de animais marinhos que queimam como água-viva.

Durante alguns minutos, vemos tomadas esplendorosamente belas do mar, dos três jovens surfando.

Nancy sai da água para um momento de descanso. Liga do celular para a irmãzinha, Chloe (Sedona Legge), bem mais nova que ela, uma adolescente aí de uns 15 anos. Conversam um pouco; o pai pede para falar, pergunta onde ela está, demonstra grande preocupação – ela não vai abandonar o estudo, vai? Não vai se deixar dominar pela tristeza, pela depressão, por causa da perda mãe, vai?

Nancy tem pressa em desligar o telefone.

Entra no mar novamente.

Daí a um tempo, os mexicanos dizem que estão indo embora, que está ficando tarde; a gringa loura diz que vai aproveitar mais um pouco.

Lá do mar, Nancy vê os dois rapazes entrando num jipe e indo embora. Ela fica absolutamente sozinha na praia. O entardecer está chegando.

Estamos com 24 minutos de filme. Um grande tubarão ataca e faz um corte profundo na coxa esquerda de Nancy.

Um trabalho de câmara fantástico. E o filme envolve completamente o espectador

É de fato extraordinário o trabalho de câmara de Collet-Serra e de Flavio Martínezes Labiano.

A montagem esperta, precisa (assinada por Joel Negron), alterna close-ups do rosto de Nancy-Blake Lively com tomadas gerais, amplas, de um grande trecho do mar – e vemos Nancy ali no meio como um pequeno pontinho naquela imensidão.

A câmara mergulha junto com Nancy, sai à tona, sobe, desce – e esse trabalho perfeito da câmara amplifica a angústia que o espectador vai sentindo enquanto acompanha o drama, a dor daquela moça que foi tentar se consolar da perda da mãe e agora está na iminência de morrer tragada por um tubarão gigantesco.

Não era necessário, mas o diretor e sua equipe ainda acrescentaram a todo esse esplendor visual o toque moderno, atual, contemporâneo, de incrustar na tela imagens semelhantes às que Nancy via em seu celular – ou, quando está no mar, em seu relógio. Assim, quando ela conversa com a irmã, ou o pai, vemos, junto com a personagem, o rosto de seu interlocutor.

É tudo, tudo muitíssimo bem realizado.

O filme envolveu o espectador de uma maneira fortíssima, violenta, pegajosa. Fiquei literalmente com a respiração alterada ao longo de boa parte da narrativa.

Claro, racionalmente a gente sabe que aquilo é um filme, é ficção, não é vida real. Mais ainda: sabe que no fim, de alguma maneira, Nancy vai conseguir escapar. Mas não adianta o saber, a razão: o filme te engole como o tubarão vai engolindo o que lhe passa pela frente.

The Shallows dá mais medo que muitos bons filmes de terror

É inevitável pensar que este The Shallows é assim uma mistura de Tubarão/Jaws, a obra-prima do jovem Steven Spielberg de 1975, com Náufrago/Cast Away, do spielberguiano Robert Zemeckis de 2000, ou com Até o Fim/All is Lost, de J.C.Chandor de 2013. Ou O Velho e o Mar, a adaptação para o cinema do clássico de Ernest Hemingway feita por John Sturges em 1958 com o grande Spencer Tracy.

Estes últimos são todos belos filmes que, como este The Shallows, mostram a luta de uma única pessoa contra os perigos, as ameaças da natureza. São, todos eles, inclusive este filme aqui, belas odes à força, à tenacidade, à firmeza, à coragem de que é capaz o ser humano – esse bicho que muitas vezes prova que é uma invenção que não deu certo.

É impossível não pensar em Tubarão quando se vê The Shallows. Não faz muito tempo revimos o primeiro blockbuster de Spielberg, e Tubarão é sem dúvida alguma uma maravilha. Mas é impressionante como The Shallows me envolveu muito mais, emocionalmente: sofri ao longo de boa parte dos 86 minutos do filme como se Nancy fosse minha parente próxima ou minha amiga desde sempre.

The Shallows dá mais medo que quase todos os bons filmes de terror que tenho visto nos últimos tempos.

O filme se deu muito bem nas bilheterias. Mas não é para todo tipo de espectador

Suspense, medo, horror – o cinema espanhol tem sabido como poucos cultivar isso. Alejandro Almenábar é mestre, mas vários outros realizadores dominam muito bem a gramática do suspense, do thriller, como Alberto Rodríguez, Álex de la Iglesia, Daniel Espinosa, Juan Antonio Bayona, Juan Carlos Fresnadillo, só para citar alguns – e não se pode esquecer de Pedro Almodóvar, hoje um veterano entre esses jovens realizadores citados.

Como vários de seus conterrâneos e contemporâneos, Jaume Collet-Serra, nascido em Barcelona em 1974, tem sido chamado para dirigir co-produções de dois ou mais países europeus ou envolvendo também os Estados Unidos. Na verdade, todos os filmes que já realizou – este The Shallows é seu sétimo longa-metragem – são produções internacionais. São dele A Órfã (2009), Desconhecido (2011) e Sem Escalas (2014), os dois últimos com o irlandês Liam Neeson na sua atual encarnação como ator de filmes de ação.

Não houve filmagens no México: as cenas na paradisíaca praia mexicana foram filmadas na Austrália. Algumas delas – cerca de 10%, segundo o diretor Collet-Serra – foram de fato no mar, mas a imensa maior parte foi feita em um tanque, usando o esquema de telas azuis, onde mais tarde seriam inscrutados trechos de filme em mar aberto.

As informações sobre a produção garantem que Blake Lively só teve uma dublê nas cenas em que Nancy está surfando. Seria mesmo impossível exigir de qualquer atriz que desempenhasse aquele bailado aquático de que só mesmo surfistas profissionais são capazes. A stunt da atriz nas tomadas em que Nancy está surfando foi Isabella Nichols, uma surfista profissional australiana de 19 aninhos.

Isabella ensinou a atriz como fazer corretamente o paddle – a navegação em cima da prancha –, como lustrar a prancha, como enganchar o pé na corda da prancha.

Isso significa que em todas as demais cenas, todas as cenas de perigo, as diante do tubarão (mecânico, é claro), as em que ela se machuca ao pisar nas pedras, ao ser lançada ao fundo do mar pelas ondas fortes, é Blake Lively que estava lá. Se houvesse um Oscar para atores em cenas perigosas e grande sacrifício físico, essa moça mereceria ganhar – um tanto quanto Reese Witherspoon em Livre/Wild (2014).

Por isso, é absolutamente incrível ver, na página de Trívia do filme no IMDB (49 itens, o que mostra imenso interesse dos leitores do site pela obra), que a atriz estava grávida do seu segundo filho durante os 47 dias que duraram as filmagens principais.

Aliás, este foi apenas o segundo filme em que essa jovem atriz apareceu como o nome mais importante do elenco, o primeiro nome nos créditos, o top billing. O primeiro havia sido A Incrível História de Adaline (2015).

Águas Rasas/The Shallows se deu bem nas bilheterias. Custou pouco, se comparado a filmes hollywoodianos – US$ 17 milhões. No mercado americano, rendeu US$ 55 milhões; no mercado internacional, US$ 63 milhões, um total de US$ 119 milhões. Não faltarão novos convites para o diretor Jaume Collet-Serra.

É um filme muito bom, feito com imenso talento – mas não é para todo tipo de espectador. É preciso ter coração e estômago fortes.

Anotação em novembro de 2017    

Águas Rasas/The Shallows

De Jaume Collet-Serra, EUA-Austrália-Espanha, 2016

Com Blake Lively (Nancy)

e Óscar Jaenada (Carlos), Angelo Josue Lozano Corzo (surfista), Jose Manuel Trujillo Salas (surfista), Brett Cullen (o pai), Sedona Legge (Chloe, a irmã), Pablo Calva (o garotinho), Diego Espejel (o bêbado), Janelle Bailey (a mãe), Ava Dean (Nancy criança), Chelsea Moody (a mãe quando jovem)

Argumento e roteiro Anthony Jaswinski

Fotografia Flavio Martínez Labiano

Música Marco Beltrami

Montagem Joel Negron

Casting Ben Parkinson

Produção Columbia Pictures, Weimaraner Republic Pictures, Ombra Films.

Cor, 86 min (1h26)

***1/2

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