A Trama / L’Atelier

Nota: ★★★☆

Nove anos após o excepcional Entre os Muros da Escola/Entre les Murs (2008), o autor e diretor francês Laurent Cantet volta aos temas básicos do filme que o consagrou: os jovens, a educação, a formação dos jovens numa Europa moderna, unificada, problemática, multi-racial.

Este A Trama/L’Atelier, produção de 2017, é um filme que trata de uma imensa quantidade de questões e de situações atuais, de hoje em dia. Questões sérias, difíceis, duras: a desindustrialização em cidades francesas, o desemprego, as dificuldades de inserção na sociedade e no mercado de trabalho, o racismo, o terrorismo dos extremistas muçulmanos, a guerra na Síria, o perigo da sedução dos jovens pelas ideologias populistas, nacionalistas, de extrema direita.

E também, claro, todos os problemas inerentes à condição de adolescente, de final de adolescência, chegada à idade adulta: o filme focaliza um grupo de sete jovens aí na faixa dos 18, 20 anos, que é selecionado para participar de um atelier, como diz o título original, um workshop, um grupo de trabalho, uma oficina literária para, sob a supervisão de uma escritora experiente, famosa, bolarem uma trama de ficção e escreverem um romance.

O quando é a atualidade, os dias de hoje: por várias vezes são citados os atentados terroristas assumidos por extremistas muçulmanos na casa de shows Bataclan, em Paris, em novembro de 2015, e em Nice, em julho de 2016.

E o onde – que é extremamente importante no filme – é a cidade litorânea de La Ciotat, na Côte d’Azur, próxima de Marselha. La Ciotat, o filme mostra com ênfase, teve imenso peso na indústria francesa, como sede de um estaleiro que produziu gigantescos navios, inclusive petroleiros. Exatamente por causa disso, foi um importante centro sindical, em que o Partido Comunista Francês teve uma de suas maiores bases.

Como tantas cidades industriais, La Ciotat perdeu centenas de vagas de trabalho

Bem à semelhança do que aconteceu em Sheffield, cidade industrial da Inglaterra onde se passa a ação de Ou Tudo ou Nada/The Full Monty (1997), em tantas cidades americanas, como mostra A Grande Virada/The Company Men (2010), entre tantos outros filmes, como aconteceu em praticamente todas as cidades industriais dos países desenvolvidos nos últimos 30, 20 anos, La Ciotat perdeu centenas, milhares de postos de trabalho. No caso da cidade francesa, isso aconteceu quando o gigantesco estaleiro foi fechado por ter se tornado pouco competitivo.

Os avós dos garotos do workshop – de praticamente todos os garotos de 18, 20 anos de idade de La Ciotat – trabalharam no estaleiro ou em indústrias de alguma forma ligadas a ele. Os pais também – e estavam lá quando os donos resolveram fechar a gigantesca indústria. Os operários ocuparam as instalações do estaleiro, resistiram às tentativas da polícia de pô-los para fora, e, de alguma forma, conseguiram manter a indústria funcionando ao menos em parte, dedicada ao conserto de embarcações, na maior parte iates.

Tudo isso vai sendo dito e mostrado ao longo do filme, durante as horas do workshop chefiado pela escritora Olivia Dejazet – um papel perfeito para a atriz Marina Foïs, mulher bonita, atraente, sim, mas longe do tipo belíssimo, gostosérrimo, de fechar o comércio, de chamar a atenção de todos.

Ao final do primeiro dia do workshop, os garotos saem comentando sobre a professora. Alguém reclama do horroroso sotaque parisiense, outro diz que teve até dificuldade em entender tudo o que ela falava. Outro comenta que ela está ganhando um belo salário para fazer esse trabalho, dirigir esse workshop.

O filme não se preocupa em dar explicações sobre o workshop

O diretor Laurent Cantet, autor da história e do roteiro do filme ao lado de Robin Campillo, não se preocupa em explicar para o espectador quem, como e por que resolveram fazer aquele workshop, aquele seminário, aquele grupo de trabalho. O espectador não ficará sabendo quem custeia aquilo, nem como foram escolhidos exatamente aqueles sete jovens. Pode-se inferir que foi idéia da editora que publica os livros de Olivia Dejazet, que teria resolvido investir numa história criada por garotos sob a supervisão da escritora. Pode-se inferir isso – mas nada é dito claramente que possa levar a essa conclusão.

Um dos sete, Benjamin (Julien Souve), diz numa determinada hora que não escolheu estar ali, e nem está interessado em participar daquele trabalho: topou porque uma empresa o indicou, e ele teria alguma vantagem – não especificada – se participasse. Uma frase da escritora Olivia serve para informar que todos os escolhidos tiveram algum problema comportamental – participar do workshop seria uma tarefa, um dever, num projeto de ressocialização.

Mas nada é dito muito claramente. É que como se nada disso importasse, não tivesse que ser levado em conta. Espectador que fica se perguntando quem paga por tudo aquilo é idiota da imbecilidade.

A trama se concentra mais em um dos sete jovens, Antoine

Como todo conjunto de pessoas na França atual – ou em qualquer país europeu –, o grupo de sete jovens escolhidos para o workshop é uma amostra da diversidade. Há um negro (Bouba, papel de Mamadou Doumbia), um muçulmano (Fadi, papel de Issam Talbi), uma mulata (Lola, interpretada por Mélissa Guilbert), uma neta de imigrantes argelinos (Malika, papel de Warda Rammach) e dois brancos (Antoine, papel de Matthieu Lucci, nas duas fotos abaixo, e Etienne, interpretado por Florian Beaujean).

Surgirão, é claro, conflitos de opiniões entre eles – e naturalmente as questões do terrorismo, dos muçulmanos e dos negros serão pontos constantes de atrito entre os jovens.

O filme mostra que Malika é uma jovem muito inteligente, dona de uma boa imaginação e um texto bastante bom. Etienne, sempre discreto, sonha em ser escritor ou jornalista. Benjamin não está nem aí para coisa alguma: mal participa, não presta atenção ao que se está dizendo, fica a maior parte do tempo concentrado em seu celular.

Mas a trama do filme se concentra mesmo é em Antoine.

Antoine é inteligente, esperto, tem boas idéias, escreve bem, demonstra sensibilidade. Tem jeito com as crianças – o filhinho de seu primo Teddy (Olivier Thouret) se dá muito bem com ele.

Apesar de tantas qualidades, no entanto, Antoine é um rapaz fechado, pouco expansivo. Não conversa com os pais, não se abre, não conta absolutamente nada do que está acontecendo no workshop ou no resto da sua vida. É um apaixonado pela cultura do próprio corpo – nada muito, malha, faz musculação, observa-se com evidente prazer no espelho. É também fanático usuário desses jogos de computador de guerra, batalha, luta, mortandade – a primeira sequência do filme é de um desses jogos de RPG.

E o que é pior de tudo: muito provavelmente por influência de seu primo Teddy, demonstra estar interessado em ouvir pregações racistas, xenófobas, de políticos da extrema direita no YouTube.

Como é o garoto mais inteligente, mais fascinante do grupo – apesar dos problemas, ou talvez em parte até por causa deles –, Antoine chamará a atenção da escritora. Olivia, que está tendo dificuldades para criar um personagem adolescente no livro que está escrevendo, tentará conversar com Antoine, entender o que se passa na cabeça dele.

Acabará ficando bastante perturbada pelo adolescente inteligente mas problemático.

Será uma relação difícil, conflituosa – tanto para o garoto quanto para a mulher.

Cantet não aponta respostas, soluções – apenas apresenta os problemas

Há belos filmes franceses que mostram que a saída para muitos adolescentes é a educação, a cultura, as artes. Aprender, se educar acaba tirando adolescentes problemáticos da tendência à marginalização, à marginalidade. Antoine Doinel, o alter-ego de François Truffaut em cinco filmes memoráveis, de Os Incompreendidos (1959) a O Amor em Fuga (1979), escapa da marginalidade graças ao amor pelo amor e pelos discos e livros – exatamente como aconteceu com o cineasta na vida real.

É assim com o Simon de Toda Uma Vida (1974), de Claude Lelouch, um bandidinho que chega a ser preso por seus pequenos delitos – e se salva da marginalidade quando encontra um inesperado talento para fazer filmes de publicidade.

É assim com a personagem título de Stella (2008), de Sylvie Verheyde, uma garotinha de 12 ou 13 anos, inteligente, esperta, que vive num ambiente de desajuste, com grande chance de se tornar uma pobre diabo, ou até uma delinqüente.

É assim também com o personagem Chimo no filme Lila Diz…/Lila Dit Ça (2004), de Ziad Doueiri, de 2004. O apelo para a delinquência é fortíssimo – e o adolescente Chimo escapa do destino trágico praticamente traçado através o estudo.

Como já havia feito em Entre os Muros da Escola/Entre les Murs (Palma de Ouro em Cannes, indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro), Laurent Cantet, no entanto, não aponta respostas, soluções. Apenas apresenta as questões, os problemas.

Nem mesmo é apresentada a esperança de que aqueles garotos encontrem uma saída para suas vidas através da educação, da cultura, das artes. São garotos sem perspectivas quando o filme começa, são garotos sem perspectivas quando o filme termina.

A cidade em que se passa a ação está ligada à História do cinema

Os espectadores normais não precisam saber disso, mas, para os cinéfilos mais aguerridos, a cidade de La Ciotat – além de sua importância econômica como centro de um dos maiores estaleiros da Europa durante décadas – faz parte da História do cinema.

Um dos diversos pequeninos filmes feitos pelos irmãos Louis e Auguste Lumière, com sua invenção à qual deram o nome de cinematógrafo, é L’Arrivée d’un Train à La Ciotat, A Chegada de um Trem a La Ciotat. O cinematógrafo ficava parado, estático, numa plataforma da estação – e filmou a chegada de um trem.

Conta-se que, quando aquilo foi mostrado em Paris, em 1895, numa das primeiras sessões em que se cobrou ingresso para ver cenas em movimento, moving pictures, movies, filmes, as pessoas assustavam-se: parecia que o trem iria sair da tela e avançar sobre os espectadores. Um tanto como o personagem Tom Baxter, que sai da tela do cinema de uma pequena cidade de Nova Jersey, no meio da Grande Depressão, e avança entre as poltronas para conversar com a triste Cecilia, em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), um dos mais belos filmes destes pouco mais de 120 anos de cinema.

A Wikipedia registra que os irmãos Lumière organizaram uma sessão de alguns de seus filmes para um público escolhido em La Ciotat em 28 de setembro de 1895. Pouco depois, houve uma sessão paga, aberta ao público, em 28 de dezembro, em Paris. Foi por isso que os historiadores determinaram 1895 como o marco inicial do cinema.

Até hoje, informa ainda a Wikipedia, La Ciotat tem várias referências a esse início da História do Cinema. Há na cidade um tradicional Liceu Auguste e Louis Lumière, o Palácio Lumière, onde os irmãos fizeram alguns de seus filmes, e um Museu Lumière-Michel Simon. Até há pouco funcionava na cidade o Eden, diante do porto, que é tido como a sala de cinema mais antiga do mundo.

Houve de fato uma oficina literária realizada por uma inglesa em La Ciotat

O filme se inspira em um acontecimento real: em 1999, Robin Campillo, então editor de TV, participou de uma reportagem feita para o canal France 3 sobre uma oficina literária realizada por uma romancista inglesa em La Ciotat. Uma dúzia de jovens foi escolhida para participar da experiência de escrever um romance. O tema era livre – só se exigia que a ação se passasse ali na cidade.

Robin Campillo se tornaria parceiro de Laurent Cantet: ele assina ao lado do diretor os argumentos e roteiros de seus filmes.

“Naquela época (1999), La Ciotat estava ainda sob o choque do fechamento do estaleiro”, contou Cantet em entrevista transcrita no site AlloCiné. “O fechamento se deu oficialmente em 1987-88, mas os operários tinham em seguida ocupado o estaleiro durante vários anos para retardar o fim programado. Os jovens da reportagem eram testemunhas da cultura operária de sua cidade, que, ainda que já um tanto nostálgica, persistia. Eles se sentiam depositários daquela memória que era o próprio tema do livro que escreviam.”

Passados tantos anos, alguns temas permaneceram os mesmos, outros surgiram. “O que os jovens da oficina nos dizem é que eles se recusam a serem associados a uma história que não pode mais ser a deles”, diz Laurent Cantet. Eles são agora confrontados com novos problemas. Encontrar seu lugar num mundo que não os leva em conta, ter a impressão de não ter poder algum sobre o desenrolar das coisas e de suas próprias vidas. E enfrentar uma sociedade violenta, despedaçada por questões sociais e políticas inquietantes: precariedade, terrorismo, escalada da extrema direita…”

Nenhum dos sete garotos tinha experiência em arte dramática

Uma característica absolutamente fascinante deste L’Atelier é a escolha dos jovens que interpretam os sete participantes do workshop, da oficina literária. Nenhum deles tinha experiência anterior no cinema – todos são estreantes. Foram encontrados por Laurent Cantet e sua equipe no que o diretor chamou de “casting selvagem”: o diretor e seu pessoal visitaram clubes de esporte, grupos de teatro, colégios, bares frequentados por jovens e ali escolheram diversos rapazes e moças ali mesmo de La Ciotat.

Escolhido o grupo, Cantet fez com eles… uma espécie de oficina, de workshop, ouvindo suas opiniões sobre a vida, o dia-a-dia, os problemas, as dificuldades.

O resultado é fabuloso: de jeito nenhum parecem estreantes. Dão a impressão de que são atores bem testados, experientes.

Quase ao final dos 113 minutos de duração deste L’Atelier, Laurent Cantet, um diretor que sempre opta por uma narrativa lisa, tranquila, escorreita, resolveu fazer um experimento, um criativol: mantém a tela escura, sem que o espectador consiga ver absolutamente nada do que está acontecendo – ouvem-se apenas os ruídos dos passos de Olivia e Antoine.

Gostou dos fogos de artifício que inventou – e prolongou a sequência em que o espectador não vê coisa alguma. Prolongou, prolongou, prolongou. Não medi; deve durar uns 3, talvez até 4 minutos – que parecem intermináveis.

É o único grande defeito da obra. Mais uma vez, Cantet fez um belo filme.

Anotação em março de 2018

A Trama/L’Atelier

De Laurent Cantet, França, 2017

Com Marina Foïs (Olivia Dejazet), Matthieu Lucci (Antoine), Florian Beaujean (Etienne), Mamadou Doumbia (Bouba), Mélissa Guilbert (Lola), Warda Rammach (Malika), Julien Souve (Benjamin), Issam Talbi (Fadi)

e Olivier Thouret (Teddy Chauvin, o primo), Charlie Barde (Jessica), Marie Tarabella (Mathilde), Youcef Agal (Romain), Marianne Esposito (Claudia), Thibaut Hernandez (Alex), Axel Caillet (Yohan)

Argumento e roteiro Robin Campillo e Laurent Cantet

Fotografia Pierre Milon

Música Edouard Pons e Bedis Tir

Montagem Mathilde Muyard

Casting Marie Cantet e Sarah Teper

Produção Archipel 35, France 2 Cinéma, Canal+, Ciné+, France Télévisions.

Cor, 113 min (1h53)

***

Título em inglês: The Workshop.

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