A Professora / Ucitelka

Nota: ★★★★

A Professora, do checo Jan Hrebejk, é um filmaço, uma obra-prima, um brilho, 102 minutos de primoroso cinema. É também um contundente, forte, violento, bem documentado libelo contra os totalitarismos, um minucioso estudo de como o autoritarismo vai se enraizando em absolutamente tudo, em cada detalhe da vida das pessoas que vivem sob uma ditadura.

Não há quem possa escapar da podridão intrínseca trazida para o dia-a-dia das pessoas pelo totalitarismo.

O filme, de 2016, é uma co-produção da Eslováquia e da República Checa, e a história se passa em 1983 e 1984, quando os dois países formavam a Checoslováquia, dominada pelo comunismo desde que os nazistas foram expulsos pelo Exército Vermelho da União Soviética ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Assim, A Professora é uma denúncia dos pavores das ditaduras comunistas – mas vale perfeitamente para qualquer outra ditadura, como as da Alemanha nazista, da Itália fascista, da Espanha franquista, de Portugal salazarista, do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile durante os períodos militares nos anos 60 a 80.

O filme parece um complemento perfeito de outro lançado no mesmo ano de 2016 em outro país que foi também satélite da União Soviética entre 1945 e o início dos anos 1990 – Afterimage, o último do mestre Andrzej Wajda. Afterimage e A Professora, um polonês, o outro checo e eslovaco, lançados no mesmo ano, se completam, se complementam, e demonstram exatamente a mesma coisa: como é doentia a vida num regime totalitarista.

Afterimage conta a história real de como o governo comunista polonês, sabujo da União Soviética, usou de todo o seu poder para esmagar um grande artista e sua obra, o pintor modernista Wladyslaw Strzeminski, porque ele era o oposto da linha oficial da arte soviética, o realismo socialista.

A Professora conta uma história semelhante a centenas, milhares de histórias que seguramente aconteceram em todas as ditaduras: a de como uma pessoa usa seu cargo, sua importância no partido único para obter vantagens pessoais, às custas dos sacrifícios das pessoas próximas.

Duas faces do mesmo horroroso mal: o poder sem limites do Estado totalitário contra os “inimigos”, reais ou imaginários, e como o poder sem limites do Estado autoritário cria monstrinhos, as pequenas autoridades, do professor de escola ao guarda da esquina.

O diretor e o autor e roteirista do filme são quase da idade dos alunos da história

A história que se conta em A Professora foi criada diretamente para o filme. O autor da história e do roteiro é Petr Jarchovský, um checo nascido na capital do país em 1966, no auge da Primavera de Praga, quando jovens diretores faziam na Checoslováquia talvez o cinema mais vivo, inovador, competente, talentoso de todos os das repúblicas da Europa Central e Oriental dominadas pelo comunismo e tuteladas pela União Soviética. No mundo comunista, o cinema checo da época só era comparável ao polonês. E o diretor Jan Hrebejk é da mesma cidade e da mesma geração do autor e roteirista – nasceu em Praga em 1967.

Vale lembrar: Um Dia, Um Gato, de Vojtech Jasný, vencedor do Prêmio Especal do Júri em Cannes, é de 1963. A Pequena Loja da Rua Principal, de Ján Kadár e Elmar Klos, Oscar de melhor filme estrangeiro, é de 1965, assim como Os Amores de uma Loira, de Milos Forman, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

E mais O Anjo da Morte, também da dupla Kadár e Klos, de 1963. Você Tem um Leão em casa?, de Pavel Hobl, de 1964. Viva a República!, de Karel Kachyna, de 1965. (Tive a sorte de ver todos eles.)

(“Os dirigentes comunistas detestavam aqueles filmes”, disse Milos Forman, numa entrevista no National Press Club de Washington, em 1997, “mas ao mesmo tempo ficavam absolutamente contentes com o fato de aqueles filmes estarem recebendo elogios no Ocidente. E por isso pudemos continuar fazendo filmes, até que os tanques russos invadiram a Checoslováquia, em 1968, e aí eu fugi para cá.”)

Nascidos em 1966 e 1967, na Primavera de Praga esmagada pelos tanques russos, o diretor Jan Hrebejk e o roteirista Petr Jarchovský chegaram a conhecer as escolas do período comunista, antes que o regime caísse como um castelo de cartas de Berlim a Moscou, de Bucareste a Varsóvia, no início dos anos 90.

São apenas alguns poucos anos – 5 ou 6, talvez – mais novos que os garotos e garotos da escola da Bratislava, hoje capital da Eslováquia, focalizados no filme.

Sabem do que estão falando.

Um roteiro brilhante, que desrespeita a cronologia, realça e esconde os fatos

E o roteiro de Petr Jarchovský (30 títulos na filmografia como roteirista, iniciada em 1991) é um absoluto brilho, uma maravilha, uma coisa excepcional.

Os primeiros 15 minutos do filme são ao mesmo tempo eletrizantes e pouco claro, fascinantes e pouco explícitos.

O começo é simultaneamente uma fuga completa do realismo socialista que o regime soviético queria impor às artes e uma recriação rigorosa do clima de medo, de conversas necessariamente em segredo, com a menor explicitude possível, que reina nas ditaduras.

O roteiro de A Professora foge da ordem cronológica como o diabo da cruz, o vampiro do espelho, o comunista sonhador da verdade dos fatos. E foge da ordem cronológica da maneira mais magistral que pode haver: ao intercalar fatos do passado recente com o momento presente, o filme ao mesmo tempo nos apresenta de maneira lógica os principais personagens da trama, do drama, os pais e os filhos, e faz realçar e simultaneamente não explicitar o que afinal está acontecendo ali.

As duas primeiras tomadas são de uma grande escola pública. Nas duas tomadas, a câmara está parada, fixa, exatamente no mesmo lugar, do outro lado da avenida em que se situa a escola, de tal maneira que vemos o movimento de carros e ônibus passando diante dela, parando para descerem passageiros, e a fachada do prédio, a escadaria que leva à entrada.

A primeira tomada é de dia, e deve ser final de verão ou início de  primavera. A segunda tomada é de noite, e há neve na rua.

Seguem-se rápidas tomadas de adolescentes entrando na escola, passando por uma sala em que deixam casacos e bolsas, mochilas, sob o olhar de um bedel, e logo em seguida rápidas tomadas de adultos fazendo exatamente a mesma coisa, deixando casacos e bolsas na mesma sala, sob o olhar do mesmo bedel.

Ora adolescentes, estudantes, ora adultos, andando pelos mesmos corredores da escola, enquanto vão rolando os créditos iniciais.

É ao mesmo tempo fascinante e um pouco confuso. Propositadamente confuso, é claro.

Vemos, alternadamente, os alunos e seus pais, na sala de aula

No momento em que terminam os créditos iniciais, com o título original em letras bem grandes – Ucitelka, professora –, há uma tomada com a câmara colocada na altura do chão, e vemos, por trás, os sapatos e o início das pernas de uma mulher que caminha decidida, firme, rumo ao estrado da sala de aula, junto do quadro negro em que dá para ver a data, 1.9.1983.

A nova professora se apresenta aos alunos. Chama-se Mária Drazdechová (o papel de Zuzana Mauréry, excelente), e está ali para ensinar Russo, Eslovaco e História.

(Ela fala nessa ordem. A língua do estrangeiro opressor em primeiro lugar.)

Diz que está entusiasmada, e espera que os alunos também estejam. – “Quero conhecer vocês”, diz, segurando nas mãos uma caderneta e uma caneta. “Vou ler seus nomes. Cada um se levanta, para que eu possa ver, e diz a profissão de seus pais, em que eles trabalham.”

E o trabalho sensacional de montagem (dirigido por Vladimír Barák) prossegue: vemos a professora fazendo a chamada, vemos o/a aluno/a respondendo, e, depois de corte rapidíssimo vemos adultos entrando numa sala de aula idêntica, muito provavelmente a mesma sala em que seus filhos estudam.

Um a um, vemos os alunos – e logo em seguida seus pais.

O pai de Katarina é carpinteiro. A mãe de Helenka era cabeleireira, mas agora fica em casa cuidando da irmãzinha da aluna. – “Ela trabalha em casa?”, pergunta a professora. – “Só para as clientes antigas”, informa Helenka – e em seguida, logo em seguida, vemos uma senhora, evidentemente a mãe de Helenka, conversando dentro da sala de aula com um homem bem vestido de terno. Veremos depois que aquele homem é um juiz, e é o pai do garoto Anton.

A mãe da Danka é técnica de laboratório, e seu pai trabalha no aeroporto. – “Ele é piloto?”, pergunta a professora. – “Não, ele é contador.”

O pai de Juraj é médico, e a mãe, enfermeira.

A mãe de Miroslav é quitandeira. – “E ela tem uma banca? Onde?” Miroslav responde que sim, tem uma banca, e é no mercado central.

Filip, um garoto alto, forte, chega atrasado, ao fim da chamada. Explica que o ônibus atrasou. Perguntado sobre o trabalho de seus pais, responde que a mãe faz agendamento de ônibus, e o pai é mecânico, conserta os ônibus na garagem.

Um colega dele o incentiva: – “Conte para ela”. E então Filip conta, todo orgulhoso: – “Meu pai é ex-campeão nacional de luta livre.”

Na reunião dos pais, o clima é tenso. Muitos não sabem o motivo do encontro

É tudo muito rápido – e tudo muitíssimo bem feito. Todos os atores, dos adolescentes aos adultos, são excelentes – demonstram que são bem treinados, que estudaram, e estão ali trabalhando sob as mãos de um diretor que sabe dirigir atores.

Quando vi, há alguns anos, um filme checo mais recente, pós-comunismo, Algo como a Felicidade, co-produção República Checa-Alemanha de 2005, anotei: “O diretor Bohdan Slama demonstra um talento absurdo na direção de atores. Parece assim uma espécie de Mike Leigh checo. Todos os atores – os jovens, os velhos, as crianças – estão brilhantes, extraordinários, excepcionais.” Essa mesma observação serve perfeitamente para o diretor Jan Hrebejk.

A República Checa fica mesmo parecendo uma Inglaterra da Europa Central. Meu, que fabulosa escola de atores!

É tudo muitíssimo bem feito, mas tudo muito rápido, repito. É ao mesmo tempo fascinante e um pouco confuso, repito também. São muitos personagens que nos vão sendo apresentados de uma vez só.

A reunião de pais se realiza, segundo está escrito na lousa, já em 1984, início do ano seguinte ao do início das aulas, mas mesmo ano letivo. Posso afirmar que só um espectador muitíssimo atento notará aquela data na lousa, porque é tudo de fato muito rápido, e há informação demais – embora não haja, nesse maravilhoso início de filme, nada muito explícito. (Devo explicar que eu só reparei na data, 1984, ao rever o início do filme, voltando atrás várias vezes, para anotar o nome dos alunos e as profissões dos pais.)

Duas mulheres conduzem a reunião dos pais – duas mulheres de meia-idade, as duas de tipo um tanto franzino, pequenas, um tanto inseguras, bem diferentes da professora, uma mulher grande, além de absolutamente segura de si.

São a diretora da escola e a sua assistente (interpretadas respectivamente por Ina Gogalova e Monika Certezni),

A reunião está para começar, e o clima é tenso. Alguns pais reclamam que não sabem exatamente por que estão ali, por que foi marcada aquela reunião. Uma mãe – a senhora que conversava com o juiz, a cabeleireira, mãe da garota Helenka – e uma outra questionam por que a professora não participa da reunião.

A diretora diz que ela não pôde comparecer, mas será informada de tudo, em detalhes. A cabeleireira faz um muxoxo de quem não acredita no que a diretora disse.

Só quando o filme está com 15 minutos as coisas passam a ser explicitadas

As tomadas são curtas, a montagem é rápida – e as sequências, insisto, não seguem a ordem cronológica dos fatos. Muito ao contrário.

A diretora diz para os pais que a reunião foi muito bem preparada – e logo em seguida vemos a diretora e sua auxiliar conversando, as duas, tentando achar uma forma de convocar a reunião de pais.

E voltamos ainda mais atrás. Vemos a diretora e sua vice visitando os pais de Danka na casa deles. Depois vemos as duas conversando, de pé, num cantinho de um ginásio de esportes, com os pais de Danka, mais um homem muito forte e sua mulher – os pais do garoto Filip –, e ainda um senhor de cabelos brancos, que, veremos mais tarde, é Václav Littmann, o pai do garoto Karol.

A conversa se dá num lugar público, embora num cantinho dele, e então é visível que as pessoas tomam muito cuidado ao falar, como se medissem cada palavra, como se evitassem uma afirmação que as poderia colocar diante da implacável e onipresente polícia política.

Com muito cuidado, a diretora aos poucos vai dizendo, ali no canto do ginásio de esportes, obviamente algum tempo antes da reunião de pais na sala de aula:

– “Minha posição é difícil. Eu sou a diretora, mas a camarada Drazdechová é a presidente do Partido na escola. O falecido marido dela era um oficial, e a irmã mora em Moscou. Para que eu possa fazer qualquer coisa, é preciso ter informações precisas. É provável que eu já nem esteja aqui quando for possível conseguir algo. Mas as coisas foram tão longe que eu decidi me arriscar.”

O grande risco que a diretora da escola resolveu correr foi convocar aquela reunião de pais. E a tensão ali é visível. Mais de um pai já falou demonstrando desconforto por estar ali.

Quando o filme está com 13 minutos, um dos pais explicita as dúvidas que seguramente estão na cabeça de vários deles:

– “Alguém pode nos contar o que está acontecendo?”

E é só a partir daí, quando estamos chegando aos 15 minutos de filme, que ele começa a explicitar para o espectador o que vinha acontecendo naqueles últimos meses, depois que a camarada Drazdechová, presidente do Partido na escola, chegou para dar aula para aquela turma.

A rigor, a rigor, ler sobre o que vem após 15 minutos de filme é expor-se a spoiler. Perde-se muito do sabor do filme se o espectador já fica sabendo explicitamente o que foi que fez a diretora correr o risco de desagradar o Partido, e portanto a polícia política, o governo, enfim, ao convocar uma reunião de pais dos alunos da camarada Drazdechová. Em suma…

O eventual leitor deveria parar por aqui – e ver o filme

A camarada Drazdechová usa o fato de ser a presidente do Partido na escola, de ser viúva de um oficial, de ser cunhada de um comunista de carteirinha de Moscou – enfim, usa a sua posição dentro do regime ditatorial para obter vantagens para si mesma.

O interrogatório no primeiro dia de aula – o que fazem seu pai e sua mãe – não tinha nada a ver com curiosidade sobre as origens, o meio social de cada um dos alunos. Era apenas e tão somente para saber de que forma poderia explorar pai e mãe de cada aluno.

A cada um e a todos ela pedirá favores. Do carpinteiro, um conserto de algum móvel. Da cabeleireira, um corte de cabelo. Da quitandeira, um privilégio no fornecimento de mantimentos – sempre racionados, nos países do Paraíso Socialista.

Ao inválido, pai (se não me engano), da garota Ivanka, pedirá que chegue bem no início das manhãs na fila para a compra de outros mantimentos.

A vários dos garotos e garotas, diretamente a eles, pedirá que façam a limpeza de seu apartamento.

De cada pai, de cada aluno, ela pede um tipo de favor. Aos que entregam direitinho aquilo que ela pede, retribui soprando que o aluno deve estudar tal e tal ponto de tal matéria que cairá na prova. Aos que eventualmente não atenderem a seus pedidos, retribuirá com notas baixíssimas para os filhos.

Simples assim.

Poder concentrado nas mãos de um único grupo, um único partido, ou seja, ditadura – isso significa todo poder a quem, de alguma forma, faz parte do camarilha. Cada portador da carteirinha do Partido Comunista –  ou do Partido Nacional-Socialista, no caso da Alemanha hitlerista, ou do partido seja ele qual for que domina qualquer tipo de ditadura – se sente uma autoridade. Um cidadão acima dos demais. Um Sarney. Um Lula.

O filme se concentra em três famílias de alunos da professora Drazdechová

É gente demais que aparece nos primeiros 15 minutos de filme. O espectador ficará, é claro, conhecendo um pouco de algumas daquelas numerosas famílias, mas o roteiro esplêndido de Petr Jarchovský se concentra em três delas.

A primeira é a família de Danka (Tamara Fischer, na foto acima, em belíssimo desempenho). Fora das aulas normais, formais, Danka treina ginástica olímpica, e parece ter talento para a coisa.

Do pai dela, Kucera (Csongor Kassai, ótimo), o contador que trabalha no aeroporto, a camarada professora presidente do Partido na escola Drazdechová quer um favor que para ela parece simples demais: quer que ele mande um bolo para a irmã dela que mora em Moscou. Que ele procure uma aeromoça, ou piloto, ou co-piloto, o que for, e peça para levar o bolo num dos vôos Bratislava-Moscou, ou Bratislava-Praga-Moscou.

O pobre Kucera a princípio recusa. A mulher, a sra. Kucerová (Zuzana Konecnáv, ótima), força a barra: se ele não fizer isso, a filha deles vai sofrer muito. Kucera até que tenta – mas simplesmente não consegue. E visita a camarada Drazdechová para tenta explicar que ele não conhece ninguém de tripulação, e que é proibido tentar levar qualquer tipo de coisa para fora do país sem expressa autorização das autoridades, sob pena de demissão.

A camarada Drazdechová dá seguidos zeros a Danka. A garota fica ameaçada de perder a vaga na equipe que treina ginástica olímpica e passa a sofrer bullying dos colegas.

O drama de Danka não pára por aí. Crescerá ainda mais. É um horror.

A professora dedicará uma ira gigantesca, siberiana, aos Binder, pai e filho

A segunda família em que o filme se concentra é a de Filip (Oliver Oswald, ótimo), o garotão alto e forte que chega atrasado, e é filho do sujeito que foi o campeão nacional de luta livre, Binder (Martin Havelka, à esquerda na foto acima, ótimo).

Binder não tem ficha limpa: no passado, havia sido preso e condenado por agredir uma pessoa. Saberemos que ele agrediu um sujeito que avançou contra sua mulher – ou seja, motivo justo ele tinha. O problema é que ele é forte demais, e quebrou o imbecil mais do que deveria.

Binder descobre que Filip anda faltando às aulas de educação física porque, no horário daquelas aulas, está trabalhando na limpeza do apartamento da camarada professora. Vai então ao apartamento dela – e a camarada Drazdechová o recebe cheia de rapapés: acha que o camarada mecânico veio quebrar o galho dela e consertar a máquina de lavar que enguiçou. Binder a desaponta: diz para ela parar de usar o filho dele como empregado, como escravo.

A ira da camarada Drazdechová contra os Binder, pai e filho, será gigantesca, siberiana.

A Václav Littmann (Peter Bebjak, à direita na foto acima), pai do garoto Karol, a camarada Drazdechová dedica muito amor – e uma imensa vontade de dar.

Václav Littmann é talvez o personagem mais impressionante, mais fascinante, deste filme em tudo por tudo impressionante, fascinante.

Naquela encontro um tanto sigiloso, num canto do ginásio de esportes da escola, em que a diretora e sua auxiliar tentavam preparar uma forma de reagir aos absurdos cometidos pela professora Drazdechová, elas falam em assinar uma queixa. E Littmann – que o espectador não conhece ainda, é claro – diz o seguinte: – “Minha assinatura só vai complicar as coisas.” E a diretora concorda perfeitamente com ele: – “Sim, senhor Littmann, o senhor só deve assinar quando tivermos testemunhos críveis o bastante.”

Václav Littmann, antigamente um professor de astrofísica, havia sido proibido de dar aulas, condenado trabalhar como faxineiro e a morar num apartamento pequenino – que a camarada Drazdechová, mesmo com seu fervor socialista, chamará de “pocilga”. O crime pelo qual havia sido condenado a essa dura pena era terrível: sua mulher, uma cientista absolutamente brilhante, sem espaço para progredir nos estudos na gloriosa Republica Socialista da Checoslováquia, havia abandonado o Paraíso Socialista e ido morar em algum país do capitalismo decadente.

Reduzido de professor de astrofísica a faxineiro, Littmann cuidava sozinho do filho Karol.

Solitária, a camarada Drazdechová resolveu conquistar as graças do cientista caído em desgraça. Caído em desgraça, sim, mas bonitão – e sem mulher. E então ela joga seu manto protetor sobre Karol e seu pai.

Anos e anos após ter sido abandonado pela mulher que procurou vida melhor fora da Checoslováqui, Littmann continua tendo seus movimentos vigiados, seu telefone grampeado.

E aí, nesse ponto, esse brilhante A Professora faz lembrar outra obra-prima sobre os anos das ditaduras comunistas na Europa Central e do Leste, o alemão A Vida dos Outros (2006). (Na foto abaixo, Filip, Danka e Karol.)

Já foi avisado que há spoiler. Aqui, o pior spoiler de todos: revela-se o final

Filme sério, pesado, denso, de clima angustiante, A Professora, no entanto, se encerra com um danado de um bom humor.

Talvez para comemorar que a ditadura comunista na Checoslováquia acabou, assim como na imensa maior parte dos países em que se instalou.

Como se fosse num documentário, o filme anuncia o que aconteceu, muitos anos depois de 1984, com Danka, com Filip, com Karol.

E aí, para terminar…

Depois de tanto ir e vir no tempo, entre o início das aulas em 1º de setembro de 1983 e algum dia de abril de 1984, a ação, nos minutos finais, pula para 1993 – ou seja, para a época pós-comunismo. Mária Drazdechová chega para uma aula inaugural. A câmara, colocada no nível do chão, mostra seus sapatos e suas pernas andando em marcha firme. E a professora faz a seus novos alunos um discurso absolutamente idêntico ao que havia feito uma década atrás.

Que cada cabeça interprete da maneira que quiser o fato de a mulher absolutamente mau caráter continuar podendo exercer a mesma profissão, da mesma forma, agora num país democrático.

A graça deliciosa – cheia de ironia, escrachada, forte, figadal ironia – é que ela explica o que vai ensinar: Inglês, História e mais alguma coisa.  Nessa ordem.

É louco pensar que hoje tanta gente quer essa ditadura

Ver esta maravilha já bem velho é uma experiência bastante impressionante. Traz emoções fortes, algumas delas estranhas, esquisitas.

É muito doido lembrar que quando nós víamos, nos anos 60, os filmes feitos na Polônia, na Checoslováquia, na própria União Soviética, nós, todos comunistas ou no mínimo, no mínimo, simpatizantes, os admirávamos como exemplos da vida do Homem Novo nos países que já haviam conseguido atingir o estágio superior de organização social.

A verdade, no entanto, é que aqueles filmes de grandes diretores – Andrzej Wajda, Roman Polanski, Ján Kadár & Elmar Klós, Vojtech Jasny, Jerzy Kawalerowicz, Pavel Hobl, Karel Kachyna, Jirí Menzel – eram, em sua imensa maioria, visceralmente anticomunistas. Em nossa doce ilusão, não percebíamos isso, mas eles eram visceralmente anticomunistas.

É muito, muito insano ver agora este esplêndido A Professora, de 2016, e pensar que, neste fim de mundo, neste lugar que parece ser tão isolado da realidade que é nuestra America Latina, ainda haja tantas pessoas que sonham com algo parecido com os regimes comunistas dos países que foram tornados satélites da União Soviética pela força das armas.

Que absoluta insanidade alguém sonhar com a vida sob uma ditadura.

Mas o próprio filme, cortante como punhal afiado, como peixeira de baiano, nos mostra: há quem prefira a vida assim.

A cabeleireira, mãe de Helenka, não só prefere como briga por ela, com unhas e dentes. O juiz, o médico, eles brigam pela professora – e, portanto, pelo regime.

A Professora é um filme que vai fundo em tudo. E acaba mostrando que os seres humanos, esses tipos tão capazes da maior hipocrisia quanto da mais maravilhosa obra de arte, se se mostram medrosos no meio de um grupo, podem exibir algum pequeno pedaço de coragem quando é concedido a eles a chance de protestar contra uma injustiça – desde que sua identidade não seja revelada aos ditadores de plantão.

Não chega a ser um elogio à humanidade. Mas abre uma pequeníssima fresta para a luz.

Anotação em março de 2018

A Professora/Ucitelka

De Jan Hrebejk, Eslováquia-República Checa, 2016

Com Zuzana Mauréry (Mária Drazdechová, a professora), Zuzana Konecnáv (Kucerová, a mãe da Danka), Csongor Kassai (Kucera, o pai de Danka), Tamara Fischer (Danka Kucerová), Martin Havelka (Binder, o pai de Filip), Éva Bandor (Hana Binderová, a mãe de Filip), Oliver Oswald (Filip Binder), Peter Bebjak (Václav Littmann, o pai de Karol), Richard Labuda (Karol Littmann), Ina Gogalova (a diretora da escola), Monika Certezni (sra. Chvalovská, a adjunta)

Argumento e roteiro Petr Jarchovský

Música Michal Novinski

Fotografia Martin Ziaran

Montagem Vladimír Barák

Casting Ingrid Hodálová

Produção Ceská Televize, Offside MEN, PubRes, RTVS.

Cor, 102 min (1h42)

****

Título na França: Leçon de Classes. Nos EUA: The Teacher.

Disponível no Now.

Um Comentário