A Morte Passou Por Perto / Killer’s Kiss

Nota: ★☆☆☆

Um dos maiores, dos mais absolutamente incompreensíveis mistérios da História do cinema, e não apenas dela, mas de toda a criação, é como é possível que apenas dois anos separem A Morte Passou Por Perto de Glória Feita de Sangue.

Glória Feita de Sangue, de 1957, é um filmaço, um primor, uma maravilha, uma obra-prima,.

A Morte Passou por Perto, no original Killer’s Kiss, de 1955, é uma absoluta porcaria, um abacaxi azedo. A rigor, nem pode ser considerado um filme. É um exercício de estudante, uma tentativa. Muito mais que uma tentativa, é um erro.

O que leva a outro mistério: como é possível que Stanley Kubrick, um dos realizadores mais geniais da História, e um dos mais perfeccionistas, exigentes, chatos de galocha quanto à integridade de seus trabalhos, possa ter deixado que essa porcaria ficasse no mercado? Como é possível que Stanley Kubrick não tenha tentado de todas as formas impedir que a coisa horrorosa pudesse continuar sendo exibida, saísse em vídeocassete, depois em DVD?

Kubrick era tão absolutamente perfeccionista que mandava examinar as cópias de seus filmes em exibição nos principais países, para ver se estavam corretas, se a qualidade era boa. Consta que chegou a mandar gente supervisionar a versão dublada de alguns de seus filmes para exibição no Brasil.

Como pôde permitir que o mundo continuasse vendo esse abacaxi que fez quando estava com apenas 27 anos?

Quase tudo é ruim, mas o pior é a trama e a má construção dos personagens

O filme é muito ruim em quase todos os aspectos, inclusive a atuação dos atores, pavorosa – e logo depois Kubrick se tornaria um dos melhores diretores de atores da História. Mas creio que dá para afirmar com segurança que o pior de tudo neste desastre dantesco é a trama, e a (falta de) construção dos personagens.

Responsabilidade total e absoluta de Stanley Kubrick: ele é o autor da história e do roteiro. Assim como também da direção de fotografia, da montagem e da realização.

A história de Killer’s Kiss, se é que se pode chamar aquilo de história, é um horror, um pavor, um compozisão infantiu, como grafaria Millôr Fernandes em dia muito bem-humorado.

É mais ou menos assim:

Rapagão está sozinho numa grande estação de trem – creio que é a Grand Central, em Manhattan -, fumando e esperando, e se prontificando a contar para o espectador a sua história, os fabulosos acontecimentos dos últimos três dias que o deixaram ali naquela situação.

Chama-se Davey Gordon (Jamie Smith), e é um boxeador. O que não impede que ele dê suas filosofadas. Eis o que filosofa na primeira fala do filme, enquanto está ali na Grand Central à espera da mocinha:

– “É louco como você consegue se enfiar numa confusão e não ser sequer capaz de pensar nela com algum sentido – e ainda assim não ser capaz de pensar em mais nada. Talvez isso comece porque você leva a vida muito a sério. De qualquer jeito, eu acho que foi assim que começou para mim. Logo antes da minha luta com Rodriguez três dias atrás…”

Vemos então Davey em seu pequeno apartamento, antes da luta importante contra Rodriguez.

Do outro lado do fosso interno do prédio, em outro apartamento daquele mesmo andar, uma jovem mulher se apronta também para o trabalho.

Como aquilo que o espectador está vendo é o relato de Davey, e até aquela noite ali Davey não conhecia a vizinha, não sabia nada sobre ela, há aí uma questão que desafia a lógica – mas isso é o de menos.

A quantidade de questões que desafiam a lógica neste filme é uma grandeza.

Davey desce as escadas do seu bloco do prédio na mesma hora em que a vizinha – chama-se Gloria Price (Irene Kane) – também desce as escadas do outro bloco.

Caminham paralelamente no térreo do prédio até a rua, sem se olharem, sem se cumprimentarem.

Um carrão conversível está à espera de Gloria junto ao meio-fio. O sujeito que dirige o conversível, um tipo bem mais velho que Gloria e Davey, chamado Vinnie Rapallo (Frank Silvera, na foto abaixo), pergunta se ela é amiga daquele sujeito, e ela diz que não, nunca o viu, nunca trocou uma palavra com ele. Vinnie informa que ele estará na televisão naquela noite, numa luta importante.

Davey entra numa estação de metrô – vai de metrô para o ginásio em que terá uma luta importante, transmitida pela TV para todo o país. (A luta será vista, por exemplo, perto de Seattle, do outro lado do país, pelos tios do rapaz, fazendeiros que vão convidá-lo para passarem uns tempos com eles.)

Já Gloria vai de carona num conversível com o patrão para o salão de danças em que ela trabalha como uma das dançarinas da casa.

O aprendiz Kubrick mostra que sabe mostrar ações paralelas e lutas de boxe

Temos aí, portanto, no começo do filme, uma narrativa de duas ações paralelas, simultâneas. O boxeador e a bailarina. Vamos vendo Davey se preparando para entrar no ringue, Gloria no salão de danças. Dois personagens, dois destinos, ações paralelas, simultâneas. Coisa típica do cinema, da arte cinematográfica, uma das figuras de linguagem básicas da gramática do cinema, que D. W. Griffith desenvolveu na segunda década do século XX, ali por 1915, 1916. Um bom aprendiz tem que passar mesmo por isso, e o aprendiz de realizador Kubrick faz sua lição de casa.

Uma longa sequência mostra lances da luta de Davey Gordon contra seu contendor Rodriguez. Os grandes diretores americanos faziam muitos filmes sobre boxe nos anos 40, 50, e então era muito natural que um jovem aprendiz quisesse mostrar que também sabia filmar lutas. E a verdade é que nas sequências da luta Stanley Kubrick, aos ridículos 27 anos de idade, já demonstra talento, sim.

Diacho, em alguma coisa ele precisaria mesmo demonstrar talento! Daí a um ano faria um belíssimo filme, O Grande Golpe/The Killing, e daí a dois anos faria uma obra-prima, um dos melhores filmes de guerra que jamais foram feitos…

Se o talento já brilha nas tomadas da luta, a falta de lógica atrapalha, e muito. Termina a luta – Davey, claro, perde; este é um filme de um jovem que em breve seria unanimemente reconhecido como gênio, e gênios gostam preferencialmente de falar de perdedores. Termina a noite de trabalho de Gloria no dancing – e ela volta para casa de metrô.

Ora, por que raios o patrão dela a pega em casa e a leva para o trabalho no conversível, e depois do trabalho, na alta madrugada, a deixa voltar para casa de transporte público?

Mistério profundo.

O boxeador vê que a dançarina está sendo atacada – e vai lá salvá-la

O patrão está apaixonado por Gloria.

Ele faz declaração de amor em sua sala, junto do salão de danças. Gloria retruca com a frase mais ofensiva que se pode dirigir a uma pessoa que acaba de fazer uma declaração de amor, patrão ou não: diz que ele é velho e cheira mal.

Mas Vinnie não a demite. Nem desiste, e insiste: no dia seguinte, de novo na casa dela, tenta se atracar com ela à força.

Por que não tentou se atracar com ela à força na noite anterior, quando estavam dentro da sala dele, ele protegido pelos dois brutamontes que guardavam suas costas?

Ora, porque aí a história não iria rolar!

O patrão velho e fedido tinha que se atracar com Gloria na casa dela, para que o vizinho dela, o boxeador derrotado, pudesse ouvir, e ir até o apartamento dela dar uns tabefes no patrão velho e fedido.

E aí então, finalmente, o moço e a moça da história ficam se conhecendo.

Pois é. Conhecem-se, finalmente, o boxeador e a dançarina, dois perdidos naquelas noites sujas da grande metrópole, a selva de pedra que esmaga as pessoas, etc e tal.

Apaixonam-se perdidamente.

Ela conta para ele a história de sua vida. É uma história danada de ruim, sem pé nem cabeça como a história do filme – mas acontece que, enquanto ela conta para ele a história, o que vemos na tela é uma dançarina. Não uma dançarina de dança de salão, uma taxi dancer, mas uma bailarina clássica. Gloria conta para o agora amadérrimo Davey a história de sua vida, e o espectador vê uma moça dançando como uma bailarina clássica. É a irmã mais velha de Gloria.

A história da vida de Gloria, repito, não tem pé nem cabeça, e aquela bailarina que a gente fica vendo enquanto Gloria fala não tem nada de especial, nada de bonito, nada de nada – a não ser uma curiosidade, uma trivia: os créditos iniciais dizem que o balé clássico é uma criação de Ruth Sobolka. Ruth Sobolka foi a segunda senhora Stanley Kubrick. Casaram-se em janeiro de 1955, exatamente o ano em que ele fez este filme horroroso aqui. Separaram-se em 1957 – o ano em que ele fez a obra-prima Glória Feita de Sangue, que termina com uma jovem alemã cantando uma bela canção folclórica alemã. A jovem que cantava, Christiane Susanne Harlan, viria a ser bem rapidamente a terceira senhora Stanley Kubrick – e viveriam juntos até o fim da vida dele, em 1999.

Genial, Kubrick percebeu logo que criar história não era com ele

Depois que o boxeador e a dançarina de salão se apaixonam perdidamente, seguem-se outros eventos que não se encadeiam nem com os eventos anteriores, nem com quslquer tipo de lógica. Vinnie manda seus guarda-costas matarem o boxeador que ousou impedir que ele continuasse atracando a empregada por quem havia se apaixonado. Mas há uma intercorrência aí, e os guarda-costas acabam atacando é o treinador de Davey. E aí os guarda-costas levam Gloria para um armazém abandonado em alguma área qualquer de Nova York. Por quê? Pra que? Sei lá eu, uai! E aí Davey vai pra lá, e ele e Vinnie acabam se envolvendo em uma loooonga luta de machados no meio de uma fábrica de manequins.

Lógica, não tem alguma, estamos em absoluta falta – mas, ah, um filme preto-e-branco com uma luta de machados no meio de manequins… Vejam que coisa mais pitoresca, mais picturesque, mais moving pictures!

Sim! Essa é que é a verdade dos fatos: no meio dessa história ridícula, absurda, sem pé nem cabeça, há, aqui e ali, uma bela imagem. Uma belo movimento de câmara. Um clima.

Se uma pessoa que gosta muito de filmes visse com atenção Killer’s Kiss, sem saber que aquilo é obra do jovem Stanley Kubrick, certamente chegaria à conclusão de que, no meio de tanta porcaria, dá para perceber que o realizador – embora obviamente inexperiente, jovem demais – tem algum talento.

Quando terminamos de ver a porcaria, Mary fez um comentário perfeito:

Kubrick de fato era um sujeito genial: percebeu que não sabia escrever histórias, e jamais voltou a filmar uma história escrita por ele!

Verdade, verdade, verdade! Kubrick demonstrou imensa sabedoria em não voltar a filmar alguma história criada por ele mesmo. Soube compreender que, definitivamente, aquela coisa de criar história não era sua praia.

Deixou de ser besta, e passou a filmar histórias criadas por profissas. Filmou Vladimir Nabokov (Lolita, 1962). Arthur C. Clarke (2001: Uma Odisséia no Espaço, 1968). Anthony Burgess (Laranja Mecânica, 1971). William Makepeace Thackeray (Barry Lyndon, 1975). Stephen King (O Iluminado, 1980). Gustav Hasford (Nascido para Matar, 1987).

Mil explicações sobre como eram difíceis as condições de filmagem

Antes de passar pelos meus alfarrábios de papel, para ver o que gente douta escreveu sobre Killer’s Kiss, dei uma espiada na página de Trivia do IMDb sobre o filme. É a coisa mais fantástica: praticamente todas as informações são tentativas de explicar como Kubrick era jovem e inexperiente e as filmagens foram difíceis e não havia recursos de nenhum tipo – e por isso é que o filme é ruim.

Tipo assim: de obra de gênio não se fala mal – explica-se como foi difícil fazer o filme.

Eis alguns dos itens da Trivia do IMDb sobre Killer’s Kiss:

* “Trabalhando praticamente sem orçamento e na maior parte das vezes sem autorização para filmar (nas ruas de Nova York), Stanley Kubrick tinha que ficar desapercebido enquanto filmava na cidade mais movimentasda do país, algumas vezes trabalhando com a câmara dentro de um veículo.”

* “Para filmar a cena em que o treinador é assassinado num beco do East Side, Stanley Kubrick teve que primeiro negociar com seis sem-teto que haviam se estabelecido ali e que não queriam abandonar seu território.”

* “Incapaz de gravar os diálogos do filme durante a filmagem, devido a problemas técnicos, Stanley Kubrick foi forçado a fazer uma pós-sincronização de todos os diálogos e efeitos sonoros do filme. O veterano de som Nathan Boxer foi contratado para gravar o som. Todavia, depois que um microfone e um poste criaram muitas sombras, o novato Kubrick foi forçado a despedi-lo, juinto com sua equipe. Irene Kane não estava disponível para adicionar seus diálogos mais tarde, e então a atriz de rádio Peggy Lobbin gravou a voz da personagem dela.”

De fato, é como se a página de Trivia do IMDb exclamasse:

Ô dó do grande gênio quando muito jovem, meu Deus do céu e também da terra! Nossa! Feito nessas condições, este filme na verdade é uma obra-prima!

Mas uma das notinhas é capaz de admitir que o próprio Kubrick definiu Killer’s Kiss como sendo “um filme de nível estudantil”.

Opa! Ele mesmo admitiu isso!

Os críticos têm uma dificuldade danada em admitir que o filme é ruim mesmo

Leonard Maltin, o suijeito que escreveu o guia de filmes mais vendido no mundo, no tempo em que se vendiam guias de filme, deu 2 estrelas para a porcaria.

“Tortuoso relato de vingança quando a corte que um boxeador faz a uma trabalhadora leva o patrão dela a cometer um assassinato. Interessante Kubrick no seu início: a inspiração para o filme-dentro-do-filme Strangers Kiss. A atriz principal Kane se transformou na jornalista Chris Chase.”

Vejam só: então a atriz do filme, que se assinava Irene Kane, abandonou essa coisa de artes dramáticas! Mudou de nome e de profissão! Garota esperta, porque de fato ela não dava pra esse troço de atuar.

Pauline Kael, a grande dama da crítica americana, de quem muitas vezes falo mal, chamo de cricri, de chata (embora sempre fale bem de seu texto), fez uma avaliação perfeita, na minha opinião:

“O segundo longa-metragem de Stanley Kubrick (após Fear and Desire, em 1953) é um thriller mal escrito passado em Nova York, que culmina numa luta numa fábrica de manequins. Existe um sentimento vital sobre o ambiente de mau gosto, mas pouco mais que isso; é concebido mais como sequências vistosas do que como uma história verossímil, e a diretriz sensível ainda parece a anos-luz do terceiro filme de Kubrick, O Grande Golpe, de 1956.”

“É concebido mais como sequências vistosas do que como uma história verossímil.”

Perfeito. É isso. É exatamente isso.

Pois é – mas os críticos franceses adoram o cinema americano, e adoram de paixão, é claro, os grandes realizadores americanos, mesmo quando eles estão iniciando a carreira e fazem filmes estudantis. E então o Guide des Films do mestre Jean Tulard tem um longo verbete sobre Le Baiser du Tuer, que termina assim:

“Rodado em cenários naturais com um orçamento miserável, Le Baiser du Tuer é o primeiro filme noir de Stanley Kubrick. Ainda fragmentária, confusa, desajeitada, a obra testemunha uma maestria técnica e uma invenção visual já claramente afirmadas, culminando em algumas cenas antológicas como a luta de boxe e o extraordinário confronto na fábrica de manequins, que faz esquecer a fraqueza do roteiro e da direção de atores.”

Meu Deus do céu e também da Terra!

Como é difícil para os críticos admitir simplesmente que o grande gênio, quando muito jovem, fez um filme muito ruim, um abacaxi azedo!

Anotação em julho de 2018

A Morte Passou Por Perto/Killer’s Kiss

De Stanley Kubrick, EUA, 1955

Com Jamie Smith (Davey Gordon), Irene Kane (Gloria Price), Frank Silvera (Vinnie Rapallo)

e Jerry Jarrett (Albert), Mike Dana (gângster), Felice Orlandi (gângster), Shaun O’Brien (o senhorio), Barbara Brand (dançarina),

Argumento e roteiro Stanley Kubrick

Música Gerald Fried

Fotografia Stanley Kubrick

Montagem Stanley Kubrick

Coreografia Ruth Sobotka

No DVD. Produção Minotaur Productions. DVD Cinemagia

P&B, 67 min (1h07).

R, *

Título na França: Le Baiser du Tuer. Em Portugal: O Beijo Assassino.

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