A Lenda dos Beijos Perdidos / Brigadoon

Nota: ★☆☆☆

Poderia chamar Dois Americanos na Escócia. Ou Dois Americanos no Mundo da Lua, ou na Ilha da Fantasia. Três anos depois do extraordinário sucesso de público e crítica de An American in Paris, o diretor Vincente Minnelli e o ator-dançarino-coreógrafo-cantor Gene Kelly voltaram a trabalhar juntos neste Brigadoon.

Exatamente como An American in Paris, Brigadoon é uma história criada por Alan Jay Lerner, também o autor das letras das canções, cujas melodias são de seu parceiro Frederick Loewe. A dupla formada por Lerner e Loewe é uma instituição, um fenômeno artístico como poucos – é dela, para dar só dois exemplos, My Fair Lady e Camelot.

Brigadoon, a peça, havia sido um grande sucesso na Brodway; estreou no Ziegfeld Theater, em março de 1947 e teve 581 apresentações.

Conta a história de dois americanos intranquilos, de Nova York, que fazem uma viagem de férias à Escócia. Saem para caçar no interiorzão bravo da Escócia, perdem-se – e de repente, não mais que de repente, dão de cara com Brigadoon, uma cidade mágica, uma espécie assim de Shangri-La, de Paraíso Perdido, em que o tempo parou, não há nada dessas modernidades que infernizam as populações das metrópoles – telefone, televisão – e as pessoas são irremediavelmente felizes. Em Brigadoon, o povo dança e canta nas ruas o tempo todo.

Gene Kelly faz um sujeito legal. Já o personagem de Van Johnson é um chato

Chamam-se Tommy e Jeff os americanos. Tommy, o papel de Gene Kelly, tem um bom emprego em Nova York, ganha bem, e está noivo de Jane (Elaine Stewart), uma moça belíssima, rica, fina e chique. Essas informações são passadas ao espectador logo no início da narrativa por Jeff, o papel de Van Johnson, enquanto os dois amigos percebem que estão perdidos e começam a olhar um mapa para tentar entender como chegar à cidadezinha mais próxima.

Pois é: tudo parece ir bem na vida de Tommy – e, no entanto, ele tem dúvidas. Vem adiando o casamento. A rigor, a rigor, não sabe se quer casar com Jane, apesar de todas as qualidades dela.

Apesar dessas dúvidas, Tommy é um sujeito legal – gosta da vida, gosta de estar ali caçando com o amigo longe das multidões nova-iorquinas.

Já Jeff não gosta de nada. Acha tudo chato, aborrecido. Não tem prazer com nada. Vai passar o filme inteiro reclamando de tudo. Para dizer bem a verdade, Jeff é um chato de galocha. Ah, e bebe demais. Bebe, mas não fica alegrinho – quanto mais bebe, mais chato fica.

O que vale no filme são os momentos em que Gene Kelly e Cyd Charisse dançam

Brigadoon – a cidade mágica, Shangri-La, Paraíso Perdido – não é para qualquer um. Não fica visível para o comum dos mortais. Só pode ser vista por alguns poucos, escolhidos a dedo – sabe-se lá por quem, seguindo quais quesitos.

Mas o fato é que de repente aqueles dois americanos perdidos enxergam Brigadoon ao longe. De longe, não parece uma cidade mágica – e Tommy e Jeff rumam para lá na expectativa de achar uma lanchonete e comer um bom café da manhã.

De cara, encontram Fiona (o papel de Cyd Charisse), a moça mais bonita da cidade. É Tommy bater o olho em Fionna e Fiona bater o olho em Tommy e pronto: paixão fulminante, daquelas dos contos de fada.

Todo mundo em Brigadoon é feliz e a vida é uma festa, mas aquele dia específico em que os nova-iorquinos Tommy e Jeff chegam é especial: é o dia do casamento de Jean (Virginia Bosier), a irmã mais nova de Fiona, com Charlie (Jimmie Thompson).

E então dá-lhe festa, dá-lhe música, dá-lhe dança: na praça do mercado de Brigadoon, os dois nova-iorquinos em roupas de nova-iorquinos quando vão para o campo caçar são convidados a dançar com aquele bando de escoceses que se vestem como os escoceses se vestiam nos tempos da rainha Ana I.

Mas Tommy, que não é bobo nem nada, dá um jeito de escapar daquelas danças com a homorada e vai para os campos de Brigadoon dançar com Fiona.

E então os olhos do espectador são brindados com a visão – esta sim, mágica, milagrosa – de Gene Kelly e Cyd Charisse, dois dos melhores dançarinos da História do cinema, dançando coreografias criadas pelo próprio artista.

Na minha opinião, é o que vale do filme: os momentos de graça, beleza, maestria de Gene Kelly e Cyd Charisse dançando.

Um grande número de defeitos. Não há belas canções. E não há close-ups!

Achei quase tudo ruim, ao rever agora Brigadoon, e confesso que me surpreendi com isso, porque tinha uma boa lembrança do filme – e, além do mais, gosto muito dos musicais da era de ouro de Hollywood, e não tenho nada, absolutamente nada contra contos de fada.

Não vi o filme num momento de mau humor; não estava, de forma alguma, com o pé atrás. Me sentei diante dele para me deliciar com um musical levinho.

Mas fui achando tudo ruim.

Tudo, tudo.

* Não há grandes canções no filme. Para My Fair Lady, a dupla Alan Jay Lerner e Frederick Loewe compôs pencas de canções memoráveis, fantásticas, que atravessam gerações – “Wouldn’t it be loverly?”, “With a little bit of luck”, “I could have danced all night”, “On the street where you live”, “Get me to the church on time”.

Para este Brigadoon, não tiveram nem 1% dessa inspiração. O trailer do filme proclama, exultante: “Um ano e meio de sucesso na Broadway!” “Ten thrilling songs!” A primeira afirmação é perfeitamente verdadeira, como já foi dito. Mas dez canções thrilling – emocionantes, excitantes, vibrantes? Ahn… Não me parecem. De forma alguma.

Achei mesmo que as canções são fracas.

* O personagem de Van Johnson, esse Jeff sempre mal-humorado. Que personagem chato do cão, desinteressante, desagradável.

* A insistência em botar os atores forçando a barra para fazer um sotaque escocês. E dá-lhe “lad” a cada frase, e “aye” duas vezes a cada frase. A americaníssima Cyd Charisse falando “aye”… Que coisa insuportável!

* A confusa, complexa, tolinha tentativa de explicação de como e por que Brigadoon virou aquilo que é, uma cidade mágica, parada no tempo, parada exatos 200 anos antes dos dias de hoje – os dias de então, 1954. Botaram lá o pobre Mr. Lundie (Barry Jones), o professor do vilarejo, para explicar o inexplicável para o curioso Tommy, enquanto o pentelho do Jeff fazia piadinhas chatas… Uma explicação maluca, sem pé nem cabeça, sobre bruxas que não eram bruxas mas agiam como bruxas, e o pastor angelical, Mr. Forsythe, que rezou por um milagre… Bobagem danada: por que não simplificar e dizer apenas que foi um milagre e pronto?

* Tudo o que envolve o personagem Harry Beaton (Hugh Laing), o único sujeito infeliz de Brigadoon, que ama a mocinha Jean e provoca briga na festa de casamento – tudo aquilo é uma imensa bobagem, panaquice, a total falta de sentido. Aquela caçada a Harry Beaton – meu Deus, o que que é aquilo? Aquela sequência é a coisa mais idiota que o grande Vincente Minnelli fez em sua bela carreira.

* Deve haver outros itens, mas cansei.

* E, at last but not at least, a falta de close-ups.

Era a época da chegada do CinemaScope – e então dá-lhe plano geral

A falta de close-ups é uma característica que me impressionou sobremaneira, ao rever agora Brigadoon – por uma imensa coincidência, poucos dias após rever Lola Montès, feito apenas um ano depois, em 1955, o primeiro filme em cores e em CinemaScope de Max Ophüls, o último de sua vida.

É sempre preciso colocar as coisas na perspectiva do tempo, no devido contexto. No início dos anos 50, o cinema enfrentava a duríssima concorrência da recém-chegada televisão. Para fazer frente à rival de tela quadrada, pequena e em preto-e-branco, o cinema radicalizou no uso das cores (Technicolor, Metrocolor) e inventou o CinemaScope, o PanaVision – a tela retangular, comprida. Muito mais tarde, nos anos 2000, os aparelhos de televisão ficariam retangulares, compridos, com o nome de widescreen, tela ampla, que é a mesma coisa que CinemaScope, PanaVision, mas isso foi depois, e não vem diretamente ao caso.

O caso é que Brigadoon, produção de 1954, foi filmado em CinemaScope – e, naqueles anos iniciais da tela ampla, entendia-se que não deveria haver close-ups. A tela ampla era para planos amplos – de preferência, o plano geral, o plano das vastas paisagens, das vastas multidões. O que na pintura seria o afresco.

A tela grande era para botar nela muita gente – e por isso houve aquele estouro de filmes com histórias bíblicas, épicas, em que apareciam muiltidões, O Manto Sagrado, Quo Vadis, aquelas coisas.

Os produtores obrigaram Max Ophüls a filmar Lola Montès em CinemaScope, para fazer que nem os americanos – e ele fez o filme em CinemaScope, sim. Mas, como era Max Ophüls, estava se danando para os produtores e até mesmo para a bilheteria, subverteu o CinemaScope: em várias tomadas que exigiam close-up, fez os close-ups, e tapou o que sobrava à direita e à esquerda dos rostos que queria realçar com veludos escuros que transformavam o CinemaScope em tela quadrada. Bem, só Max Ophüls fez isso – e Hollywood, de qualquer forma, não teria permitido tamanha ousadia.

Poucos anos depois daqueles iniciais do CinemaScope, os diretores passaram a usar close-up quando era necessário, é claro.       Mas, ali, em 1954, Minnelli não ousou ir contra o mandamento corrente: era a época da tela ampla, para tomadas amplas.

O resultado foi que Brigadoon não tem sequer um único close-up do rosto lindo de Cyd Charisse, do belo rosto de Gene Kelly. Não vemos de perto o rosto de ninguém. Quase todo o filme é feito de planos gerais e planos de conjunto. Há um ou outro plano americano – aquele em que a pessoa aparece da cintura para cima –, mas são pouquíssimos, dá para contar.

Para que serve a beleza de Cyd Charisse se o filme não a mostra – se só a vemos de longe, como se estivéssemos na última fileira do teatro?

E isso assim para não falar do fato de que, como estamos em Brigadoon, cidade escocesa em que o tempo parou em 1754, não se vêem nem as pernas de Cyd Charisse. Joelho, nada, neca de pitibiriba. Coxa, então – aquelas coxas maravilhosas, as mais belas do filmusical americano –, ah, mas essas nem pensar, de jeito algum.

Há seguramente muita gente que classificaria o parágrafo acima como coisa de machista cão chauvinista, etc, etc, etc.

Mas só estou constatando um fato. Ver um filme sobre Pelé que não mostra um gol que ele fez ninguém quer, né? Ver um filme sobre Muhammad Ali que não mostra nenhum nocaute dele…

Em Brigadoon não vemos uma nesga das pernas de Cyd Charisse. Não vemos sequer o rosto de Cyd Charisse direito.

Se o filme não tivesse tantos outros defeitos, só por isso já não seria um bom filme.

Tem – é necessário registrar – um grande momento, além das sequências em que Cyd Charisse e Gene Kelly dançam. É a única sequência passada fora da Escócia – em um bar de Manhattan abarrotado de gente, em que a bela noiva de Tommy, essa moça Elaine Stewart, fala sem parar, e Tommy só pensa em Fiona.

É uma bela sequência. A única em que vemos claramente o talento de Vincente Minelli.

Pior que o filme, só esse título absurdo usado em Portugal e no Brasil

Há, de qualquer maneira, algo ainda pior que o filme: o título que os distribuidores brasileiros e portugueses inventaram para ele.

A Lenda dos Beijos Perdidos consegue ter menos sentido ainda do que a tentativa de explicação feita pelo pobre Mr. Lundie para o fato de que Brigadoon sumiu do mapa, mas às vezes aparece, e algumas pessoas conseguem enxergá-la, mas a maior parte da humanidade, não.

Como assim, “beijos perdidos”?

Pode haver beijos roubados. Beijos apaixonados, molhados, secos, temorosos, impacientes, furiosos, todo tipo de beijo – mas perdidos? Como assim, perdidos? Como é que se perde um beijo que já foi dado?

Os distribuidores franceses, espanhóis, finlandeses, todos chamaram o filme, em seus países, de Brigadoon.

Só em Portugal ele virou Brigadoon: A Lenda dos Beijos Perdidos. E no Brasil essa bobagem sem sentindo – e sem a palavra Brigadoon.

Não dá para saber quem inventou a asneira e quem copiou – se os portugueses ou os brasileiros.

Leonard Maltin e Jean Tulard elogiam o filme em seus guias

Leonard Maltin gostou, deu 3 estrelas em 4: “Os americanos Kelly e Johnson descobrem um vilarejo escocês mágico nessa divertida filmagem do sucesso de Alan Jay Lerner & Loewe na Broadway. Ignorado entre os muisicais dos anos 1950, pode não ter inovações, mas tem seu charme suave, e uma deliciosa trilha, incluindo as canções ‘I’ll Go Home with Bonnie Jean’, ‘The Heather on the Hill’ e a canção título.”

Duvido que qualquer uma dessas canções tenha sido regravada depois de 1960.

Uau! Mestre Jean Tulard adorou o filme. O Guide des Films dá 4 estrelas, algo raríssimo, raríssimo!

“Uma comédia musical, mas também um melodrama sublime, esplendoroso e romântico. O equivalente, para uma geração, aquilo que foi para a anterior Peter Ibbetson (no Brasil O Sonho Eterno, 1935), de Hathaway. A ilustração perfeita do tema central minnelliano: a oposição entre o sonho e a realidade, de fato a afirmação da realidade do sonho.”

Vai ver que eu não sabia, mas estava num dia ruim, sim, e não entrei no espírito do filme…

O verbete que Pauline Kael escreveu sobre Brigadoon me parece perfeito, admirável. Costumo meter o pau na grande critica americana: na maior parte das vezes, não concordo com o que ela fala; acho as avaliações dela mal humoradas demais.

Mas, para o texto dela sobre Brigadoon, é preciso tirar o chapéu. É informativo, rico – e, como sempre, muitíssimo bem escrito. Aí vai, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira do livro 1001 Noites no Cinema:

“A Metro estava em regime de economia, e esta adaptação da fantasia musical de Lerner e Loewe que fazia sucesso na Broadway, programada para ser filmada em locação na Escócia, foi feita no próprio estúdio. Também por decreto executivo, o diretor, Vincente Minnelli, teve de fazê-la em CinemaScope – o que para as danças em cenários de estúdio foi um desastre. Gene Kelly e Van Johnson interpretam os dois americanos que caçam nas Highlands escocesas e deparam com Brigadoon, uma aldeia mágica que adormeceu em 1754 e acorda por um dia todo século. Kelly apaixona-se por uma jovem do local (Cyd Charisse), enquanto Johnson mantém uma atitude cética. O material decerto era delicado e falso-lírico em excesso para funcionar mesmo em cenário natural, mas a maneira como foi feito é irremediavelmente teatral. O filme tem uma sequência sensacional, quando a ação deixa a maldita aldeia idílica e Kelly e Johnson vão a uma movimentada e ruidosa boate de Manhattan com Elaine Stewart; sentimos o alívio de Minnelli por poder fazer alguma coisa engraçada e safada, depois de montar todas aquelas cenas enormes com homens sorridentes usando roupas de xadrez escocês.”

Perfeito, Dame Kael. Perfeito.

Anotação em maio de 2018

A Lenda dos Beijos Perdidos/Brigadoon

De Vincente Minnelli, EUA, 1965.

Com Gene Kelly (Tommy Albright), Van Johnson (Jeff Douglas), Cyd Charisse (Fiona Campbell)

e Elaine Stewart (Jane Ashton), Barry Jones (Mr. Lundie), Hugh Laing (Harry Beaton), Albert Sharpe (Andrew Campbell), Virginia Bosier (Jean Campbell), Jimmie Thompson (Charlie Crisholm Dalrymple), Tudor Owen (Archie Beaton), Owen McGivney (Angus), Dee Turnell (Ann), Dody Heath (Meg Brockie), Eddie Quillan (Sandy)

Roteiro Alan Jay Lerner

Baseado na peça musical de Alan Jay Lerner (libretto e letras) e Frederick Loewe (música)

Fotografia Joseph Ruttenberg

Montagem Albert Akst

Direção musical Johnny Green

Choreografia Gene Kelly

Produção Arthur Freed, MGM. DVD Warner.

Cor, 108 min

R, *

Título na França, Itália, Espanha, Finlândia: Brigadoon. Em Portugal: Brigadoon: A Lenda dos Beijos Perdidos.

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