A Estalagem Maldita / Jamaica Inn

Nota: ½☆☆☆

Lançado exatos dez anos antes de Sob o Signo de Capricórnio/Under Capricorn, este A Estalagem Maldita/Jamaica Inn, de 1939, tem alguns pontos de contato com aquele que Alfred Hitchcock faria em 1949. São, os dois, assustadores, apavorantes. Assustam, apavoram o pobre espectador de tão ruins que são.

Ao terminar de ver Jamaica Inn pela primeira vez na vida, 79 anos depois de seu lançamento, no entanto, tive uma absoluta certeza: este filme aqui é ainda muito, mas muito pior que o outro. Jamaica Inn é um dos piores filmes da História. Ed Wood, o sujeito que é tido – até por brincadeira – como o pior diretor de cinema do mundo, teria vergonha em assinar esta porcaria, este abacaxi azedo.

E que não se pense, por um segundo sequer, que é preciso relativizar, contextualizar, compreender que afinal de contas é uma produção de 1939. Em 1939, o cinema já havia feito pencas, montões de obras-primas, de grandes filmes, de filmes marcantes, que podem ser vistos hoje com prazer e admiração.

Na verdade, aquele foi um ano em tudo por tudo extraordinário na História do cinema. Foi o ano de lançamento de No Tempo das Diligências, … E o Vento Levou, A Mulher Faz o Homem, Ninotchka, O Mágico de Oz, O Morro dos Ventos Uivantes. Trágico Amanhecer, A Regra do Jogo,

Este foi o último filme da fase inglesa de Hitchcock

Minha opinião devidamente expressa, vamos a informações objetivas e o que dizem críticos de respeito. Qualquer filme merece isso – ainda mais sendo assinado por um dos grandes mestres da arte.

Jamaica Inn foi o filme de número 23 da carreira de Alfred Hitchcock, que dirigiu ao todo 53 longa-metragens – entre eles, alguns dos melhores de todos os tempos.

Lançado no ano em que se iniciou a Segunda Guerra Mundial, foi também o último filme da sua fase inglesa. Naquele mesmo ano Hitchcock emigraria para os Estados Unidos, seguindo os passos de diversos realizadores europeus que deixaram seus países à medida em que o nazismo mostrava suas garras e se aproximava a deflagração do conflito. Hitchcock, ao contrário de tantos outros, no entanto, não fugia propriamente do nazismo – ia atrás dos dólares, seguindo o canto da sereia David O. Selznick, o todo-poderoso produtor que havia passado pela Metro, pela Paramount, pela RKO, pela Metro de novo, e em 1936, havia criado a sua própria produtora, a Selznick International, e, entre outros produtos europeus, já havia importado, antes de Hitch, a sueca Ingrid Bergman.

Depois de Jamaica Inn, o último filme inglês, viria Rebecca, de 1940, o primeiro filme americano (embora passado na Inglaterra), um tremendo sucesso de público e crítica.

O livro sobre os filmes de Hitch diz que ele perdeu o interesse por Jamaica Inn

“Para seu último filme pré-guerra na Inglaterra, Hitchcock dirigiu uma aventura de piratas baseada numa história gótica de Daphne Du Maurier”, diz o livro The Films of Alfred Hitchcock. “Jamaica Inn será lembrado não tanto como um filme de Hitchcock, mas como um veículo para o brilho de Charles Laughton. (…)

“Charles Laughton interpreta Sir Humphrey Pengallan, um cavalheiro obsequioso, untuoso, de um vilarejo à beira-mar. Ele é o líder de um bando de piratas que atraem navios para os rochedos com falsos sinais, e depois matam os passageiros e tripulantes para saquear a carga. (Laughton foi originalmente chamado para interpretar um pároco licencioso, mas, por causa de possíveis problemas com o Código Hays, o código de autocensura dos estúdios americanos, o personagem passou a ser um cavaleiro.)

Maureen O’Hara, então uma atriz desconhecida de 18 anos, foi escolhida para o principal papel feminino, Mary, que chega à hospedaria Jamaica para ficar com sua tia Patience (Marie Ney) e o marido dela, sujeito suspeito, Joss Merlyn (Leslie Banks). Mary descobre que a hospedaria é a base de um grupo de piratas, e salva a vida de um dos homens quando o bando tenta matá-lo. Acontece que ele é um agente da polícia trabalhando disfarçado. O papel foi feito por Robert Newton, que interpretaria o mais famoso pirata de todos os tempos, Long John Silver, na versão de A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson de 1950. Tudo termina melodramaticamente” …

E aqui o livro conta o final do filme.

The Films of Alfred Hitchcock relata então que o filme teve um razoável sucesso comercial, pois o diretor já havia conquistado um público cativo, o elenco era bom e se baseava em um livro conhecido. “Mas os críticos foram rudes com Jamaica Inn; um deles o chamou de ‘um filme singularmente opaco e sem inspiração – um melodrama altamente apático’. Para quem esperava um filme de Hitchcock, foi um desapontamento, e era óbvio que o diretor tinha perdido o interesse no assunto antes de ter terminado a obra. Se o tédio de Hitchcock não é tão aparente na tela, a atuação fleugmática de Charles Laughton é. Um crítico chamou a atuação de ‘Laughtonismo’, que consistia em gesticulações bombásticas e variados truques, que, no conjunto, transformavam a história num estorvo.”

Charles Laughton é um ator excepcional, mas aqui está uma caricatura

Concordo com gênero, número e grau com qualquer tipo de crítica à atuação de Charles Laughton neste abacaxi azedo aqui. Laughton é um ator grande e um grande ator, se me perdoam pelo jogo de palavras óbvio. Teve interpretações memoráveis em diversos filmes, como, só para dar dois exemplos, o advogado de defesa em Testemunha de Acusação (1957), de Billy Wilder, e o experiente, conservador senador sulista em Tempestade Sobre Washington (1962), de Otto Preminger. E, em uma rara experiência como diretor, fez um impressionante western noir, Mensageiro do Diabo/The Night of the Hunter (1955).

Mas, neste filme aqui, Charles Laughton está ridículo, grotesco. Um absurdo de interpretação ruim. Ele está absolutamente caricatural. É uma coisa repugnante, nojenta.

Já Maureen O’Hara é o exato oposto. Não só ilumina a tela com sua beleza espetacular como já demonstra talento.

Nos créditos, aparece junto do verbo “introduzir”. Introducing Maureen O’Hara. Nasceu em 1920, em Ranelagh, um subúrbio de Dublin, como Maureen FitzSimmons, a segunda de seis crianças FitzSimmons e estava, portanto, com 19 anos quando o filme foi lançado.

E, se está intragável como ator no filme, é preciso tirar o chapéu para Charles Laughton, porque foi o grande ator grande que descobriu Maurren FitzSimmons, ao ver um teste feito por ela, e a indicou para o papel. Podia: era um dos produtores do filme, junto com seu sócio Erich Pommer. Contratou a garotinha irlandesa, e fez ao lado dela o segundo filme da iniciante carreira, O Corcunda de Notre-Dame, também de 1939, já filmado nos Estados Unidos.

Em Hollywood, Maureen O’Hara se tornou uma das estrelas preferidas do mestre John Ford, que fez com ela diversos grandes filmes, de Como Era Verde o Meu Vale (1941) a Asas de Águias (1957), passando por Rio Bravo (1950) e Depois do Vendaval (1952). Brilhou em mais de 60 títulos, dos mais variados gêneros; encerrou a carreira em 2000 e morreu em 2015, após uma vida gloriosa de 95 anos.

“Esse filme era uma empreitada insensata”, disse o próprio Hitch

“Como você sabe, é um romance de Daphne du Maurier”, disse Hitchcock a François Truffaut em um dos muitos diálogos entre os dois cineastas que se transformariam na fantástica obra HitchcockTruffaut, de 1983, que teve no Brasil uma edição belíssima em 2004 pela Companhia das Letras.

E esse detalhe é bem interessante. O filme seguinte de Hitchcock, Rebecca, também se baseia em obra da inglesa Daphne du Maurier (1907-1989). Dois filmes consecutivos baseados em livros da mesma autora – tão perto, e no entanto tão longe um do outro – este aqui feito na Inglaterra, o seguinte, em Hollywood; este aqui, um fracasso retumbante, o outro, um tremendo sucesso.

“O primeiro roteiro foi escrito por Clemence Dane, famoso autor de peças teatrais”, prossegue Hitch. “Depois contratei Sidney Gilliat e juntos criamos o script. Por fim, Charles Laughton quis ampliar seu papel e levou J. B. Priestley para fazer os diálogos adicionais.”

E um pouco adiante: “A Estalagem Maldita era uma empreitada totalmente absurda. Quando se examina a história contada, percebe-se que se trata de um whodunit. No fim do século XVIII, uma jovem órfã irlandesa (Maureen O’Hara) desembarca na Cornualha para encontrar sua tia Patience, cujo marido, Joss, tem uma estalagem no litoral. Passam-se horrores de todo tipo nessa famosa estalagem, que abriga saqueadores de destroços, gatunos que provocam naufrágios. Essas pessoas gozam de total impunidade e até são informadas regularmente das passagens de navios na região. Por quê? Porque à frente de toda essa rapinagem está um homem respeitável que dá as cartas, e esse é homem é ninguém menos do que um juiz de paz.

“Por isso é que esse filme era uma empreitada insensata; normalmente, o juiz de paz só devia aparecer no fim da aventura, pois, muito prudente, ele se mantinha afastado de tudo e não havia nenhuma razão para aparecer na estalagem. Portanto, era absurdo fazer esse filme com Charles Laughton no papel do juiz e, quando me dei conta disso, fiquei realmente desesperado. Finalmente, fiz o filme, que nunca me satisfez, apesar do sucesso comercial inesperado.”

Pois bem: se Alfred Hitchcock, o dono de um dos egos mais gigantescos que já passaram por este planeta, considera seu filme “uma empreitada totalmente absurda”, “insensata”,, até que fui muito condescendente em dizer, no início deste texto que A Estalagem Maldita é assustadoramente, apavorantemente ruim.

A história ainda teria duas refilmagens, em 1985 e 2014

Leonard Maltin foi muitíssimo mais condescendente que eu. Deu 2 estrelas em 4! “Indigesta história com ambientação vitoriana sobre feroz bando dirigido pelo nobre Laughton; O’Hara está linda, mas o filme com conspiração hitchcoquiana é desapontador. Baseado em novela de Daphne du Maurier; Hitch teria muito mais sucesso um ano depois com a Rebecca de du Maurier. Refeito para a TV britânica em 1985.”

Ah, sim. Por incrível que pareça, esse abacaxi azedo seria refilmado para a TV britânica, com outra bela atriz, Jane Seymour, no papel de Mary. Tinha tamanho de minissérie: longas 3 horas e 7 minutos.

Por mais incrível que parece ainda, a história rendeu ainda uma minissérie produzida pela BBC da Irlanda do Norte em 2014.

Pauline Kael abre o verbete dela sobre o filme assim: “Um Hitchcock gótico esquecível, geralmente esquecido, baseado em uma novela de Daphne du Maurier, cheia de destroços de navios e contrabando e assassinatos nos tempos do bom Rei George IV.” Preguiça de ler o resto do que diz a prima donna da crítica americana. Já está de bom tamanho.

Anotação em março de 2018

A Estalagem Maldita/Jamaica Inn

De Alfred Hitchcock, Inglaterra, 1939

Com Charles Laughton (Sir Humphrey Pengallan), Maureen O’Hara (Mary Yellan), Leslie Banks (Joss Merlyn), Marie Ney (Patience Merlyn, a tia de Mary), Robert Newton (Jem Trehearne). Horace Hodges (Chadwick, o mordomo de Sir Humphrey), Frederick Piper (Davis, o agente de Sir Humphrey), Emlyn Williams (Harry the Peddler), Wylie Watson (Salvation Watkins), Herbert Lomas (Dowland), Clare Greet  (Granny Tremarney), William Devlin (Burdkin), Mabel Terry-Lewis (Lady Beston), A. Bromley Davenport (Ringwood), George Curzon (capitão Murray), Basil Radford (Lord George)

Roteiro Sidney Gilliat e John Harrison

Diálogos Sidney Gilliat; diálogos adiconais J.B. Priestley

Baseado na novela de Daphne Du Maurier

Continuidade Alma Reville

Fotografia Bernard Knoweles e Harry Stradling Sr.

Musica Eric Fenby

Montagem Robert Hamer

Produção Charles Laughton, Erich Pommer, Mayflower Pictures Corporation.

P&B, 98 min (1h38)

½

 

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