15h17: Trem Para Paris / The 15:17 to Paris

Nota: ★★★☆

Nos últimos anos, Clint Eastwood tem usado seu grande talento de realizador para fazer filmes baseados em histórias reais. Este 15h17: Trem Para Paris é o oitavo, entre os 11 dirigidos por ele nos últimos 12 anos, de 2006 para cá, a reconstituir histórias reais.

E é o terceiro consecutivo envolvendo personagens de episódios de heroísmo. Segue-se a Sniper Americano (2014), sobre o atirador de elite das forças armadas americanas Chris Kyle, responsável pela morte de 160 pessoas no Iraque, e Sully (2016), que reconstitui a proeza do piloto Chesley Sullenberger, que conseguiu pousar com segurança no Rio Hudson um Airbus seriamente avariado, sem que nenhuma das 155 pessoas a bordo ficasse gravemente ferida.

E o gatilho de Clint Eastwood tem sido cada vez mais rápido. Entre o pouso do Airbus de Sully no Rio Hudson, em 15 de janeiro de 2009, e a estréia do filme, em 6 de setembro de 2016, passaram-se 7 anos e 8 meses.

Entre os fatos acontecidos no trem que saiu de Amsterdã para Paris às 15h17 de 21 de agosto de 2015 e a estréia do filme, em 9 de fevereiro de 2018, houve um intervalo de apenas 2 anos e meio.

Rápido no gatilho para entregar ao público a reconstituição da história real, e rápido no gatilho para narrar os fatos. Clint Eastwood, que sempre fez filmes longos, agora anda levando menos tempo para relatar os casos. Com apenas 96 minutos, Sully havia sido o filme mais curto entre os 36 que ele dirigiu de 1971 para cá,

Neste The 15:17 to Paris, bateu novo recorde: o filme tem só 94 minutos.

Os rapazes americanos que viveram a epopeia interpretam a si mesmos

Mas a característica mais fantástica, incrível, sensacional – e raríssima – do novo filme é que os próprios rapazes americanos da história real interpretaram a si mesmos. Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone viveram aqueles fatos: eles estavam no trem Amsterdã-Paris em que viajava um terrorista armado até os dentes. Relataram a história em um livro, assinado pelos três e mais Jeffrey E. Stern. E reviveram tudo sob a direção firme, segura, magistral, desse realizador especial.

Foi a primeira vez que Clint trabalhou com a roteirista Dorothy Blyskal, uma profissional extremamente jovem, nascida em 1982, no Brooklyn. E foi o primeiro roteiro de longa-metragem que a moça escreveu!

Fez um belo trabalho. A narrativa vai e vem no tempo – começa no dia da viagem de trem, volta para a infância dos três protagonistas. De vez em quando entra uma rápida sequência do dia da viagem – e voltamos para acompanhar a infância e depois a chegada à maturidade de Anthony, Alek e Spencer.

As primeiras imagens são de um homem jovem que carrega uma mochila grande e evidentemente muito pesada por uma estação de trem. A câmara o segue de perto – nós o vemos de costas. Uma rápida tomada mostra que é um jovem com espessa barba negra, óbvios traços de árabe – mas o que mais vemos são as costas, depois os pés dele.

Ele entra no belo trem Thalys.

Vemos então três rapazes alegres, de férias na Europa. Anthony se dirige aos espectadores, brinca que eles devem estar se perguntando o que ele, um negro, está fazendo ali com dois branquelos – e em seguida explica que aqueles dois, Alec e Spencer, são seus maiores amigos.

Todos os três representando a si mesmos.

Na adolescência, os três tinham problemas de comportamento na escola

E aí vem o primeiro e longo flashback. Um letreiro informa que estamos em Sacramento, Califórnia, em 2005 – dez anos, portanto, antes da tentativa de atentado terrorista no trem Amsterdã-Paris.

Alek e Spencer já eram grandes amigos então, quando todos eles estavam com uns 12, 13 anos de idade. Tinham problemas na escola elementar, os dois: vemos uma professora (o papel de Irene White) advertindo as mães dos dois, respectivamente Heidi e Judy (interpretadas por Jenna Fischer e Judy Greer, na foto abaixo), de que os meninos tinham dificuldade de acompanhar as lições, distraíam-se demais. O conselho da professora é que as mães procurem especialistas, e mediquem os dois.

Heidi e Judy saem furiosas da reunião com a professora.

Os dois garotos ficam então conhecendo Anthony, que também tinha problemas comportamentais na escola, era rebelde, insubordinado, e a toda hora era levado para falar com o diretor.

Os adolescentes Spencer, Alek e Anthony são representados, dos 11 aos 14, respectivamente por William Jennings, Bryce Gheisar e Paul-Mikél Williams.

As mães eventualmente tiram os garotos da escola em que estudavam, os colocam numa escola cristã, esperando uma melhora do desempenho deles – mas a mudança não altera a rotina problemática deles.

Quando são mostrados como jovens adultos – e já aí interpretados por eles próprios –, os três rapazes continuam não sendo assim propriamente o modelo de gente que vai dar muito certo em boas profissões.

A mãe de Alek havia sido convencida a mandar o garoto para viver com o pai, no Oregon – o que deixa Spencer mortificado com a ausência do amigo da vida inteira.

Nesse ponto, o roteiro passa a focalizar mais detidamente Spencer. Fã de armas desde a infância, criado por mãe cristã devotada, o rapaz chega ao final da adolescência convencido de que deve tentar uma carreira nas forças armadas, num dos serviços de elite. Acha que sua missão na vida é ajudar aos outros, tratar de feridos, defender os colegas.

Muito grande, gordo, Spencer se dedica arduamente, durante um ano inteiro, a fazer exercícios físicos e perder peso. Mas não consegue passar em todos os duríssimos testes. Vai bem na parte física, para falhar num determinado teste de aptidão, inteligência, concentração. Não poderá ir para o serviço de elite – mas permanece na Aviação, em posição de pouca projeção.

Ao contrário do que gostaria, no entanto, Spencer não é enviado para um dos fronts de guerra: fica no próprio país. Alek, ao contrário, é enviado ao Afeganistão, mas também não para o front, e sim para uma área próxima de intendência, pelo que entendi.

Não teria sentido algum mostrar os acontecimentos em ordem cronológica

De vez em quando o relato sobre a vida dos três jovens é interrompida para vermos sequências no trem Amsterdã-Paris.

Dois passageiros ficam junto da porta de um dos banheiros. Quem estava lá dentro está demorando – é Ayoub, o terrorista (interpretado por Ray Corasani). Uma rápida tomada o mostra dentro do banheiro: está sem camisa, e carrega um impressionante arsenal.

A Wikipedia contabiliza que Ayoub El Khazzani, 25 anos de idade, nascido no Marrocos, saiu do banheiro do carro número 12 da composição com um rifle de assalto AKM, para o qual tinha um total de 270 cargas de munição, uma pistola, uma faca e uma garrafa de petróleo.

E então voltamos para o passado. A essa altura, ali pouco mais da metade dos rápidos 94 minutos do filme, os três amigos já estão combinando fazer uma viagem à Europa. Alek viria do Afeganistão, e Spencer e Anthony, dos Estados Unidos.

Não costumo gostar de filmes que ficam alternando épocas da história, indo ao passado e voltando ao presente feito bola de pingue-pongue. Lembro que Roger Ebert, o grande crítico, também não gostava desse esquema narrativo. Mas aqui o esquema funciona, e funciona bem.

Até um tanto depois da metade do filme, o hoje, o dia do da viagem de trem, é mostrado em sequências bem rápidas. E não é a toda hora, não é pingue-pongue frenético, vai e vem, vai e vem.

São mostradas, de quando em quando, sequências rápidas da viagem do trem – e a imensa maior parte do tempo vamos acompanhando o relato da vida dos três, em ordem cronológica.

Não teria sentido deixar de apresentar essas sequências do presente, do dia da tentativa de atentado. Acompanhar a vida daqueles três garotos em rigorosa ordem cronológica, sem mostrar que aconteceria na vida deles um episódio fantástico, incrível, seria quase entediante.

Da maneira como a roteirista Dorothy Blyskal estruturou a narrativa, o espectador fica o tempo todo fisgado pela história. Sabe que, em algum momento, a ação vai se concentrar no trem, na luta entre os três rapazes e o terrorista.

Quando começamos a ver Spencer e Anthony passeando por Roma e depois Veneza – dois jovens americanos conhecendo as cidades milenares –, sabemos que o momento do clímax está se aproximando.

E quando chega o momento do clímax, que talento Clint Eastwood demonstra para montar as cenas de ação.

É cinema grande. Uma maravilha.

Nos últimos 12 anos, 8 filmes que reconstituem histórias reais

Ficou faltando relacionar os últimos 11 filmes dirigidos por Clint – os oito que contam histórias reais e os três que são ficção pura.

Eis os baseados em fatos reais:

A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima (2006), um díptico sobre a Segunda Guerra no front do Pacífico, as batalhas entre americanos e japoneses;

Invictus (2009), sobre a seleção sul-africana de rugby integrada, com brancos e negros, após apartheid, que teve Nelson Mandela como grande incentivador;

J. Edgar (2011), a biografia de J. Edgar Hoover, o criador e primeiro diretor do FBI, a polícia federal americana:

Jersey Boys: Em Busca da Música (2014), a história do conjunto vocal The Four Seasons, absoluto sucesso nos anos 1960;

E, em seguida, os já citados Sniper Americano (2014), Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) e este 15h17: Trem Para Paris (2018)

Os únicos que contam histórias fictícias, entre os destes últimos 12 anos, foram A Troca (2008), Gran Torino (2008) e Além da Vida (2010).

O AllMovie arrasa o filme. Cada cabeça, uma sentença

O ótimo site AllMovie não gostou nada de 15h17: Trem Para Paris. Deu apenas 2 estrelas em 5, e o texto de Travis Norris arrasa o filme:

“O novo filme de Clint Eastwood, The 15:17 to Paris, é uma tentativa preguiça de levar uma história inspiradora para as telas. Eastwood quis honrar três americanos que impediram um ataque terrorista em um trem de Amsterdã para Paris, ao contar a história deles e ao colocá-los como os atores para interpretarem a si mesmo. Esses heróis da vida real – Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos – se dão bem em seus papéis, especialmente se considerarmos as circunstâncias. Infelizmente, o roteiro é abaixo dos padrões, e a direção não consegue capturar qualquer drama real.”

Cada cabeça, uma sentença. Gostei do filme. É muito interessante ver que aqueles rapazes que não pareciam que iam dar grandes coisas, que tiveram problemas na escola, que não foram admitidos na elite das forças armadas, que pareciam “perdedores” – como alguém diz para eles no início da narrativa – acabariam sendo heróis, impedindo um banho de sangue. E seriam honrados com a Legião de Honra, a mais alta homenagem da República Francesa, entregue a eles pelo então presidente François Hollande.

Anotação em julho de 2018

15h17: Trem Para Paris/The 15:17 to Paris

De Clint Eastwood, EUA, 2018

Com Alek Skarlatos (ele próprio), Anthony Sadler (ele próprio), Spencer Stone (ele próprio)

e Jenna Fischer (Heidi Skarlatos, a mãe de Alek), Judy Greer (Joyce Eske, a mãe de Spencer), William Jennings (Spencer dos 11 aos 14), Bryce Gheisar (Alek dos 11 aos 14), Paul-Mikél Williams (Anthony dos 11 aos 14), Irene White (professora), Ray Corasani (Ayoub, o terrorista), Patrick Braoudé (presidente François Hollande)

Roteiro Dorothy Blyskal

Baseado no livro de Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone e Jeffrey E. Stern

Fotografia Tom Stern

Música Christian Jacob

Montagem Blu Murray

Casting Shay Griffin, Geoffrey Miclat e Bruce H. Newberg

Cor, 94 min (1h34)

Produção Warner Bros., Piictures, Village Roadshow Pictures, Malpaso Productions.

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