Versões de um Crime / The Whole Truth

Nota: ★★½☆

Versões de um Crime pode até espantar o espectador por sua simplicidade. É um drama de tribunal simples, direto, claro, objetivo. Não usa criativol algum – não tem artifícios, invencionices, fogos de artifício.

É tão absolutamente objetivo que o título original – The Whole Truth, toda a verdade – é tirado daquela pergunta padrão que é feita nos tribunais (e nos filmes) americanos às testemunhas, quando elas se sentam para responder às perguntas da defesa e da acusação: “Você jura solenemente contar a verdade, toda a verdade, e nada a não ser a verdade?”

Simples, direto, claro, objetivo: o advogado de defesa, Richard Ramsey (o papel de Keanu Reeves), narra a história para o espectador. O autor da história original e do roteiro Nicholas Kazan e a diretora Courtney Hunt mostram todas as partes mais importantes do julgamento, que acontece no condado de St. Bernard’s Parish, no Estado sulista da Louisiana, bem perto do Rio Mississipi e de Nova Orleans.

Quando uma testemunha presta seu depoimento, expõe a sua versão da história, o filme mostra o que está sendo relatado em um flashback.

E aqui vem o pulo do gato: as testemunhas mentem – e o flashback mostra para o espectador não a mentira da testemunha, mas o que de fato aconteceu.

Um advogado que em geral fazia acordos com a promotoria

O advogado Ramsey tem uma peculiaridade: em vez de um carro, um carrão, anda de moto. Chega de moto ao tribunal de St. Bernard’s Parish. Por causa disso, e também de uma frase que ele usa bem no início do filme, o espectador pode ficar desconfiado de que ele não é um bom advogado, um profissional preparado para enfrentar um tribunal de júri. Eu fiquei com essa desconfiança – mas à medida em que a narrativa avança essa impressão é desmentida.

Eis o que Ramsey vai narrando aos poucos, enquanto vemos sequências dele na estrada com sua moto, dele atravessando o Mississipi numa bela, gigantesca ponte, dele chegando ao tribunal, e de Mike – o réu que ele vai defender, um garoto prestes a completar 17 anos, interpretado por Gabriel Basso – se preparando para sair da cela em que está preso e se apresentar diante do juiz:

– “Mike havia matado o pai, Boone Lassiter. Deixara sua impressão digital na faca. Confessara. Metade de meus casos tinham provas tão ruins quanto essas. Eu fazia acordos. Aceitava homicídio culposo e seguia em frente. Mas agora era Mike…”

Essa é a frase que pode levar o espectador a achar que Ramsey não é um advogado tão bem preparado. Ele admite que, em vez de tentar fazer uma enfática, esforçada defesa de seus clientes diante do júri, aceita acordos com a promotoria, de forma que o cliente confesse o crime, dispensando o julgamento – desde que a promotoria por sua vez aceitasse baixar a acusação de homicídio doloso para culposo, bem menos grave e que portanto prevê penas bem menores.

– “Mas agora Mike”, ele prossegue. “Eu o conhecia desde que ele era pequeno. Ia para a faculdade, provavelmente ia estudar Direito. A mãe dele não aguentaria vê-lo numa penitenciária. Mas eu tinha uma coisa a meu favor: eu conhecia Boone. Eu conhecia bem a família Lassiter para saber que Mike tinha argumentos em sua defesa – se ao menos falasse comigo.”

O jovem Mike confessa que matou o pai – e se recusa a falar com qualquer pessoa

Ainda tinha isso. Além de Mike ter confessado que matara o pai, além do fato de que havia suas impressões na faca, o rapaz se recusava a falar com quem quer que fosse, desde que foi preso. Não quis conversar com o próprio advogado de defesa – sendo que Ramsey era, como ele conta já nessas falas iniciais, amigo da família. Ramsey, na verdade, tinha começado a praticar advocacia no escritório de Boone Lassiter.

Boone, a vítima do crime, era um especialista na área de danos materiais, um ramo que dá muito dinheiro para advogados espertos, como mostram vários dos livros de John Grisham, o grande especialista em histórias de tribunais. Com o tempo, Ramsey tinha saído do escritório do mentor e amigo – um sujeito rico, muito rico –, porque quis se dedicar à área penal.

O promotor, Leblanc (Jim Klock) – que cumprimenta Ramsey antes do início do julgamento perguntando se ele atuará sozinho no caso, sem um assistente – faz um introdução firme, contundente, embora com um tom simples, direto, sem gestos teatrais. E diz aos jurados que a defesa provavelmente vai tentar demonstrar que Boone Lassiter não era um homem tão bom assim, que era muito duro com o filho – mas lembra que não é a vítima que está em julgamento. Bom ou não tão bom assim, o fato é que ele foi assassinado pelo reú – diz o promotor.

Não é um caso fácil para o advogado de defesa, sem dúvida.

E Ramsey ainda passa pelo vexame de explicar que não fará um pronunciamento inicial ao júri, já que o réu se recusa a falar, inclusive com ele, o advogado.

E, diante das primeiras testemunhas trazidas pela promotorias – uma aeromoça que atendeu pai e filho numa viagem recente, um motorista de limousine que os conduziu algumas vezes –, a linha que Ramsey usa é tentar demonstrar que Boone era um mulherengo contumaz. Ou seja: acusa o acusado; chove no molhado sobre o qual o promotor já havia advertido os jurados.

A assistente do advogado, uma bela jovem mulata, chega atrasada ao tribunal

Ramsey tinha, sim, uma assistente para ficar ao lado dele no julgamento – só que ela chegou atrasado à primeira sessão. Por isso ele estava sozinho, apenas com o réu, à mesa da defesa, quando o promotor o cumprimentou.

Ele não conhecia ainda a assistente, Janelle Brady. Ela era filha de um advogado amigo de Ramsey, tinha sido bem recomendada por ele.

O primeiro encontro dos dois, logo após a primeira sessão do julgamento, não é nada promissor. Ele a repreende duramente por ter chegado atrasada, e a questiona sobre os motivos que a levaram a passar um tempo internada em instituição psiquiátrica.

Janelle aguenta o tranco, e demonstra que sabe muito bem perceber quando alguém, qualquer pessoa, uma testemunha, por exemplo está mentindo. E demonstra com tranquilidade saber por que Ramsey a queria a seu lado na mesa da defesa: alguns jurados são negros, e ver uma mulata ao lado do réu causaria boa impressão.

Janelle terá uma importância muito grande na trama.

Ela é interpretada por Gugu Mbatha-Raw, uma jovem atriz inglesa filha de um médico sul-africano negro e uma inglesa branca. Moça bela e talentosa.

Renée Zellweger faz a viúva da vítima – mas está tão diferente!

Desde as primeiras sequências no tribunal, a câmara mostra uma mulher sentada sozinha numa das primeiras filas da audiência. É muito óbvio que se trata da mãe de Mike, a agora viúva do rico Boone Lassiter (que aparecerá muitas vezes nos flashbacks, representado por James Belushi).

Loretta Lassiter.

Loretta – o espectador verá nos flashbacks – era tratada pelo marido ricaço com descaso, críticas duras, imensa agressividade, tanto em palavras quanto em gestos. Boone chamava a mulher de burra na frente de convidados. E batia nela.

Loretta, repito, aparece desde o início do filme. É a personagem que mais tempo aparece na tela, depois do protagonista Ramsey-Keanu Reeves.

Pois dá para acreditar que eu só reconheci a atriz que faz Loretta quando o filme já estava pela metade? Antes disso, Mary havia dito que conhecia a atriz, mas não estava sabendo dizer quem era.

É incrível, é absolutamente incrível como Renée Zellweger está diferente da Renée Zellweger que conhecíamos, que vimos em tantos filmes. Diacho, só no 50 Anos de Filmes há 10 filmes com Renée Zellweger!

Dez filmes! Um Amor Verdadeiro (1998), Deixe-me Viver (2002), Chicago (2002), Cold Mountain (2003), Appaloosa (2008), O Amor Não Tem Regras (2008), Tudo Por Você (2009), Caso 39 (2009), Recém-Chegada (2009), A Minha Canção de Amor (2010).

Não tinha reparado que Renée Zellweger havia sumido. Só percebi ao ver que este filme aqui foi o primeiro que ela fez em seis anos. Depois de A Minha Canção de Amor, ela não voltou a filmar por seis longos anos.

A atriz passou seis longos anos sem filmar. Só voltou em 2016

Em 2016, o ano em que este The Whole Truth foi lançado, saiu também O Bebê de Bridget Jones, o terceiro filme da série sobre a inglesinha criada pela escritora Helen Fielding que conquistou milhões e milhões de fãs ao redor do mundo, e que Renée Zellweger encarnou tão bem. E a carreira da atriz parece ter voltado ao normal: em meados deste ano de 2017, ela estava em três filmes em preparação.

Mas a grande mudança por que passou o rosto da atriz é objeto de interesse da imprensa – e a própria Renée não se furta a falar do tema. No dia 5 de agosto de 2016, ela publicou um texto no respeitável portal de informações Huffington Post com o título de “We can do better” – podemos fazer melhor, que foi reproduzido em várias publicações, inclusive a revista Glamour. Alguns trechos:

“Não que isso seja da conta de alguém, mas eu não tomei a decisão de alterar o meu rosto e fazer cirurgia nos olhos. A informação em si não é de nenhuma importância, mas o fato de ter sido discutida entre jornalistas de respeito e se tornado assunto público é desconcertante e mostra como notícia se confunde com entretenimento, além de ressaltar a fixação que a sociedade tem com o aspecto físico das pessoas.

“Não é nenhum segredo que o valor da mulher é historicamente medido por sua aparência. Apesar de termos evoluído em reconhecer a importância feminina na construção de uma sociedade de sucesso, e os cargos de influência que elas ocupam em diversos setores, o preconceito persiste, e é perpetuado pela conversa negativa que entra no nosso consciente todo dia em forma de entretenimento barato.”

“Muito magra, muito gorda, envelhecida, melhor morena, celulite nas coxas, cirurgia plástica que deu errado, ficando careca, barriga de grávida ou apenas gordura? Sapatos feios, pés feios, sorriso feio; chamadas (de matérias) que tentam determinar o valor de uma pessoa com base em sua aparência.

“A mensagem que fica é problemática para as gerações mais novas, e sem dúvida resulta em uma série de questões como preconceito, igualdade, auto-aceitação, bullying e saúde.”

Tudo o que ela diz é absolutamente correto, tem lógica, tem razão. Mas, diabo, ela bem que poderia admitir que fez plástica demais e fez plástica errada, uai.

Tudo na narrativa é simples e direto – mas tem a grande reviravolta no final

Ver uma Renée Zellweger quase absolutamente irreconhecível é uma das duas grandes surpresas proporcionados por este Versões de um Crime. A outra é aquela característica de a narrativa toda do filme ser tão simples, direta, clara, objetiva.

Não sei se fiquei impressionado demais com essa coisa porque vi o filme logo após ter devorado as duas primeiras temporadas de How go Get Away With Murder, a série da rede ABC em que a personagem de Viola Davis ensina a seus alunos de Direito Penal como fazer com que os clientes escapem da condenação pelos assassinatos que praticaram. How to Get Away With Murder é exagerado em todos os quesitos – inclusive os fogos de artifício, os criativóis, as invencionices. A narrativa vai e volta no tempo sem parar, vai e volta, vai e volta, como bola de pingue-pongue; a mesma sequência é repetida várias vezes ao longo dos episódios, cada vez acrescentando um detalhinho que não havia aparecido antes. Muito criativol, muita invencionice. E muita gente falando altíssimo – enquanto nesse aqui todos falam dentro dos padrões civilizados.

É, com certeza a comparação entre a série e o filme fez realçar essa característica de a narrativa ser direta, objetiva.

Mas, depois que o filme terminou, vi que um leitor do IMDb teve a mesma sensação. “Simples e direto, mas tem momentos que são cativantes”, escreveu o leitor que se assinou como “paulijcalderon da Suécia”.

Simples e direto – mas isso não quer dizer, é claro, que não haja uma reviravolta no final. Há, sim. Muitos espectadores com certeza vão perceber o que virá bem antes que o filme mostre a reviravolta. Não é algo absolutamente surpreendente – mas é um bom final de drama de tribunal.

Há quem deteste o filme e o chame de “desastre total”

É bom registrar que há quem desça a lenha no filme como se fosse a pior coisa jamais feita na face da terra. Eis o que diz dele um sujeito chamado Rex Reed, no site Observer. Vai sem aspas para não me obrigar a ser absolutamente literal:

Uma cura garantida para a insônia, uma abominação chamada The Whole Truth é um drama de tribunal que parece como uma versão colorizada do antigo show de TV Perry Mason, estrelado pela nova face de Renée Zellweger e Keanu Reeves, que tem o carisma e o apelo visual animado de uma cerca de barro. Um desastre total que ficou juntando poeira na sala de montagem por mais de um ano, e que você não chamar de morto porque isso implicaria que teve vida algum dia.

Bem, pelo jeito o rapaz simplesmente não gosta de ver filmes. Deveria fazer outra coisa na vida.

Um detalhe: Nicholas Kazan, o filho do mestre Elia Kazan, preferiu assinar o roteiro original do filme com o pseudônimo de Rafael Jackson. Não achei matéria na internet que explicasse o motivo disso. Se o eventual leitor souber, por favor, me conte.

Anotação em agosto de 2017

Versões de um Crime/The Whole Truth

De Courtney Hunt, EUA, 2016

Com Keanu Reeves (Richard Ramsey), Renée Zellweger (Loretta Lassiter), Gugu Mbatha-Raw (Janelle Brady), Gabriel Basso (Mike Lassiter), James Belushi (Boone Lassiter), Jim Klock (Leblanc, o promotor), Ritchie Montgomery (o juiz Robichaux), Christopher Berry (Legrand), Lara Grice (jurada número 3), Nicole Barré (Angela Morley, a aeromoça), Lucky Johnson (o motorist da limousine), Jason Kirkpatrick (detective Graves), Sean Bridgers (Arthur Westin), Jackie Tuttle (Trixie Westin)

Argumento e roteiro Nicholas Kazan (sob o pseudônimo de Rafael Jackson)

Fotografia Jules O’Loughlin

Música Evgueni Galperine e Sacha Galperine

Montagem Kate Williams

Casting Lindsay Graham e Mary Vernieu

Produção PalmStar Media, Atlas Entertainment, Likely Story, Merced Media Partners.

Cor, 93 min (1h33)

**1/2

 

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