Uma Aventura na África / The African Queen

Nota: ★★★★

Acho que dá para afirmar, sem medo de errar, que Uma Aventura na África/The African Queen é um dos mais adorados de todos os filmes do período clássico de Hollywood.

É impossível não se encantar por ele. Uma Aventura na África é absolutamente fascinante, cativante, simpático, gostoso em todos os aspectos.

Humphrey Bogart e Katharine Hepburn, esses dois absolutos monstros, num barco de uns 8 metros de comprimento, enfrentando todo tipo de perigo possível e imaginável – corredeiras perigosíssimas, soldados alemães atirando neles, enxames de mosquitos, jacarés à espreita, sanguessugas, novas corredeiras ainda mais perigosas, e, ainda por cima, como bem resumiu Leonard Maltin, cada um deles tendo que enfrentar o outro!

Ele, Charlie Allnut, um aventureiro sem eira nem beira, um canadense desterrado, alta quilometragem de malandrice, bruto, cru, boca-suja, cachaceiro. Ela, Rose Sayer, uma inglesa educadíssima, fina, de boa família, missionária metodista, cristã fervorosa, virgem de tudo.

Dois seres absolutamente díspares, antípodas, juntos, sozinhos, contra tudo e todos, num barco que desce um rio da África Central com o velho motor pronto para pifar a todo momento, em meio a paisagens extasiantes, com manadas de elefantes, bandos de hipopótamos, macacos de vários tamanhos. Paisagens lindérrimas – mas perigosas.

Contra tudo e todos – e um contra o outro.

Bogey e Kate Hepburn sozinhos na tela na imensa maior parte dos 105 minutos de duração do filme, sob a batuta do mais aventureiro de todos os cineastas de todos os tempos, John Huston.

Não no conforto de um estúdio, ou de um locação em algum lugar da Califórnia ou de Nevada decorada para parecer África, mas nos confins da selva da África Central mesmo, em meio aos mosquitos, perto dos animais selvagens todos!

Só mesmo John Huston para, em 1951, levar para os confins da selva da África Central uma grande equipe de técnicos de cinema e dois dos astros mais famosos de Hollywood!

O primeiro dos mais de 60 itens de Trivia do IMDb sobre o filme é assim:

Consta que todas as pessoas do elenco e da equipe tiveram alguma doença, durante os meses de filmagem, com a exceção de Humphrey Bogart e John Huston, que conseguiram escapar graças ao Scotch. Bogart uma vez disse: “Tudo o que eu ingeria era feijão e aspargos enlatados e uísque escocês. Sempre que um mosquito picava a mim ou a Huston, caía morto”.

Pode não ter sido exatamente assim – mas deve ter sido quase isso.

As histórias sobre como foi a produção de The African Queen são absolutamente fascinantes – a rigor, tão fascinantes quanto a própria história do filme.

Dariam um filme, essas histórias – e deram. Em 1990, 40 anos depois dos fatos, Clint Eastwood lançou White Hunter Black Heart, no Brasil Coração de Caçador – um relato romanceado, exagerado, da absoluta loucura que devem ter sido aqueles dias de filmagem e os que os precederam.

O filme foi rodado no então Congo Belga, Quênia e Uganda

“Soberba combinação do bebum Bogart (que ganhou um Oscar) com a solteirona Hepburn viajando em um rio na África durante a Primeira Guerra Mundial, combatendo os elementos e os alemães – e um ao outro”, delicia-se Leonard Maltin – que, é claro, dá ao filme a cotação máxima de 4 estrelas. Em seguida, ele informa: “Roteiro de James Agee e do diretor Huston a partir do romance de C.S. Forester; deslumbrantemente filmado em locação no Congo Belga por Jack Cardiff.”

Sim: o responsável pela deslumbrante fotografia de The African Queen é o inglês Jack Cardiff (1914-2009), tido como um dos maiores diretores de fotografia da História do cinema, Oscar por Narciso Negro (1947), da dupla Michael Powell-Emeric Pressburger, Oscar honorário pelo conjunto da obra em 2001, como “o mestre da luz e da cor”.

Além de mestre da fotografia, Jack Cardiff teve uma bela carreira como diretor, com mais de dez longa-metragens, entre eles Minha Doce Gueixa (1960), com Shirley MacLaine e Yves Montand, A Garota da Motocicleta (1968), reunindo Marianne Faithfull e Alain Delon, e O Leão (1962), com William Holden, Trevor Howard e Capucine, em que ele voltou ao Quênia e a Uganda, onde tinha filmado com John Huston sequências de The African Queen.

The African Queen foi filmado em locações em três países – o então Congo Belga, Quênia e Uganda.

A maior parte da equipe técnica de The African Queen era formada por ingleses – foi uma co-produção EUA-Inglaterra.

“Um dos filmes mais cativantes e divertidos já feitos”

Pauline Kael, a prima donna da crítica americana, tem um texto primoroso, elegante, cultivado – mas, em 99,9% das vezes, é uma chata de galocha, uma cricri, sempre disposta a procurar pêlo em ovo, em escancarar qualquer defeitinho e menosprezar qualquer qualidade dos filmes sobre que escreve. Eis o que ela diz, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira do livro 1001 Noites no Cinema:

“Uma escolha de elenco afiada reuniu Humphrey Bogart e Katharine Hepburn. É uma comédia, e um dos filmes mais cativantes e divertidos já feitos. O diretor, John Huston, escreveu que não havia comédia nem no romance de C. S. Forester nem no argumento original de James Agee, John Collier e ele mesmo mas que isso resultou da relação de Hepburn e Bogart, simplesmente irresistíveis quando trabalhavam juntos. Hepburn revelou que o filme não ia bem até Huston ter a inspiração de que ela devia pensar em Rosie como a sra. Roosevelt. Depois disso, Bogart e Hepburn atuaram juntos com uma descontração e humor que fazem o seu caso de amor – a união de uma solteirona mandona, com uma carapaça de ferro, e um capitão de barco fluvial durão e pau d’água – parecer não só inevitável, mas perfeito. A história, passada na África Central em 1914, é tão convincentemente interpretada que nos sentimos um pouco abalados no final…”

… e aí Dame Kael faz um spoiler que, naturalmente, não vou transcrever.

Em seguida ela fecha o verbete sobre o filme assim: “Com Robert Morley (na foto acima) como o irmão missionário de Katharine, e Peter Bull. Fotografia de Jack Cardiff. A atuação de Bogart valeu-lhe o Oscar de Melhor Ator. Peter Viertel, que trabalhou no diálogo quando o grupo estava em locação na África, escreveu White Hunter Black Heart – um dos melhores romances sobre o cinema – acerca de suas experiências com Huston. Produzido por Sam Spiegel, para a United Artists.”

O livro de Peter Viertel White Hunter Black Heart foi, claro, a base do filme homônimo que Clint Eastwood lançaria em 1990.

John Huston dedica ao filme um capítulo inteiro de sua autobiografia

Essa coisa que Pauline Kael cita, de John Huston ter falado para Kate Hepburn para se imaginar como Eleonor Roosevelt, a mulher de Franklin D., pessoa de opiniões fortes, defensora firme de idéias e comportamentos progressistas, avançados – e, portanto, seguramente um dos ídolos da atriz, uma mulher muito à frente de seu tempo –, parece ter sido especialmente importante.

John Huston fala disso em sua maravilhosa autobiografia, lançada no Brasil pela L&PM com o título de Um Livro Aberto. Ele dedica todo um capítulo, o de número 17, bem no meio do seu livro, a The African Queen. Como ele realizou mais de 40 filmes, e contou sua vida inteira numa autobiografia de 37 capítulos, só isso já indica a importância que The African Queen teve para a sua vida.

O texto de John Huston é uma absoluta delícia – livre, solto, à vontade, como se estivesse conversando com um amigo no bar. A vontade que dá é de transcrever o capítulo inteiro.

Ele começa o capítulo falando que, enquanto terminavam A Glória de um Covarde/The Red Badge of Courage, baseado em famoso romance passado na Guerra Civil americana, o produtor Sam Spiegel e ele começaram a pensar no projeto seguinte, e escolheram The African Queen, o romance de C. S. Forester (1899-1966), que havia sido lançado em 1935.

A Columbia tinha comprado do autor os direitos de filmagem, imaginando fazer um filme com o casal Charles Laughton e Elsa Lanchester, mas o plano não foi para frente, e a Warner comprou da Columbia os direitos, imaginando mais um projeto para Bette Davis brilhar. “Mas eles também não fizeram nada com o projeto”, escreve Huston.

Vai daqui, vai dali, mexe de cá, Sam Spiegel fez ofertas a empresas – e os direitos acabaram indo parar nas mãos da dupla Spiegel-Huston, produtor-diretor.

Anjelica Huston nasceu enquanto o pai filmava nas selvas da África

Depois que Katharine Hepburn e Humphrey Bogart aceitaram fazer os papéis principais, Sam Spiegel negociou com produtores ingleses a adesão deles e a entrega de libras esterlinas ao projeto – “íamos filmar em regiões cuja moeda corrente era a libra”.

“Enquanto Sam se esforçava para convencer, engambelar, pleitear e encantar nossos financiadores, Ricki e eu estávamos em Malibu, esperando nosso primeiro filho. Walter Anthony – o nome dos dois avós – nasceu em 16 de abril de 1950. Ricki usava o cabelo comprido e preto repartido ao meio; quando pegava nosso filho louro no colo, parecia uma madona da Renascença”.

A Ricki a que John Huston se refere é Enrica Sonia Soma, sua quarta mulher – mulher aí no sentido de esposa, cônjuge, de papel passado. Huston, nascido em 1906, havia se casado pela primeira vez aos 20 anos, em 1926. Depois, pela segunda vez, aos 31, em 1937. Depois, pela terceira vez, aos 40, em 1946. Evelyn Keyes, a esposa número 3, deu-lhe o primeiro filho.

Aos 44 anos, em 1950, no ano em que este pobre escriba nasceu, John Huston casou-se pela quarta vez –  com Enrica, Ricki, que lhe deu o Walter Anthony citado acima, e, em 1951, o terceiro filho, Anjelica. John só iria ver pela primeira vez o bebê Anjelica em Paris, ao retornar das filmagens de The African Queen.

Não tem a ver com The African Queen, mas aproveito aqui para lembrar que John Huston é o único diretor de cinema que já dirigiu o pai e a filha em desempenhos que conquistaram o Oscar. Seu filme O Tesouro de Sierra Madre, de 1948, estrelado por Humphrey Bogart e pelo grande Walter Huston, ganhou 3 Oscars: os de melhor direção e melhor roteiro para o Huston filho, e o de melhor ator coadjuvante para o Huston pai.

Muitos anos depois, em 1985, seu filme A Honra do Poderoso

Prizzi daria a Anjelica Huston o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Na época das filmagens, Kate Hepburn era muito maior que Huston

Acho absolutamente fantástica essa coisa de John Huston ter dirigido o pai e a filha em papéis que ganharam Oscar, mas é preciso voltar para a coisa de Kate Hepburn e Eleonor Roosevelt.

Tudo tem que ser compreendido dentro do seu contexto. De como eram as coisas naquela época em que se deram os fatos.

Em 1950, aos 44 anos de idade, John Huston já era um diretor de nome em Hollywood. Havia começado a carreira 20 anos antes, em 1930, como autor de diálogos; rapidamente havia se estabelecido como um bom escritor e roteirista – seu nome figurou como um dos autores do roteiro de Jezebel, produção de primeiríssima de 1938 feita para o brilho de Bette Davis.

Em 1940, com apenas 34 anos, havia estreado na direção, e seu primeiro filme, The Maltese Falcon, no Brasil Relíquia Macabra, um noir bem noir, baseado em Dashiell Hammett, havia sido elogiadíssimo pela crítica.

Havia servido Exército durante a Segunda Guerra, feito documentários impressionantes. Já havia dirigido Paixões em Fúria/Key Largo (1948), O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle (1950). Cacete, o cara já tinha um Oscar de melhor diretor por O Tesouro de Sierra Madre!

Mas tinha apenas 44 anos de idade – e, para Kate Hepburn, parecia um garoto, um iniciante.

A rigor, não era para ser. Kate é de 1907, um ano depois de Huston.

Acontece que Kate, em 1951, era uma das maiores estrelas de Hollywood. E Huston tinha muito menos nome que ela, era muito menor que ela.

“Bastava eu lhe dar qualquer conselho para ela fazer exatamente o contrário”

Eis o que diz John Huston em sua autobiografia:

“O lugar escolhido por nós lá no Ruiki (o nome de um dos rios da região) tinha o que certamente deve ter sido a flotilha mais estranha que as vias fluviais africanas viram até então. O African Queen forneceria a energia para puxar quatro balsas – esperávamos. Na primeira – e essa idéia foi minha – construímos uma reprodução perfeita do Queen. Transformou-se, praticamente, em nosso palco de filmagens. Dava para pôr as câmaras e o equipamento em cima dela e se deslocar de um lado para o outro, filmando Kate e Bogey na que serviu de modelo com a mesma facilidade que se encontraria dentro de um estúdio. A segunda carregava todas as máquinas, refletores e objetos de cena. A terceira levava o gerador. A quarta era de Kate, e continha privada, um espelho de corpo inteiro e camarim particular. Mas com essa, o peso ficou excessivo para o minúsculo Queen rebocar, e tivemos que desistir dela. Kate acabou tendo que usar o toalete natural da selva, como todos nós. O espelho se quebrou logo; as duas metades também se partiram e, por fim, Kate se viu forçada a segurar os pedaços com a mão enquanto se maquiava.

“Quando se reuniu ao nosso grupo, ela não disfarçou certo ceticismo com as perspectivas do resultado. Me considerava um diretor muito jovem, inexperiente – pude sentir suas reservas. Acho que Kate encarava a maioria das pessoas com bastante desconfiança, até se convencer do contrário. Mas o pior era que sua interpretação simplesmente não estava correta.

“A meu ver, não havia dúvida de que a formação de ‘Rosie’ lhe proibia ser mal-educada com qualquer pessoa de condição inferior, a menos que merecesse uma repreensão adequada. ‘Charlie Allnut’ não julgava que estivesse fazendo nada capaz de ofendê-la. Apenas se comportava com a maior naturalidade. Quanto a isso, uma dama não podia reclamar. Acontece, porém, que Rosie nem sequer se preocupava em ser cortês. Tratava Charlie, inclusive, com franca hostilidade. Fiz sugestões, que Kate preferiu ignorar. Para dizer a verdade, bastava eu lhe dar qualquer conselho para ela fazer exatamente o contrário.”

É fantástico como os relatos de Huston e Kate são parecidos

Huston prossegue sua narrativa dizendo que pediu uma conversa com Kate Hepburn:

“Expliquei, então, que a interpretação que ela estava dando a Rosie prejudicava não só o filme como também a personagem. Que sua conduta com Charlie a colocava em pé de igualdade com ele, quando deveria considerá-lo de nível tão inferior que só poderia tratá-lo como uma senhora trata os empregados. Isso, melhor que a falta de educação, abriria um abismo verossímil entre os dois.

“ – Uma senhora? – estranhou Kate, como se eu não soubesse que estava justamente na frente de uma de verdade. – “Que tipo de senhora? Você tem alguma idéia, John?

“Pensei um pouco.

“ – Eleonor Roosevelt. Pegue-a como modelo. Até amanhã, Kate.

Deu certo; ela compreendeu o que eu queria. A partir daí, ficou perfeito.”

Uma história envolvendo duas pessoas sempre tem duas versões – pelo menos. A história de como a grande, maravilhosa, soberba Kate Hepburn começou a interpretar Rose Sayer de forma errada, e foi corrigida por John Huston, no entanto, parece ser do tipo que é exceção e portanto confirma a regra.

Na biografia de Katharine Hepburn Uma Mulher Fabulosa, a escritora Anne Edwards conta de forma muito parecida com a de John Huston o diálogo entre os dois, após os primeiros dias de filmagem no Congo.

É interessante ver como Anne Edwards fala das condições do local:

“Seu bangalô (o de Kate, claro) era construído de bambu e folhas de palmeira, com pequenas janelas com tela e armários feitos de cortinas. O chão era sujo, coberto com esteiras. Uma garrafa d’água ao lado de uma bacia. O banheiro era do lado de fora e o chuveiro uma lata cheia d’água fria suspensa numa pequena plataforma (uma invenção que Huston tinha trazido do tempo que passou no Exército). Quando se puxava uma corrente, dentro da lata um disco levantava e a água caía pelo buraco do fundo da lata.”

A biógrafa de Kate relata que Huston pediu uma conversa com a estrela. Eis o que está no livro:

“Huston explicou: “Sua interpretação de Rosie não está boa para o filme e também não está de acordo com o personagem.” Aí ele se sentou e perguntou: “Você alguma vez viu nos jornais cinematográficos a sra. Roosevelt visitando soldados nos hospitais?’

“Kate respondeu que sim.

“ – ‘Bem, creio que Rosey é um pouco como a sra. Roosevelt.’ Ele se levantou, deu um toque no seu chapéu de safári e foi embora.

“ ‘Bem, foi a sugestão mais brilhante que ele podia me dar’, Kate recordava anos depois. ‘Porque a sra. Roosevelt era tão feia que sorria sempre. E eu comecei a sorrir. Além disso, ele me dizia muito pouca coisa durante as filmagens. Mas foi excelente indicação de direção… Exata!’” (Na foto, Huston e Bogart durante as filmagens.)

Até a chegada de Meryl Streep, Kate Hepburn era a atriz mais premiada

Só para lembrar: até a chegada de Meryl Streep, Kate Hepburn era a atriz mais premiada pela Academia. Kate ganhou 4 Oscars, e teve outras 8 indicações ao prêmio.

Quase comparável a ela, só havia Jane Fonda – 2 Oscars, fora 5 outras indicações.

Aí surgiu Mertyl Streep. Fez um pontinha num dos 7 filmes em que Jane Fonda foi indicada ao prêmio da Academia, Julia (1977), e a filha do grande Henry reparou nela e chamou a atenção de todo mundo: aquela moça de nome esquisito parecia ter imenso talento.

Essas coisas que acontecem.

Não tem nada a ver com este The African Queen, mas Kate, Henry e Jane trabalhariam juntos, um belo dia. Foi a única vez em que Henry trabalhou ao lado da filha, e foi a única vez em que Kate trabalhou com ele. O filme, claro, é Num Lago Dourado/On Golden Pond (1981); Henry Fonda e Kate Hepburn levaram os Oscars; indicada como coadjuvante, Jane perdeu.

Charlie enche a cara e diz umas verdades; Rose então joga fora todo o gim dele

Uma das sequências mais fascinantes deste filme fascinante é aquela em que Charlie Allnut enche a cara de gim e aí tem a coragem de dizer para a emproada Miss Rose um monte de verdades.

Pobre Charlie! Dorme bêbado feito um gambá, e quando acorda, na manhã seguinte, vê Miss Rose jogando nas águas do rio em que navegam o conteúdo das diversas garrafas de gim que o barco African Queen carregava, a única garantia de que ele poderia ter alguns momentos de felicidade no meio a tantos perigos.

Juro que, ao rever o filme agora, mais de 40 anos depois da última vez que o vi (ou que anotei que o vi, o que não é mesmo, mas é quase igual, como diria Silvio Rodriguez), naquele momento fiquei gritando que Charlie deveria dar umas boas porradas naquela mulher absurda.

“Uma das aventuras mais impressionantes , divertidas e cativantes de Hollywood”

O CineBooks’ Motion Picture Guide deu sua cotação máxima de 5 estrelas ao filme:

“Um filme de primeira ordem, contendo diálogo gostoso e um dos finais mais felizes de todos os tempos, The African Queen tem tudo – aventura, humor, fotografia espetacular, atuações soberbas, e ação excitante.”

Diz o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer:

“O clássico de 1951 de John Huston é uma das aventuras mais impressionantes , divertidas e cativantes de Hollywood.”

Diz o Guide de Films de Jean Tulard:

“Um filme de guerra? Um filme de aventuras exóticas? Uma história de amor? African Queen é tudo isso, e mais ainda. E, pela primeira vez, os dois heróis escapam da fatalidade da derrota que pesava sobre os personagens dos filmes precedentes de John Huston. Interpretação admirável de Bogart (um Oscar) e Hepburn, e exteriores filmados na África.”

É isso aí. É uma absoluta delícia de filme. Não é à toa que é um dos mais adorados de todos os filmes do período clássico de Hollywood.

Anotação em maio de 2017

Uma Aventura na África/The African Queen

De John Huston, EUA-Inglaterra, 1951

Com Humphrey Bogart (Charlie Allnut), Katharine Hepburn (Rose Sayer)

e Robert Morley (reverendo Samuel Sayer), Peter Bull (capitão), Theodore Bikel (primeiro oficial), Walter Gotell (segundo official)

Roteiro James Agee & John Huston, com participação de John Collier e Peter Viertel (não citados nos créditos)

Baseado no romance de C.S. Forester

Fotografia Jack Cardiff

Música Allan Gray

Montagem Ralph Kemplen

Produção Sam Spiegel, Romulus Films, Horizon Pictures, United Artists.

Cor, 105 min (1h45).

R, ****

Título na França: La Reine Africaine. Em Portugal: A Rainha Africana.

2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 11 outubro 2017 às 8:04 pm | Permalink

    Você me deixou com vontade de reler a biografia do John Huston… Uma história melhor que a outra… Não poderia ser melhor, começar o feriadão com esse texto-presente seu 🙂

  2. Carla
    Postado em 11 outubro 2017 às 9:49 pm | Permalink

    Ler essa matéria me fez lembrar da minha mãe, fã numero 1 de Bogart, e que adorava este filme. Fosse ela viva, eu estaria lendo para ela a sua matéria sobre Uma aventura na África, como eu costumava fazer quando achava algo que podia interessa-la na internet.
    Obrigada por me fazer lembrar 🙂

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