Um Amor em Chinatown / Eat a Bowl of Tea

Nota: ★★★☆

Wayne Wang, chinês nascido em Hong Kong, em 1949, exatamente como seu contemporâneo Ang Lee, chinês nascido em Taiwan, em 1954, entremeia na carreira filmes absolutamente americanos, sem nada a ver com a China, com outros especificamente sobre a comunidade chinesa nos Estados Unidos, para onde seus pais emigraram.

Acho fascinante essa coincidência, essa característica comum às carreiras dos dois competentes e talentosos cineastas.

O quarto longa-metragem de Ang Lee foi uma bela versão do clássico de Jane Austen Razão e Sensibilidade (1995), com roteiro de Emma Thompson e, no elenco, ela mesma, Emma Maravilha Thompson, mais Kate Maravilha Winslet, Hugh Grant e Tom Wilkinson. Clássico da literatura inglesa, roteirizado e interpretado por ingleses.

Logo em seguida veio Tempestade de Gelo (1997), um exame das mudanças comportamentais e sexuais dos anos 60 e 70 que chegavam às famílias abastadas, Wasp – brancas, anglo-saxãs e protestantes – de Connecticut.

Na mesma época, Wayne Wang dividia com o americaníssimo escritor Paul Auster a realização de um díptico sobre o multiculturalismo no Brooklyn, em Nova York, os deliciosos Cortina de Fumaça e Sem Fôlego, ambos de 1995.

E, em 1999, realizava Em Qualquer Outro Lugar, um drama sobre os conflitos e a tensão entre mãe e filha que deixam uma pequena cidade interiorana e se mudam para Los Angeles – um belo filme, com atuações esplêndidas de Susan Sarandon e a então jovenzinha Natalie Portman.

Paralelamente a estes filmes sobre personagens Wasp, tanto Wayne Wang quanto Ang Lee realizavam filmes sobre a comunidade chinesa nos Estados Unidos. O terceiro longa de Ang Lee foi Banquete de Casamento (1993), uma ótima mistura de drama e comédia sobre um casamento por conveniência entre um gay enrustido e uma jovem, os dois descendentes de chineses.

Pouco antes, em 1989, Wayne Wang havia feito este Eat a Bowl of Tea, no Brasil Um Amor em Chinatown, em que, como no filme de Ang Lee, há um casamento por conveniência, arranjado pelos pais.

Uma comunidade tão grande assim merece ter quem conte suas histórias

Demorei para chegar especificamente a Um Amor em Chinatown/Eat a Bowl of Tea. Em jargão jornalístico, fiz um baita nariz de cera. Mas achei que deveria registrar essas similaridades entre esses dois importantes diretores sino-americanos.

Havia nos Estados Unidos, segundo o Censo de 2010, cerca de 3,8 milhões de descendentes de chineses. Eles representam cerca de 1,2% da população total do país.

É a maior comunidade chinesa fora da Ásia, e a terceira maior da diáspora chinesa, para usar o termo que está na Wikipedia, após a Tailândia e a Malásia.

Em português escorreito, é chinês a dar com o pau.

Uma comunidade tão grande assim merecia sem dúvida alguma ter cineastas que contasse suas histórias com a visão de quem conhece aquela realidade de perto, de muito perto, do lado de dentro.

Leis de Exclusão proibiram durante décadas a entrada de chinesas nos EUA

Um letreiro no início do filme informa que estamos na Chinatown de Nova York, em 1949.

Vamos vendo diversas imagens de uma Chinatown refeita pela direção de arte para parecer a de 1949. Um senhor já passando da meia-idade trabalha em um clube da comunidade chinesa em que se permitem jogos a dinheiro. Ele sai do clube, caminha pelas ruas, vai à casa de uma prostituta, sai, volta às ruas. Veremos que se chama Wah Gay (é interpretado por Victor Wong).

Wah Gay não é o protagonista da história – o filho dele, que demora um pouquinho a aparecer, é que. Mas é o velho Wah Gay, com a voz em off de Victor Wong – que narra para o espectador um pouco sobre a comunidade chinesa nos Estados Unidos, enquanto vamos vendo aquela série de imagens de Chinatown:

– “Anos atrás (é necessário ter em mente que ele está falando em 1949), os chineses vieram para a América deixando suas mulheres para trás. Eles achavam que iam enriquecer, voltar para a China e lá ser figurões. Raramente as coisas aconteceram assim.”

A voz em off fala bem devagar, com pausas entre uma frase e a outra.

– “Então vieram as Leis de Exclusão. Eles eram tratados de forma diferente do que os outros imigrantes. Por 60 anos, os chineses não puderam se tornar cidadãos, e nenhuma mulher chinesa pôde vir para a América. Nem mesmo a esposa. Nem mesmo a filha. Chinatown estava morrendo. Os homens iam envelhecendo. Seus filhos não conseguiam encontrar mulheres com quem se casar, e não havia famílias.”

Vemos agora objetos dentro do apartamento de Wah Gay – um relógio de bolso, uma antiga fotografia de uma mulher com um filho garotinho.

– “Bem, a Segunda Guerra Mundial mudou tudo isso. A China virou aliada da América. O Congresso aprovou novas leis. Os veteranos puderam se tornar cidadãos como todos os demais imigrantes. E os jovens que lutaram no Exército dos Estados Unidos puderam voltar à China, encontrar uma noiva e trazê-la para a América. Num dia estávamos morrendo – e aí de repente todos estavam falando em preparar o casamento dos filhos e em quantos netos cada um iria ter.”

Começa leve, quase cômico, e depois vai travando, travando – vira um drama

Um dos muitos amigos de Wah Gay é Lee Gong (Siu-Ming Lau), que veio da mesma aldeia chinesa. Cai a ficha para os dois: Ben Loy, o filho de Wah Gay, é um rapagão que está aí com uns 24 anos; serviu o Exército, é forte, boa praça. E Lee Gong tem uma filha, Mei Oi, que ele nunca viu – emigrou para os Estados Unidos quando a mulher estava grávida. Mei Oi era mais ou menos da mesma idade de Ben Loy. Logo…

Logo Wah Gay entrega para o filho o pacote completo: passagens para San Francisco e de lá até a China, muitas lembranças para a mãe, e, o mais importante de tudo: a ordem de que procure Mei Oi, case-se com ela, e volte com ela para ter um bando de filhos na América.

Um casamento arranjado, um casamento de conveniência – como o focalizado em Banquete de Casamento de Ang Lee.

Sim – mas a coincidência acaba aí.

Porque Ben Loy obedece ao pai, viaja até a China, fica conhecendo Mei Oi – e acontece que os dois simpatizam muito um com o outro, gostam muito da idéia de se casarem. E se casam – por amor.

Quando o jovem casal pisa em Nova York, o filme está aí com não mais que 30 minutos. A história toda ainda está por acontecer, e acho que não é necessário relatar muito mais o que virá: a rigor, seria spoiler.

Fundamental é dizer que os pais dos dois jovens, os vizinhos, todos, absolutamente toda a comunidade, toda a Chinatown de Nova York cobrará que eles tenham logo um primeiro filho, para que logo em seguida venha outro, e outro, e outro.

Arranjam para Ben Loy um emprego – como gerente de um grande restaurante – que exigirá dele uma quantidade infernal de horas de trabalho.

A pressão sobre ele será grande demais.

Wayne Wang começa contando a história de uma forma leve, suave, bem humorada, engraçada. Quase cômica.

Vai travando, travando. O tom permanece suave – mas a história passa a se desenrolar como um drama.

É um belo filme.

Wayne Wang colocou no meio de seu belo filme dois filmes sobre China e EUA

O ator que interpreta Ben Loy é Russel Wong, rapaz bonitão, simpático, charmoso. Nasceu em Nova York, em 1963, de pai chinês e mãe americana de origem holandesa. Tem mais de 50 títulos no currículo.

Quem faz Mei Oi é Cora Miao, bela moça, boa atriz, nascida em Xangai, em 1958. Entre 1976 e 1985, fez 12 filmes em Hong Kong; em 1985 fez sua estréia em um filme americano com Dim Sum: A Little Bit of Heart. Esse filme não tem título em português; provavelmente não foi exibido comercialmente aqui; foi o terceiro dirigido por Wayne Wang.

Não deu outra: Wayne Wang e sua atriz se casaram – e estão casados até hoje.

Uma característica interessante deste Um Amor em Chinatown é que não há muitas referências ao comunismo, ao regime comunista, apesar de a ação se passar a partir de 1949, exatamente o ano em que terminou a guerra civil chinesa, com o Partido Comunista de Mao-Tsé Tung proclamando a República Popular da China.

Numa hora lá, os chineses mais velhos estão conversando e alguém fala que não adianta mandar dinheiro para a mulher comprar terras, porque os comunistas iriam tomar tudo. Creio que quem diz isso é o próprio Wah Gay, um sujeito pão-duro que mandava para a mulher, a mãe do protagonista Ben Loy, o mínimo possível de dinheiro.

É uma das únicas – se não for a única – referência que se faz ao comunismo. Ben Loy viaja para sua aldeia no interior da China, casa-se lá com Mei Oi, e os dois retornam para os Estados Unidos sem que haja qualquer referência a problemas com documentação, com aduana, fronteira, coisa alguma.

Aliás, na aldeia das famílias de Ben Loy e Mei Oi é exibido, numa gigantesca tela ao ar livre, Horizonte Perdido/Lost Horizon (1937), o grande clássico de Frank Capra sobre o mundo utópico de Shangri-la. Um chinês traduz para os habitantes da aldeia o que os personagens estão falando.

É uma seqüência que evidentemente Wayne Wang fez com especial carinho. Metalinguagem é isso aí: no filme de mestre Capra, o cineasta mais esperançoso, otimista, believer que já existiu, um grupo de americanos descobre por acaso Shangri-la, o mundo perfeito, quando acontece um acidente e o avião em que viajavam cai… no interior da China!

Com Horizonte Perdido sendo projetado atrás deles, os dois jovens, o rapaz agora perfeitamente americano e a moça do interiorzão da China, dão seu primeiro beijo.

Há um outro filme dentro deste belo filme. Já nos Estados Unidos, o casal assiste a A Dama de Shangai (1947), e vemos na tela Orson Welles e Rita Hayworth. Outro filme americano que fala de China.

“Um filme que ninguém mais, a não ser Wang, poderia ter feito”

O roteiro de Um Amor em Chinatown é de Judith Rascoe, uma californiana que escreveu apenas nove roteiros em sua carreira – um deles foi Havana (1990), o belo filme de Sydney Pollack com Robert Redford e Lena Olin que defende a revolução cubana.

O roteiro parece ter sido fiel ao livro em que se baseia: Eat a Bowl of Tea, do sino-americano Louis Chu, lançado em 1961, é tido como um dos primeiros romances a tratar da comunidade chinesa nos Estados Unidos.

Nem o Guide de Films de Jean Tulard nem Le Petit Larousse des Films traz verbete sobre o filme.

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 e fez um verbete extremamente conciso mas atento: “De 1924 até o final da Segunda Guerra Mundial, a maioria das mulheres chinesas não tinha permissão para acompanhar seus maridos que emigraram para os Estados Unidos. Essa charmosa mas afiada comédia étnica narra o que acontece quando a proibição foi levantada, e o americano de nascimento Russell Wong traz sua noiva nascida na China Miao para Nova York. Um filme que ninguém mais, a não ser Wang, poderia ter feito.”

Entre 1868 e 1943 estiveram em vigor normas contra a chegada de chineses

Os governos da China e dos Estados Unidos assinaram em 1868 um tratado, chamado Burlingame, que abria espaço para permitir que os EUA proibissem a imigração chinesa. Em 1880, os termos daquele documento passaram por uma revisão, resultando num novo tratado, chamado Angell. Em 1882, o então presidente americano editou um Chinese Exclusion Act, uma lei federal proibindo a imigração de trabalhadores chineses que deveria durar apenas 10 anos. No entanto, a lei foi renovada e tornada permanente em 1902. Apenas em 1943, no meio da Segunda Guerra Mundial, ela viria a ser derrubada, e é a isso que se refere o filme – cuja ação se passa, como já foi dito, em 1949.

Houve ondas migratórias da China para a América do Norte – tanto para os Estados Unidos quanto para o Canadá – a partir da corrida do ouro na Califórnia, entre 1848 e 1855. Milhares de chineses iriam trabalhar como operários na implantação da primeira rodovia transcontinental.

Passada a febre da descoberta de ouro, com a competição por vagas de trabalho aumentando, foi crescendo também a animosidade contra estrangeiros, em especial os chineses – e dessa animosidade resultaram aqueles acordos e o Chinese Exclusion Act.

A presença de chineses no Oeste americano ainda no século XIX foi mostrada, em geral de maneira superficial, en passant, em vários westerns. Em El Dorado (1967), por exemplo, o personagem de James Caan imita um chinês. Ainda bem recentemente, em O Cavaleiro Solitário/The Lone Rider (2013), vê-se uma horda de chineses trabalhando na construção de uma ferrovia. As Chinatown de Los Angeles, San Francisco e Nova York são grandes e muito antigas, assim como a de Toronto.

Obviamente eu nunca tinha ouvido falar nesse Chinese Exclusion Act, nessas proibições de vinda das mulheres chinesas, esses fatos mostrados em Um Amor em Chinatown. Vi informações sobre isso na Wikipedia agora, ao fazer esta anotação.

É triste, mas esses fatos levam à dolorosa constatação de que a xenofobia é algo bem arraigado na História dos Estados Unidos.

Donald Trump é apenas uma face mais nova – e mais grotesca – desta triste doença.

Anotação em maio de 2017

Um Amor em Chinatown/Eat a Bowl of Tea

De Wayne Wang, EUA, 1989

Com Russell Wong (Ben Loy), Cora Miao (Mei Oi), Victor Wong (Wah Gay), Siu-Ming Lau (Lee Gong), Eric Tsang (Ah Song), Sau Sau Kei (Bok Fat), Yuen Fat Fai (o que escreve as cartas), Fan Hui (a mãe de Ben Loy), Lan Law (tia Gim), Yuen Yee Ng (a terceira irmã), Wu Ming Yu (a mãe de Mei Oi), Wai Wong (Chuck Ting), Philip Chan (Henry Wang)

Roteiro Judith Rascoe

Baseado no livro homônimo de Louis Chu

Fotografia Amir Mokri

Música Mark Adler

Montagem Richard XCandib

Produção Tom Sternberg, Wayne Wang, American Playhouse.

Cor, 102 min (1h42)

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