Sobre Café e Cigarros / Coffee and Cigarettes

Nota: ★★★☆

Só mesmo Jim Jarmusch, o diretor mais minimalisticamente cool, o cara que fez Estranhos no Paraíso (1984) e Down By Law (1986), poderia cometer este Coffee and Cigarettes, lançado como longa metragem de 95 minutos em 2003.

A rigor, não é um longa metragem. É a reunião de 11 curta-metragens, feitos ao longo de 17 anos. Todos eles se passam em torno de uma mesa em que os personagens fumam e tomam café, em geral em doses industriais. A maioria não tem propriamente uma história, uma trama, ainda que mínima. Sequer personagens: quase todos os atores interpretam a si mesmos.

Na maioria dos 11 segmentos, vemos duas pessoas conversando sem ter o que conversar, sem ter o que dizer. Então o que sai é um monte de abobrinha, papo furado do cão, puro e simples.

Eis, por exemplo, como rola o primeiro segmento, Strange to Meet You, com Roberto Benigni e Steven Wright.

Benigni está com aquele jeito Benigni, o cabelo propositadamente, cuidadosamente desarrumado, sentado diante de uma pequena mesa de bar na qual há quatro xícaras de café. Ele está tomando o que parece ser a quarta dose, e fuma um cigarro avidamente. Está idêntico ao jeitão Benigni de ser que foi mostrado em Down by Law, e isso não é à toa, porque o curta Strange to Meet You, que viria a ser parte do longa de 2003, foi feito em 1986, seguramente durante as filmagens de Down by Law.

Chega Steven Wright. Begnini se levanta e o cumprimenta: – “Olá! Steve?”

Steven, corrigindo: – “Steven. Steven. Olá.”

Begnini: – “Sente-se.”

Steven: – “Roberto?”

Begnini: – “Estou cansado, sabe?”

Steven: – “É? Você está cansado? Eu também.” (E, depois de mais duas frases: ) – “O que você está bebendo? Café?”

Begnini: – “Sim, café. Eu adoro café.”

Steven: – “Eu também.”

E por aí vai. Lá pelas tantas, depois de ter sido chamado de Steve diversas vezes pelo insuportável Begnini, Steven diz que tem que ir ao dentista, mas não tem vontade. Depois de mais algumas frases zonzas, Begnini se oferece para ir ao dentista do lugar de Steven – e aí se levanta da mesa e sai do bar.

E é isso. That’s all, folks.

Frente a frente, Tom Waits e Iggy Pop. Eta sujeitos feios!

Jim Jarmusch ainda mais minimalista do que nos seus dois primeiros deliciosos longas, Estranhos no Paraíso e Down By Law.

Mais minimalista que isso, impossível.

Achei esse primeiro segmento especialmente bobo porque – confesso sem um pingo de vergonha – acho esse Roberto Begnini um chato de galocha. Mas é bobo também, por exemplo, o segmento 4, com o grande Tom Waits – ele também um dos atores de Down by Law – e Iggy Pop. Os dois músicos são pessoas simpáticas, boas figuras – mas o papo deles diante da câmara de Jarmusch é furadérrimo.

Iggy Pop está num bar, tipo lanchonete. Observa a máquina de tocar música, um belo exemplar de juke box. Senta-se, sorve um gole de café. Close no rosto dele. Tom Waits está atrasado. Tom Waits e Iggy Pop são sérios candidatos ao título de dupla mais feia que já apareceu numa tela de cinema.

Iggy: – “Oi!”

Tom: – “Oi!”

Iggy: – “Que bom que você veio. Você está aqui.”

Tom: – “Yeah…”

Iggy: – “Você pode me chamar de Jim. Meus amigos me chamam de Jim, Jimmy, Iggy ou Piggy. Me chame de Iggy. É, Iggy.”

Tom, depois de ter tirado o chapéu, e já segurando um cigarro: – “OK. Chamo você como você quiser, Jim ou Iggy…”

Iggy: – “Iggy. Pode me chamar de Iggy.”

Tom: – “Olhe, desculpe o atraso, Jim. Cara, teve uma batida de quatro carros. Fiz um parto hoje. Eu estava salvando vidas no meio da estrada, estava… Sabe, não há nada pior do que uma cirurgia no meio da estrada. Sem meus instrumentos, sabe como é… é homicídio. Já fiz uma traqueostomia com uma caneta esferográfica. Uff… Ando trabalhando muito.”

Iggy, com uma expressão de grande curiosidade, de quem está confuso: – “Péra aí. Você é médico?”

Tom, cara séria: – “Yeap. Sou médico. Música e medicina são minha vida. É só combinar os dois e viver desse encontro. Muita gente diz que isso aparece na minha música… Não sei, é…

Iggy: – “Tá legal, tudo bem.”

Tom: – “É?”

Iggy: – “É. Entendo perfeitamente. Nossa. Certo, posso… A organização é tudo. E acho que é a solidariedade. É o mais importante, com certeza.”

Para se compreender esse diálogo maluco, seria necessário que o espectador soubesse que Tom Waits é famoso por contar histórias loucas, absolutamente imaginárias, como se fossem a mais pura, cândida verdade dos fatos. Eu não sabia disso. Fiquei sabendo depois que vi o filme e li as informações sobre ele na página de Trivia do IMDb.

Já que pararam de fumar, os dois músicos podem então fumar um tranquilos

O papo continua. Tom comenta que o outro já estava ali no bar fazia tempo. Iggy diz que sim, estava ali tomando café. Tinha até pedido um pouco para ele também – e aí serve café para Tom. Jarmusch coloca a câmara bem no alto, suspensa por uma grua, e a câmara mostra a mesa de cima para baixo, Iggy Pop botando café na xícara colocada diante de Tom Waits. Na mesa – coberta com uma toalha quadriculadinha – há um maço aberto de Marlboro e uma caixinha de fósforos.

(Essa coisa da tomada em plongée, câmara lá em cima, no teto, mostrando a mesa lá embaixo, é repetida várias vezes nos 11 segmentos. O detalhe de o forro da mesa ser quadriculadinho também.)

A conversa fascinante, séria, profunda, quase metafísica, prossegue.

Tom, apontando para o maço de Marlboro: – “Esse cigarro é seu?”

Iggy: – “Não, não. Já estava aí quando eu cheguei. Você não fuma, né?”

Tom: – “Não, eu parei.”

Iggy: – “Eu também! Nossa!”

Tom: – “Chega!”

Iggy: – “Já chega. 25 anos. Nossa!”

Tom: – “Acabou.”

Iggy: – “Agora tenho energia.”

Tom: – “Me sinto ótimo.”

Iggy: – “Desde que parei, tudo está tão… “

Tom: – “Focado.”

Iggy: – “Concentrado.”

Tom: – “Eu também.”

Iggy: – “Tenho pena dessas idiotas que ainda soltam fumaça.

Tom: – “Sem força de vontade.”

E, depois de uma pausa, Tom filosofa: – “A beleza de largar o cigarro é… agora que eu parei… eu posso fumar um, já que parei.”

Iggy faz um ar de espanto com aquela cara feia dele.

Tom, o tempo todo segurando um cigarro apagado na mão: – “Sabe, é como uma jóia. Não é assim… (Pega o fósforo para acender finalmente o cigarro.) Eu nem trago. Quer um para me acompanhar?”

Iggy: “Bem… Quero. Já que eu parei…”

Jarmusch é um daqueles realizadores que não conseguem separar cinema e música

Esse segmento 4, assim como todo o filme, tem lá sua graça. Na verdade, tem muita graça – ao rever agora, para anotar o diálogo, me diverti muito mais do que quando vi o filme pela primeira vez, alguns dias atrás.

A graça vem exatamente do papo furado, da falta de trama. Do minimalismo. Da situação que se repete: duas pessoas, uma mesa entre elas, café e cigarros – eventualmente, um garçom.

Steve Buscemi faz um garçom no episódio 3, Gêmeos, em que dois irmãos, Joie Lee e Cinqué Lee, irmãos também de Spike Lee, estão conversando, e aí o garçom se intromete na conversa e começa a contar que Elvis Presley tinha um irmão gordo que às vezes se fazia passar por Elvis, que nunca foi gordo daquele jeito e nunca ficou cantando para turistas bêbados e endinheirados em Las Vegas – quem fez todas essas merdas foi o irmão gordo.

Quem gosta de Jim Jarmusch sabe, é claro, que Elvis é um tema sempre presente para ele. Mistery Train, de 1989, uma delícia de filme, conta três histórias passadas em Memphis e relacionados, evidentemente, ao cantor-mito.

O próprio Cinqué Lee reaparece no episódio 9, Jack mostra a Meg sua bobina de Tesla, como o rapaz da cozinha do bar em que os irmãos Jack e Meg White conversam sobre algo que me pareceu próximo a física quântica. Jack e Meg White formam a banda The White Stripes. Jarmusch é um daqueles sujeitos que não conseguem dissociar cinema de música – um tanto assim como Jonathan Demme, Cameron Crowe.

Que coisa mais saudável haver um filme tão politicamente incorreto!

Ao falar da coisa dos garçons, acho que me desviei um pouco do que pretendia dizer sobre de onde vem a grande graça desse filme que, para as pessoas mais mal-humoradas, pode parecer um abacaxi incompreensível.

A graça vem – além do exercício de minimalismo, que é sempre gostoso, sempre interessante – da ênfase no politicamente incorreto.

Que maravilha haver um filme americano da primeira década do novo milênio que, remando contra todas as correntes, contra a maré, contra tudo, contra todos, faz a elegia do cigarro, esse troço que foi simplesmente uma das coisas mais glamourizadas pelo cinema, pela propaganda, por todas os meios, até os anos 1960, 1970, pelo menos – e de repente virou o Inimigo Público Número 0, mais mortal, fatal, letal do que a gordura, a carne vermelha, a manteiga, o queijo, o ovo, o sal, o açúcar, o glúten, e tudo o mais que a humanidade veio consumindo sofregamente ao longo de milênios mas agora de repente não pode mais.

Está cada vez mais raro ver alguém fumar, nos filmes americanos dos últimos anos. Só fumam os personagens de histórias do remoto passado – 1960 para trás –, como, por exemplo, os publicitários da série Mad Men, uma dos melhores produções do cinema americano nas últimas décadas, embora feita para a TV, ou então os bandidos, os personagens de caráter definitivamente ruim.

Há uma patrulha do povo do saudabilidade correta contra os filmes que têm personagens que fumam. Costumam divulgar, como se fosse uma nota, uma graduação, o número de cigarros que cada nova produção apresenta.

E não digo isso por ser fumante – bem, fumante praticante, ao menos. Parei de fumar uns três atrás, como todo mundo da minha geração, do meu meio, parou. (Outro dia, fizemos um almoço de velhinhos, uns 30; destes 30, seguramente uns 27 tinham sido fumantes – 26 eram ex-fumantes, e apenas uma pessoa entre nós continuava fumando, danada da vida por não ter conseguido ainda parar.)

Sou ex-fumante, ou fumante atualmente não-praticante – mas, exatamente do mesmo jeito que na minha época de fumante ativo, acho um saco, um porre, um horror a patrulha anti-fumo. Eta povo chato, siô!

E então Coffee and Cigarrettes me dá uma grande alegria por ser tão contra a maré, contra a onda, contra tudo e todos.

Só diria que o filme deveria ser evitado por fumantes que estão no processo de parar de fumar. Para esse tipo de gente, o filme deve dar uma vontade louca de acender um, dois, três, quatro, vinte.

Quanto a a Mary e a mim, passamos bem pelo teste. Vimos ali os 95 minutos de gente fumando que nem chaminé, e sequer tivemos vontade de fumar. Ultrapassamos o ponto de retorno obrigatório.

Há muita improvisação. Mas gostei mais dos episódios mais trabalhados

Na maior parte dos segmentos, os atores tiveram liberdade para improvisar, e improvisaram muito. É um dos encantos do filme.

Gostei especialmente, no entanto, de dois segmentos que me pareceram mais estudados, preparados, ensaiados, bem pensados. Um deles se chama Primos?, assim, com o ponto de interrogação. O outro se chama Primas, sem pontuação alguma.

Em Primos?, Alfred Molina se encontra com Steve Coogan. Não tinha idéia de quem fosse Steve Coogan, embora conhecesse Alfred Molina de vários filmes, mas não é isso que importa. Nesse episódio, o ator Alfred Molina havia pedido um encontro com o ator Steve Coogan. E Steve Coogan interpreta a si mesmo como se ele fosse um sujeito muito famoso, muito bem ucedido, e se julgasse superior a Alfred Molina. Steve Coogan esnoba Alfred Molina.

De repente, no meio da conversa dos dois ao redor de uma mesa de café, toca o telefone de Alfred Molina. Ele atende, diz “alô, Spike”, e conversa com Spike como se fossem amigos íntimos. Quando ele desliga, Steve Coogan, que havia esnobado Molina, diz algo tipo: – “Eu não sabia que você era tão íntimo de Spike Lee.” E Molina, como não quer nada, diz: “Ah, não era Spike Lee, era Spike Jonze.”

Ser íntimo de Spike Lee é algo muito bom. Mas ser amigo de Spike Jonze é ainda muito, muito mais importante, muito mais cool – e então o bobão do Steve Coogan se sente um idiota por ter esnobado Alfred Molina.

Tudo o que Jim Jarmusch faz me parece bom – ou então muito bom

Mas o melhor de todos os 11 segmentos, na minha opinião, é o oitavo, intitulado Cousins – Primas.

São duas personagens, há uma mesa entre elas, e haverá café – mas é só uma atriz fazendo as duas, e é uma atriz extraordinária, das melhores que há hoje em dia, Cate Blanchett.

Cate Blanchett está num grande hotel de alguma metrópole, para divulgar um novo filme que está estreando, e sua prima Shelly foi até o hotel para vê-la. A Cate Blanchett atriz aparece como é ela mesmo, loura. A prima Shelley, Cate Blanchett interpreta com um peruca de cabelos negros.

A atriz tenta ser gentil, simpática, com a prima. A prima é um poço de frustração, e tem ódio do fato de a prima ter sucesso.

Interpretando duas pessoas diferentes, que vemos juntas, lado a lado, na tela, Cate Blanchett mostra seu imenso talento. É de babar.

Para mim, o painel de segmentos filmados ao longo de 17 anos por Jim Jarmusch demonstra que, quando ele bota seus amigos – atores, ou músicos, ou as duas coisas – para improvisarem, minimalisticamente, sai coisa boa.

Mas, quando ele trabalha um pouco sua idéia original, quando ele deixa de usar atores ou músicos que simplesmente interpretam a si mesmos, e cria um mínimo de história, um mínimo de personalidade dos personagens, ele consegue fazer coisa muito, muito, muito boa.

Não tem jeito: gosto demais de tudo o que Jim Jarmusch faz.

Anotação em dezembro de 2016

Sobre Café e Cigarros/Coffee and Cigarettes

De Jim Jarmusch, EUA-Japão-Itália, 2003

Com (segmento Strange to Meet You) Roberto Benigni, Steven Wright,

(segmento Twins) Joie Lee, Cinqué Lee, Steve Buscemi (Danny, o garçom)

(segmento Somewhere in California) Iggy Pop, Tom Waits

(segmento Those Things’ll Kill Ya) Joseph Rigano,Vinny Vella, Vinny Vella Jr.

(segmento Renée) Renee French, E.J. Rodriguez (garçom)

(segmento No problems) Alex Descas, Isaach De Bankolé

(segmento Cousins) Cate Blanchett (como ela mesma e como Shelly, a prima), Michael Hogan (garçom)

(segmento Jack Shows Meg His Tesla Coil) Jack White, Meg White, Cinqué Lee (rapaz da cozinha)

(segmento Cousins?) Alfred Molina, Steve Coogan, Katy Hansz

(segmento Delirium) GZA, RZA, Bill Murray

(segmento Champagne) William Rice, Taylor Mead

Argumento e roteiro Jim Jarmusch

Fotografia Tom DiCillo (segmento Strange To Meet You),

Frederick Elmes (segmento Somewhere in California),

Ellen Kuras (segmentos Renee, No Problem),

Robby Müller ((segment Twins)

Montagem Jim Jarmusch (segmento Somewhere in California),

Terry Katz (segmento Somewhere in California),

Melody London (segmentos Twins, Strange to Meet You)

Produção Asmik Ace Entertainment, BIM Distribuzione, Smokescreen Inc. DVD

P&B, 95 min

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2 Comentários

  1. Claudia A
    Postado em 30 abril 2017 às 3:39 am | Permalink

    Olá Sergio!

    Acabei de chegar em seu enorme arquivo e por isso só li duas resenhas.(antes tarde do que nunca)
    Tambem sou grande fã de Jarmusch. Assisti novamente Coffee & Cigarettes e o “Primos ?” com Molina é genial.

    Achei interessante ver aqui no site que na coluna onde os filmes estão agrupados por categoria, existe o tema COMIDA. Então gostaria de dizer que caso você não tenha assistido “Tampopo”, creio que ele renderia um otimo texto.
    Você escreve de um modo despojado mas investigativo. E, ao contrario de criticos que fazem resenha sob encomenda, sua personalidade transparece nas analises e você não se auto-censura. Um diferencial valioso.

    O filme que citei saiu em DVD no Brasil. “TAMPOPO – Os Brutos Tambem Comem Espaguete”
    de Juzo Itami.

    Abraço. Parabens !

    Claudia

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 30 abril 2017 às 2:55 pm | Permalink

    Olá, Claudia!

    Muitíssimo obrigado pelo comentário, e pelo elogio.
    Fico extremamente feliz, porque o que você diz é exatamente o que eu
    persigo: texto despojado, o mais despojado possível, como se fosse uma
    conversa no bar. E pessoal, expressando minhas opiniões pessoais.
    Passei mais de 35 anos trabalhando como jornalista corrigindo e melhorando o
    texto dos outros. Neste site, ao contrário da objetividade que deve ser a
    marca do jornalismo, procuro mesmo é ser pessoal, subjetivo.

    Obrigado pela indicação desse “Tampopo”. Vou tentar achar.

    Um abraço!
    Sérgio

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