Sob o Sol da Toscana / Under the Tuscan Sun

Nota: ★★☆☆

É um fenômeno: tudo que se relaciona com Sob o Sol da Toscana é um tremendo sucesso.

O livro autobiográfico da escritora Frances Meyes, Under the Tuscan Sun: At Home in Italy, lançado em 1996, foi um sucesso imediato. Ficou na lista dos livros mais vendidos do New York Times por dois anos e meio!

Sete anos após a obra chegar às livrarias, em 2003, foi lançado o filme, dirigido por Audrey Wells, com roteiro dela própria – com grandes diferenças em relação ao original. É uma produção bem cuidada, como seria mesmo de se esperar de um trabalho da Touchstone Pictures, empresa dos Estúdios Disney. Tem cenas filmadas nos diversos lugares em que a ação se passa – San Francisco, Roma, Florença e Cortona, a pequena cidade da Toscana em que Frances Meyes deu de parar, onde comprou uma centenária villa.

O filme custou cerca de US$ 18 milhões – e só no primeiro fim de semana de exibição em 1.226 cinemas dos Estados Unidos, em setembro de 2003, rendeu US$ 9,7 milhões. Foi a segunda maior bilheteria no país, naquele fim de semana – uma conquista difícil para um filme romântico. As maiores bilheterias, sabemos, são sempre os filmes de ação, as histórias de super-heróis, as aventuras para o público adolescente.

Renderia nos Estados Unidos US$ 43 milhões, e mais R$ 15 milhões mundo afora, chegando a um total de US$ 58 milhões. Uma rentabilidade altíssima.

“Cheio de estereótipos, de situações que o turista espera encontrar”

Mais ainda, muito mais ainda: o filme viraria cult para dezenas e dezenas de milhares de pessoas. Cortona passou a atrair muito mais turistas do que antes; passou a chamar a atenção de agências de viagens, virou atração turística por causa do livro e do filme.

O que é absolutamente fantástico, porque o que não falta são filme americanos ou ingleses românticos ou sobre romances passados na Itália. Outro dia, após ver um deles, Cartas para Julieta (2010), listei outros 13:

A Princesa e o Plebeu/Roman Holiday (1953)

A Fonte dos Desejos/Three Coins in the Fountain (1954)

Quando o Coração Floresce/Summertime (1955)

Começou em Nápoles/It Started in Naples (1960)

Quando Setembro Vier/Come September (1961)

Em Roma na Primavera/The Roman Spring of Mrs. Stone (1961)

Candelabro Italiano/Rome Adventure (1962)

Uma Janela para o Amor/A Room with a View (1985)

Uma Paixão em Florença/Up at the Villa (2000)

Sob o Céu de Toscana/Under the Tuscan Sun (2003)

De Encontro com o Amor/The Shadow Dancer (2005)

O Turista/The Tourist (2010)

Para Roma Com Amor/To Rome with Love (2012)

Por que esta história, especificamente, este filme, caiu tanto no gosto de tantos milhares de pessoas?

Sei lá eu.

Um sujeito chamado Allan Robert P.J., que, apesar do nome, é brasileiro, e tem um site chamado “Carta da Itália” – “A Itália vista por um brasileiro”, arrisca uma explicação, ao falar da Villa Bramasole, “que acabou virando uma atração à parte em Cortona”:

“Cheio de estereótipos que tanto agradam o público americano, foi recheado de situações que o turista espera encontrar: o latin lover que tem um affair com a escritora, mas que acaba escolhendo a selvagem local; a velha louca que aumenta o preço da casa para quem ela não gosta e acaba vendendo – por uma série de coincidências – à escritora, que não tinha o dinheiro suficiente; o velho que todos os dias passa silencioso com as flores em memória de alguém (interpretado por Mario Monicelli!); o empreiteiro italiano que explora estrangeiros; uma versão leve e atual de Romeo e Giulietta; pores do sol de cores quentes; as paisagens rurais da Toscana; praias semidesertas; e o reencontro do amor com um outro americano…”

Para quem gosta, é um banquete. E milhões de pessoas adoram

Mas falta uma sinopse.

Com a ajuda das publicadas no IMDb, tento lutar contra minha incapacidade de fazer uma sinopse curta e objetiva.

É mais ou menos assim:

Frances Mayes (o papel de Diane Lane) é uma escritora, professora de literatura e crítica literária de San Francisco que acreditava que seu casamento era perfeito – o marido também é escritor, e ela na verdade estava bancando as despesas da casa para ele concluir um livro. De repente, ela fica sabendo que ele tem uma jovem amante que está grávida, quer se divorciar – e entrou na Justiça com um pedido de pensão alimentícia da mulher.

Acabam chegando a um acordo: com o dinheiro da nova mulher, o ex-marido compra a metade da bela casa em que eles viviam.

Mas Frances está deprê.

Para ajudá-la a sair da fossa, sua maior amiga, Patti (o papel de Sandra Oh), oferece a Frances o pacote de viagem que ela mesma, Patti, e sua mulher, Grace (Kate Walsh), haviam comprado – uma viagem romântica pela romântica Toscana, em um grupo só de gays –, mas não poderão usar porque Patti está grávida.

Quando o grupo só de gays que agora tem também uma hétero passa por Cortona, Frances toma-se de amor por uma centenária villa que uma velha condessa está vendendo. E resolve comprá-la, e fazer as reformas que são mais que necessárias.

A compra da velha e gigantesca casa acontece quando o filme está aí com uns 20 minutos.

O que vem a partir daí é de fato uma coleção de todos os estereótipos possíveis e imagináveis. Pense em um estereótipo sobre uma mulher americana sozinha na belíssima, romântica Toscana – ele está no filme. Qualquer estereótipo em que o eventual leitor pensar está lá.

Para quem gosta, é mais que um prato cheio: é um menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa. E milhares e milhares e milhares de pessoas gostam demais.

A diretora enfeitou bastante a história original, para torná-la mais romântica

A roteirista e diretora Audrey Wells tornou mais romântica essa história romântica. Segundo o IMDb, no livro em que relata sua experiência real, Frances Mayes comprou a casa com o seu então noivo, e eles experimentaram juntos os novos prazeres da Toscana.

Audrey Wells deve ter pensado que uma mulher sozinha tomando a decisão de comprar a villa e tocar sua reforma ficaria mais atraente. E a personagem central estando sozinha seria mais fácil criar situações em que ela conheceria italianos lindos.

É uma figura interessante, essa Audrey Wells, nascida na San Francisco em que o filme começa, em 1960. Dirigiu seu primeiro filme em 1999, A Lente do Desejo/Guinevere, um drama inteiramente escrito por ela – belo filme, que me deixou fascinado quando o vi, em 2000. Na época, anotei que Audrey Wells era um nome para se prestar atenção: “Tem sensibilidade, talento, e fala das coisas que importam.”

Depois dessa estréia auspiciosa, promissora, só voltou a dirigir este Sob o Sol de Toscana.

Como roteirista, tem seu nome em oito filmes; um deles, Dança Comigo, de 2004, é uma refilmagem bem interessante do japonês de mesmo nome feito em 1996.

Não trabalha muito. Assinou o argumento de um filme em 2007, Treinando o Papai, e depois só voltou a aparecer como roteirista em 2017, com Quatro Vidas de um Cachorro.

Já Frances Mayes trabalha demais. Só a Toscana deu origem a três outros livros. Em 1999, ela lançou Bella Tuscany: The Sweet Life in Italy, e em 2000 saiu In Tuscany. E, juntamente seu marido, Edward Kleinschmidt Mayes, e o fotógrafo Steven Rothfeld, publicou em 2004 Bringing Tuscany Home.

Ao todo, já lançou 15 livros.

Frances Mayes e seu marido passam parte de cada ano em sua propriedade na Carolina do Norte e outra parte na Villa Bramasole, onde é muito querida pelas autoridades locais por ajudar a atrair turistas. Ali em Cortona, realiza-se anualmente um Festival de Sol da Toscana – e ela é a diretora artística.

Muitas referências a Fellini. E a presença do grande Mario Monicelli

Para os amantes de filmes, Sob o Sol de Toscana tem duas características deliciosas: as referências a Federico Fellini e a presença do grande Mario Monicelli.

Em Cortona, Frances encontra Katherine, uma inglesa que está envelhecendo mas se recusa a admitir isso – interpretada pela bela e sempre competente Lindsay Duncan. Katherine já trabalhou como atriz no passado, é amante das artes e adora fazer o tipo excêntrico, libertário.

Katherine diz que conheceu intimamente Federico Fellini – a quem se refere como Fefe. Ah, se Giulietta Masina soubesse…

E lá pelas tantas baixa o santo de Sylvia-Anita Ekberg em Katherine, e a inglesa doida entra na fonte do centro da cidadezinha – e a americana Audrey Wells refaz a famosérrima cena de La Dolce Vita, uma das mais antológicas destes 110 anos de cinema.

Me lembrei que Etore Scolla também prestou homenagem àquela sequência de Sylvia-Anita Ekberg entrando na Fontana di Trevi em sua obra-prima Nós Que Nos Amávamos Tanto (1974).

E ainda temos Mario Monicelli (1915-2010), um dos grandes mestres da comédia italiana, o autor de clássicos como Os Eternos Desconhecidos (1958), O Incrível Exército Brancaleone (1966), Mortadella (1971) Meus Caros Amigos (1975), Quinteto Irreverente (1982). Especialista em comédias, Monicelli não se furtava a fazer dramas, e fez alguns poderosos, como A Grande Guerra (1959) e Os Companheiros (1963)

Monicelli (na foto abaixo) aceitou trabalhar como ator neste filme. Ele faz um viúvo que sempre, imutavelmente, a uma determinada hora do dia, vai depositar flores em uma rua próximo à Villa Bramasole, de onde a americana Frances Mayes o observa.

Ao longo do filme, Frances olha para o viúvo da sua janela no segundo andar do casarão imenso, uma, duas, três vezes.

O velhinho está sempre muito sério – e jamais se volta para ver a americana que o observa.

Quando, bem no final dos longos 113 minutos de Sob o Sol de Toscana, Mario Monicelli, aquela lenda do cinema mundial, aparece mais uma vez depositando flores no lugar de sempre, sempre observada por Frances Mayes da sua janela no segundo andar da Villa Bramasole, falei com Mary: – “Agora ele vai se virar e acenar para a americana”.

Ele se vira e acena para a americana.

Não há nada no mundo mais previsível que um filme que coleciona estereótipos.

Anotação em abril de 2017

Sob o Sol da Toscana/Under the Tuscan Sun

De Audrey Wells, EUA-Itália, 2003

Com Diane Lane (Frances)

e Sandra Oh (Patti), Lindsay Duncan (Katherine), Raoul Bova (Marcello), Vincent Riotta (Martini), Mario Monicelli (o velho com as flores), Roberto Nobile (Placido), Anita Zagaria (Fiorella), Evelina Gori (Nona Cardinale), Giulia Steigerwalt (Chiara), Pawel Szajda (Pawel), Valentine Pelka (Jerzy), Sasa Vulicevic (Zbignew), Massimo Sarchielli (Nino), Claudia Gerini (Signora Raguzzi), Kate Walsh  (Grace)

Adaptação e roteiro Audrey Wells

Baseado no romance de Frances Meyes

Fotografia Geoffrey Simpson

Música Christophe Beck

Montagem Arthur Coburn, Andrew Marcus e Todd E. Miller

Produção Touchstone Pictures, Timnick Films, Blue Gardenia Productions, Tatiale Films.

Cor, 113 min

**

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 27 agosto 2017 às 2:25 pm | Permalink

    Na primeira vez em que vi esse filme, no início dos anos 2000, eu tinha recém terminado um relacionamento e estava no fundo do poço. Acho que me identifiquei com a personagem principal, guardadas as devidas proporções, e gostei bastante do filme. Ele aumentou minha vontade de conhecer a Itália, principalmente a região da Toscana.
    Alguns anos atrás eu decidi revê-lo, e achei uma bela porcaria, esse amontoado de clichês que você cita. Até o italiano super gato me irritou, porque o ator é uma porta.
    Enfim, como o nosso estado de espírito influencia a nossa percepção das coisas, não é? E pensando nisso, me arrependo de não anotar os filmes que vejo, e as minhas impressões (te imvejo!). Já fiz isso uma vez, mas acabei parando.
    E sim, a Itália é super “filmável” e muito romântica, e os italianos quando são bonitos, não são bonitos, são lindos. Meu Deus!!

  2. Jussara
    Postado em 27 agosto 2017 às 2:41 pm | Permalink

    Eita, postei meu comentário sem querer, e sem revisar; perdoe os erros. Estou no celular e apertei algum botão.

    Eu ainda queria dizer que outro filme que caiu no gosto popular e que se passa em parte na Itália é “Comer Rezar Amar” (gente, por que não colocaram vírgulas nesse título?). Uma vez te perguntei se você tinha visto, você disse que não, mas que tinha colocado pra gravar. Sinto falta dele aqui, queria saber sua opinião. Com ele me ocorreu o oposto de que com “Sob o Sol da Toscana”: na primeira vez achei uma porcaria, e na segunda acabei gostando (e lendo o livro).
    Uma curiosidade: Sandra Oh e Kate Walsh fizeram “Grey’s Anatomy”, uma série de muito sucesso por determinado tempo.

    PS: Estou quase morta de gripe, e acho que algumas frases saíram truncadas, mas foi o que meu cérebro conseguiu processar.

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