Segunda Chance / En Chance Til

Nota: ★★★½

É uma beleza de filme este Segunda Chance, que a dinamarquesa Susanne Bier lançou em 2014. É uma mistura de drama familiar – uma especialidade da talentoso realizadora – com thriller, em que os elementos de um gênero se interpenetram com os do outro de uma maneira original, surpreendente.

Original, surpreendente. Numa época em que pedir originalidade – quando centenas, milhares de novas histórias surgem a cada ano, na literatura, no cinema, na TV – é pedir o impossível, este En Chance Til de fato surpreende.

O roteiro é assinado por Anders Thomas Jensen, companheiro da diretora em outras de suas obras, a partir de uma idéia dele e da realizadora Susanne Bier, segundo explicam os créditos. Uma idéia não menos que brilhante.

Trata, basicamente, de paternidade-maternidade, essa coisa tão absolutamente fundamental, e tão complexa, tão difícil. A partir dessa questão central, o filme fala de opções, escolhas que fazemos, muitas vezes de forma não racional, pensada, pesada, e sim movidos apenas pela emoção do momento. Opções das quais muitas vezes nos arrependemos amargamente, mas que, bem ao contrário de um texto que escrevemos num processador, não podem ser apagadas, abandonadas, para trilharmos caminho diferente.

Vai fundo nessa questão tão absolutamente fundamental que é a de que muitas vezes as aparências enganam, e por isso temos a obrigação, o dever, de tentar fugir dos juízos precipitados.

Como em outros filmes dessa realizadora fora de série – Depois do Casamento (2006), Em um Mundo Melhor (2010) –, fala-se também de injustiça social, das diferenças abissais entre as condições de vida de grupos distintos de pessoas.

Um fosso gigantesco entre dois casais que moram na mesma cidade

Nos dois filmes citados, o fosso gigantesco, o Grand Canyon entre a riqueza e a pobreza é mostrado na dicotomia Dinamarca x Terceiro Mundo. O protagonista de Depois do Casamento dirige um orfanato na Índia; o de Em um Mundo Melhor é um médico num campo de refugiados da África.

Neste Segunda Chance, o abismo se dá dentro da própria Dinamarca, na mesma cidade – que o filme faz questão de não especificar qual é. O protagonista, Andreas (Nikolaj Coster-Waldau), é um investigador de polícia, que vem de uma família bem de vida e ganha bom salário. Mora numa bela, ampla, confortável casa à beira do mar, com a jovem e bela esposa Anne (Maria Bonnevie) e o filhinho de uns 6 meses, Alexander.

Tristan (Nikolaj Lie Kaas) é um marginal, um drogado, um junkie, um lixo. Tem histórico na polícia por ter espancado mulheres, já esteve preso e, na época em que se passa a ação, está em liberdade condicional. Vive com Sanne (May Andersen), uma mulher frágil, incapaz de reagir às constantes agressões físicas e morais do companheiro, e o filhinho de uns 6 meses, Sofus. Moram num apartamento pequeno, simples, pobre, que parece um depósito de lixo, e o bebê Sofus está sempre sujo de cocô e xixi – Tristan não permite que Sanne o limpe, nem que o alimente direito.

Dois bebês em mundos diferentes, mas que choram demais, como todos os bebês

O filme abre com diversas imagens da natureza – árvores, a água do mar –, da casa que depois veremos é a de Andreas e Anna, de uma gigantesca ponte sobre um braço de mar, enquanto vão aparecendo os nomes dos atores. São assim semi-créditos iniciais: só os nomes dos atores, e o da realizadora, sem os dos demais chefes de equipes.

Na primeira sequência após essa metade de créditos, os policiais Andreas e seu parceiro Simon (Ulrich Thomsen) estão chegando ao apartamento de Tristan para uma busca. Não fica explicitado quem os chamou ali. Tristan vai achar que foi Sanne, mas a mulher nega de pé junto. O espectador pode imaginar que algum vizinho ligou para a polícia reclamando do barulho.

Os dois policiais prestam atenção ao estado lastimável do bebê, com sujeira de cocô até mesmo no rostinho.

Na sequência seguinte, na delegacia de polícia, conversam sobre o caso com outros colegas, com a superiora. Todos conhecem a ficha de Tristan – mas não há motivo suficiente para prendê-lo novamente, ou para tirar a guarda da criança, já que doente ela não está.

Com tranquilidade, sem realçar muito o fato, o filme nos mostra que os dois bebês – o que vive em casa confortável, bem provido, limpinho, e o que vive no meio do cocô e da sujeira geral – têm um traço em comum. Na verdade, um traço que praticamente todos os bebês têm em comum: choram muito, em especial à noite.

Como tantos e tantos e tantos bebês, Alexander – que o filme mostra mais, neste início – tem problema para pegar no sono. Não dorme facilmente. Uma sequência mostra Andreas pegando o bebê que chora desbragadamente, levando-o para o carro, e andando um tanto de carro com ele, até que o balanço, o barulhinho do motor (e o próprio cansaço) o fazem adormecer.

(Com minha neta Marina, uma das mais doces crianças que já vi na vida, às vezes é assim também…)

O filme funde o choro de um bebê com outro – gruda Dinamarca com Uganda

Quando estamos com 15 minutos de filme, há um diálogo sobre paternidade-maternidade que impressiona.

Alexander finalmente pegou no sono, numa espécie de bercinho-moisés suspenso ao lado da cama do casal, de tal forma que, deitado, Andreas pode dar uma leve balançadinha nele, para embalar o bebê.

O casal está na cama.

O espectador ainda não sabe, só saberá mais tarde, mas, anos antes, quando se conheceram, Anna havia dito para Andreas que o maior desejo da vida dela era ser mãe.

Deitada na cama, como que olhando para o infinito, pensando na vida, Anna diz: – “Pensar que temos um filho… A ficha ainda não caiu.”

Andreas: – “Acho que ele é muito bom em chamar nossa atenção. (Faz uma pausa.) Está arrependida?”

Anna, parecendo chocada com a pergunta: – “Por que está perguntando? Que pergunta é essa? Eu o amo. Ele é tudo para mim. (E aí ela começa a dar tapas no peito de Andreas. E altera a voz.) Que pergunta foi essa?”

Como a última frase saiu quase como um grito, Alexander dá uma choradinha. Andreas faz sinal para Anna baixar a voz, e fala baixinho: – “Anna! Eu só quis dizer que é um pouco mais difícil do que pensamos. Só isso. Desculpe.”

Ainda estamos ouvindo o chorinho de Alexander quando corta a tomada, numa fusão com a tomada seguinte, e vemos agora Sanne preparando uma mamadeira para Sofus, que está chorando.

O choro do bebê da casa confortável, limpíssima, se une ao bebê da casa dos drogados, aquele lixo. Com uma fusão de duas tomadas, Susanne Bier e sua montadora Pernille Bech Christensen transportam o espectador da Dinamarca para Uganda, do aparente paraíso para a profundeza dos infernos.

Tristan está preparando o crack, e Sofus, cocô saindo da fralda, está chorando. Sanne prepara uma mamadeira para o garoto, mas Tristan manda ela parar com aquilo. Quer que ela se deite e abra as pernas – ou vai levar porrada.

É uma sequência bem longa, essa, que mostra esse inferno na casa de um marginal brutal, drogado o tempo todo, sua mulher fraca e o bebê mal tratado. Tristan pega Sofus e o coloca no chão do banheiro, e aí volta para pegar a droga e subir em cima de Sanne.

Quando estamos com uns 20 minutos de filme, há uma tragédia

Corta, vemos uma ou duas tomadas de natureza, árvores, o mar – ao longo de todo o filme, tomadas assim servirão como divisores de água, como marcas de mudança de ambiente, de capítulo – e estamos agora na casa do casal Andreas-Anne.

Depois da longa sequência na casa infernal do bebê Sofus, haverá uma longa sequência na casa idílica do bebê Alexander.

Estamos com cerca de 20 minutos de filme, e já nesta sequência vai acontecer uma tragédia.

Creio que muitas das sinopses, das críticas sobre Segunda Chance (se não todas) vão contar qual é essa tragédia que ocorre quando estamos com 20 minutos do filme que dura 102. Prefiro não revelar aqui. É um fato muito surpreendente, e seria um spoiler imperdoável adiantar no texto.

Dá para dizer, sem propriamente dar spoiler, que depois dessa primeira tragédia haverá outra, e depois ainda outra.

A trama criada por Anders Thomas Jensen a partir de idéia original dele e de Susanne Bier surpreende várias vezes. É uma trama brilhantemente armada, bem concatenada, toda lógica, sem furo algum.

Com os desempenhos todos excelentes, com a segurança da realizadora, o filme se torna um espetacular thriller que é ao mesmo tempo um exame sério, pesado, denso sobre as relações afetivas, e essa coisa da maternidade-paternidade.

É de uma tristeza infinita.

O jovem Anders Thomas Jensen colabora sempre com a diretora nos roteiros

Aí vão algumas informações objetivas. E algumas opiniões também, claro.

* O dinamarquês Anders Thomas Jensen é bem jovem – nasceu em 1972 –, mas já tem mais de 50 títulos como roteirista em seu currículo. É um colaborador contumaz de Susanne Bier. Assina como autor ou co-autor de história ou de roteiro de diversos filmes dela, como os dois já citados aqui, Depois do Casamento e Em um Mundo Melhor, e mais O Amor é Tudo que Você Precisa (2012) e Irmãos/ Brødre (2004), que os americanos refilmariam em 2009 como Entre Irmãos/Brothers.

* Foi a terceira vez que Susanne Bier dirigiu Ulrich Thomsen, o protagonista do famoso e celebrado Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg, um dos manifestos do movimento Dogma 90. Os dois já haviam trabalho juntos em Irmãos/Brødre e Em um Mundo Melhor.

Não tive oportunidade, mais acima, de falar mais do personagem que ele interpreta, Simon, o parceiro e amigo de Andreas. É um personagem muitíssimo bem construído – e maravilhosamente interpretado por Ulrich Thomsen. Simon havia sido abandonado pela mulher, agora casada de novo, e tem pouca convivência como o filho único. Bebe demais – mas, lá pela metade da ação, percebe que está indo para o brejo, assusta-se com o que está acontecendo com o grande amigo, pára de beber, e passa a trabalhar com afinco, seriedade.

* Como eu não vejo Game of Thrones nem que me paguem, não tinha a mínima idéia de que Nikolaj Coster-Waldau está na série de imenso sucesso. Por causa da série de TV, o ator que faz o protagonista da história, Andreas, já apareceu em produções caras do cinemão comercial americano, como Oblivion (2013) e Deuses do Egito (2016).

Nikolaj Coster-Waldau começou a carreira em Nightwatch – Perigo na Noite (1994), um thriller-terror dinamarquês que seria refilmado nos Estados Unidos três anos depois pelo próprio diretor do original, Ole Bornedal, com Ewan McGregor no papel que havia sido de Coster-Waldau, como Nightwatch – no Brasil, O Principal Suspeito.

* May Andersen (na foto acima), que faz o papel de Sanne, a pobre mulher do marginal Tristan, é modelo profissional, contratada pela Elite, uma das maiores agências do mundo, e este foi seu primeiro papel dramático no cinema. Consta que Susanne Bier bateu os olhos nela numa festa e achou que ela era perfeita para interpretar Sanne – o que é fascinante, porque aquela mulher sofredora, que apanha constantemente, está sempre sem maquiagem, com o rosto sujo, as roupas andrajosas, é a coisa mais anti-glamour que pode haver.

* Segundo diz o IMDb, este aqui foi o segundo thriller dirigido por Susanne Bier. O primeiro, Sekten, é de 1997, e aparentemente não foi exibido comercialmente no Brasil. Tratava de duas amigas que acabam se envolvendo com um psiquiatra e, através dele, num mundo estranho de fanatismo, em que suas vidas correrão perigo.

* No mesmo ano deste Segunda Chance, foi lançado um filme neo-zelandês – Tudo o Que Amamos Profundamente/Everything We Loved – que tem elementos em comum com a obra de Susanne Bier. Como este aqui, trata de paternidade-maternidade, e de opções que fazemos movidos apenas pela emoção, das quais muitas vezes nos arrependemos pelo resto da vida.

É preciso lembrar sempre que as aparências podem enganar demais

O belo site AlloCiné, que tem absolutamente tudo sobre os filmes franceses, traz declarações de Susanne Bier sobre Segunda Chance que, a rigor, podem conter spoilers. Como, no entanto, é importantíssimo saber as motivações da realizadora para fazer o filme, vou transcrever.

A Second Chance é um drama pessoal sobre pessoas vulneráveis, que se vêem diante de situações sobre as quais não têm controle. Que, às vezes, as pessoas não têm a força necessária para enfrentar esses testes. Ao colocar essas questões, procuramos examinar as bases morais das relações humanas, fossem privadas ou sociais. As ações de Andreas são cheias de boas intenções, mas, num momento de profundo desespero, ele faz uma escolha profundamente imoral. Mesmo se compreendermos suas razões, devemos reconhecer a gravidade de seu ato, e nos interrogarmos sobre nossos próprios valores morais e evitar os juízos precipitados.”

É exatamente isso – a necessidade de evitar os juízos precipitados – que, me parece, é a cerne do filme. Acho que, sobretudo, acima de tudo, antes de mais nada, Segunda Chance é um filme para mostrar que as aparências podem enganar demais. Que não devemos chegar a conclusões diante apenas das aparências. Que a verdade é muitas vezes extremamente distante do que está à primeira vista diante de nós. Que, definitivamente, as coisas não são preto x branco, o bom x o mau – há uma infinidade de tonalidades entre um lado e outro, sempre.

Isso é tudo muito claro, talvez até mesmo óbvio. Mas muitas vezes nos esquecemos disso.

Esse belo filme de Susanne Bier vem nos chacoalhar para que não nos esqueçamos.

Anotação em outubro de 2017

Segunda Chance/En Chance Til

De Susanne Bier, Dinamarca-Suécia, 2014.

Com Nikolaj Coster-Waldau (Andreas), Ulrich Thomsen (Simon), Maria Bonnevie (Anne), Nikolaj Lie Kaas (Tristan), May Andersen (Sanne), Thomas Bo Larsen (Klaus), Peter Haber (Gustav), Ewa Fröling (Ingrid)

Roteiro Anders Thomas Jensen

Baseado em história de Anders Thomas Jensen e Susanne Bier

Fotografia Michael Snyman

Música Johan Söderqvist

Montagem Pernille Bech Christensen

Produção Zentropa Entertainments, Danmarks Radio, Det Danske Filminstitut, Film Fyn, Film Väst, Svenska Filminstitutet.

Cor, 102 min

***1/2

Um Comentário

  1. Patrícia
    Postado em 9 Maio 2017 às 11:27 am | Permalink

    Olá! Nossa, fazia tempo que não passava por aqui, né? Aí vi seu comentário sobre este filme que assisti meio sem querer, movida pela diretora e por conta de Em um mundo melhor, que vi depois que li seu texto. Mas este vi antes de ler aqui e devo dizer que não sei qual, se este ou Em um mundo… é mais impressionante. Soco no estômago… os dois. É mesmo uma coisa louca falar em certo e errado sobre a temática desse Segunda chance, sobre ética, moral, pois acaba parecendo sem sentido se formos considerar somente os sentimentos de cada um. Vou parar porque tb não quero dar spoillers, mas foi um filme que mexeu muito comigo e ainda quero ver de novo, mais avisada agora (rsrsr) e atentando aos detalhes.
    abraço, Sérgio

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