Sangue de Artista / Babes in Arms

Nota: ★★☆☆

É impressionante como o cinema está presente em Babes in Arms, no Brasil Sangue de Artista, musical da Metro dirigido por Busby Berkeley em 1939, com a dupla de astros juvenis Mickey Rooney & Judy Garland.

É um daqueles muitos musicais da época de ouro de Hollywood que não tem assim propriamente uma história bem engendrada, digna do nome. Tem é um fiapinho de enredo, de trama, só para servir de pretexto para apresentar um número musical, e depois outro, e depois outro.

Fala de gente do show business, artistas – essa gente que torna a vida de nós outros, os seres humanos não dotados de talento para as artes, menos pesada, menos árida, mais suave e gostosa de se levar. Como dizem Plumrose e Sergio Endrigo na canção “Siamo artisti di varietà: “C’è chi canta, c’è chi suona / Chi alla danza si abbandona / C’è l’attore e il mangiafuoco / Ballerine, nani, cantautori / Domatori, equilibristi e clown / Siamo guitti, siamo artisti / Siamo un po’ esibizionisti / Siamo in cerca di fortuna / Siamo tutti nella stessa barca / Siamo artisti di varietà”.

(Há quem canta, há quem brinca, quem à dança se abandona. Há o ator e o come-fogo, bailarinas, anões, cantautores, domadores, equilibristas e palhaços. Somos artistas, somos um pouco exibicionistas, estamos à procura da fortuna, estamos todos no mesmo barco, somos artistas de variedades.)

Focaliza um grupo de artistas de vaudeville, aquele tipo de teatro de variedades que unia música, mímica, palhaçada, um pouco de circo, e teve seu auge entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX, mas se concentra principalmente no casal Joe e Florrie Moran (Charles Winninger e Grace Hayes), e em seus dois filhos, Mickey (o papel de Mickey Rooney) e Molly (Betty Jaynes).

Na primeira sequência do filme, Joe está terminando um número musical-cômico, e, quando vai até a coxia, é informado de que Florrie está para dar à luz, não haverá tempo de levá-la para um hospital – e pouco depois, em uma de suas idas até o centro do palco para agradecer aos aplausos, ele informará ao respeitável público que acaba de se tornar pai de um garoto.

Um garoto que nasce nas coxias de um teatro de vaudeville. Um filho de artistas de vaudeville.

É fascinante: Judy Garland, que interpreta Patsy Barton, também filha de artistas de vaudeville, e é a namorada de Mickey Moran-Mickey Rooney, era, ela mesma, na vida real, filha de um casal de artistas de vaudeville. Ainda não era Judy Garland, e sim Frances Ethel Gumm, quando estreou no palco aos 3 anos de idade. Aos 5, já era uma “seasoned trouper”, como diz a biografia da estrela na Katz’s Film Enclyclopedia, usando um pleonasmo, já que seasoned é experiente, e trouper designa artista experiente, vivida.

“Trouper” é uma palavra usada diversas vezes nos diálogos deste Babe in Arms. É como os personagens chamam a si mesmos e aos amigos, todos experientes artistas.

O cinema é mostrado no começo como um inimigo dos artistas de vaudeville

O cinema aparece em Babe in Arms primeiro como inimigo do vaudeville, do ganha-pão dos personagens.

O filme abre com uma imagem noturna da Times Square, onde a Broadway se encontra com 7h Avenue e a 45th Street, no coração de Manhattan. Um letreiro informa que estamos em 1921, e acrescenta: “Durante aquele alegre passado recente do entretenimento que era chamado de vaudeville, e em que seu coração pulsante era o Palace Theatre”.

Naturalmente, é no Palace Theatre que, naquele momento, Joe Moran está se apresentando, e dali a pouquinho sua mulher Florrie dará à luz o garotinho Mickey.

Depois dessa sequência inicial, veremos o passar dos anos – os números 1926, 1927, 1928 vão sendo mostrados na tela, junto com trechinhos de canções da época apresentadas em teatros. Uma das canções é “Singin’ in the Rain”, grande sucesso na Broadway e em filmes de Hollywood muito antes de, em 1952, Stanley Donen e Gene Kelly lançarem Singin’ in the Rain, o filme que fala exatamente sobre aquele período de 1927, 1928.

Vemos a primeira página da Variety, a bíblia do show business americano já naquela época, e que continua firme até hoje, com uma manchete tão gigantesca e bombástica quanto aquela do New York Times no dia 21 de julho de 1969 que dizia “MEN WALK ON MOON”. A manchete, assim, em maiúsculas, em caixa alta, é “TALKIES ARRIVE!”

Só 13 letrinhas. O inglês tem essa fantástica capacidade de ser uma língua sintética. Em português seria “Cinema falado chega!” Não tem a mesma força.

Em seguida o filme nos mostra outras várias manchetes da Variety. “Canções de filmes tomam conta da nação.” “Garbo fala!” “O cinema falado eclipsa o vaudeville.”

E, finalmente: “Vaudeville doomed!” Vaudeville condenado, fadado a acabar, a desaparecer.

Fala-se de cinema ao longo de todo o filme. São citados Gable, Barrymore…

Os pais de Mickey, os pais de sua namoradinha Patsy, os pais daquela geração de crianças passarão a enfrentar tempos mais e mais difíceis, com os teatros de variedade cada vez mais vazios, abandonados, e os cinemas cada vez mais cheios de espectadores.

Isso tudo que relatei acontece nos primeiros 10, no máximo 15 minutos do filme que tem 91. A partir aí dos 15 minutos, vamos acompanhar a nova geração – em especial, é claro, Mickey e sua namorada Patsy – Mickey Rooney e Judy Garland.

Mickey é um ótimo compositor, compõe várias canções inesquecíveis, standards. É também um talento nato como cantor, pianista, e, mais que isso, como diretor e produtor de espetáculos.

A trama, de fato, é o que menos importa em boa parte dos musicais da época dourada de Hollywood, e neste filme aqui importa pouquíssimo.

O mais interessante na trama é a presença forte do cinema. Em várias ocasiões, fala-se dos grandes atores e atrizes de Hollywood. Lá pelas tantas, Mickey mostra aos jovens colegas, filhos da turma do vaudeville, como se deve interpretar o papel de Marco Antônio diante de Cleópatra, segundo os diálogos de William Shakespeare: tem que falar como Clark Gable, diz ele. Ou como Lionel Barrymore.

E ver o jovenzinho Mickey Rooney, aos 19 anos de idade, imitando Gable ou Barrymore em uma fala de Marco Antônio escrita por Shakespeare é uma delícia.

Há uma personagem na história claramente inspirada em Shirley Temple

Há ainda mais um elemento de metalinguagem, mais um tópico em que o cinema invade a trama de Babes in Arms. Lá pelas tantas, aparece na trama uma estrela-mirim de Hollywood. Chama-se Rosalie Essex, já teve imenso sucesso mas anda então num período de baixa, e topa trabalhar no espetáculo que Mickey está pretendendo montar com seus amigos, os filhos e filhas da turma do vaudeville.

Como Rosalie Essex, com sua grande fama, vai ser fundamental para que a montagem do show tenha sucesso, Mickey tira da namorada Patsy as melhores canções, os melhores momentos, e as repassa para a estrelinha hollywoodiana.

Rosalie Essex é interpretada por June Preisser (à esquerda na foto acima, uma still de estúdio, foto para divulgação do filme), uma garotinha que estava, em 1939, ano de lançamento do filme, com 19 anos, a mesma idade de Mickey Rooney. Como ele, June Preisser tinha uma perfeita baby face que a fazia aparentar uns 13 ou 14 anos, apenas.

Tinha o cabelinho encaracoladinho exatamente como Shirley Temple, a então principal estrela-mirim do cinema mundial. Era até parecida com Shirley Temple – e Rosalie Essex é, evidentemente, um personagem inspirado na estrelinha.

Por uma dessas coincidências malucas de que é feita a vida, Shirley Temple era a atriz pensada originalmente para interpretar Dorothy, a personagem central de O Mágico de Oz.

O roteiro é baseado em um musical da Broadway de Rodgers & Hart

O roteiro de Babes in Arms, assinado por Jack McGowan e Kay Van Riper, é baseado no musical da Broadway de autoria da dupla Richard Rodgers-Lorenz Hart, uma das mais importantes da Grande Música Americana. Há Irving Berlin, George & Ira Gershwin, Cole Porter e Richard Rodgers & Lorenz Hart – e, abaixo deles, alguns pouquíssimos outros gênios.

Estranhissimamente, no entanto, foram cortadas do filme diversas canções de Rodgers & Hart. Leonard Maltin, que dá ao filme 2.5 estrelas em 4, ressaltou isso: “Musical de Rodgers e Hart, menos a maioria de suas canções.”

São apresentadas mais de 30 músicas no filme – a maior parte delas em apenas um trechinho. A primeira vez em que o espectador vê os dois astros do filme, Mickey Rooney e Judy Garland, eles estão apresentando para o dono de uma editora de partituras – como se fosse de autoria de Mickey Moran – a canção “Good morning”, aquela de Nacio Herb Brown e Arthur Freed que está em Cantando na Chuva.

Entre as que são apresentadas com destaque, há “You Are My Lucky Star”, também de Nacio Herb Brown e Arthur Freed, e “My Daddy Was a Minstrel Man”, de Roger Edens, que fica uma beleza na voz de Judy Garland.

Arthur Freed, o autor dessas duas canções que acabei de citar, é o produtor do filme.

De fato, da dupla que escreveu o musical em que o filme se baseia sobraram “Where or when” e “Babes in arms”, que dá o título do filme. E há também, mais de uma vez, alguns acordes de “The Lady is a Tramp”, que é só de Rodgers, sem Hart.

Judy Garland e Mickey Rooney fizeram dez filmes juntos, entre 1937 e 1948

Mas o importante mesmo, neste Babes in Arms, é Judy Garland.

OK, a rigor, é a dupla Mickey Rooney-Judy Garland.

Fizeram dez filmes juntos, entre 1937 e 1948. Foram uma das duplas de maior sucesso de toda a História do cinema – e seguramernte a dupla de jovens atores mais famosa de todas. Houve Spencer Tracy e Kate Hepburn, Fred Astaire e Ginger Rogers, Humphrey Bogart e Lauren Bacall, Marcello Mastroianni e Sophia Loren, Alain Delon e Romy Schneider – mas nunca houve uma dupla de adolescentes como Mickey e Judy.

Mickey Rooney é de 1920, Judy Garland é de 1922. Quando este filme aqui, o terceiro da dupla, foi lançado, em 1939 – o mesmo ano de O Mágico de Oz, que deu a Judy Garland um Oscar especial e fama mundial instantânea –, ele estava com 19 e ela com 16-17 anos.

Foi o oitavo filme da carreira dela, e o 49º da carreira dele.

Todos os números dão vantagem a ele. Mickey Rooney tem uma filmografia de mais de 300 títulos. Trezentos! A de Judy não chega a 40 – são 39 títulos, incluindo o pequeníssimo papel especial em Pepe (1960),  musical feito para o brilho do mexicano Mario Moreno, o Cantinflas.

Mickey Rooney viveria 93 anos – morreu em 2014.

Judy não completaria sequer 50 – morreu em 1969.

Até mesmo no quesito casamentos Mickey Rooney bate a parceira. Foram oito, a começar por Ava O Animal Mais Belo do Mundo Gardner.

Judy teve cinco casamentos.

Nos quesitos em que pode haver numeração, ela perde. Nos de material incontável – drama, tragédia, tristeza, barra pesada, infelicidade –, Judy Garland parece absolutamente imbatível.

Há atrizes de Hollywood que tiveram existências trágicas, como Frances Farmer, Gene Tierney, Lana Turner, Gail Russell. Pode ter havido histórias tão trágicas quanto a de Judy – mais que a dela, creio que é impossível.

Aos 21 anos, Judy tomava remédios para dormir, para acordar e para perder o apetite

“No auge da sua carreira no cinema nos anos 1940, Judy Garland não tinha concorrente ao título de principal atriz do musical de Hollywood”, registra o livro The International Dictionary of Films and Filmakers – Actors & Actresses, editado por James Vinson. “Atriz talentosa e boa dançarina, Garland tinha como seu maior trunfo a voz extraordinária. Sua habilidade de personalizar uma canção ao imbui-la com um poder emotivo tocante chamou a atenção de Louis B. Mayer, o chefe da MGM, e sua atuação clássica, aos 16 anos, como Dorothy em O Mágico de Oz, a estabeleceu como uma das melhores artistas de sua geração.”

A garotinha nascida Frances Ethel Gumm foi levada para os estúdios de Hollywood pela mãe, uma mulher ambiciosa, que Judy mais tarde chamaria, amargamente, de “a verdadeira Bruxa Má do Oeste”. Quando a mãe conseguiu fazer com que Louis B. Mayer a visse, a garota estava com 13 anos.

Como já foi dito, tinha 16 nas filmagens de O Mágico de Oz. E 17 quando, no início de 1940, recebeu o Oscar especial “por sua excepcional atuação como uma atriz juvenil durante o ano que passou”.

Ainda não tinha feito 20 anos quando começou a enfrentar a dureza de ganhar quilos extras, e um médico do estúdio recomendou pílulas para diminuir o apetite. Aos 21 anos, frequentava o consultório de um psiquiatra e tomava pílulas para dormir, pílulas para acordar e pílulas para tirar o apetite.

Em 1941, o ano em que fez 19 anos, casou-se com o marido número 1, o band leader David Rose; em 1943 se separaram e em 1945 ela conseguiu o primeiro divórcio.

A carreira ia muito bem: além do cinema, fazia sucesso como cantora em discos e apresentações ao vivo em rádios, extremamente comuns na época. Em 1944, foi lançado Agora Seremos Felizes/Meet me in St. Louis, tremendo sucesso de público e crítica. No ano seguinte, o último da Segunda Guerra Mundial, não apenas se casaria com o diretor daquele filme, o grande Vincente Minnelli, como teria, dirigida por ele, seu primeiro papel em filme dramático, O Ponteiro da Saudade/The Clock, em que tem uma atuação maravilhosa.

Em 1946, nasceu Liza Minnelli, a primeira filha dela. Em 1951, o casal Minnelli-Garland se divorciou.

Um ano anos, em 1950, após sucessivos problemas de atraso para as filmagens, ou simplesmente faltas ao trabalho, a Metro rompeu o contrato com a atriz. Houve uma tentativa de suicídio – a primeira de vários.

Teria mais duas filhas com o marido de número 3, Sidney Luft, que cuidou dela, transformou-se em seu agente, promoveu uma fenomenal temporada para ela como cantora em Londres e depois em Nova York – mas depois haveria novas tentativas de suicídio, brigas nos tribunais, rompimentos, voltas, novas brigas.

A carreira como cantora teve vexames, com a estrela chegando tarde para as apresentações, deixando de comparecer e às vezes tendo problemas com a voz. Chegou a ser vaiada numa temporada em Londres.

No cinema, teria ainda três atuações dramáticas memoráveis, na segunda versão de Nasce uma Estrela/A Star is Born (1954), ao lado de James Mason, em Julgamento em Nuremberg (1961) e em Minha Esperança é Você (1963).

Morreu num hotel em Londres, em 1969. Os legistas definiram a causa da morte como uma overdose acidental de soníferos.

O sucesso de Judy Garland veio só pelo talento, sem ajuda da beleza

Interessantíssimo: neste aqui que foi o terceiro dos dez filmes da dupla Mickey Rooney-Judy Garland, há uma referência a essa coisa de que fala o livro Actors and Actresses – a habilidade de Judy de personalizar uma canção.

Lá pelo meio do filme, os amigos de Mickey e Patsy estão ensaiando para o que eles pretendem seja o show produzido e dirigido pelo jovem geninho. Molly Moran (Betty Jaynes), a irmã de Mickey, está cantando, em dueto com o único membro um pouco mais velho da trupe, Don (Douglas McPhail), a bela “Where on When”, se não estou enganado. Mickey implica, diz que está errado, que está sem empenho, sem paixão. Que é preciso que eles se entreguem à canção.

Entregar-se à canção que canta é de fato uma especialidade de Judy Garland. É o que a faz grande, imensa, sublime.

Também lá pelo meio do filme me peguei pensando que Judy Garland é de fato uma estrela fascinante, poderosíssima, de brilho faiscante. Porque ela é 100% talento. OK, tem o dom da voz fantástica. Mas venceu, tornou-se estrela, e das maiores que já houve, pelo talento, sem contar com a dádiva da beleza.

Judy Garland é uma mulher linda, lindérrima, porque é talentosa, é excelente atriz, transmite força, transmite emoção. Mas não é propriamente uma mulher bela se levarmos em consideração apenas os padrões rígidos e formais de beleza.

Em algumas tomadas, já demonstrava – e ainda não tinha completado 18 anos! – a tendência para ficar um pouco mais gorda do que os padrões. E os padrões da época eram bem menos exigentes do que hoje. Nos anos 30, 40, 50, mulheres de coxas bem grossas, bundas grandes, eram sinônimo de beleza – basta lembrar Marilyn.

Escrevo essas linhas aí acima e fico imaginando se não estou falando asneiras colossais.

Mas foi o que senti.

Em O Mágico de Oz (que não vejo há décadas, que preciso rever), Judy aparece com jeito mesmo de adolescente bem jovem, quase criança. Aqui, ela está de cabelo solto, de saia.

Parece mais velha que o parceiro Mickey Rooney, que tem, repito, aquela baby face, que nem Paul McCartney.

Não é propriamente uma mulher bela, nem gostosa.

É linda – o que é outra coisa.

Minha admiração por Judy Garland cresceu ao ver este filme.

O filme declara de guerra ao Eixo dois anos antes de os EUA entrarem na guerra

A dupla Rooney & Garland é importante, mas o filme a rigor não é,  e já escrevi demais sobre ele – mas tem mais.

No final, os roteiristas Jack McGowan e Kay Van Riper e o diretor Busby Berkeley – o maravilhoso criador de números musicais com dezenas e dezenas e dezenas de dançarinos, em complicadérrimos desenhos geométricos que antecipavam a op art – ficaram doidos e partiram para uma patriotada que poucas vezes se vê igual.

É muito, muito doido.

Encaminhamo-nos para o grand finale em que os personagens apresentam um grande espetáculo musical.

Até aí, nada demais. Muito ao contrário. Coisa mais natural do mundo. O filme conta basicamente a história (se é que se pode chamar isso de história) de um grupo de jovens muito jovens que ensaia para apresentar um espetáculo musical.

Então o grand finale é a apresentação do espetáculo musical. Muito justo. Normal. Normalíssimo.

Mas o grand finale é… uma imensa patriotada! Um hino à maravilha que são os United States of America!

Com Mickey Rooney imitando o presidente Franklin D. Roosevelt e Judy Garland, Eleonor Roosevelt.

O grande elenco reunido para o espetáculo musical que será o final do filme, chefiado por Rooney e Judy, canta uma canção da qual eu nunca tinha ouvido falar, chamada “God’s Country”, de autoria de Harold Arlen e E.Y. Harburg.

Fiquei chocadíssimo com a explicitude de americanismo dessa canção.

Impressionante: Bruce Springsteen costumava criticar “God Bless America”, de Irving Berlin, dizendo que era uma música patrioteira, feita para os ricos – para contrapor “God Bless America” a “This Land is Your Land”, de Woody Guthrie, essa sim, segundo ele, uma canção do povo, para o povo.

“God Bless America” parece a “Internacional” comunista, comparada a este “God’s Country”.

Os Estados Unidos da América são a terra de Deus, diz a letra – e repete, e repete e repete.

E aí diz o seguinte, no que é um evidente caco, um acréscimo feito à letra original de 1937 para aquele momento específico: “We’ve got no Duce, we’ve got no Führer”.

Era 1939! O filme foi lançado nos Estados Unidos em 13 de outubro de 1939. Considera-se o início da Segunda Guerra Mundial a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, em 1º de setembro.

Só quase dois anos depois, quando o Japão atacou a base militar de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, os Estados Unidos iriam finalmente entrar na guerra contra o Eixo.

A MGM declarou guerra ao Duce Mussolini e ao Führer Hitler quase dois anos antes dos Estados Unidos.

Acho isso uma maravilha.

Tudo bem: a MGM era de propriedade de judeus, assim como outros estúdios de Hollywood, e então seria mesmo de se esperar que a indústria cinematográfica americana se manifestasse abertamente contra o nazi-fascismo. Mas a verdade é que Hollywood sempre esteve muito à frente do resto do país. Em todas as batalhas pelo que é certo, pelo que é importante – igualdade de sexos e cores de pele, direitos dos negros, direitos dos gays, direito ao aborto, direito à eutanásia, não à pena de morte. Tudo, tudo, tudo.

Anotação em julho de 2017 

Sangue de Artista/Babes in Arms

De Busby Berkeley, EUA, 1939

Com Mickey Rooney (Mickey Moran), Judy Garland (Patsy Barton)

e Charles Winninger (Joe Moran, o pai de Mickey), Grace Hayes (Florrie Moran, a mãe), Betty Jaynes (Molly Moran, a irmã), Guy Kibbee (juiz Black), June Preisser (Rosalie Essex), Douglas McPhail (Don Brice), Rand Brooks (Jeff Steele), Leni Lynn (Dody Martini), John Sheffield (Bobs), Henry Hull (Maddox), Barnett Parker (William), Ann Shoemaker (Mrs. Barton, a mãe de Patsy), Margaret Hamilton (Martha Steele), Joseph Crehan (Mr. Essex), George McKay (Brice), Henry Roquemore (Shaw), Lelah Taylor (Mrs. Brice)

Roteiro Jack McGowan e Kay Van Riper

Baseado no musical de Richard Rodgers-Lorenz Hart

Fotografia Ray June

Montagem Frank Sullivan

Figurinos Dolly Tree

Produção Arthur Freed, MGM.

P&B, 91 min

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Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 21 novembro 2017 às 11:40 pm | Permalink

    Sempre é bom ver um filme velho por aqui, ainda mais quando o elenco é estupendo. Você escreve de um jeito que o filme resplandece.

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