Ruth & Alex / 5 Flights Up

Nota: ★★½☆

Um suave, delicado, despretensioso retrato de um fim de semana na vida de um casal de velhos às voltas com uma questão tão prosaica quanto desagradável: a venda do apto em que vivem há 40 anos.

Poderia ser uma chatice, que nem a tarefa que o casal se propõe a realizar. Como o senhorzinho é interpretado por Morgan Freeman e sua mulher por Diane Keaton, este Ruth & Alex é um filme gostosinho, simpático, interessante.

Alex-Morgan Freeman narra a história, o que em si já é uma bênção para os ouvidos do espectador, porque o timbre da voz dele, a dicção, o jeito de ele falar é tudo absolutamente agradável. É boa música.

Vemos uma bela avenida, a Brooklyn Bridge lá atrás, bem pertinho. Alex-Morgan Freeman vem caminhando pela avenida, segurando pela guia um cachorrinho – na verdade, uma cachorrinha, Dorothy. Dorothy como a garota do Kansas de O Mágico de Oz, como será dito mais tarde – mas também, coincidência ou não, como Dorothy Deanne Keaton, a mãe de Diane Keaton. E a voz melodiosa de Morgan Freeman nos conta:

– “Quando Ruth e eu nos mudamos para o Brooklyn, foi como ir para o fim do mundo. Para os nossos amigos de Manhattan, era como se tivéssemos ido para Nebraska. Era fora da moda – mas era um bom apartamento para um artista lutando por um lugar no mundo como eu. E nós gostamos dele, o que foi bom, porque era o que podíamos pagar.”

O filme mostra Ruth e Alex quando eram jovens, 40 anos antes. Ao longo dos curtos 88 minutos do filme, tanto Ruth quanto Alex se lembram de fatos da época em que começaram a namorar, e se casaram, e se mudaram para aquele apartamento no Brooklyn – e nós os vemos, interpretados por Claire van der Boom e Korey Jackson, em flashbacks.

E os jovens Ruth e Alex tinham toda razão de gostar do apartamento. Tem um banheiro só, é verdade, mas é amplo, os dois quartos são bem grandes, janelas imensas com vista maravilhosa para o East River, a Brooklyn Bridge e a Williamsburg Bridge. O apartamento é de fato uma maravilha, uma dádiva.

Só que, passados 40 anos, o fato de ele ser no quinto andar de um prédio sem elevador começa a ser um problema.

Um filme para ser apreciado por quem sabe que cinco andares fazem diferença

Ruth & Alex não é um filme para ser apreciado por jovens. Os jovens já têm filmes demais feitos para eles – porrilhões de filmes de ação, de aventura, com personagens de histórias em quadrinhos, super-homens, super-mulheres.

Este é um filme para ser visto por audiências maduras, gente que já viveu o suficiente para compreender o que são cinco lances de escada.

O título original remete diretamente a isso: 5 Flights Up. Literalmente, 5 vôos para cima.

Cinco lances de escada.

Logo que termina seu passeio, aquele mostrado assim que a ação começa, Alex chega de volta ao prédio – e vemos que ele tem dificuldade em subir os cinco andares de escadas.

Não que ele esteja doente – não está. Está apenas velho. E, naturalmente, vai ficar cada vez mais velho.

Foi por isso que Ruth decidiu colocar o apartamento à venda. Pensando no futuro, nos anos que ainda viriam – a cada ano, subir cinco andares ficaria cada vez mais difícil para Alex, e para ela também.

Até mesmo para Dorothy, a cadelinha. Alex pára um pouco para respirar, durante a subida, mas Dorothy também demonstra que está difícil para ela. Veremos que a cadelinha está com 10 anos de idade.

Não há referência explícita às idades de Alex e Ruth, mas é fácil a gente ver. Morgan Freeman é de 1937; quando o filme foi lançado, em 2014, estava com 77 anos bem vividos. Diane Hall, a mulher que Woody Allen homenageou em Annie Hall, a filha de Dorothy Deanne Keaton, de 1946, estava com 68.

Uma sobrinha de Ruth é corretora de imóveis. Chatinha, até por ser boa corretora

Assim, Ruth havia pedido a ajuda de sua sobrinha Lily (o papel de Cynthia Nixon), dona de uma pequena imobiliária.

Lily é uma boa corretora de imóveis. Competente, esperta, ágil – mas, para um velho como Alex, apegado ao apartamento em que viveu feliz por 40 anos, e que não gostaria de sair dele, uma corretora competente, esperta, ágil é também uma chata. Coitadinha, e a verdade é que Lily é chatinha mesmo, exatamente por ser uma boa corretora.

Promete que, se derem sorte, poderão receber oferta até mesmo de US$ 1 milhão.. Seguramente mais de US$ 800 mil.

Na sexta-feira, véspera do fim de semana em que os potenciais compradores iriam entrar na casa de Ruth e Alex e examinar cômodo por cômodo, Lily pede que ele dê um jeito no quarto que usa como estúdio. – “Quando você está tentando vender, você não quer bagunça. Menos é mais.”

Não conhecia a palavra que ela usa – “clutter”. Clutter, aprendi agora (e amanhã terei esquecido) é bagunça, desordem, entulho. As legendas usaram tralha, o que é um belo achado.

Depois que a sobrinha da mulher chama de tralha as coisas que estão no estúdio – pincéis, cavaletes, telas e, principalmente, diversos quadros já pintados e que não tiveram comprador –, Alex fala uma frase tristíssima, com aquela maravilhosa voz de Morgan Freeman:

– “Quem poderia pensar que o trabalho de toda a minha vida iria valer menos do que o quarto em que ele foi pintado?”

“Nós nos casamos quando ainda era proibido em 30 Estados”

Uma das características fascinantes deste 5 Flights Up é que, na maior parte do tempo, não se fala em racismo. Não se toca nesse assunto. Passa-se absolutamente ao largo dele.

Mostra-se, na maior parte do tempo, uma Nova York como uma sociedade pós-racismo. Como se o racismo fosse uma doença já inteiramente superada, já extinta, coisa do passado, tipo a poliomielite.

Nisso, nessa bela característica, 5 Flights Up se parece com a série How to Get Away With Murder, cuja primeira temporada foi lançada no mesmo ano do filme, 2014. (Por coincidência, terminei de ver a segunda temporada da série na mesma semana em que vi o filme.)

Já se passou mais da metade do filme quando Ruth, para convencer Alex de que eles são fortes, eles conseguem o que querem, diz a frase fantástica, impressionante, antológica:

– “Nós nos casamos quando ainda era proibido em 30 Estados, e as pessoas ficavam nos encarando nos outros 20!”

As coisas andam depressa demais, algumas coisas melhoram muito com o passar do tempo, e muitas vezes a gente se esquece de fatos absolutamente fundamentais. Sim: até bem pouco tempo atrás – pouquíssimo tempo, em termos de História – os casamentos inter-raciais eram proibidos em diversos Estados americanos.

Acho que vale a pena repetir aqui o que escrevi sobre Adivinhe Quem Vem para Jantar, o belíssimo filme de 1967 em que a filha de um casal liberal, avançado, progressista fica noiva de um negro – e pai e mãe ficam chocados, apesar de serem liberais, avançados, progressistas:

Até os anos 60, em diversos Estados americanos – o país que se diz do sonho e da esperança –, o segregacionismo era legal, garantido por lei. Não tinha o nome ignominioso de apartheid, mas era idêntico a ele. As pessoas de pele negra tinham que se sentar atrás nos ônibus, não tinham direito a voto; havia banheiros separados para as pessoas de pele clara e as pessoas de pele escura. Havia bares, lojas que não admitiam a entrada de pessoas de pele escura.

Tudo legal, garantido por leis.

O casamento entre pessoas de cor de pele diferente era proibido por lei. Um diálogo extraordinário do filme nos lembra que isso era lei em 16 ou 17 dos 50 Estados americanos.

Não canso nunca de lembrar que apenas em 1964, durante o governo de Lyndon B. Johnson, foi aprovado o Civil Rights Act que proibiu a discriminação contra minorias raciais, étnicas, nacionais e religiosas.

Os Estados Unidos só acabaram legalmente com seu próprio apartheid em 1964 – apenas 30 anos antes do fim do regime nojento, abjeto, da Áfríca do Sul.

O filme trata o racismo como uma doença que já foi extinta

Em um dos vários flashbacks do filme, um que surge depois que Ruth fala aquela frase maravilhosa para Alex, vemos a Ruth jovem conversando com a mãe e a irmã Sarah (interpretadas por Jordan Baker e Kristen Hahn) sobre o namoro com um jovem pintor negro. Estão num bar, uma lanchonete. A mãe não fala nada contra o namoro – mas também não se mostra contente com ele. Timidamente, arrisca-se a fazer uma observação: – “Pense nos seus filhos”. Não diz com todas as letras, mas está claro que a mãe de Ruth teme pelo preconceito que os eventuais netos iriam com toda certeza enfrentar.

Ruth reage como uma leoa, levanta-se da mesa e, antes de ir embora, diz que, se for para escolher entre a família e o namoro com Alex, a decisão dela já está tomada.

Aquilo havia acontecido mais de 40 anos atrás – e o que o filme demonstra, com suavidade, mas também com bastante firmeza, é que, de lá para cá, as coisas melhoraram muito.

É como se de fato o racismo fosse hoje uma doença que – em alguns ambientes, ao menos – já foi derrotada.

Acho uma maravilha essa coisa do filme, de tratar um casal formado por um negro e uma branca como a coisa mais natural do mundo.

É por aí que se avança.

Cynthia Nixon é, bem ao contrário de Diane Keaton, uma camaleoa

Uma palavrinha sobre Cynthia Nixon.

Cada vez mais tenho admirado essa atriz. Ela tem aquela característica fantástica de ser capaz de aparentar mil caras diferentes – algo, aliás, que é o oposto de Diane Keaton. Adoro Diane Keaton, mas é precisa admitir que ela tem sempre a mesma cara – adorável, é bem verdade –, sempre o mesmo jeito de agir, em qualquer filme em que trabalhe.

Cynthia Nixon é uma camaleoa. (Uma camaleão? Uma camaleoa? Como se diz isso?)

Em cada filme tem uma cara diferente.

Nas fotos dela de Sex and the City (nunca vi a série, mas dá para falar sobre a aparência dela pelo que mostram as fotos), é um mulher jovem, descolada, moderna. Em Estocolmo, Pensilvânia, drama pesado em que interpreta uma dona de casa simples, parece ter uns 60 anos, tem todo um ar de senhora interiorana. Nascida em Nova York em 1966, estava com 49 no ano de lançamento do filme, 2015. Neste Ruth & Alex aqui, de 2014, aparenta ter não mais 40, que é como são as mulheres hoje, sempre com a aparência mais jovem do que mostraria a certidão de nascimento.

Bela atriz.

Um bom filme. Suave, delicado, despretensioso – e bom.

Anotação em agosto de 2017

Ruth & Alex/5 Flights Up

De Richard Loncraine, EUA, 2014

Com Diane Keaton (Ruth Carver), Morgan Freeman (Alex Carver)

e Cynthia Nixon (Lily Portman), Claire van der Boom (Ruth jovem), Korey Jackson (Alex jovem), Carrie Preston (Miriam Carswell), Michael Cristofer (Larry), Diane Ciesla (May), Josh Pais (Jackson), Gary Wilmes (Mr. Vincent), Liza J. Bennett (Mrs. Vincent), Ted Sod (Mr. Rahim), Sterling Jerins (Zoë, a garotinha), Ilana Levine (a mãe de Zoë), Jordan Baker (a mãe de Ruth), Kristen Hahn (Sarah, a irmã de Ruth)

Roteiro Charlie Peters

Baseado no livro de Jill Ciment

Fotografia Jonathan Freeman

Música David Newman

Casting Shani Ginsberg

Produção

Cor, 88 min (1h28)

**1/2

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 30 dezembro 2017 às 7:12 pm | Permalink

    Vi “Nossas Noites”, “O Sentido do Fim” e agora este “Ruth & Alex” quase que num mesmo período. Se antes eu já me achava velha, agora é oficial.

    Gostei bastante, achei leve, e como você disse, delicado e despretensioso. O único senão é o noticiário aparecendo toda hora; isso foi uma chatice. Poderiam ter encontrado outra forma de dizer que havia (ou não) um terrorista à solta.

    Acho que o casal deu sorte em encontrar o apartamento em Manhattan (quase uma “barganha”, não? dada a localização), mas apesar de Manhattan ser Manhattan, acho que seria um pouco demais morar lá, muito barulho e estresse.
    Entendo que Alex fosse apegado ao lugar, mas se tem uma coisa na qual venho trabalhando é o desapego, afinal, eu não sou árvore para ficar a vida toda plantada. E acho que com o tempo e a idade, imóveis menores e mais bem localizados são melhor aproveitados pelos idosos, pois morar em grandes espaços dá trabalho, e por mais que a pessoa seja ativa e tenha ajuda, vai ficando cada vez mais difícil. Só para citar um exemplo do problema de distância, o Brooklyn é longe de tudo, e quando eles tiveram que levar a cachorrinha ao veterinário, precisaram pegar um táxi, num trajeto longo e engarrafado. A vista era linda, sim, e como o próprio Alex disse, eles jamais teriam outra como aquela (tão atual isso, a vista da maioria dos apartamentos dá para outro prédio), mas “you can’t always get what you want”.

    Adorei a Dorothy, e achei uma ótima sacada terem escolhido uma dog idosinha e vira-lata para o “papel”. A classe média adora um cachorro de raça, é tão típico! Ainda bem que alguns filmes fogem disso. Não sabia que é o mesmo nome da mãe de Keaton.

  2. Jussara
    Postado em 30 dezembro 2017 às 7:15 pm | Permalink

    Também acho que Diane Keaton tem sempre a mesma cara (e parece que está com algum problema de estrabismo; tem aparecido de óculos nos últimos filmes, então penso que não seja apenas por charme), mas gosto dela e a admiro por não ter se submetido a excesso de plástica; se fez alguma, foi muito sutil, pois aparenta a idade que tem e as rugas estão todas lá.

    Concordo que Cynthia Nixon está muito bem; não me lembro dela em outros filmes, e também não vi “Sex and the City”.
    O ataque de estresse que ela dá no final é hilário, e compreensível, mas mais hilário ainda foi a personagem de Keaton falando: “Acho que não iremos para a casa dela para o Thanksgiving este ano.” Ri alto!

    O que achei mais interessante foi o fato do Alex se rebelar e falar que eles davam conta de fazer a negociação sozinhos (Ruth também fala isso, que os outros os tratavam como se não soubessem nada). Venho notando que a partir de uma certa idade, os idosos parece que ficam invisíveis, e passam a ser tratados como pessoas incapazes, mesmo quando são plenamente ativos. Já acompanhei minha mãe diversas vezes para fazer n tipos de procedimentos (banco, cartório, etc), e as pessoas se dirigem somente a mim (mesmo eu estando apenas acompanhando), como se ela não soubesse pensar, falar ou pior ainda, como se não estivesse lá! Sempre fico horrorizada! Que futuro me espera, hein?!

    Adorei a pequena participação da ótima Carrie Preston. Deu até saudade da advogada esquisita, pra dizer o mínimo, que ela fazia em “The Good Wife”.
    Fiquei com a impressão de que nas sequências externas as pessoas nas ruas não eram apenas figurantes; em algumas cenas tinha gente que ficava olhando para os atores. Deve ser difícil fechar completamente uma rua em Nova York para uma filmagem.

    Por fim, eu não sabia da existência desse “open house” para que interessados visitem um imóvel à venda, com os móveis e os donos ainda dentro, ou se sabia não me lembrava, como diz você. Eu jamais faria algo do tipo, tenho horror a gente estranha e chata invadindo meu espaço, até numa simples fila, imagina se deitando na minha cama?

    PS: Cortei meu comentário ao máximo, e ainda assim ficou enorme, por isso achei melhor dividi-lo, mas não adiantou…

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*