Programado para Vencer / The Program

Nota: ★★★½

A história de Lance Armstrong, um dos desportistas mais famosos do mundo, sete vezes vencedor do Tour de France, é absolutamente impressionante, fascinante – e aterradora. Nas mãos de Stephen Frears, um dos melhores cineastas que há, não poderia ser diferente: este The Program, no Brasil Programado para Vencer, é um filmaço.

Não é preciso ser fã de ciclismo nem de esportes de uma maneira geral para gostar do filme. Mais ainda: este é um daqueles filmes que as pessoas deveriam ver, porque conhecer a história de Lance Armstrong é importante.

Por volta de 2005, Lance Armstrong era um herói para milhões e milhões de pessoas em todo mundo. Além do feito absolutamente inédito de ter vencido sete vezes o exaustivo Tour de France – corrida com 20 etapas, várias delas subindo montanhas, que dura três semanas –, o atleta era um filantropo, um dedicado ativista da luta por maiores pesquisas em busca da cura do câncer. Bem jovem, aos 25 anos, em 1996, foi diagnosticado com um câncer nos testículos com metástase para o cérebro. Venceu o câncer, voltou a treinar – e passou a colecionar uma incrível coleção de vitórias nas competições de ciclismo, em especial os consecutivos primeiros lugares no Tour de France.

Com a sua Lance Armstrong Foundation, depois renomeada Livestrong Foundation, tornou-se um exemplo para outros pacientes.

Um dos maiores heróis de seu tempo, que é o nosso tempo, diacho!

O filme se baseia no livro do jornalista que seguiu os passos de Lance Armstrong

Desde a vitória no Tour de France em 1999, começaram a circular rumores a respeito de doping, de uso de substâncias não permitidas. Não havia provas, e seus testes de doping nunca deram resultado positivo.

Até que, em 2012, uma investigação da Usada, a sigla em inglês para Agência Anti-Doping dos Estados Unidos, concluiu que Armstrong tinha usado drogas para melhorar o desempenho físico ao longo de toda a sua carreira, e o apontaram como o líder do “mais sofisticado, profissionalizado e bem sucedido programa de doping que o esporte jamais viu”.

O primeiro jornal a publicar extensas reportagens indicando que Lance Armstrong usava drogas proibidas foi o Sunday Times de Londres. As matérias eram assinadas por um jornalista esportivo irlandês, David Walsh.

O filme de Stephen Frears tem roteiro de John Hodge, baseado no livros de David Walsh chamado Seven Deadly Sins: My Pursuit of Lance Armstrong, Sete Pecados Mortais: minha busca por Lance Armstrong, lançado em 2012.

Não foi o primeiro livro de Walsh sobre o atleta. Em 2004 já havia saído L.A. Confidentiel – Les secrets de Lance Armstrong, assinado por Walsh e Pierre Ballester. Mais tarde, os dois jornalistas publicaram também L.A. Official e Le Sale Tour (sale, sujo). E ainda houve também From Lance to Landis: Inside the American Doping Controversy at the Tour de France.

Ou seja: The Program não pretende ser um relato imparcial. Não. Ele expõe a visão de David Walsh, um jornalista que acompanhou de perto a carreira de Lance Armstrong desde 1993, quando o ciclista, então com 21 anos, fez sua primeira participação no Tour de France.

Numa das primeiras sequências do filme, vemos David Walsh (interpretado por Chris O’Dowd) e Lance Armstrong (Ben Foster) jogando pebolim. O jornalista faz perguntas, o jovem atleta responde às perguntas de forma tranquila, articulada e segura – e faz gols. Faz gols um atrás do outro.

Vence o jogo de pebolim – e faz um gesto em torno do queixo. O jornalista diz que não, o que é isso?, estava brincando, não vai cortar a barba, não. O jovem atleta é firme: – “Nós apostamos”.

Corte rápido e, na sequência seguinte, um David Walsh sem barba está numa mesa com três colegas repórteres esportivos falando bem do americano: – “Entrevistei Lance Armstrong hoje. Cara interessante. Tem muita confiança nele mesmo. Gostei dele.”

Um médico especialista em esconder o doping, um atleta disposto a tudo para vencer

The Program (que está, ou ao menos esteve, na programação do Now com o título de O Programa) mostra eventos da vida de Lance Armstrong pela perspectiva do jornalista que acompanhou sua carreira e expôs ao mundo que ele se dopava – mas não mostra o atleta como um monstro, um mau caráter, um bandido. De forma alguma – ou não seria um filme de Stephen Frears.

O Lance Armstrong que o filme pinta é um ser humano complexo, de muitas facetas, de muitas características diferentes. Um homem obstinado, determinado, corajoso, incansável, forte, firme. Com imensa confiança em si próprio, e uma fantástica força de vontade. Inteligente, bem articulado, que domina a arte de falar em público, para grandes audiências. Envolvente, cativante.

O filme mostra que o encontro entre Lance Armstrong e o médico italiano Michele Ferrari foi o ponto que mudou tudo no mundo das competições de ciclismo.

No seu segundo Tour de France, em 1994, Armstrong viu que os três primeiros colocados nas várias etapas eram sempre da mesma equipe – a equipe que tinha como seu médico esse Michele Ferrari (no filme, interpretado pelo ótimo ator e realizador francês Guillaume Canet, na foto abaixo).

O filme ainda está com 8 minutos quando o americano vai procurar o italiano. Este dispensa o outro com um julgamento rápido e sumário: segundo ele, Lance Armstrong não tinha o biotipo de campeão de ciclismo.

Foi só depois de vencer o câncer que, em visita a Michele Ferrari na casa do médico na Itália, o americano conseguiu garantir a parceria entre os dois.

Ferrari – o filme mostra com clareza absoluta – era um absoluto especialista na arte de dopar os atletas e mascarar o doping para que os exames dessem sempre negativo. Desenvolveu um método de injetar soro fisiológico na corrente sanguínea dos atletas logo antes de cada exame anti-doping.

Os conhecimentos médicos de Ferrari, somados à determinação férrea de Lance Armstrong de vencer, vencer e vencer, produziram o fenômeno das sete vitórias naquele que, na primeira sequência do filme, é definido como “o evento esportivo mais incrível do mundo”.

Lance Armstrong montou toda uma equipe de bons ciclistas para trabalhar em função dele, abrir caminho para ele, dar espaço para ele ao longo das 20 etapas do enorme circuito. E toda a equipe se dopava como ele, seguindo à risca o programa criado pelo médico Ferrari.

Um roteiro ágil, vibrante, dois bons atores nos papéis principais

O roteiro de John Hodge é ágil, vibrante. Tem um ritmo acelerado: afinal, há muitos fatos a serem mostrados. Como já há fatos demais, eventos demais, personagens demais, o roteirista procurou não complicar a vida do espectador. Ao contrário, buscou facilitar as coisas. Assim, há letreiros com as indicações de onde e quando praticamente a cada nova sequência.

E, numa sacada esperta, há letreiros indicando quem é quem, quando surgem na tela os personagens principais. Desde o início, e até o fim. Assim, naquela cena em que Armstrong joga pebolim com o sujeito barbudo que aparece pela primeira vez, surge na tela o letreiro: “David Walsh, repórter esportivo”. Quando vemos pela primeira vez o italiano expert em doping, está lá o letreiro: “Michele Ferarri, médico de esportistas”.

John Hodge é um daqueles talentos das Ilhas Britânicas; nasceu em Glasgow, Escócia, em 1964. Não escreve um roteiro por ano – é do tipo que se concentra no que faz e produz pouco, mas produz bem. São dele, por exemplo, os roteiros de Cova Rasa (1994), Trainspotting – Sem Limites (1996), Por Uma Vida Menos Ordinária (1997) e A Praia (2000), aquele com Leonardo Di Caprio passado na Tailândia.

O desempenho desse rapaz Ben Foster é impressionante, fantástico, de aplaudir de pé como na ópera.

Não tinha ainda gravado bem quem ele é, até ver este The Program. Ben Foster – nascido em Boston, em 1980, e que estava portanto com 35 anos quando o filme foi lançado – é daquele tipo de ator que trabalha demais. Começou a carreira em uma série de TV em 1996, pouco antes da primeira vitória de Lance Armstrong no Tour de France em 1999, e neste período de 17 anos juntou 52 títulos em sua filmografia. Era um menino em 2002, quando trabalhou em Um Grande Problema/Big Trouble, uma comédia alucinadamente louca de Barry Sonnenfeld, e um jovem adolescente em 2006, quando participou de Alpha Dog, de Nick Cassavetes. Esteve muito bem em O Mensageiro/The Messanger (2009), em que dividiu o protagonismo com o experiente Woody Harrelson. Já ganhou seis prêmios e teve outras 27 indicações.

Chris O’Dowd é de fato irlandês como o jornalista David Walsh que interpreta. Ele já está aqui no 50 Anos em três filmes: o inglês Os Piratas do Rock (2009), o americano Solteiros com Filhos (2012) e o irlandês Calvário (2014). Três bons filmes. Sabe escolher bem o que vai fazer, o rapaz.

O que atraiu Stephen Frears para o assunto foi o livro de um outro ciclista

O que primeiro atraiu Stephen Frears para o tema do filme – a figura de Lance Armstrong, sua importância, e depois a revelação do doping – não foi qualquer um dos livros de David Walsh sobre o assunto, mas sim o livro The Secret Race: Inside the Hidden World of the Tour de France: Doping, Cover-ups, and Winning at All Costs (a corrida secreta: por dentro do mundo escondido do Tour de França – doping, disfarce, e vencer a todo custo), que conta as memórias do ciclista Tyler Hamilton e é assinado por ele e pelo escritor profissional Daniel Coyle.

Tyler Hamilton tornou-se ciclista profissional em 1995, e participou da equipe patrocinada pelos Correios americanos, o US Postal Service, liderada por Lance Armstrong. Correu os Tours de France de 1999, 2000 e 2001 junto de Armstrong. Mais tarde, foi flagrado por exame anti-doping e suspenso do esporte.

Não foi possível, no entanto, comprar os direitos de filmagem do livro, porque Tyler Hamilton já estava em negociações com a Warner Bros. Assim, Stephen Frears pediu a seu amigo John Hodge que trabalhasse num roteiro sobre o tema. John Hodge se aproximou, então, do jornalista David Walsh e também de David Miller, um ex-ciclista, que acabaria sendo um assessor técnico tanto na redação do roteiro quanto depois na realização do filme.

O site AlloCiné traz uma historinha deliciosa sobre o jornalista David Walsh e o ator que o interpreta no filme, o também irlandês Chris O’Dowd. Depois de ter sido convidado para fazer o papel, e antes de começarem as filmagens, o ator quis entrar em contato com o jornalista, conversar com ele, saber inclusive se ele aprovava sua escolha. Numa noite da época de pró-produção do filme, estava jantando fora com sua mulher e contanto para ela coisas que havia lido nos livros de David Walsh.

“Uma jovem veio então para perto de nós e me disse que tinha ouvido eu falar do Sunday Times e de Lance Armstrong”, contou o ator numa entrevista. “Então eu falei com ela sobre o livro, e ela me respondeu: ‘Eu sei, foi meu pai que escreveu’. Era a filha de David! Ela me deu o número de seu pai. E então entrei em contato com ele antes de aceitar o papel porque eu queria saber se ele aprovava o projeto e se ele me aprovava para representá-lo.”

Naturalmente, David Walsh aprovou o projeto e a escolha do ator.

O filme mistura imagens encenadas por Frears com muitas das corridas reais

A participação de David Miller como assessor técnico foi fundamental, por exemplo, para recrutar ciclistas profissionais para aparecerem em diversas das sequências do filme, competindo com os atores que interpretam os homens da equipe de Lance Armstrong.

A participação de profissionais, é claro, aumenta a sensação de realismo que o filme transmite o tempo todo.

Mais ainda: Frears, seu diretor de fotografia Danny Cohen e o montador chefe Valerio Bonelli tiveram a bela sacada de misturar às tomadas que realizaram a partir de outubro de 2013 vários trechos de cinejornais com cenas reais das diversas edições do Tour de France. Usaram imagens de fatos reais para tornar ainda mais realista a encenação de fatos reais. O resultado não poderia ser melhor.

A verdade é que a cada novo (ou velho) filme desse realizador eclético, que trafega por todos, absolutamente todos os gêneros, mais eu me convenço de que Stephen Frears é um dos maiores cineastas das últimas muitas décadas.

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Anotação em dezembro de 2016

Programado para Vencer/The Program

De Stephen Frears, Inglaterra-França, 2015

Com Ben Foster (Lance Armstrong), Chris O’Dowd (David Walsh), Guillaume Canet (Michele Ferrari), Jesse Plemons (Floyd Landis), Lee Pace (Bill Stapleton), Denis Ménochet (Johan Bruyneel), Edward Hogg (Frankie Andreu), Elaine Cassidy (Betsy Andreu), Dustin Hoffman (Bob Hamman), Laura Donnelly (Emma O’Reilly), Peter Wight (o editor-chefe do Sunday Times), Nathan Wiley (Charles Pelkey), Chris Larkin (John Wilcockson), Mark Little (Rupert Guinness), Michael G. Wilson (o médico de Lance)

Roteiro John Hodge

Baseado no livro de David Walsh

Fotografia Danny Cohen

Música Alex Heffes

Montagem Valerio Bonelli

Produção Anton Capital Entertainment (ACE), StudioCanal, Working Title Films.

Cor, 103 min

***1/2

Exibido na TV a cabo com o título de O Programa.

Um Comentário

  1. Celia Foresto
    Postado em 21 junho 2017 às 5:42 pm | Permalink

    Filme excelente! Como vc disse, o ator realmente desempenhou muito bem o papel! Abraços!

Um Trackback

  1. […] a história de Florence, e o filme dirigido pelo grande Stephen Frears, são extremamente […]

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