Preso na Escuridão / Abre los Ojos

Nota: ★★★½

Abre los Ojos, no Brasil Preso na Escuridão, de 1997, foi o segundo longa-metragem co-escrito e dirigido por Alejandro Amenábar. Veio logo depois de Morte ao Vivo/Tesis, do ano anterior. Dois belíssimos filmes, o bastante para chamar a atenção do mundo para esse jovem nascido em Santiago do Chile e criado desde 1 ano de idade na Espanha.

Apenas quatro anos depois, em 2001, os americanos refilmariam a história de Abre los Ojos com o título de Vanilla Sky. Produção caprichada, com o astro Tom Cruise no papel que foi de Eduardo Noriega no original e a mesma Penélope Cruz refazendo seu papel como Sofia, e ainda com Cameron Diaz no que no filme espanhol foi da bela e ótima Najwa Nimri. A direção e o roteiro foram de Cameron Crowe, que vinha dos sucessos Jerry McGuire: A Grande Virada (1996) e Quase Famosos (2000). A refilmagem foi tão caprichada que teve canção escrita especialmente para ela por Paul McCartney, com o mesmo título do filme, “Vanilla Sky” – que ganhou uma indicação ao Oscar.

No mesmo ano da refilmagem americana deste Abre los Ojos, Amenábar fez seu terceiro longa, uma co-produção Espanha-Inglaterra, falada em inglês, com Nicole Kidman e Fionnula Flanagan nos papéis principais. Os Outros/The Others confirmou mais uma vez o talento especial de Amenábar para criar histórias com trama inteligente e reviravoltas surpreendentes.

César é belo, simpático, jovem e muito rico. E, claro, é um conquistador

Abre los Ojos começa com um rapaz abrindo os olhos quando o despertador toca, às 9 horas da manhã. César (o protagonista da história, vivido por Eduardo Noriega) é uma daquelas provas de que Deus – ou o destino, ou a vida – não é socialista, não distribui entre os homens com justiça, com sentimento igualitário, os atributos, as vantagens. Ao contrário, concentram muitíssimo nas mãos de poucos.

César é belo, simpático, jovem – e muito rico. Os pais eram donos de uma cadeia de restaurantes; morreram num acidente, e César, filho único, herdou o negócio e a fortuna.

O rapaz, então, dedica-se à tarefa hercúlea de comer todas mulheres interessantes que passarem à sua frente. Só não gosta de repetir – tem gosto por carne nova, fresca, inédita.

Numa das primeiras sequências do filme, César sai com Pelayo (Fele Martínez), seu maior amigo, para jogar squash, e os dois conversam sobre essas coisas. Pelayo reclama dessa sorte que César tem de conquistar todas as mulheres que quer, enquanto ele, que não é belo nem rico como o outro, não conquista ninguém.

Nessa conversa, os dois citam Nuria (o papel de Najwa Nimri, na foto), a mais recente conquista de César. O espectador compreende que aquela é uma mulher especialmente gostosa, especialmente competente na cama.

Pouco depois desse encontro, é aniversário de César. Pelayo vai à festa na casa do grande amigo levando uma colega de universidade, Sofia (uma Penélope Cruz linda de morrer, um arraso).

Nuria aparece na festa sem ter sido convidada. Demonstra que vai dar em cima no cara, não vai desgrudar. César pede ajuda a Sofia para fugir da outra. Abandona a própria festa de aniversário para levar Sofia até a casa dela. Pela primeira vez na vida, sente afeto por uma mulher.

Sofia também parece se encantar com ele – mas diz que não haverá nada entre eles naquela noite, porque ela não quer magoar Pelayo.

Passam a noite juntos.

Quando César sai da casa de Sofia, pela manhã, vê que Nuria está ali na rua, com seu carro. Seguramente o seguiu, ficou esperando por ele. Oferece carona e a promessa de dar para ele, já que – ela diz que consegue ver isso claramente – ele tinha ficado em jejum com a outra. César não resiste, entra no carro da moça.

Nuria tem bastante a ver com Alex Forrest, o papel de Glenn Close em Atração Fatal (1987).

Acelera seu carro. Acelera, acelera, acelera – e se lança fora da estrada, num acidente feio, muito, muito grave.

Tudo vai ficando muito confuso, as fronteiras entre real e imaginário vão sumindo

Estamos aí com uns 30 minutos de um filme que dura 117, quase duas horas.

Os parágrafos acima narram os fatos de maneira afirmativa, que não dá margem a dúvidas. Não é assim que Amenábar os narra. Ele introduz muitas dúvidas na cabeça do espectador, e tempera esses fatos com outros que não citei aí na sinopse acima, fatos que abrem diversas possibilidades.

César está hoje, agora, no momento atual em que se passa a ação, em um hospício penal. Cometeu um crime, um assassinato, e está sendo interrogado por um psiquiatra, Antonio (Chete Lera, na foto abaixo), que tenta compreender o que está se passando na cabeça do rapaz, o que o levou a cometer o crime.

O jovem que era belo como um Apolo agora tem o rosto desfigurado, e usa uma máscara para não expô-lo.

Ele não se lembra de ter cometido o crime de que é acusado, não tem consciência de nada daquilo. Interrogado pelo psiquiatra, fala em um tal Eli, mas não sabe quem é, onde ele entra na história.

O psiquiatra se esforça para ajudá-lo. Pede que ele conte seus sonhos.

Desde o iniciozinho da ação, desde as primeiras sequências, enquanto vão rolando os créditos iniciais, a narrativa vai misturando sonho com realidade. O filme ainda não tem cinco minutos quando vemos César numa avenida central de Madri inteiramente vazia – é, obviamente, um sonho.

As coisas vão ficar cada vez mais confusas. A fronteira entre o que é sonho e o que é realidade vai ficando cada vez menos visível, menos clara, menos firme.

Vemos César com o rosto inteiramente desfigurado, os médicos garantindo que não poderiam fazer mais nada. Depois vemos César com o rosto inteiramente refeito.

De repente Nuria, que achávamos que havia morrido no terrível acidente de carro que desfigurou o rosto de César, reaparece – e reaparece no lugar de Sofia, tomando o lugar que era de Sofia, para maior desespero do rapaz.

César chega a imaginar que está sendo vítima de um gigantesco complô para deixá-lo louco.

E o espectador chega a duvidar daqueles fatos que haviam sido mostrados nos 30 primeiros minutos do filme. Não seria tudo aquilo também um sonho? Ou parte daquilo? Mas qual parte, exatamente?

É tudo muito tenso, muito pesado, muito angustiante.

E tudo feito com imensa competência, talento saindo pelo ladrão.

O espectador percebe perfeitamente que não está diante de uma história mal contada, cheia de furos. Está, sim, diante de uma história complexa, confusa, estranha – mas não há fios soltos, não há furos, coisas inverossímeis. Em algum momento vai se esclarecer o que houve de verdade, o que foi fantasia, sonho ou loucura da cabeça de César.

Será?

Eram todos jovens demais, Penélope, Eduardo Noriega, Amenábar

É chocante ver como eram todos jovens, jovens demais da conta. Um absurdo.

Eduardo Noriega é de 1973, e portanto em 1997 estava com 24 anos de idade. Penélope Cruz é do ano seguinte, 1974. Najwa Nimri é de 1972, assim como ele próprio, o autor dessa trama fascinante, Alejandro Amenábar. A atriz e o autor fizeram 25 anos naquele ano em que ele lançou seu segundo ótimo longa-metragem.

Que absurdo!

(O fato de Alejandro Fernando Amenábar Cantos ter nascido em 1972 explica muita coisa. A mãe dele era chilena, e o pai, espanhol. Em setembro de 1973 veio o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende. Nada mais natural que a família deixasse o país e se radicasse no da mãe. Chileno de nascimento, Amenábar é absolutamente espanhol.)

Algum tempo depois que o filme acabou, me peguei pensando em M. Night Shyamalan.

Quando M. Night Shyamalan fez O Sexto Sentido, em 1999 – dois anos apenas depois deste Abre los Ojos, dois anos antes da refilmagem, Vanilla Sky –, também era extremamente jovem: tinha 29 anos. O indiano criado na região da Filadélfia é de 1970, apenas dois anos mais velho que Alejandro Amenábar.

E o fato é que, por causa de O Sexto Sentido, amantes de filmes do mundo inteiro – eu inclusive – acreditamos que estava ali um novo gênio, um novo Alfred Hitchcock. Houve até mesmo quem falasse em um novo Orson Welles.

Shyamalan fez outros bons filmes, na minha opinião. Corpo Fechado (2000) é fascinante, Sinais (2002) é intrigante, A Vila (2004) e A Dama na Água (2006) têm muitas qualidades – mas a verdade é que o jovem realizador, ele mesmo autor das histórias que filma, nunca voltou a fazer um filme tão extraordinário quanto O Sexto Sentido.

O verdadeiro novo gênio que surgiu no cinema mundial no gênero thriller naquele final dos anos 90, o grande criador de histórias fascinantes, inteligentes, envolventes, surpreendentes, foi Alejandro Amenábar.

Tom Cruise começou a ligar para comprar os direitos antes de o filme terminar

No mesmo ano em que foi lançado este Abre los Ojos, com aquela sequência do protagonista interpretado por Eduardo Noriega chegando à Gran Via de Madri inteiramente vazia, estreava nos cinemas Advogado do Diabo, de Taylor Hackford. E nele há uma cena em que o protagonista, interpretado por Keanu Reeves, anda por uma Fifth Avenue de Nova York totalmente vazia. Segundo o IMDb, falou-se muito na época em quem, afinal, copiou quem.

Dou meu palpite: os dois copiaram O Diabo, a Carne e o Mundo (1959), fascinante ficção-científica de Ranald MacDougall, sobre o mundo pós-apocalipse da guerra atômica, em que, numa Nova York absolutamente deserta, restam apenas três sobreviventes, um branco (Mel Ferrer), um negro (Harry Belafonte) e uma loura (Inger Stevens). Quando os dois homens começam a brigar disputando a moça, um deles diz que é o começo da Quarta Guerra Mundial.

Algumas informações esparsas sobre o filme e sua produção, a maioria tirada da página de Trivia do IMDb:

* Tom Cruise contou que pegou o celular e começou a fazer ligações com vistas a comprar os direitos de refilmagem da história quando os créditos finais de Abre los Ojos ainda estavam rolando no cinema. Pode não ser a mais autêntica verdade dos fatos, mas é uma boa história.

* O filme que Tom Cruise viu e o deixou doidinho para refazer se chamou nos Estados Unidos Open Your Eyes. Ah, nada como uma boa tradução literal do título que o autor deu para sua obra… Na França, país que entrou com algum dinheiro na produção, assim como Espanha e Itália, o título foi, claro, Ouvre les Yeux. E, na Itália, foi Apri Gli Occhi. Mas os exibidores brasileiros gostam de inventar, e então aqui virou esse troço de Preso na Escuridão.

* Consta que Amenábar começou a imaginar a trama depois de ter pesadelos horríveis durante uns dias em que esteve derrubado por uma gripe.

Sobram no filme referências a sono – o sono, os sonhos, o despertar. Quando César vai ao nightclube, está tocando a canção “Rising Son”, da banda Massive Attack, em que a frase “dream on” é repetida diversas vezes.

Quando César vai ao apartamento de Sofia mais para o final da narrativa, e começa a arrancar as fotos pregadas nas paredes, há uma reprodução de “The Sandman,” uma novela gráfica de Neil Gaiman que fala do mundo de sonhos.

* Detalhinho absolutamente inútil: o apartamento rico de César foi criado no mesmo cenário usado pelo personagem David, no filme Carne Trêmula, do mesmo ano de 1997 e também estrelado por Penélope Cruz.

* O filme teve 10 indicações ao Goya, o Oscar espanhol, inclusive nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor ator para Eduardo Noriega. Não levou nenhum Goya.

“Um universo inquietante em um espaço talvez virtual em que a razão se perde”

Abre los Ojos “merece ser visto como a obra virtuosa e verdadeiramente original que é”, diz o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, editado por Steven Jay Schneider.

“Intrigado com a criogenia e a realidade virtual, Amenábar disse que desejava fazer um filme ‘realista’ de ficção científica apenas com ‘ângulos de câmara’ ao invés de efeitos especiais impressionantes. Mas Abre los Ojos transcende uma classificação fácil assim, exceto se considerado um precursor de filmes como existenZ (1999), Clube de Luta (1999), O Sexto Sentido (1999), Amnésia (2000) e Cidade dos Sonhos (2001) – filmes soturnos que, construídos como quebra-cabeças paranóides, podem ser separados em camadas, mostram a identidade como um desempenho ou experiência virtual, questionam a natureza do tempo e da realidade e precisam ser vistos ao menos duas vezes.”

Eis a avaliação do Guide des Films de Jean Tulard. Vai sem aspas para me desobrigar s ser literal:

O filme parece ter um prazer maligno de perturbar o espectador, que deverá se abstrair de todo o cartesianismo para apreciar os meandros de um roteiro particularmente retorcido. Realidades e mentiras, onirismo e ficção científica se entremeiam em sutis arabescos. Sem qualquer recurso de efeitos especiais, o cineasta cria um universo inquietante em um espaço talvez virtual em que a razão se perde. Um filme que tem o tom de um pesadelo em que a realidade pode ter vários níveis.

Muitíssimo bem colocado. Tanto o livro 1001 Filmes quanto o Guide de Tulard dão ao filme o tratamento que acho que ele merece.

Como o livro de Steven Jay Schneider cita tantos filmes que vieram depois de Abre los Ojos e que devem um tanto a ele, eu só gostaria de registrar que, por sua vez, este filmaço de Alejandro Amenábar tem a ver, na minha opinião, com dois filmes americanos dos anos 60 – Miragem/Mirage (1965), de Edward Dmytryk, e Um Segundo Rosto/Seconds (1966), de John Frankenheimer.

São dois filmes que têm o mesmo clima soturno, duro, sem saída, de Abre los Ojos, como se fossem terríveis pesadelos. São, como este aqui, filmes que criam um universo inquietante em um espaço em que a razão comum se perde.

Não sei se, aos 25 anos, Amenábar já havia visto Mirage e Seconds – filmes feitos quando eu mesmo tinha essa idade. Mas que parece que tinha visto, ah, isso parece.

Anotação em dezembro de 2016

Preso na Escuridão/Abre los Ojos

De Alejandro Almenábar, Espanha-França-Itália, 1997

Com Eduardo Noriega (César), Penélope Cruz (Sofía)

e Chete Lera (Antonio, o psiquiatra), Fele Martínez (Pelayo), Najwa Nimri (Nuria), Gérard Barray (Duvernois), Jorge de Juan (funcionário da L.E.), Miguel Palenzuela (comissário), Pedro Miguel Martínez (médico chefe)

Argumento e roteiro Alejandro Almenábar e Mateo Gil

Fotografia Hans Burmann

Música Alejandro Amenábar e Mariano Marín

Montagem Maria Elena Sáinz de Rozas

Produção Canal+ España, Las Producciones del Escorpión, Les Films Alain Sarde, Lucky Red, Sogetel.

Cor, 117 min.

***1/2

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